banner VII Salao do Livro Político.gif
  • NOVACULTURA.info

"A Universidade e a totalidade do País"



Cabe agora dizer algumas palavras sobre as relações entre a universidade e a totalidade do país, incluídas todas as classes que a compõem. Os diferentes aspectos que a análise deste tópico revela convergem de tal modo para o tema da alienação, como resultado principal do ensino universitário sobre o conjunto do país, que podemos dedicar esta parte do nosso estudo ao exame da responsabilidade que cabe com justiça imputar à universidade na alienação cultural e econômica da nação. Dada a composição social que possui e os esteios externos que a sustentam, a universidade, na presente conjuntura brasileira, funciona como anteparo destinado a ocultar a realidade do país à sua própria consciência. Tal é a tese principal do presente capítulo deste ensaio. A universidade, por suas relações com a classe dominante, exerce sobre o resto do país efeito pernicioso, ocultador, pois prepara e distribui os instrumentos ideológicos que conturbam a consciência nacional, e não se dedica ao que seria sua tarefa meritória e própria – a de preparar o espírito das jovens gerações para o melhor conhecimento do Brasil, dos seus problemas e dos meios de resolvê-los. A universidade do país subdesenvolvido não tem condições ideológicas para produzir a autêntica cultura de que o povo necessita, conforme em outras páginas explicamos, e por isso é levada a considerar como “cultura” o que é apenas saber especulativo ou prático, mas sempre de origem metropolitana e interpretado segundo o pensamento pedagógico que convém às elites econômicas dominantes. Há erudição, há “saber”, no sentido habitual do termo, nos mestres e doutores respeitados pela sua atuação nas cátedras e nas assembleias universitárias. Longe de nós negar tal coisa, o que seria, além de disparate, uma injustiça. Mas o que, em conjunto, falta à universidade brasileira é o conhecimento da teoria da alienação cultural, que constantemente pratica, sem disso ter consciência, em desfavor do país. Muitos professores recusarão admitir o termo; a maioria o discutirá de forma alienada, isto é, fazendo implicitamente, ao negá-la, a defesa da alienação; só alguns raros levarão a sério este assunto e se decidirão a examiná-lo.


Não nos compete neste momento explicar nos seus fundamentos o tema da alienação. Teríamos muito que dizer, especialmente nos deteríamos em mostrar as relações que ligam a alienação cultural à econômica, porquanto é a mesma a classe que se julga portadora do saber e que a direta ou coniventemente oprime o trabalho do povo, ou se liga aos interesses estrangeiros de cunho antinacional. Mostraríamos, então, que no país subdesenvolvido uma forma de alienação nunca vai desacompanhada da outra. Fiquemos apenas na denúncia de alguns dos principais aspectos pelos quais se revela o papel alienador da universidade, que se desdobra em uma parte, ativa – a criação e imposição à mentalidade jovem dos esquemas de domínio – e em outra parte, negativa – a transladação para o interior do país de todas as concepções e teorias que impeçam a formação da consciência nacional autóctone e crítica das ideias metropolitanas, sobretudo quando utilizadas para a interpretação de nossa realidade. Podemos dizer a mesma coisa nestas palavras: quando o professor estuda, temos o aspecto negativo da alienação; quando ensina, o aspecto positivo. Observemos, contudo, que apesar do papel coletivo alienador que atribuímos à corporação magisterial, e que nos parece perfeitamente justificado, essa corporação é constituída na sua imensa maioria de elementos anônimos, quase todos sem obra publicada que exprimisse um pensamento capaz de influenciar a opinião pública ou com personalidade suficiente para contribuir poderosamente no processo alienador do país. O professor é um simples funcionário pedagógico. Esta observação é importante porque atenua as acusações que fazemos à classe professoral. Sua influência intelectual a salva de maior culpabilidade, embora, sociologicamente falando, não altere nenhuma das conclusões que expomos neste trabalho:


