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"O Excepcionalismo Norte-Americano"



Enquanto os marxista-leninistas do mundo celebram este ano o centenário do Manifesto Comunista escrito por Karl Marx e Friedrich Engels, os grandes princípios do desenvolvimento social, estabelecidos naquele documento imortal, estão sendo dramaticamente confirmados pela história e pelo estado atual do mundo. Por um lado, o sistema capitalista internacional, arruinado e destroçado por suas próprias contradições internas incuráveis, está se afundando cada vez mais na crise geral, com vários grandes impérios prostrados e em decomposição e populações inteiras, morrendo de fome devido à crise econômica prolongada e à guerra devastadora. Por outro lado, a causa da democracia universal e o socialismo avançam irresistivelmente, como mostram a posição imensamente fortalecida da União Soviética, o desenvolvimento de tipos adiantados de democracia em muitos países da Europa, as tremendas lutas de libertação dos países coloniais, a grande expansão dos sindicatos em escala internacional, o grande crescimento dos Partidos Comunistas em diversos países e o rápido desenvolvimento da ideologia marxista-leninista entre os trabalhadores de todo mundo.


A descoberta, feita por Marx, das leis do desenvolvimento social em geral e da sociedade capitalista em particular, sua análise científica das contradições fundamentais do sistema capitalista que o levam ao colapso e ao estabelecimento inevitável do socialismo, fazem de Marx um dos maiores cérebros de todos os tempos.


Pareceria, no entanto, haver uma grande exceção à esta notável confirmação do marxismo-leninismo, a saber: a situação econômica e política predominante nos Estados Unidos (e no Canadá). O capitalismo americano pareceria estar isento das forças desagregadoras que minaram o capitalismo em outros países e que deram origem aos poderosos movimentos socialistas. Os Estados Unidos longe de estarem assolados pela crise, como o estão outros países capitalistas, estão atravessando, agora, a maior riqueza e prosperidade jamais conhecidas em qualquer parte na história universal. Os economistas capitalistas, ignorando alegremente as vastas áreas de pobreza entre nosso povo gritam, um mais alto que o outro, ufanando-se da riqueza e prosperidade deste país e das imensas realizações da produção alcançadas pelo nosso povo, o qual constitui apenas 6 por cento da população mundial e que ocupa somente 7 por cento da área mundial habitável. Em seu livro recente “O Comércio de Amanhã”, Stuart Chase declara:


“...os Estados Unidos estão produzindo cerca de 60 por cento dos produtos manufaturados do mundo... Possuem 67 por cento dos navios de guerra, 60 por cento dos aviões de combate, 70 por cento dos navios mercantes, 75 por cento dos aviões de transporte do mundo. Suas minas de carvão, poços de petróleo e represas produzem mais da metade da força em cavalos vapor do mundo”.


E mais, os Estados Unidos possuem os maiores excedentes em sortimentos de gêneros alimentícios, bem como cerca de três quintos das reservas de ouro do mundo e, coisa muito preciosa para os fazedores de guerras, também têm a temível bomba atômica.


O Presidente Truman, junta sua voz a este coro, elogiando os sucessos econômicos dos Estados Unidos. Em seu Relatório Econômico de julho de 1947, declara que com 60.000.000 de pessoas empregadas e uma média de produção nacional de 225 bilhões de dólares por ano (150 bilhões em dólares de 1938), os americanos desfrutam agora o mais alto padrão de vida já conhecido. O Presidente declara, com orgulho, que o nosso é “a mais rica e mais poderosa máquina de produção jamais inventada pela cabeça e mãos do homem”.


Os ideólogos capitalistas americanos apressam-se a tirar conclusões e teorias de longo alcance desta posição próspera dos Estados Unidos. Querem nos fazer crer que a “maneira americana” é fundamentalmente diferente, e superior, à “maneira” do capitalismo no resto do mundo e que, com seu característico “livre empreendimento” e produção em massa, o capitalismo americano não está sujeito à ruína e ao colapso que estão afligindo cada vez mais as outras partes do capitalismo mundial. As leis econômicas e políticas descobertas por Marx, dizem, não se aplicam aos Estados Unidos. Isto é, o “excepcionalismo” americano.


Além da concepção de que o capitalismo americano está livre da decadência característica do capitalismo mundial, os propagandistas do capitalismo, neste país também nos querem fazer crer que nosso sistema econômico é bastante forte para tirar o capitalismo do resto do mundo de suas profundas dificuldades atuais e fazê-lo funcionar; mais uma vez. Sem a ajuda americana, econômica e militar, acreditam que o capitalismo em muitos países estaria perdido e teria de ceder lugar ao socialismo; mas, com assistência americana, segundo os planos Truman e Marshall, pensam que o capitalismo pode ser posto de novo em funcionamento.


Acreditam estes “excepcionalistas” que a poderosa América do Norte pede derrotar o socialismo internacional e reconstruir o mundo, se não inteiramente à sua semelhança, pelo menos de forma razoável. Acreditam que o capitalismo americano é a força mágica capaz de salvar e regenerar o sistema capitalista internacional que de outra sorte está condenado. Estas teorias “excepcionalistas” têm também muitos adeptos entre os fascistas, monarquistas, monopolistas e reacionários na Europa geralmente, que esperam ardentemente que os ricos dos Estados Unidos venham salvá-los da democracia em ascensão e que dê, a eles, e ao seu sistema de exploração uma nova oportunidade.


Adotando este grandioso “excepcionalismo”, os capitalistas americanos estão numa ofensiva militante contra qualquer manifestação de democracia e socialismo. Em todas as partes estão procurando eliminar a ideologia marxista-leninista; estão procurando sufocar econômica e politicamente as novas democracias populares da Europa; estão lutando para desnacionalizar as indústrias na Europa e restabelecer o “livre empreendimento”, lutam febrilmente para unir e armar o mundo capitalista para uma guerra eventual contra a URSS, a mais forte cidadela do socialismo no mundo; atacam violentamente a democracia neste pais; são cruzados agressivos e insultuosos contra a chamada ameaça comunista. Neste centésimo aniversário do Manifesto Comunista, o mais audacioso desafio a tudo que o marxismo representa, tanto na teoria como na prática, vem dos capitalistas dos Estados Unidos.


