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Os 50 anos da Revolução Cultural na China



Que bons são o primeiro dazibao marxista-leninista do país e o artigo do comentarista do Renmin Ribao! Recomendo aos camaradas que voltem a lê-los. Nos últimos cinquenta e tantos dias, contudo, alguns camaradas dirigentes, tanto dos organismos centrais como dos locais, atuaram em um sentido diametralmente oposto. Adotando a reacionária posição da burguesia, exerceram uma ditadura burguesa e reprimiram o impetuoso movimento da Grande Revolução Cultural Proletária. Confundiram o justo e o equivocado e chamaram de negro o branco, cercaram e atacaram os revolucionários, sufocaram as opiniões diferentes das suas e impuseram um terror branco, e se sentiram muito satisfeito com isto. Inflamaram a arrogância da burguesia e mancharam a moral do proletariado. Que infâmia! Visto em sua conexão com o desvio de direita de 1962 e a tendência errada de 1964, “esquerdista na forma e direitista na essência”, não nos obriga isto a refletir seriamente?

(Meu primeiro “dazibao”) - Mao Zedong



A "Grande Revolução Cultural Proletária" pode ser considerada, sem sombra de dúvidas, o evento mais polêmico que aconteceu na China após a fundação da República Popular e o início da construção socialista no país. No dia 16 de maio completou-se 50 anos do início dessa controversa experiência, alvo de intensa demonização por parte da mídia burguesa ocidental e por parte dos atuais dirigentes do Partido Comunista da China. O que foi a Revolução Cultural? Como e por que ela se iniciou e qual deve ser a posição dos comunistas, marxista-leninistas, em relação a tal acontecimento? Não buscamos neste artigo dar uma resposta cabal para essas perguntas, nem mesmo expor aqui todos os antecedentes históricos que culminaram na Revolução Cultural, mas sim apresentar aos nossos leitores certas características gerais de tal experiência, que sem dúvida deve ser estudada por todos os marxista-leninistas.


Como já tivemos a oportunidade de tratar em outros artigos da Revista Nova Cultura, o ano de 1956 representa um ponto de virada no processo de construção do socialismo na URSS e nos países de Democracia Popular. 1956 é o ano que Khrushchev lidera um golpe de Estado que afasta do poder os marxista-leninistas e impõe ao Partido e ao Movimento Comunista Internacional o revisionismo moderno (Verificar o livro Stálin - Um novo olhar. Ludo Martens. Capítulo X: De Stálin à Khrushchev). O Partido Comunista da China, junto com o Partido do Trabalho da Albânia, são os Partidos que se levantam de maneira aberta contra o revisionismo moderno, publicando inúmeros documentos e travando uma grande batalha ideológica que influenciou setores significativos do MCI. Também o Partido Comunista do Brasil (PC do B) se posicionou abertamente contra o revisionismo moderno de Khrushchev e cia. (Resposta à Khrushchev)


O Partido Comunista da China não se limitou a combater o revisionismo para fora das fronteiras da República Popular da China. Ainda em 1957 o Partido levou a cabo a chamada "Campanha antidireitista" que visava responder criticamente intelectuais e personalidades políticas que se opunham ao avanço do processo de construção socialista. Posteriormente, o Partido Comunista da China promoveu o "Grande Salto à Frente", movimento que visou à promoção do desenvolvimento econômico do país por meio da intensa mobilização de massas. Os direitistas e revisionistas no interior do Partido Comunista da China se aproveitaram de certos erros cometidos nesses processos como forma de atacar a linha representada por Mao Tsé-tung, que apostava no avanço das relações de produção socialistas e na transformação ideológica de toda a sociedade.


