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As Garotas do ABC



Garotas do ABC retrata de forma ácida a realidade vivida por tantos trabalhadores das indústrias e fábricas têxteis. A trama se passa em São Bernardo do Campo, cidade que pertence à região metropolitana do ABC paulista. O filme, lançado em 2004, tem como uma de suas marcas o recorte histórico do novo sindicalismo crescente e sucedido pela vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, pelo Partido dos Trabalhadores (PT).


O diretor Carlos Reichenbach, já conhecido por seu estilo de representar a vida em grandes cidades, mais uma vez entrega uma produção que aborda temas sérios como a decadência humana em meio às relações sociais, racismo e xenofobia, com um senso de humor irônico e estereotipado, apoiando-se na sexualidade e nas simbologias para causar incômodo ao espectador.


Aurélia (representada por Michelle Valle) é a protagonista da história, e vive em uma posição ambígua; proletária e mulher negra, ela namora Fábio Tavares (Fernando Paivão), homem branco e racista. Muito longe de ser uma relação simplista, Aurélia sonha em ter um homem como Arnold Schwarzenneger, e Fábio se mostra em conflito quanto ao porquê deseja a jovem, o que resulta em uma série de problemáticas ao decorrer do enredo.


Dentre as demais garotas do ABC que trabalham na fábrica têxtil, é válido destacar a personagem Suzana (Luciele di Camargo). Símbolo de mulher que se resguarda, ela coleciona machucados causados por acidentes nas máquinas da indústria, consequentemente fazendo ela receber indenizações; mas muitas outras motivações podem ser especuladas para ela ter tantas cicatrizes.


Paula Nélson (Natália Lorda) é a mulher que une as proletárias, sempre tentando manter um ambiente de paz entre elas, por isso é frequentemente importunada pelo André Luiz (Dionísio Neto), líder sindical que tenta trazê-la para o lado do Partido sob o pressuposto da luta para ter condições melhores de trabalho. Em seu oposto está Saleziano de Carvalho (Selton Mello), filho do dono de uma pedreira, um dos representantes dos pensamentos integralistas, movimento fascista, conservador e corporativista. Ele comanda um pequeno grupo de neonazistas, especialistas em atentados contra nordestinos. Apesar da posição em que está, Saleziano tem como aliados um grupo de homens brancos, em maioria metalúrgicos, que atribuem aos migrantes nordestinos a falta de emprego.


Em contraponto com o grupo pouco organizado e patético de Saleziano, existem os Justiceiros, homens que partilham de pensamentos parecidos, porém não querem seu nome envolvido em confusões, brigas de saída de bar – trata-se do grupo que faz justiça com as próprias mãos, como descrito na obra “Não machuca, mas marca e mata”, e não fica contente com o aparecimento dos neonazistas.


Como pontos chave de intercessão no meio de antagonismos sociais, está o jornalista Nelson Torres (Ênio Gonçalves), conhecido por ter a imunidade de imprensa, tendo livre acesso e informações dos grupos representados. Ele é chamado pelo líder sindical de “Libertário anarquista, último socialista utópico”. Ademais temos a polícia, que é retratada de forma irônica, adotando a posição de que entende que a segurança privada é necessária e que nada da própria organização tem a ver com os chamados pedágios – nome dado à cobrança feita normalmente pelos justiceiros da região a quem quiser viver em paz, como o dono do bar que é frequentado pelos ditos Pernambucanos.


Dessa maneira a trama se constrói, delineando às forças reacionárias destrutivas, uma direita boçal enraizada em meio a ascensão do Partido dos Trabalhadores. O arco do filme, dividido em duas grandes partes chamadas de “Trabalho” e “Tempo Livre”, tem como uma das cenas de desfecho o confronto entre os neonazistas de Saleziano e os trabalhadores que estão festejando no clube Democratas.


Marcados por atravessamentos de classe, raça e gênero, Garotas do ABC passa longe de ser um exemplo idealizado de perfeições de classe, mostrando uma realidade de conflitos entre pessoas que têm qualidades e defeitos, amam e brigam, e que não foram esquecidos, hoje em dia podendo ajudar a explicar a ascensão da direita conservadora no Brasil.