Porém este desafio será em vão. O marxismo é impermeável aos ataques capitalistas americanos. A crença “excepcionalista” de que o sistema econômico e político dos Estados Unidos está estruturalmente ou de outra forma num plano diferente e mais alto do que o capitalismo em outros países, está baseada em premissas falsas. O capitalismo em qualquer parte do mundo está baseado nos mesmos princípios fundamentais. A maior força do capitalismo americano, comparado com os sistemas capitalistas decadentes de outros países, apenas significa que e desenvolveu sob condições historicamente mais favoráveis do que geralmente o capitalismo mundial. Embora isto dê ao capitalismo americano uma vantagem temporária sobre outros sistemas capitalistas, o capitalismo neste país sofre, no entanto, de todas as tensões e contradições que tantos estragos têm causado ao capitalismo no resto do mundo. Contém em si as sementes capitalistas características da decadência e do colapso. 0 capitalismo americano não pode fazer andar para trás as rodas do progresso socialista e democrático em outros países; não pode nem mesmo impedir a vitória eventual do socialismo nos Estados Unidos.


Condições Favoráveis ao Desenvolvimento do Capitalismo Americano


O capitalismo, se bem que fundamentalmente o mesmo em qualquer parte, entretanto, não se desenvolve de forma idêntica e num ritmo igual em todo o mundo. Seu crescimento e peculiaridades específicas nos vários países estão condicionados por muitas e variadas circunstâncias. Estas condições nacionais divergentes apressam ou retardam o desenvolvimento capitalista, dão-lhe força ou fraqueza desusadas, ou imprimiu-lhe características particulares. Consequentemente, há um tipo de capitalismo superficialmente diferente que predomina nas várias partes do mundo. Foi uma das maiores contribuições de Lenin ao marxismo ter formulado a lei deste desenvolvimento desigual do capitalismo e ter mostrado seu profundo significado revolucionário.


Os Estados Unidos são para o mundo o mais notável exemplo de um sistema capitalista que se desenvolveu historicamente sob condições ultra-favoráveis. O Canadá está na mesma situação, porém em escola menor. Estas muitas vantagens facilitaram enormemente o crescimento do capitalismo americano, em contraste com os sistemas capitalistas menos favorecidos de outros países. Somente examinando algumas das mais importantes condições favoráveis é que se pode compreender a maior força atual do capitalismo americano em comparação com outros países capitalistas e também suas características especificamente americanas. Assim, também ficará clara a origem das teorias “excepcionalistas” que conferem aos Estados Unidos o papel de organizador internacional de um novo e fundamentalmente saudável sistema de capitalismo universal. Vamos, portanto, indicar, pelo menos rapidamente, algumas das muitas condições peculiarmente favoráveis que contribuíram para a presente posição vantajosa do capitalismo americano.


1) Ausência de um passado nacional político feudal:


Os Estados Unidos, devido a duas revoluções, a de 1776 e a de 1861, libertaram-se muito antes dos remanescentes retrógrados do feudalismo (tais como: uma nobreza poderosa de senhores de terra, uma igreja de estado, etc.) que tão seriamente infestam e restringem o capitalismo em muitas partes do mundo. O Sul é naturalmente uma exceção. A Rússia tzarista forneceu um exemplo clássico de como as forças feudais, de posse do poder político, dificultam e diminuem o desenvolvimento de um sistema industrial capitalista. Livre destes fatores de atraso, nosso país, especialmente desde a Guerra Civil, tem sido a força capitalista mais completa.


2) Imensos recursos naturais:


Os Estados Unidos são dotados de quase todas as matérias vitais de guerra necessárias à construção de um grande país industrial. Possuem carvão, minério de ferro, petróleo, madeira de construção, cobre, ouro, força hidráulica e terras cultiváveis em grandes quantidades. Este grande sortimento de matérias primas, que nenhum outro país possui igual, a não ser a União Soviética, muito acelerou e fortaleceu o desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos, tomado em comparação com os outros países. Ao lado de suas grandes reservas de recursos naturais este país também tem em geral um clima muito propício a vida de uma sociedade industrial.


3) Vasta e unificada extensão de terra:


O capitalismo americano foi também especialmente favorecido, conseguindo conquistar, através de uma política expansionista implacável, uma imensa extensão de terra, da largura do continente, que cobre mais de 7.841.000 quilômetros quadrados. Consequentemente, não sofre dos efeitos enfraquecedores das redes de fronteiras nacionais, com seu comércio interminável, viagens e barreiras industriais como as que mutilam o capitalismo na Europa.


4) Necessidade insaciável de mão de obra:


Durante muitas décadas o capitalismo americano, crescendo rapidamente num continente vazio, sofreu de falta crônica de trabalhadores (exceto nos períodos de depressão), que muitos milhões de imigrantes europeus mal davam para aliviar. Esta escassez, quase crônica, de trabalhadores funcionou dinamicamente para- desenvolver o capitalismo americano em crescimento. Não somente lançou a base do atual padrão de vida americano, relativamente alto, aumentando o poder aquisitivo das massas, e assim ajudando a criar um mercado interno grande, mas, mais importante ainda, a falta prolongada de trabalhadores forçou os empregadores americanos a procurarem, como nenhum outro empregador jamais o fez, todos os meios possíveis de poupar a mão de obra. Esta situação deu um profundo impulso ao gênio inventivo americano, à propagação da mecanização, e geralmente à eficiência industrial que é uma característica tão marcante do moderno capitalismo americano e que dá aos Estados Unidos uma vantagem tão grande no mercado mundial.


5) Posição geográfica altamente estratégica:


Outra grande vantagem do capitalismo americano é a própria situação geográfica estratégica dos Estados Unidos. Com muitos milhares de quilômetros de litoral e dezenas de bons portos tanto no Pacífico como no Atlântico, este país tem livre acesso a todas as linhas comerciais e mercados principais do mundo. Nenhuma outra potência pode ser igualada aos Estados Unidos quanto a este aspecto geral.


6) Livres dos estragos de guerra:


A situação estratégica dos Estados Unidos favoreceu ainda mais o capitalismo americano fazendo desnecessária, por muitas décadas, a manutenção de um imenso exército, e protegendo este país da tremenda devastação produzida pelas duas guerras mundiais de nosso tempo. Enquanto os outros países capitalistas estavam sendo arruinados por estas guerras, os Estados Unidos faziam-se fortes, com elas. Esta vantagem pode dificilmente ser super-estimada. As duas guerras mundiais foram um enorme fator de estímulo à atividade e crescimento industrial americano durante a geração passada. De 1914 a 1918, a indústria americana prosperou e se expandiu através da produção de munições de guerra. Depois da primeira Guerra Mundial, a execução de gigantescos pedidos para a reconstrução da Europa (financiados por empréstimos americanos) foi um fator importante para a “prosperidade” febril dos anos que se seguiram a 1920. O abandono gradual da reconstrução do pós-.guerra da Europa ajudou ao desencadeamento da crise de 1929, quando a indústria americana afundou-se na crise econômica mais profunda que o mundo já conheceu, com a produção deste país caindo de 47 por cento, uma queda também sem precedentes em nossa história. E a baixa continuou até 1940, sendo apenas parcialmente vencida (1937) por Roosevelt, ou até que as indústrias foram novamente alimentadas com o sangue vermelho da guerra, desta vez, da 2ª Guerra Mundial. Uma vez mais, enquanto os outros países capitalistas eram devastados pelo conflito militar, o capitalismo americano, devido à sua posição estratégica, longe da guerra, cresceu e prosperou. Alimentada pela necessidade de mercadorias de todos os tipos provocada pela nova guerra, a indústria americana, de novo, se expandiu rapidamente. Durante a guerra mais de 15 bilhões de dólares foram empregados em fábricas novas e a produção nacional foi dobrada, a base principal da atividade febril atual do capitalismo americano é a reparação dos enormes danos e a falta de produtos causados aqui e no estrangeiro pela 2ª Guerra Mundial. Este tem sido o papel vital da guerra no crescimento do sistema capitalista altamente desenvolvido dos Estados Unidos nas últimas décadas.


