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Fechamento de fábricas da Ford e o abismo da desindustrialização brasileira



No começo de janeiro, a Ford anunciou em comunicado que encerraria "as operações brasileiras de manufatura nas plantas de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Troller (Horizonte – CE) durante 2021". A justificativa foi a "continuidade do ambiente econômico desfavorável" e a "pressão adicional causada pela pandemia", mas o histórico demonstra que trata-se de um processo maior. Em 2019, a montadora já havia efetivado o fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo (SP), depois de 52 anos.


Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), aponta que a decisão terá impacto de até 118,8 mil postos de trabalho no país com o encerramento da produção da multinacional, envolvendo trabalhadores diretos, indiretos e os empregos induzidos em setores como comércio e serviços. O estudo do DIEESE indica também que o impacto sobre a renda dos trabalhadores na cadeia expandida da Ford atinge R$ 2,5 bilhões.


Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté, somente na unidade da cidade, a empresa é alvo de cerca de 280 processos trabalhistas, que envolvem um passivo consolidado que pode chegar a R$ 25 milhões, enquanto que, nos últimos cinco anos, em matéria de incentivos fiscais do Estado, recebeu R$ 4 milhões somente de isenções municipais.


O exemplo do caso da Ford demonstra claramente que o discurso sustentado na última década, no decurso dos sucessivos governos, que apregoava a necessidade de reformas, de retração de gastos públicos e outras medidas para sustentar a economia diante de mais uma crise capitalista mundial, não passou de mera apologia neoliberal para tentar garantir os lucros das empresas do imperialismo. Nem as reformas Trabalhista e da Previdência, tampouco o Teto de Gastos imposto, tiveram qualquer resultado positivo economicamente ao país; em verdade serviram para jogar aos trabalhadores e trabalhadoras todo o ônus da crise, estes que sofrem cada vez mais com os efeitos em sua vida cotidiana, com a perda absoluta de direitos básicos.


E, evidentemente, não se trata de um cenário gerado por decisões de governantes que pode ser simplesmente resolvido com a eleição de algum nome "bem intencionado" no prélio farsesco de 2022. Em verdade, o caso da Ford ilustra a situação de um país semicolonial que retrai sua indústria para se fixar como um mero exportador de commodities às grandes potências.


Segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), somente em 2020, 5,5 mil fábricas encerraram suas atividades. Num cenário mais amplo, entre 2015 e 2020, foram extintas 36,6 mil. Em média, são 17 estabelecimentos industriais destruídos por dia em nosso país.


Também recentemente, em entrevista ao Valor Econômico, grande jornal porta-voz da burguesia burocrática e compradora nacional, Carlos von Doellinger, atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), defendeu que o País deixe de apoiar o setor industrial e invista no agronegócio e na mineração. As declarações geraram uma considerável repercussão por parte dos representantes destes setores, mas também deixaram claro o caminho que tenta ser seguido pelo governo Bolsonaro, bem como a direção econômica de Paulo Guedes, que visa o aprofundamento da submissão de nosso país aos interesses estrangeiros, nem que para isso seja necessário relegar o nosso povo a miséria para garantir os lucros de seus parceiros.


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