A) Observemos, de início, que no país atrasado o processo de educação só em parte muito reduzida se faz no interior da universidade. (Socialmente falando, e nisto está sua imperfeição primordial, a universidade desempenha um papel mais do que secundário no conjunto da educação social do povo.) Visto ser mínimo o contingente dos que a frequentam e total a ausência de esperança das grandes massas de nela ingressarem, só tem a importância que a torna merecedora destas considerações pelos seus vínculos com a classe dominante, que necessitam ser desmascarados, e pela alienação que exerce sobre toda a inteligência do país. Mas, considerada na visão panorâmica da sociedade, é tão pequeno o feixe de suas relações diretas com a totalidade da nação, que nisso já encontramos o que se poderia chamar a prova numérica da sua alienação, do seu afastamento. De fato, é alheia ao povo, que nela certamente não ingressará. Deste modo, sua estrutura tipicamente restrita a pequena classe de afortunados confere-lhe caráter de alienação quantitativa, no sentido em que a imensa maioria do povo é estranha a ela, não toma conhecimento do que nela se passa, só a conhece pela fachada dos seus edifícios e às vezes por se distrair com algumas pitorescas contendas entre os seus luminares. No país pobre, a sociedade educa os seus membros sem precisar da universidade. Só necessita dela um grupo seleto de filhos da classe dominante para efeito de autorreprodução desta classe. Afastada do povo, a universidade dedica-se a cultivar o que não são os interesses do povo, e é isso que, ingenuamente, rotula de “cultura”. Se, por um lado, se aliena a si própria, por seccionar suas ligações com as massas trabalhadoras, torna-se, por outro, causa da alienação das consciências jovens, que despontam no seio das massas, e que, dentro ou fora dos augustos recintos das aulas, recebem o influxo do pensamento alienante dos ingênuos catedráticos. Deste modo, a universidade do país subdesenvolvido comporta-se como instituição alienada-alienadora, em relação à totalidade da consciência do povo.


B) O segundo papel alienante da universidade é o de converter aos interesses das classes dominantes os elementos jovens das classes dominadas, que eventualmente possam elevar-se um pouco em relação à sua situação de origem, a fim de que não venham a adquirir consciência de sua própria condição de classe. Enquanto um dos caminhos de ascensão social se fizer pela valorização da suposta cultura, a qual é sancionada pela universidade, a consciência das classes dominadas jamais terá meio por esse caminho de alcançar expressão superior, erudita, de se tornar verdadeira autoconsciência, pois o cumprimento do currículo universitário atua como dispositivo redutor dos interesses das massas trabalhadoras, hostilizando lhes o surgimento e a organização, e impedindo-os de encontrar expressão lógica, científica, nas lições e nas obras do magistério universitário. Por efeito do processo de crescimento e valorização das forças produtivas representadas pelo trabalho das massas, há atualmente maior facilidade para muitos jovens ingressarem em carreiras de nível universitário; é de esperar, portanto, que venham a constituir dentro do órgão docente um setor cada vez mais lúcido e atuante, na compreensão e defesa dos interesses dos seus irmãos de classe. Este resultado, entretanto, será dificultado pelo efeito alienador do ensino que irão receber, pois, sendo feito segundo os moldes dos grupos dirigentes, destina-se a apagar no espírito do estudante pobre a lembrança da sua origem e a acender nele o desejo de alcançar rapidamente, e a qualquer preço, o diploma de membro da classe dominante, com todas as vantagens correspondentes. Como sabemos que grande parte dos egressos das faculdades se dirigem para posições sociais respeitadas e bem remuneradas, mas ociosas, compreende-se que a destinação do jovem estudante de família trabalhadora modesta seja interpretada por esta como recurso para fazê-lo libertar-se do trabalho eficiente, mesmo quando inculto, e dar-lhe a oportunidade de, como “doutor”, ocupar posições de destaque social, mesmo improfícuas, parasitárias ou meramente simbólicas.


C) Sendo a alienação traço constitutivo da essência de nossa universidade, verifica-se que se manifesta não somente sobre a classe dominada, que pelo imprevisto favorecimento na loteria social, vê alguns de seus elementos penetrarem no recinto sagrado, como sobre a classe dominante ministerial, que também padece da mesma cegueira à realidade do país e da submissão às ideias alienígenas. O papel alienante da universidade é duplo: aliena a consciência da classe dominada, no sentido, como vimos, de impedi-la de construir um tesouro cultural autêntico, que exprima seus próprios interesses de classe submissa e a auxilie a libertar-se das suas servidões; mas, ao mesmo tempo, aliena também a consciência da classe professoral, no sentido de que a faz tributária da cultura do país metropolitano dominante.