Estas muitas e grandes vantagens especiais de que goza o capitalismo americano — a ausência relativa de remanescentes feudais econômicos e políticos, a expansão continental dos Estados Unidos, a posse de imensos recursos naturais, o caráter unificado do estado americano, a situação estratégica do país, suas imunidades relativas contra as devastações das guerras mundiais, e sua real prosperidade com estas guerras — todas elas aceleraram o crescimento e o fortalecimento do capitalismo neste país. Após a Guerra Civil a marcha do crescimento industrial aqui não teve rival, até que eventualmente foi ultrapassado pelo da nova URSS socialista. Embora chegassem atrasados no campo do capitalismo mundial, os Estados Unidos, por volta de 1890, alcançaram e ultrapassaram a Grã-Bretanha, por muito tempo a força industrial principal do mundo. A Alemanha e o Japão, tendo também chegado atrasados e sendo igualmente países capitalistas em franco desenvolvimento, não podiam nem chegar perto dos Estados Unidos, que cresciam rapidamente. Como resultado, o capitalismo americano, gozando de muitas vantagens, continuou a se expandir e hoje a produção industrial deste país é muito maior do que a do resto do mundo capitalista junto. Porém, é preciso acentuar novamente que este sucesso do capitalismo americano não foi causado por nenhuma superioridade intrínseca de sua estrutura e natureza; é uma situação temporária provocada pelas vantagens especiais de que o capitalismo neste país vem gozando tão largamente, das quais algumas das mais importantes foram indicadas acima.


Ilusões “Excepcionalistas”


São as seguintes algumas das principais ilusões, cultivadas pelos “excepcionalistas” americanos, quanto à suposta superioridade inerente ao capitalismo americano sobre o capitalismo não-americano.


1) Produção em massa:


Um dos mais importantes aspectos do capitalismo americano, que segundo os “excepcionalistas”, coloca-o aparte, como basicamente diferente do capitalismo mundial e dá-lhe uma força estrutural que o último não possui, são os métodos de produção em massa, tão típicos da indústria americana. Na realidade, porém, estas técnicas não indicam nenhuma peculiaridade distinta da indústria americana, a não ser as condições especialmente favoráveis, apontadas acima, sob as quais, o sistema econômico deste país se desenvolveu. Outros países podem empregar e empregam métodos de produção em massa na medida que lhes permitem seus sortimentos de matérias primas e a capacidade dos mercados de que dispõem.


Além de não serem “excepcionalmente” americanos, os métodos de produção em massa também não emprestam força estrutural à economia capitalista deste país. Do mesmo modo, não podem ser uma panaceia, para um capitalismo mundial doente. O contrário é verdadeiro. A produção em massa sob as condições capitalistas, aumentando a exploração dos trabalhadores, tende agudamente a aumentar a desproporção entre sua capacidade produtora e aquisitiva.


De um modo geral, a produção em massa capitalista intensifica os efeitos mutiladores da contradição fundamental do sistema econômico capitalista: o conflito entre o caráter social da produção e o caráter particular da apropriação. Consequentemente, em vez de ser o meio de eliminar crises econômicas cíclicas, a produção em massa inevitavelmente torna-as mais profundas, mais frequentes e mais prolongadas. É significativo que tenham sido precisamente os Estados Unidos e a Alemanha, onde as técnicas de produção em mossa estavam mais desenvolvidas, os mais afetados pela crise econômica mundial que se seguiu a 1930. Aquela grande crise originou-se nos Estados Unidos e durante sua duração a economia americana mutilada tendia a arrastar o resto da economia mundial cada vez mais profundamente na depressão.


2) Não-imperialismo:


Outra grande ilusão dos que acreditam no “excepcionalismo” americano é que o capitalismo dos Estados Unidos não é imperialista, ou mesmo, é anti-imperialista. Sua teoria é que este país, contrariamente a todas as outras grandes potências capitalistas, segue uma política de “internacionalismo democrático”. Tais pessoas sustentam que os Estados Unidos, nas suas relações exteriores, aplicam uma política que não resulta na obtenção de grosseiras vantagens materiais para os capitalistas americanos às expensas de outras nações, mas que contribui para melhorar o bem estar e a liberdade dos povos do mundo inteiro. Segundo estes “excepcionalistas”, os Estados Unidos, portanto, industrializando e democratizando as áreas atrasadas do mundo, exercem uma influência estabilizadora, única e poderosa, na economia e na política do mundo e são uma grande força em favor da paz.


