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2020 foi mais um ano marcado pela repressão e violência no campo brasileiro



O noticiário diário nos mostra a ampliação considerável dos conflitos e da violência no campo brasileiro. Neste ano, a prisão ilegal de quatro camponeses em Rondônia e a repressão do aparato estatal contra a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), além dos ataques de garimpeiros contra os povos indígenas mundukurus e yanomamis, foram alguns dos exemplos claros do recrudescimento da repressão e da violência do latifúndio, em conluio das forças governamentais e das forças armadas, que teve em 2020 um ano marcado pelo aumentos dos conflitos.


Segundo o relatório “Conflitos no Campo 2020”, organizado pelo Centro de Documentação da CPT – Dom Tomás Balduino (Cedoc), no ano passado foram 2.054 ocorrências de conflitos no campo, envolvendo quase 1 milhão de pessoas. Além disso, foram 1.576 ocorrências de conflitos por terra, o que equivale a uma média diária de 4,31 conflitos por terra, que envolveram 171.625 famílias brasileiras, em um contexto de grave pandemia. Esses números de ocorrências foram os maiores já registrados: ao menos 81.225 famílias tiveram suas terras e territórios invadidos em 2020.


Os números de conflitos por terra e de invasões de terras de camponeses, quilombolas e indígenas registraram recordes da série histórica iniciada pelo CPT desde 1985. Foram 914.144 envolvidas na luta pela terra em 2020.


Os conflitos pela água também registraram um número recorde de assassinatos, considerando que é apontado uma curva ascendente nas ocorrências na última década. Os homicídios contabilizados foram no acontecimento que ficou conhecido como massacre do Rio Abacaxis, em agosto de 2020, em um conflito que envolve o turismo de pesca esportiva, o garimpo irregular, o tráfico de drogas e o uso de armas de fogo, em um cenário que as comunidades locais ficam ameaçadas.


Os indígenas passaram a ser cada mais vítimas da violência. Foram sete indígenas assassinados em 2020, além disso, os povos originários também representam percentual relevante no número de vítimas de ameaças de morte. O número de famílias indígenas que viram suas terras invadidas por grileiros e garimpeiros dobrou, passando de 40.042 em 2019 para 81.225 em 2020.


Evidentemente, isso se explica pela ofensiva em curso contra os territórios demarcados patrocinada pelo governo Bolsonaro. A suspensão da homologação das terras indígenas e as medidas tomadas pelos órgãos governamentais potencializaram os conflitos em áreas indígenas, incentivando amplamente o desmatamento e os incêndios criminosos.


O levantamento também indica que na última década, o machismo e a misoginia também foi um fator presente na repressão à luta camponesa. Segundo a CPT, “em dez anos, 446 mulheres foram ameaçadas de morte, com posseiras (90), quilombolas (60) e trabalhadoras sem terra (49) reunindo o maior contingente de ameaçadas. Foram 37 estupros em uma década, sendo as principais vítimas mulheres quilombolas e das etnias originárias. Trinta desses estupros foram cometidos contra crianças e adolescentes da comunidade quilombola Kalunga, no estado de Goiás. Os envolvidos nesses estupros foram fazendeiros, garimpeiros, membros do Poder Legislativo municipal, empresários. Noventa e oito mulheres foram presas nos últimos dez anos no contexto dos conflitos no campo, nas águas e nas florestas. As prisões foram determinadas, sobretudo, para as mulheres sem-terra (66 do total)".


Os números do levantamento confirmam mais uma vez que o campo é uma trincheira fundamental das lutas do povo brasileiro, que se depara na atual conjuntura com o avanço reacionário levado a cabo pelas classes dominantes, sob o governo Bolsonaro e os militares que o sustenta, criando condições para que o latifúndio e a burguesia burocrática ampliem cada vez mais a superexploração dos trabalhadores do campo e da cidade para atender os interesses dos seus amos imperialistas. É urgente ampliar a solidariedade e o apoio a todos os movimentos de luta camponesa diante desse cenário.