A Revolução Cultural não foi um movimento lançado do dia para a noite graças o capricho de um líder. Apesar de a burguesia mundial assim apresentar a Revolução Cultural, ela na verdade refletiu uma ampla luta interna que se configurava no interior do Partido Comunista e da sociedade chinesa. Essa luta nada mais era do que reflexo do recrudescimento da luta de classes que segue existindo nas condições do socialismo. Uma das teses que os revisionistas modernos tentam vender ao conjunto do movimento revolucionário é de que na sociedade socialista extinguem-se as classes e a luta de classes, fato que tornaria caduca a Ditadura do Proletariado. Promove-se assim teses antimarxistas como a do "Estado e Partido de todo o povo". Essas teses contrarrevolucionárias desarmam o proletariado em sua luta pela construção da sociedade socialista, bem como servem de base ideológica para que a burguesia promova de maneira eficaz a restauração do capitalismo.


Todos os países ex-socialistas que restauraram o capitalismo abraçaram tais teses reacionárias. A Revolução Cultural teve o mérito histórico de expor de maneira aberta o caráter farsesco dessas concepções revisionistas. Mao Tsé-tung, sabendo dos riscos de restauração capitalista na China e valendo-se da observação crítica da experiência de construção do socialismo na URSS, fez questão de demonstrar a importância de persistir promovendo a luta de classes contra aquelas figuras que utilizavam o seu poder para promover a restauração do capitalismo, ainda que em palavras falassem em revolução e socialismo. Segundo os chineses esses elementos faziam de tudo para travar o processo de avanço da construção socialista, colocando-se ao lado da promoção da economia individual, do mercado e da conciliação com o imperialismo. Apresentada como uma “nova etapa da revolução socialista” a Revolução Cultural mobilizou centenas de milhões de pessoas em um amplo movimento de massas para reforçar a ditadura do proletariado.


Como diz a Decisão do Comitê Central do Partido Comunista da China sobre a Grande Revolução Cultural Proletária, publicado em 8 de agosto de 1966: “A Grande Revolução Cultural Proletária que se desenvolve atualmente, uma grande revolução que penetra no fundo da alma das pessoas, representa uma nova etapa, ainda mais ampla e profunda, no desenvolvimento da revolução socialista em nosso país.”


Este importante documento apresentava a linha geral estabelecida pelo Partido Comunista da China nessa nova etapa do desenvolvimento da luta revolucionária e da construção do socialismo. Nele se explica que a burguesia, ainda que derrubada do poder, utiliza das velhas ideias, cultura, hábitos e costumes das classes exploradoras para corromper as massas e reconquistar o poder. Mobilizado pelo Partido, deve o proletariado e as classes revolucionárias combater a ideologia da burguesia e mudar a fisionomia da sociedade criando novos hábitos, costumes e práticas condizentes com o caráter socialista da sociedade. A direção do Partido deve se “atrever” em mobilizar as massas contra os elementos “dirigentes” que seguem o caminho capitalista, as autoridades reacionárias burguesas. A decisão também chama atenção para a necessidade de que o Partido deixe que as massas se eduquem por si mesmas no processo de desenvolvimento do movimento revolucionário: “Há que se confiar nas massas, apoiar-se nelas e respeitar sua iniciativa”.


Durante a Revolução Cultural se generaliza o uso dos chamados “dazibaos”, que eram grandes cartazes utilizados pelo povo chinês como forma de realizar críticas a certos dirigentes. Mao Tsé-tung apreciava positivamente esse tipo de forma de exercício da democracia popular e fez chamados para que o uso dos “dazibaos” se generalizasse e fosse apoiado pela direção do Partido:


Dazibao é uma arma de novo tipo de grande utilidade, podendo ser empregado em cidades, aldeias, fábricas, cooperativas, estabelecimentos comerciais, organismos governamentais, centros de ensino, unidades de forças armadas e organizações de vizinhos. Resumindo, em todos os lugares onde existam massas. Seu uso se generalizou e deve continuar para sempre.