Esta concepção, que é quase universalmente corrente na imprensa americana conservadora, liberal e sindical, é pura tolice. Na realidade, os Estados Unidos não são apenas um país imperialista, mais o mais forte e mais agressivo de todos. Este país tem todas as qualidades de uma força imperialista, tal como foi definido por Lenin. Sua indústria e bancos são altamente monopolizados e estão sob o controle geral do capital financeiro; são, consideravelmente, o maior exportador de capital do mundo; e sistematicamente realizam uma política implacável de dominação dos mercados e dos povos do mundo. É verdade que os Estados Unidos não têm um sistema colonial elaborado, igual ao dos outras grandes forças imperialistas. Sobre este fato os “excepcionalistas” baseiam, em grande parte, seu argumento de que os Estados Unidos imperialistas estão representando um papel internacional progressista. A ausência de colônias norte-americanas é explicada, entretanto, por duas razões básicas que nada têm em comum com o assim chamado “internacionalismo democrático”. Primeiro, o capitalismo neste país, muito ocupado, por muitas décadas, em desenvolver Seu imenso mercado interno e seus ricos recursos naturais, não entrou na luta pelo controle dos mercados mundiais, matérias primas e territórios estratégicos, senão depois que o mundo estava quase completamente dividido entre as forças imperialistas mais antigas, como a Inglaterra, França, etc. Segundo, por meio de seus vastos sortimentos de capital, sua “diplomacia do dólar” e “diplomacia da bomba atômica”, os Estados Unidos puderam estabelecer controles imperialistas efetivos sobre muitos povos, fazendo com que seus sistemas políticos e econômicos se subordinassem ao seu. Fazem isto sem transformar formalmente os países em colônias. Os Estados Unidos são mestres na técnica de implantar governos títeres, pseudo-independentes, nos seus países satélites. Seu objetivo atual não é nada menos do que subordinar o mundo inteiro, por pressões econômicas, políticas e militares, ao seu poderio e ao seu próprio sistema característico de imperialismo. O Plano Marshall não é senão a amarga Doutrina Truman coberta de açúcar a fim de estabelecer a dominação imperialista americana sobre a Europa. Em vez de serem uma força política estável e portanto, industrializando e democratizando o mundo, os Estados Unidos, impelidos pela necessidade irresistível de encontrar mercados para cerca de 25 bilhões anuais de capital excedente e para montanhas de mercadorias, de outra forma não vendáveis, são realmente o fator mais arrasador, restritivo e reacionário da situação política e econômica do mundo. Sua política conduz, não à paz, mas sim à guerra. Se há alguma coisa “excepcional” sobre o capitalismo de Wall Street na arena mundial, é, portanto, ser o maior, o mais poderoso e o mais ambicioso sistema de imperialismo que o mundo já conheceu.


3) Uma classe trabalhadora não socialista:


Outra característica específica da situação nos Estados Unidos, que os “excepcionalistas” usam muito para dar força à sua causa, é o fato de que a grande massa de trabalhadores americanos não é socialista, é até mesmo, antissocialista. Os trabalhadores não só não colocam o socialismo como seu objetivo final, como nem mesmo geralmente, levantam “slogans” pela nacionalização das indústrias básicas.


O pensamento da maioria dos trabalhadores americanos está contaminado pelas ilusões capitalistas, particularmente a de Lorde Keynes, uma forma do reformismo, ou sua versão rooseveltiana. A imprensa trabalhista, com exceção da ala esquerda, exala propaganda capitalista, com líderes sindicais procurando se exceder aos monopolistas, hipotecando lealdade ao assim chamado sistema de livre empreendimento. Também, contrariamente aos trabalhadores de outros grandes países capitalistas, a classe trabalhadora americana, não organizou um partido de massa próprio, mas segue os partidos Democrático e Republicano, controlados pelos capitalistas. Tudo isto é interpretado pelos “excepcionalistas” como significando que o capitalismo americano é tão sólido que a classe trabalhadora está imune às concepções marxistas. 0 mundo inteiro pode se tornar socialista ou comunista, dizem estes profetas do livre empreendimento, mas os trabalhadores americanos permanecerão inabalavelmente fieis ao sistema capitalista.


Esta é uma conclusão injustificada. Até agora, o fracasso da classe trabalhadora americana em desenvolver uma consciência de classe marxista e uma perspectiva socialista, em formar um partido de massa próprio, como fizeram outras classes trabalhadoras, apenas significa que grandes massas de trabalhadores neste país, particularmente os trabalhadores especializados, como resultado da situação favorecida do capitalismo americano, tem vivido sob condições econômicas melhores do que as dos trabalhadores em outros países. É tolice, portanto, dizer que a classe trabalhadora, como uma classe explorada está desaparecendo nos Estados Unidos, tal como proclamam muitos “excepcionalistas”. Não esqueçamos, como Roosevelt mostrou, que um terço de nosso povo (principalmente os trabalhadores), anda mal vestido, mal alimentado e mora mal. Além do mais, o grau de exploração dos trabalhadores americanos está constantemente aumentando e estes recebem uma parte cada vez menor de sua produção total. O abismo, fatal para o capitalismo, entre sua capacidade produtiva e aquisitiva, está se alargando. “Labor Fact”, livro 8, preparado pela Labor Research Association, diz a este respeito:


“O trabalhador em manufaturação, embora tenha mantido sua posição relativa durante os anos de guerra, vem perdendo terreno há muito tempo.


Nossos estudos mostram que entre 1899 e 1946, a posição relativa do trabalhador empregado na manufatura baixou de mais de 30 por cento”.


Enquanto isso, os lucros das corporações atingem alturas jamais conhecidas, alcançando este ano a fabulosa cifra de 17 bilhões de dólares.


Enquanto as condições econômicas se tornam mais difíceis aqui, podemos estar certos que nossa classe trabalhadora, sob a pressão da sempre crescente exploração, desemprego em massa, etc., se libertará de suas ilusões capitalistas e dará imensos passos para frente, ideológica e organizativamente. Na Grã-bretanha, enquanto o império foi prospero e se expandiu, os trabalhadores britânicos resistiram as ideias socialistas, mas agora, apesar dos estorços da direção de mentalidade imperialista do Partido Trabalhista, estão definitivamente começando a olhar para o socialismo no sentido de resolver seus crescentes problemas econômicos.


A classe trabalhadora americana está atravessando a mesma evolução geral, embora sob suas condições especiais. Desde que arrebentou a grande crise econômica de 1930, os trabalhadores deste país perderam muito da sua fé no capitalismo. As voltas com a dura necessidade, não só construíram o imenso e novo movimento sindical, mas também aprenderam a lição vital de que se querem emprego, uma vida decente e proteção para a velhice, tem que participar da ação política. Aprenderam, porém, que as reformas de Lorde Keynes não oferecem solução básica. A classe trabalhadora americana está sendo firmemente politizada pelos acontecimentos nacionais e mundiais e está a caminho da consciência de classe e da perspectiva socialista. Aguarda aos “excepcionalistas” — que acreditam que o marxismo-leninismo pode ser banido dos Estados Unidos por assim o desejarem, por perseguirem os comunistas, por negarem aos trabalhadores de esquerda o direito de exercer cargos nos sindicatos, por jogarem os líderes comunistas nas prisões — um rude despertar com o progresso que será feito em direção ao socialismo pela classe trabalhadora americana dentro dos próximos anos.


4) Democracia americana:


Os “excepcionalistas” também atribuem mágicas qualidades democráticas regeneradoras ao governo americano. Supõem que a política de nosso governo é uma “exceção” aos governos capitalistas, geralmente reacionários. Assim, dizem-nos não somente que a democracia está inatacavelmente estabelecida como fundamento do capitalismo nos Estados Unidos, mas tombem que a administração Truman, com sua política externa bipartidária (Wall Street), esta realizando uma cruzada para cultivar a democracia através do resto do mundo. Pareceria que o capitalismo americano não só tende a fortalecer o sistema econômico mundial, como também a sua democratização.


