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A Marcha Fúnebre prossegue no Campo



Assim como o foi no ano passado, 2021 marcará mais uma vez com parte da intensificação da violência do latifúndio e do Estado brasileiro contra os camponeses, os quilombolas e os povos originários.


Evidentemente, o governo de Jair Bolsonaro e sua submissão aberta ao imperialismo ianque e seus sócios menores no campo tem muito a ver com isso, mas o problema vai muito além de qual nome ou sigla partidária ocupa o Executivo, é uma demonstração clara do aprofundamento do caráter semicolonial do nosso país que se desenvolve há muitos anos com a ampliação do caráter agroexportador primário, a desindustrialização e a garantia da superexploração das massas trabalhadoras.


Os dados parciais divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) demonstram como a ofensiva do latifúndio passou a aplicar o uso da violência aberta para garantir seus interesses contra os direitos das massas rurais brasileiras.


Os dados referentes ao período de 01 de janeiro a 31 de agosto de 2021 apresentados Centro de Documentação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) - Dom Tomás Balduino (Cedoc/CPT) indicam que a Destruição de Casa, Destruição de Pertences, Expulsão, Grilagem, Pistolagem e Impedimento de acesso a Área de Uso Coletivo afetaram um número de famílias atingidas maior do que em todo o ano de 2020.


E mais, 418 territórios no país foram alvo desse tipo de violência nos primeiros 8 meses de 2021, sendo 28% território indígenas. Segundo a divulgação da CPT, “Em 2021, 418 territórios sofreram ‘Violência Contra Ocupação e a Posse’. Desses, 28% são territórios indígenas; 23% quilombolas; 14% são territórios de posseiros; 13% são territórios de sem-terras, entre outros. A ‘destruição de casa’ aumentou 94%, ‘destruição de pertences’ 104%, "’expulsão’ 153%, ‘grilagem’ 113%, ‘pistolagem’ 118% e ‘impedimento de acesso às áreas de uso coletivo’ aumentou 1.057%”.


Os assassinatos também se ampliaram em quase 30%: de janeiro e novembro, foram registrados 26 assassinatos em conflitos no campo. As mortes envolvendo os conflitos no campo também explodiram, com um aumento de 1.044%, passando de 9 registradas em todo 2020, para 103 registradas até aqui, e desse total, as prin. Dessas 103, 101 foram de indígenas Yanomamis.


Diante da política anti-indígena aberta em andamento por todos os poderes do Estado brasileiro, os indígenas seguem como as maiores vítimas dos Conflitos por Terra na Amazônia Legal, seguidos de perto nas estatísticas pelos quilombolas, posseiros, sem-terras e assentados na região. E a população da região se torna cada vez mais alvo, diante do incentivo do Governo e das leis em tramitação para facilitar a grilagem, o garimpo e a devastação da natureza na região.


Os dados apresentados registram o aumento esperado da violência contra posseiros, sem-terras e assentados na região. Dos 26 assassinatos registrados em 2021, 20 ocorreram na Amazônia Legal. 77% do total.


A grilagem na região também representa esse cenário: 93% do total de famílias vítimas de grilagem de janeiro a agosto de 2021 foram na Amazônia. Além disso, 91% do total de famílias que tiveram seus territórios invadidos foi na Amazônia, bem como 80% das famílias impedidas de acessarem as áreas de uso coletivo e 78% das famílias vítimas de pistolagem.


E mais uma vez, o cenário de violência contra as massas populares não são exceção nos mais de 500 anos de história do nosso país. Tampouco se trata de um mero desvio na construção da democracia burguesa brasileira. A violência no campo contra trabalhadores rurais, camponeses, quilombolas e indígenas é parte integrante do que o Estado brasileiro pode oferecer, parte do seu próprio caráter de classe e de sua posição de dominado pelo imperialismo.


A própria série histórica apresentada pela CPT comprova isso. Mesmo no tão aclamado período “democrático” no qual vivemos e que a esquerda tenta alimentar ilusões na sua salvação, foram registrados diversos ciclos de violência no campo, gerando os diversos massacres registrados desde a década de 80 em nosso país.


Períodos como o de 1985 a 1988, que registrou 112 vítimas fatais, ou o período entre os anos de 1993 a 1996, com 56 mortes, inclusos os massacres emblemáticos como Corumbiara (RO), Haximu (RR) e Eldorado dos Carajás (PA), ou ainda o período da última década, com os governos de PT a Bolsonaro, também registrando dezenas de vítimas nas mãos do latifúndio, demonstram que o problema não pode ser resolvido com meras ações eleitorais ou parlamentares como prometem há tanto tempo. Somente a mobilização das massas sob um programa revolucionário poderá transformar essa luta e acertar as contas com o latifúndio.