Em 25 de maio de 1966 é pregado em uma parede da Universidade de Pequim aquele que é considerado por Mao o primeiro dazibao da Revolução Cultural. Este dazibao foi escrito por 7 professores e estudantes contra o reitor e o Primeiro Secretário do Partido na Universidade. Mao Tsé-tung ordena que este dazibao seja transmitido por rádio por toda a China. O próprio Mao Tsé-tung, em agosto de 1966, entusiasmado com o levante das massas contra o revisionismo, escreveu o seu próprio dazibao* declarando o seu apoio a Revolução Cultural, onde denuncia os dirigentes que “adotam a posição reacionária da burguesia” e “exercem uma ditadura burguesa reprimindo o impetuoso movimento da grande revolução cultural proletária”. Mao faz um chamado para que as massas “bombardeiem o quartel general da burguesia”. Por meio de textos como Levantar bem alto a bandeira do Pensamento Mao Tsé-tung e participar ativamente da Grande Revolução Cultural Socialista e Nunca esquecer a Luta de Classes, ambos publicados no Diário do Exército de Libertação (Jiefangjun Bao), o Partido fazia a afirmação de que a luta de classes entre burguesia e proletariado segue existindo no socialismo, daí a necessidade de promover um movimento que vise atacar a ideologia burguesa em suas várias manifestações e impedir a restauração do capitalismo por meio da ampla mobilização das massas. A cultura na sociedade socialista deve estar a serviço das massas (operários, camponeses, soldados) e deve servir a consolidação e o desenvolvimento da sociedade socialista na sua transição gradual para o comunismo. A cultura burguesa, por sua vez, serve à burguesia, aos latifundiários, camponeses ricos, direitistas e contrarrevolucionários que visavam à restauração do capitalismo, devendo ser energicamente combatida.


A libertação da mulher na Revolução Cultural


A experiência revolucionária de massas sustentada pela Grande Revolução Cultural Proletária na China também colocou como parte componente da Revolução Proletária e da luta contra a ala burguesa no seio do socialismo, pela transformação revolucionária dos antigos hábitos e costumes oriundos da velha sociedade, a luta contra a opressão da mulher, compreendendo que a emancipação do povo chinês não poderia ser concretamente levada a cabo se libertando apenas metade de seu povo, devendo assim combater a situação das mulheres de servidão e subjugação. Este processo não deveria ser entendido apenas mediante sua igualdade formal (igualdade jurídica e econômica), mas como um processo longo e árduo, realizado pela fusão orgânica das tarefas gerais da missão histórica de construção do socialismo com a questão particular da mulher na China, transformando concomitantemente a base material de sua opressão e os resquícios desta nos hábitos e ideias no todo da sociedade. Não se deve compreender a forma que a Revolução Cultural abordou a questão da mulher e sua emancipação de maneira apartada do processo iniciado a partir do início da construção do socialismo na China, mas como continuação dele. Na China semifeudal, não apenas as mulheres eram oprimidas pela dominação estrangeira do Imperialismo, o capitalismo burocrático e o latifúndio, como também por uma ideologia patriarcal milenar, submetida a costumes como amarrar os pés desde pequenas para se manterem muito pequenos, amarras dos acordos para escolha de marido, e proibição do divórcio, bem como outras formas de manter a mulher em situação de segunda classe, submetidas à autoridades tribais, religiosas, do marido, etc.


A tomada do poder político pelo Partido Comunista, já em 1949 tratou de dar um fim a isso, pelo menos no aspecto jurídico. Deram às mulheres seus direitos democráticos que haviam sido negados pelos antigos governos reacionários, e se promulgou a igualdade entre os sexos. Antigos costumes feudais, como o de amarrar os pés, foram proibidos. A Lei do Casamento de 1950, pôs termo aos antigos costumes matrimoniais patriarcais, e combateram a prostituição. Na época do Grande Salto pra Frente, as Comunas Populares e comitês de bairro delas criaram refeitórios coletivos, berçários, formas cooperativas de se realizar o trabalho doméstico, visando acabar com a dupla jornada de trabalho das mulheres, que se especializavam em diversos ramos da economia, saindo da escravidão doméstica e tomando parte na construção do socialismo.