Isto é, naturalmente, tolice. O governo americano está dominado pelo capital monopolista e, salvo na proporção em que é restringido pela pressão democrática de massa, sua tendência, como a do monopólio em toda parte, é para a reação fascista. Existe realmente, agora neste país, um sério e crescente perigo fascista. Este perigo é tanto mais insidioso, porque o fascismo americano florescente, como todos os outros fenômenos sociais nos Estados Unidos, está se desenvolvendo sob suas próprias formas específicas.


Estas formas, na medida que têm que levar em consideração as tradições democráticas americanas, diferem, superficialmente, das formas do fascismo europeu, porém são em essência o mesmo veneno social. O fascismo americano incipiente, por exemplo, não tem muito do “relambório” teórico que era uma característica tão pronunciada do fascismo alemão e italiano. Assim, pouco ouvimos dos fascistas ou semi-fascistas americanos nativos sobre “a bancarrota da democracia”, “o papel dirigente da elite social”, a glorificação da guerra como uma força social-dinâmica, etc. etc. Não obstante, as tendências fascistas americanas, como podem ser vistas na Lei Taft-Hartley, nas atividades do Comité de Atividades Anti-Americanas do Congresso, o linchamento cruel e outros ataques aos negros, o crescimento do antissemitismo, a vigorosa disseminação do militarismo, etc., constituem um perigo real e crescente no cenário doméstico dos Estados Unidos. Quanto à nossa política externa, ao invés de cultivar a democracia mundial, como é alegado, estimula a reação de todo tipo em toda parte. Os monopolistas que ditam a política externa do governo, colocaram nosso país na deplorável posição de principal organizador da reação mundial, o que significa: fascismo. Os grandes banqueiros e industriais de Wall Street, a semelhança de seus confrades na Europa, instintivamente voltam-se na direção de uma perspectiva de um mundo fascista, embora não ousem ser tão descarados quanto seus irmãos espirituais alemães sob Hitler. É por terem uma perspectiva tão reacionária que resistem tanto aos apelos utópicos que lhes fazem os oportunistas a fim de adotarem reformas keynesianas baseados em sua “inteligência” capitalista e sob o pretexto de que concordarão com seus “verdadeiros interesses da classe”. Os monopolistas americanos, os dirigentes de nosso país, não são de maneira alguma “excepcionais”; são apenas simples reacionários, com adornos especificamente americanos.


Teorizando o “Excepcionalismo Americano”


Desde cedo na história do capitalismo dós Estados Unidos, economistas burgueses quiseram desenvolver teorias sobre o “excepcionalismo” americano. Louis M. Hacker expressa esta atitude ria sentença inicial de seu grande trabalho em dois volumes, “A formação da tradição americana”, dizendo: “os americanos, estiveram sempre convencidos da singularidade de sua civilização”. Concebendo o rápido desenvolvimento do capitalismo neste país sob um ponto de vista nacionalista estreito, os escritores capitalistas facilmente deixaram de atentar nas condições favoráveis que causaram este crescimento rápido e chegaram à conclusão de que o capitalismo americano é estruturalmente diferente do capitalismo europeu e, consequentemente, mais ou menos isento das fraquezas óbvias e das contradições internas do último.


O erro fundamental desta posição dos “excepcionalistas” está em que tomam aspectos secundários peculiares ao capitalismo americano e tiram dele conclusões absolutas e básicas, ignorando o fato fundamental de que a estrutura básica do capitalismo é igual em qualquer parte. Os marxistas, ao contrário, baseiam suas conclusões nos fundamentos do sistema capitalista americano, dando, de forma acertada, relativamente menos peso decisivo às suas características específicas; americanas, nacionais e únicas.


Os marxistas, ao comentarem sobre as condições nos Estados Unidos, sempre tiveram que lutar contra a forte tendência “excepcionalista” do pensamento econômico e político americano e mostrar que o capitalismo americano está sujeito às mesmas leis econômicas básicas que o capitalismo em todo o mundo. Particularmente, Frederico Engels em 1887, no prefácio de seu livro, “As Condições da Classe Trabalhadora na Inglaterra em 1844”, dizia o seguinte em relação ao “excepcionalismo” americano de seu tempo:


“Em fevereiro de 1885, a opinião pública americana era quase unânime em relação a esta questão: que não havia classe trabalhadora, no sentido europeu da palavra, nos Estados Unidos; que, consequentemente, não era possível haver na República Americana, lutas de classe entre trabalhadores e capitalistas, como as que dividiam a sociedade européia em pedaços; e que, portanto, o socialismo era uma coisa de importação estrangeira que nunca criaria raízes no solo americano. Contudo, naquele momento, a próxima luta de classe lançava sua sombra gigantesca diante de si na greve dos mineiros de carvão da Pensilvânia, e de muitas outras, e especialmente na preparação, em todo o país, do grande movimento das Oito Horas que deveria ser lançado e que foi lançado no mês de maio seguinte.”


Com o correr dos anos, desde a Guerra Civil, o capitalismo americano, baseado em suas especialmente favoráveis condições, tornou-se mais forte e eventualmente transformou-se no sistema mais poderoso de qualquer país do mundo capitalista. Assim também, cresceram e floresceram as teorias do “excepcionalismo” americano. Um crescimento particularmente vigoroso destas ilusões teve lugar depois da 1ª Guerra Mundial. Esta guerra fez, definitivamente, dos Estados Unidos o líder capitalista do mundo. Além do que, depois de terminada a guerra, o grande influxo de pedidos de reconstrução de guerra e o intenso desenvolvimento das técnicas de produção em massa, estimulados pela situação de guerra, atiraram os Estados Unidos numa prosperidade de após-guerra, jamais vista.


Intoxicados por esta “prosperidade”, os economistas da época teceram teorias “excepcionalistas” a granel. Tugwell, Carver, Gillette, Hoover e muitos outros declararam que a indústria americana havia “atingido sua maioridade”; que havia vencido suas contradições internas; que não haveria mais crises econômicas neste país; que os trabalhadores americanos estavam se tornando capitalistas e os capitalistas, trabalhadores; que os Estados Unidos haviam dado à luz a um novo capitalismo que revolucionaria o mundo. Ufanando-se, em alto e bom som, afirmavam que Ford havia suplantado Marx.