Mais uma vez se percebe impossível analisar a existência da universidade sem incluí-la no quadro da realidade total do país – em nosso caso vale dizer, infelizmente, no quadro da dominação imperialista, de que sofremos. Vimos que a nossa universidade é vítima da proteção dos grupos econômicos estrangeiros, que a dotam de gordas subvenções, transformam muitos dos seus professores em cônsules das nações poderosas, convidam, o mais que podem, estudantes e docentes a visitar as reluzentes instalações que possuem, distribuem com fartura bolsas de estudo e põem em prática mil outros artifícios de suborno e domesticação. A universidade do país pobre, alienada na sua consciência de si, recebe de mão beijada todo o “auxílio” externo, assina convênios com fundações estrangeiras, aceita dispositivos humilhantes e alienadores das alianças que julgam lhes darão progresso, enfim, por todos os modos aceita o papel de casa pobre de uma família pobre, a qual por si mesma não conseguiria melhorar suas instalações. Esta ideia de si já resulta da alienação que a domina. Não acreditando que o país tenha condições para realizar o seu desenvolvimento sem a subserviência ao capital estrangeiro, acha normal ser “ajudada” financeiramente pelos povos mais ricos, e naturalmente dentro desta providencial aliança cabe-lhe aceitar também as ideias que o dominador lhe oferta para distribuí-las aos seus frequentadores. Como são os professores os agentes materiais desta contravenção social, ainda não incluída no Código Penal, acreditam esses reputados oradores de aula que lhes cabe a digna missão de difundir a “cultura” que, sabemos, é apenas o pensamento dos meios metropolitanos a respeito da sua realidade e da nossa. Tornam-se assim enganadores enganados, pois é certo que a grande maioria não tem consciência de estar praticando qualquer delito contra os interesses nacionais, mas, ao contrário, acredita ter importante, árduo e meritório papel em educar as novas gerações.


Vemos que a alienação reina sem oposição nos recintos universitários, porque a casa que deveria ser o lar da autêntica cultura nacional, é, por enquanto, habitada por gente que entende por cultura o que aprende nos livros estrangeiros, o que observa nas viagens ao exterior, o que escuta dos “técnicos” e “especialistas” que se mandam buscar lá fora para nos virem dizer o que somos, e o que devemos fazer. Não estando voltada para a realidade do país, desvinculada das massas trabalhadoras, única origem da verdadeira cultura para nós, essa gente se faz caudatária do saber alheio, que repete mal, em lições confusas, em razão do conflito que obscuramente percebe existir entre o que diz e o mundo ao qual pertence. Não encontrando nas elites culturais, integrantes ou não da universidade, a cultura que deveria ajudá-la a se libertar economicamente, a nação, como totalidade, está impossibilitada, no que é justo imputar à universidade, de vencer sua alienação coletiva. De fato, não o pode fazer pelo esforço da classe dominada, uma vez que os elementos desta só excepcionalmente ingressam na universidade, e esses mesmos, depois de atravessarem-na, não saem dela como representantes de sua classe de origem, mas convertidos aos propósitos dos grupos dominantes, aos quais imploram favores, na esperança de um dia serem reconhecidos como membros efetivos de tais grupos. Também a nação não consegue se libertar pela contribuição da classe professoral dominante, uma vez que esta não chega a superar os seus interesses de classe e só os exprime mediante uma cultura de empréstimo.


Logo – e aqui chegamos a uma das teses magnas deste opúsculo – numa nação subdesenvolvida como a nossa, enquadrada no complexo do imperialismo, a universidade nem por ação da classe dominada nela existente, nem por ação da classe dominante, que a manobra, contribui para criar a autêntica cultura que o país reclama.


Capítulo do livro “A Questão da Universidade”, publicado em 1986.


Escrito por Álvaro Vieira Pinto