Na Revolução Cultural, apontando para a transformação do todo da sociedade, suas relações de produção e relações ideológicas, empreendendo sucessivas tentativas para a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual, entre campo e a cidade, a crítica ao confucionismo e a outros resquícios da velha sociedade, junto à tentativa de se por as massas no comando, a mulher tomou papel central e ativo.


Um dos principais problemas no aspecto da questão da mulher, do qual a Revolução Chinesa se confrontava era como libertar as mulheres do trabalho doméstico e fazê-las tomar parte, junto dos homens, na produção social, partindo do princípio estabelecido por Mao: ”A fim de construir uma grande sociedade socialista, é necessário ter as amplas massas das mulheres engajadas na atividade produtiva(...) A genuína igualdade entre os sexos só pode ser realizada no processo de transformação da sociedade como um todo”.


As pequenas fábricas de bairro no campo, com seus comitês e políticas de socialização da época do Grande Salto pra Frente foram revividas na Revolução Cultural. Nestes comitês se criavam restaurantes, enfermarias e creches coletivas, e as mulheres se organizavam debatendo o problema da socialização do trabalho doméstico. Com a repartição do trabalho doméstico e a inserção da mulher na produção social, e nos comitês de bairro das Comunas Populares, se abriu margem para que houvesse um grande número de “regresso à escolarização”, educação esta que havia sido negado às mulheres no período anterior a 1949, contribuindo para o aparecimento de mulheres técnicas, especializadas, doutoras, etc. no campo, além de também conseguirem se formar mediante os problemas encontrados no processo produtivo e da coletividade da qual se encontram. Nas fábricas haviam enfermagem para crianças, com berçários de 24 horas por dia para crianças de dois meses até os quatro anos de idade. Claudie Broyelle comenta sobre a realização da socialização do trabalho doméstico em Xangai:


"O sistema atual de administração desses restaurantes[coletivos] está baseado na Tripla direção dos cozinheiros, consumidores e dos responsáveis pelos outros serviços coletivos da cidade, para assegurar sua coordenação. Com muita frequência são as antigas donas-de-casa do bairro que criaram esses restaurantes e são elas também que asseguram sua organização. A existência generalizada dessas cozinhas reduziu consideravelmente a importância das cozinhas privadas (...) Os utensílios domésticos são usados em comum e com frequência as famílias de organizam entre si para fazer por turnos a comida para todos.


Quanto aos outros serviços coletivos, como os que foram criados em Taking, tivemos a ocasião de visitá-los longamente, principalmente em Shangai. Sua primeira particularidade é terem sido criados pelas próprias mulheres. O que quer dizer que tanto sua organização concreta como seu desenvolvimento são resultados concretos das aspirações dessas mulheres por destruir o caráter privado, familiar, dessas tarefas."


Os êxitos nesta libertação da mulher da escravidão doméstica fizeram com que na China se chegasse ao número de 91% das mulheres do país inseridas na produção social, aos fins de 1971, número impensável na época para qualquer país capitalista. Tal foi a política adotada pela linha política revolucionária de Mao Tsé-tung, a combinação da socialização do trabalho doméstico com a socialização da indústria e da agricultura.


Em 1968 a Federação de Mulheres da China foi substituída pelos Comitês de Mulheres, onde as mulheres se organizavam e interviam em casos de agressões, abusos e etc. por parte dos maridos. Nestes comitês também se estabeleceram “grupos de trabalho femininos” onde se focava em grupos de estudos coletivos entre mulheres, fazendo a assimilação da teoria marxista-leninista pelo movimento de mulheres. Se relata que em um bairro de Pequim, se reuniram 60.000 mulheres em torno do estudo da teoria marxista.