Capitalistas de outros países foram contagiados e sonharam em aplicar os novos métodos americanos de produção e sua demagogia em seus próprios países. Social-democratas de todo mundo também se entusiasmaram pela produção em massa americana e saudaram-na como o caminho para o Socialismo. Dirigentes sindicais americanos, inclusive a maioria dos progressistas, engoliram por inteiro esta nova explosão de “excepcionalismo”. Declararam que as greves não eram mais necessárias, que era necessário, apenas, cooperar com os patrões para aumentar a produção, em conseqüência do que os trabalhadores viriam a gozar de uma interminável espiral de melhoria do padrão de vida. Entusiasticamente, estes dirigentes sindicais fizeram sua “Nova teoria de salários” e sua “Mais alta estratégia do trabalho”, não grevista, teorias essas que se tornaram a política econômica oficial da Federação Americana do Trabalho (A.F.L.) e do Sindicato dos Ferroviários. Os sindicatos entraram na mais intensa (e desastrosa) colaboração de classes jamais conhecida neste país.


Mesmo o Partido Comunista não ficou imune à orgia do “excepcionalismo” americano que se seguiu a 1920. Jay Lovestone, então seu secretário geral, procurou pôr o selo da aprovação marxista no movimento oportunista. Aceitando a posição básica dos burgueses “excepcionalistas”, falou da prosperidade industrial como uma “segunda revolução industrial” que ele acreditava havia liquidado as contradições internas do capitalismo americano, e que preconizava um longo período de um levantamento capitalista geral. Lovestone procurou sustentar suas falácias desvirtuando a teoria leninista do desenvolvimento desigual do capitalismo. Argumentava que o capitalismo era fundamentalmente saudável nos Estados Unidos, embora fosse insalubre no resto do mundo. A inferência teórica da linha de Lovestone era que a crise geral do sistema capitalista mundial não afetava o capitalismo nos Estados Unidos, e que, seu efeito prático, teria sido mais para desorientar a classe trabalhadora jogando o Partido Comunista sob a tutela política dos capitalistas.


O Partido Comunista expôs e condenou a linha oportunista de Lovestone. Ele e seu punhado de seguidores foram expulsos do partido.


A resolução de expulsão do Comité Central, publicada no “Daily Worker”, de 23 de julho de 1929, poderia ser relida com proveito atualmente. Embora os “excepcionalistas” capitalistas, liberais, sindicalistas, social-democratas e pseudo-comunistas estivessem, naquela época, intelectualmente profundamente intoxicados pelo período único de “prosperidade” capitalista, o Partido Comunista, esclarecidamente, advertiu a própria crise econômica, que se declarou com toda fúria apenas três meses depois da publicação da resolução do Comité Central contra o “excepcionalismo” de Lovestone. Nesta resolução o Partido disse o seguinte, que bem poderia ser ouvido pelo movimento trabalhista americano neste presente período de prosperidade industrial e “excepcionalismo” ilusório de após a 2ª Guerra Mundial:


“Quanto mais glorioso o capitalismo parece ser, quando medido pelo progresso aparentemente fenomenal de suas forças produtivas, tanto mais oco se torno o colosso do capital.”


A grande crise de superprodução industrial de outubro de 1929, não somente fez a indústria americana baixar, como ao mesmo tempo, desbaratou o “excepcionalismo” que tinha florescido tão profusamente durante os anos da alta. O colapso econômico demonstrou que o capitalismo americano era fundamentalmente o mesmo que o capitalismo em todo o resto do mundo, e que estava sujeito a todas as suas leis econômicas básicas. Em vez de ser uma força para o fortalecimento do capitalismo mundial, o capitalismo americano, portanto, nesta grande crise, operou para transtornar e enfraquecer ainda mais o capitalismo em outros países. Foi provado que Marx estava certo e não Ford.


Durante os dez anos seguintes, com o capitalismo americano lutando em vão para sair da teimosa depressão econômica, os “excepcionalistas” falaram muito fino. Pouco se ouviu deles até que a 2ª Guerra Mundial lhes deu novo alento, que prontamente gerou um crescimento ainda mais luxuriante de ilusões “excepcionalistas” do que as que haviam surgido durante a prosperidade econômica febril de 1922 a 1929, depois da 1ª Guerra Mundial. Agora, após esta segunda grande guerra, os capitalistas estão desenterrando os velhos slogans “excepcionalistas” de colaboração de classes daquele período, polindo-os e usando-os novamente para enganar os trabalhadores. Nas condições diferentes de hoje, não obterão o mesmo sucesso que obtiveram há uma geração atrás; mas é surpreendente como muitos líderes sindicais, supostamente progressistas, são prontamente levados por estes “slogans” de intensificação do trabalho e de paralisação de sindicatos.


Porém, hoje, o capitalismo americano é mais ambicioso em suas perspectivas do que o foi há duas décadas. Agora, considera todo o mundo como sua presa.


Durante a 2ª Guerra Mundial, o capitalismo neste país, como na 1ª Guerra Mundial, cresceu e floresceu, porém numa escala muito maior. A produção nacional expandiu-se enormemente, o parque industrial nos Estados Unidos aumentou tanto quanto o equivalente à indústria total de antes da guerra da Alemanha e as corporações gigantes empilharam lucros fabulosos e excedentes financeiros. Ainda mais, enquanto os Estados Unidos enriqueciam nesta guerra, as outras grandes forças imperialistas — Alemanha, Inglaterra, Japão, França, Itália — estavam sendo ou arrasadas ou desastrosamente enfraquecidas. Consequentemente, depois desta guerra, os Estados Unidos se encontraram não só mais fortes, como relativamente, numa posição muito mais favorável em relação aos outros países capitalistas.


Ao terminar a 2ª Guerra Mundial, o palco estava, claramente, montado para que o imperialismo americano lançasse sua campanha para a dominação do mundo no período de após-guerra. Muitos apologistas do capitalismo esperavam que isto resolvesse o problema da exportação dos vastos excedentes de mercadorias e capital dos Estados Unidos. Donde os ideólogos capitalistas, todos “excepcionalistas”, começaram a falar sobre o dever moral dos Estados Unidos de salvarem e reorganizarem todo o mundo. Henry R. Luce, o grande editor capitalista, mesmo antes da guerra terminar, publicara sua famosa conclamação para a inauguração do “Século Americano”; Eric Johnston escreveu seu ultra caloroso livro “América ilimitada”, um programa imperialista baseado no que ele chama de “capitalismo do povo”, e inúmeros outros escritores burgueses gritavam para os capitalistas americanos “virem aproveitar a ocasião” enquanto a ocasião era boa. Seu objetivo central era derrotar os sindicatos neste país, derrotar o socialismo mundial, e restabelecer “o livre empreendimento” em todos os países principais, tudo isto resultando num programa de dominação monopolista do mundo pelos Estados Unidos.