Também se formou em Xangai, “Brigadas de meninas de ferro”, onde jovens mulheres empreendiam as tarefas mais difíceis dentro das mais diversas fábricas, e ganharam grande destaque ao se engajarem em trabalhos tidos como tipicamente masculinos, como construir pontes, exploração de petróleo, manutenção de linhas de alta voltagem, etc. Se aumentou o número de mulheres que trabalhavam na indústria pesada, e cada vez mais mulheres ingressavam as fileiras do Exército Popular. Assumiam posições de liderança, e metade dos médicos no campo na China já eram mulheres. Uma mulher que trabalhava em uma fazenda estatal em Chongming comenta: “Mulheres jovens como eu sentiam poucas barreiras de gênero em nossa devoção à revolução. Inúmeras jovens líderes mulheres surgiram nesta ilha com oito fazendas. Esta unidade nunca acreditou em inferioridade feminina e estava livre de pressões sociais a partir dos papeis de esposa e mãe… Nós nunca nos preocupávamos em sermos vistas como não femininas por superarmos os homens em nossa performance no trabalho. Quando jovens líderes, homens e mulheres, se juntavam em reuniões ou sessões de treinamento, falávamos sobre nosso trabalho e discutíamos teoria Marxista de igual pra igual”


A campanha anticonfuciana dos anos 70 (que se deu mutuamente à reconstituição da Federação de Mulheres) também criou uma oportunidade para que as associações e comitês de mulheres dessem um ataque frontal à ideologia patriarcal, ao lincar as ideias patriarcais remanescentes na sociedade chinesa com os resquícios de ideologia confuciana. Em artigo de Yang Polan e Shen Pei-shen de fevereiro de 1974 se afirma: “Somos nós, as mulheres trabalhadoras, que temos sofrido mais pelo confucionismo, por isso é que temos os maiores direitos a tomar a palavra na crítica a Confúcio.”


Mulheres da Federação na rua Yuen Pin, em Fukien organizaram a campanha de “Cinco destruições, cinco construções” que era:


“1. Destruir as superstições feudais; edificar a concepção segundo a qual o trabalho é que cria o mundo. 2. Liquidar o antigo sistema matrimonial segundo o qual os pais decidem arbitrariamente (ou fazem "pressões") o matrimônio de seus filhos, e consideram o matrimônio como um mercado; reforçar a liberdade do matrimônio, que se faz de uma maneira nova. 3. eliminar a ideologia segundo a qual os homens são nobres e as mulheres humildade, eliminar o poder marital. Se lhe substitui pelo conceito de igualdade de direitos entre ambos os sexos; praticar o princípio "a trabalho igual, salário igual"; praticar o controle de nascimentos. 4. Eliminar a teoria segundo a qual as mulheres são retrógradas; opor a ela a concepção segundo a qual as mulheres são "a metade do céu". 5. eliminar as teorias: "fazer estudos para converter-se em alguém" e "ir ao campo para fazer-me ver"; opor a concepção: "estudar para servir ao povo" e "valorizar o trabalho agrícola"“


Para levar a cabo esta campanha, fizeram mobilizações por semanas que se baseava em grupos de estudos, manifestações, reuniões e debates, dazibaos, redação de pequenos jornais, artigos de imprensa, etc. Reforçaram os cursos de política, e se duplicou o número de mulheres participantes nele após a campanha. Cada vez mais, se evocavam unidades femininas de vanguarda a âmbito nacional, e as mulheres se tornavam uma força motriz na campanha contra o confucianismo.


Fica evidente que uma das tarefas da Revolução Cultural foi a luta para efetivamente se levar adiante a libertação da mulher, bem como fazer da mulher uma força atuante e destacada neste processo. Não apenas pra fazer da mulher parte da revolução, mas também ela mesma empreender sua própria libertação, como afirma correspondente da Peking Review de Março de 1974: “O pensamento guia por trás do movimento de mulheres na China nunca foi apenas fazer com que a mulher tomasse parte da luta revolucionária e da produção e negligenciasse a resolução dos problemas particulares das mulheres. Na prática, a iniciativa e entusiasmo das mulheres na luta revolucionária e produção são enormemente fortalecidos quando se resolve estes problemas.”