Os partidários de Roosevelt fizeram objeção a esta competição implacável, falta de planificação e agressão imperialista que constituíram o programa econômico de após-guerra da Alta Finança. Tendo apreendido a lição, durante a longa crise econômica e a depressão de depois de 1930, de que o capitalismo americano, longe de ser à prova de crise, como estavam alardeando uma vez mais os porta-vozes dos monopolistas, estava sujeito à crises econômicas periódicas e profundas, eles se propuseram a se resguardarem contra tais colapsos no futuro, adotando uma série completa de medidas destinadas a sustentar a capacidade aquisitiva das massas do povo. Geralmente, os social-democratas e muitos líderes trabalhistas aceitavam esta teoria keynesiana, enquanto apoiavam a política externa imperialista do capitalismo americano, e, em muitos casos, também apoiavam os planos dos empregadores partidários da colaboração de classe para o aumento da produção deste país. Os porta-vozes da Alta Finança, porém, dominando a 80ª Legislatura do Congresso que acaba de se encerrar, se opuseram violentamente às propostas de Roosevelt no sentido de se precaverem contra a crise e se lançaram a todo pano no mar da “prosperidade”. Também reviveram a teoria “excepcionalista” de que o imperialismo americano sem nenhuma das reformas fantásticas de Roosevelt ou Keynes, era absolutamente capaz de vencer qualquer tendência de sua parte para crises cíclicas, acrescentando-se o fato de que o capitalismo americano também pode colocar novamente de pé o capitalismo mundial desbaratado pela guerra — pelo menos em condições de deter o avanço do socialismo, do comunismo e das novas democracias populares.


O novo ressurgimento do “excepcionalismo” americano, que começou quando a 2ª Guerra Mundial estava para acabar, a crença perene de que o capitalismo neste país não é o mesmo que no resto do mundo capitalista e pode curar os seus males, novamente encontrou um forte eco no Partido Comunista. Desta vez seu advogado foi Earl Browder, secretário geral do Partido. Browder, acreditando nas forças de trabalho milagrosas do capitalismo americano, foi muito além do oportunismo de Lovestone de 15 anos antes, e mesmo dos próprios “excepcionalistas” capitalistas mais sanguinários. Como Lovestone antes dele, Browder se propôs a sustentar seu oportunismo desvirtuando cruelmente Marx e Lenin. O que o Comité Central do Partido Comunista disse ao expulsar Lovestone em 1929 poderia bem ser repetido contra Browder em 1944, a saber, que “todos os revisionistas de Marx, todos os revisionistas de Lenin, sempre se apresentaram no papel de verdadeiros defensores de Marx e Lenin” Browder, pedindo ao Partido Comunista para pôr de lado os “velhos livros” (a saber, os clássicos marxistas), nutria nada menos do que a pretensiosa ambição de re-escrever Marx na base do “excepcionalismo” americano.


Browder, a fim de mostrar como o capitalismo americano podia vencer suas contradições internas econômicas e políticas e também salvar o capitalismo derrotado de após-guerra dos outros países, traçou, na sua estimativa do significado da conferência de Teerã um brilhante e utópico quadro no qual os grandes capitalistas americanos dobrariam e redobrariam voluntariamente os salários dos trabalhadores e também inaugurariam grandes projetos de industrialização em várias partes atrasadas do mundo. Todos estes planos grandiosos eram destinados a espalhar largamente a democracia e o bem-estar das massas. Greves, sustentava o browderismo, não eram mais necessárias para os trabalhadores americanos. Tudo que precisavam fazer para obter uma paz extensa, democracia e prosperidade, era cooperar com os grandes capitalistas “progressistas” e “inteligentes” dos Estados Unidos.


Este foi um exemplo extremo do “excepcionalismo” americano. Browder, na ânsia de se adaptar às necessidades dos imperialistas, jogou de lado não só o Partido Comunista e o socialismo, como seu objetivo, como qualquer princípio marxista-leninista. Tornou-se o conselheiro-chefe voluntário da Alta Finança americana. Suas propostas só poderiam enriquecer os capitalistas dos Estados Unidos e incentivar o imperialismo americano a dominar o mundo para benefício de Wall Street. Por procurar facciosamente apoiar esta posição grosseiramente oportunista, depois dela ter sido esmagadoramente rejeitada por nossos membros, Browder foi expulso do Partido Comunista.


As muitas e grandes greves americanas, as lutas políticas e as tensões internacionais agudas do presente período de após-guerra imediato já destruíram os fantásticos sonhos “excepcionalistas” de Browder. Isto não significa que não serão feitas tentativas periódicas para ressuscitá-los. A próxima crise econômica, cujos sinais, já podem ser constatados, destruirá, sem dúvida, as restantes tendências bizarras do “excepcionalismo” americano de maneira ainda mais cabal do que a grande crise de 1929 extinguiu a safra luxuriante das ilusões políticas 9 econômicas caracteristicamente americanas então existentes.


O “Manifesto Comunista” é Válido Para os EUA


O capitalismo monopolista americano não é único, singular, como suas próprias leis internas que fazem “exceção”, ao capitalismo de outros países. Pelo contrário, é unha e carne, uma parte orgânica, do sistema capitalista mundial e está sujeito a todas as contradições econômicas e políticas inerentes ao capitalismo. O capitalismo americano, apesar de sua maior força relativa, que é alimentada pelas suas vantagens temporárias sobre o capitalismo de outros países, está inexoravelmente trilhando o mesmo caminho para a decadência como o capitalismo na Europa e em qualquer outra parte. As leis do crescimento e declínio do capitalismo, descritas por Marx e Engels no “Manifesto Comunista”, se aplicam ao capitalismo dos Estados Unidos bem como ao da Europa derrotada.


Na sua atual etapa monopolista final, o capitalismo americano, longe de salvar o sistema capitalista mundial de sua crise geral com seu Plano Marshall e outros estratagemas, está definitivamente aprofundando e piorando a crise capitalista geral. Primeiro, está fermentando uma grande crise econômica nos Estados Unidos, que terá repercussão mundial. Multiplicam-se os sinais de que esta crise econômica está agora a caminho. E quando chegar com toda sua fúria, aplicará um golpe mortal ao sistema capitalista mundial, já muito enfraquecido. Segundo, o capitalismo monopolista americano está agora gerando um novo crescimento do fascismo tanto aqui como no estrangeiro. Isto é demonstrado por acontecimentos como as atuais orgias de perseguição aos negros, judeus, comunistas e sindicatos nos Estados Unidos, e pelo apoio sistemático dado pela Administração Truman aos fascistas, monarquistas e outros reacionários em várias outras partes do mundo. Terceiro, o capitalismo neste país, com sua política imperialista agressiva no estrangeiro e sua implacável campanha pelo militarismo aqui, está definitivamente fomentando outra guerra mundial. Mas esta guerra, que seria uma guerra atômica, de ambos os lados, não seria igual às duas últimas, em que enriquecemos enquanto os outros povos foram para o grosso da luta e morreram. Em vez disso, desta vez, nossas cidades e indústrias seriam arruinadas e nosso povo dizimado. Sobretudo, teríamos que lutar virtualmente sem aliados potentes, e não poderíamos de modo algum vencer.


Crescentes perigos econômicos, fascistas e de guerra são as duras realidades da influência dos Estados Unidos sobre a presente situação mundial. Não têm nada em comum com a demagogia “excepcionalista” da Alta Finança, partilhada pelos reacionários dos partidos Republicano e Democrático, com o fim de que o capitalismo americano, fazendo as rodas do progresso andarem para trás, possa derrotar a democracia e o socialismo no mundo, e regenerar o sistema capitalista mundial. Toda a marcha do capitalismo americano, se os monopolistas puderem escolher seu caminho, só pode aprofundar a crise geral do capitalismo e conduzir a novas catástrofes a humanidade. O capitalismo americano, apesar de sua condição superficialmente próspera, tem fundamentalmente as mesmas fraquezas do capitalismo europeu e mundial. De onde, os trabalhadores americanos, em sua atitude em relação ao capitalismo, devem tirar basicamente as mesmas conclusões referentes ao seu sistema que os trabalhadores em outros países estão tirando. E, tendo em mente as condições americanas específicas, devem fundamentalmente travar a mesma luta em defesa de seus padrões de vida, paz e liberdade. Com estas verdades marxistas em mente há vários pontos importantes de análise e programa sobre os quais o movimento trabalhista e progressista neste país deveria se orientar.


Primeiro, os trabalhadores e seus amigos deveriam compreender muito claramente, como o estão compreendendo os lutadores de vanguarda em outros países, que seus inimigos principais são os grandes banqueiros, industriais e senhores de terras — cujos porta-vozes são os Hoover, os Tofts, os Dewey, os Vandenbergs os Trumans, os Ronkins, os Hearts, e outros. Deveriam também compreender que devem lutar de maneira a limitar a força destes monopolistas e eventualmente quebrá-la. Os monopolistas são os inimigos do povo, o centro da reação política, os autores do caos econômico, da tirania e dos conflitos internacionais; são os traidores do interesse nacional, parasitas sociais e a maior ameaça à civilização e ao progresso da humanidade. O destino de nosso país e do mundo depende das massas democráticas do povo saberem conquistar a força econômica e política.


Segundo, os trabalhadores e outras massas democráticas deveriam compreender que as forças necessárias para vencer os monopolistas são o grande número de trabalhadores, camponeses, intelectuais, negros, veteranos de guerra e outras camadas democráticas que constituem a grande maioria da nação e que devem estar unidas numa grande coalizão nacional. Este é, essencialmente, o tipo de coalizão que está se formando, num plano político mais elevado, nas novas democracias da Europa e que já se dá também nos Estados Unidos. Na moderna história política americana tem havido movimentos com as características essenciais de uma coalizão popular, anti-monopolista, que desempenharam importante papel, como por exemplo, na campanha eleitoral de La Follette de 1924 e o movimento pró-Roosevelt, historicamente importante, que se seguiu a 1932. A cristalização efetivo da grande coalizão democrática nacional para as eleições de 1948 irá exigir o estabelecimento de um partido popular novo, amplo e antifascista, que abranja todas as forças naturalmente interessadas em se opor ao voraz capital monopolista.


Terceiro, os trabalhadores e seus amigos políticos devem compreender, tal como os trabalhadores de muitos outros países, que um Partido Comunista poderoso é uma necessidade essencial para uma luta vitoriosa a ser travada contra o capital monopolista.


Devem pôr um paradeiro à perseguição aos comunistas que agora envenena o movimento trabalhista. A Alta Finança só pode ser decisivamente derrotada se o amplo movimento de coalizão de massa estiver impregnado com uma compreensão dos princípios marxista-leninistas de análise, estratégia e tática. A formação de um Partido Comunista de massa é uma necessidade política vital da classe trabalhadora e do povo democrático americano.


Quarto, as massas democráticas americanas, orientadas pelos trabalhadores, devem dirigir seus golpes contra os três males mais mortais originados pelo capital monopolista moderno. Isto é, devem proteger sistematicamente o padrão de vida dos trabalhadores contra a crise econômica em evolução; devem defender resolutamente seus direitos civis contra o fascismo incipiente; devem lutar militarmente contra o imperialismo e o perigo de guerra contrapondo a estes um programa de colaboração internacional econômica, financeira e política especialmente entre os Estados Unidos, a União Soviética e as novas democracias europeias, dentro do campo das Nações Unidas.


Quinto, os trabalhadores e seus aliados devem lutar não somente por reivindicações parciais, mas também contra o próprio sistema capitalista. A “Carta de Novos Direitos Econômicos”, de Roosevelt e os “60 milhões de empregos” de Wallace oferecem, no principal, um programa de importantes reivindicações econômicas imediatas; mas a luta deve ir muito mais longe do que estas reformas de Keynes ou Roosevelt. Os trabalhadores começarão a lutar por medidas como a nacionalização de bancos e indústrias-chave, o estabelecimento de formas novas e mais elevadas de democracia, produção para consumo em vez de para lucro, e o estabelecimento do socialismo.


A grave alternativa com que se defronta agora a classe trabalhadora americana e, de fato, o povo americano, uma alternativa sobretudo de profundo significado para o mundo inteiro, é se nosso povo, caindo vítima das blandícias dos fluentes “excepcionalistas” americanos, se deixará, a si e ao mundo, serem conduzidos e impelidos pelo grande capital de Wall-Street para as novas catástrofes do colapso econômico, fascismo e guerra; ou se, rejeitando o falso conselho dos “excepcionalistas”, adotarão imediatamente as medidas necessárias, para limitar e finalmente quebrar a força do capital monopolista e assim desempenhar seu papel no estabelecimento de um mundo de paz, liberdade e bem-estar econômico. Com este objetivo, os dirigentes dos sindicatos e do movimento progressista neste país não poderiam fazer nada melhor, a fim de se munirem de um guia digno de confiança para sua linha política nestes dias difíceis, do que estudar cuidadosamente os princípios científicos estabelecidos por Marx e Engels há um século, no famoso “Manifesto Comunista”.


por William Z. Foster


Publicado na Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 7, Fevereiro de 1948.