Durante a Revolução Cultural diversos quadros veteranos do Partido Comunista da China foram removidos de seus cargos e criticados como seguidores do caminho capitalista. Entre esses quadros estão figuras como Liu Shaoqi, Deng Xiaoping, Peng Zhen, Chen Yun, etc. Depois, líderes como Lin Piao e Chen Boda, que foram entusiastas da Revolução Cultural e eram considerados personalidades da “esquerda” do Partido, também foram criticados e expurgados. É certo que a Revolução Cultural chinesa foi um fenômeno complexo. Até hoje não existe uma concordância entre diversas forças do movimento comunista internacional de como interpretar o seu legado. O próprio Partido Comunista da China, após a chegada ao poder de Deng Xiaoping, passou a condená-la. Na Resolução sobre alguns problemas na história do nosso Partido depois da fundação da República Popular da China, aprovado na VI da Sessão Plenária do XI Comitê Central do Partido Comunista da China, em junho de 1981, se afirma que a Revolução Cultural “que transcorreu de maio de 1966 até de outubro de 1976, acarretou ao Partido, ao Estado e ao povo os mais graves revesses e perdas conhecidas desde a proclamação da Nova China”. A nova direção chinesa passou a afirmar que os princípios que nortearam a Revolução Cultural não correspondiam aos princípios básicos do marxismo-leninismo. A partir daí, a ênfase na luta de classes foi substituída pela concentração na construção econômica do país, com a política de Reforma e Abertura, que segue sendo aplicada até os dias de hoje. Em nossa opinião, o que os fatos posteriores e o desenvolvimento dos acontecimentos na República Popular da China demonstraram foi que muitas das observações levantadas por Mao Tsé-tung e sustentadas pela linha geral do Partido durante a época da Revolução Cultural eram sim corretas e estavam de acordo com os princípios básicos do marxismo-leninismo, ainda que algumas afirmações e posições tomadas pelo Partido durante essa época sejam passíveis de críticas. A realidade da China atual, onde predominam as relações de produção capitalistas, acompanhadas de todos os problemas e malefícios desse modo de produção, corrobora nossa afirmação. Ainda que seja intensa a propaganda de demonização da Revolução Cultural, levada a cabo pelo próprio Partido Comunista da China, em conluio com vastos setores da burguesia internacional, cada vez mais surge no interior do país estudos e relatos que questionam a versão oficial sobre o período. Vastos setores das massas, em especial operários, camponeses e gerações mais velhas, sustentam um sentimento espontâneo de nostalgia ao período. Crescem também grupos de esquerda, que olham com simpatia para a Revolução Cultural e questionam a linha oficial do Partido Comunista que defende as políticas de Reforma e Abertura. O surgimento desses grupos, ainda que possa ser considerado um fenômeno positivo, é acompanhado por certas debilidades, já que muitos deles, apesar de se considerarem “maoístas”, possuem uma ideologia eclética e parecem subestimar as contradições que o imperialismo norte-americano possui com o regime político chinês. A própria analise da chamada “nova esquerda” chinesa requer um texto à parte, dado a complexidade e diversidade das correntes que a conformam. A União Reconstrução Comunista, como organização que defende a construção de um novo Partido Comunista em nosso país, não menospreza a importância do estudo e da analise das experiências socialistas que ocorreram no século passado. Além disso, reivindicamos abertamente o legado dessas experiências. Nesse sentido, é de extrema importância o estudo e analise da história da Revolução Chinesa, um dos episódios mais importantes da Revolução Proletária Mundial no século XX. O debate sobre tal experiência segue se desenvolvendo em nossa organização. No último período publicamos e divulgamos documentos importantes que auxiliam no estudo da Revolução Chinesa. Seguiremos publicando-os futuramente.


Artigo publicado na Revista Nova Cultura #08, revista de cultura e teoria política, de julho de 2016