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“O primeiro músico popular brasileiro: Domingos Caldas Barbosa (1740-1800)”



O primeiro nome a entrar para a história de nossa música popular é o do poeta, compositor e cantor Domingo Caldas Barbosa, no final do século XVIII. Naturalmente, houve compositores anônimos que o precederam, além de conhecidos como o baiano Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno (1633-1696), o padre Lourenço Ribeiro (1648-1724), rival de Gregório, e o malogrado Antônio José da Silva, o Judeu (1705-1739), queimado aos 34 anos numa fogueira da Inquisição, em Lisboa. Antônio José, cuja vida inspirou o livro Vínculos de Fogo, de Alberto Dines, e o filme O Judeu, de Jom Tob Azulay, foi o criador da ópera em língua portuguesa, sendo de sua autoria duas árias, publicadas em 1792 e 1795, descobertas por Mozart de Araújo e tidas como os mais antigos documentos musicais assinados por um brasileiro. Mas, tendo em vista o que se conhece desses pioneiros, pode-se afirmar que é obra de Caldas Barbosa a que mais se aproxima do que depois se chamaria música popular brasileira.


Filho do português Antônio de Caldas Barbosa, funcionário da fazenda lusa, de 1731 a 1734, depois negociante na praça do Rio de Janeiro, e de uma escrava angolana alforriada, chamada Antônia de Jesus, segundo seu biógrafo José Ramos Tinhorão, Domingos Caldas Barbosa nasceu em terra carioca em 1740. Há, todavia, dúvidas sobre o local de nascimento, que pode ter ocorrido num navio, quando o casal viajava de Angola para o Brasil. Essa versão é corroborada por Januário da Cunha Barbosa, sobrinho do poeta, que o descreve de forma pitoresca como “homem de muitos talentos, nem preto nem branco, nem d’África nem da América” e informa: “seu pai, apenas desembarcado, o reconheceu e o fez batizar”. Além disso, deu-lhe sustento e educação, fazendo-lhe frequentar um colégio dos jesuítas.


Quando ainda frequentava a escola, Barbosa começou a revelar vocação poética, demonstrando grande facilidade para improvisação. Então, com a desenvoltura com que mais tarde se dirigia às mulheres, passou a exercitar sua veia sátira, escolhendo como alvo alguns poderosos da época. A imprudência custou-lhe punição imediata, sendo ele despachado como soldado para a longínqua Colônia de Sacramento, por ordem do próprio capitão-general Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, governador da chamada Repartição Sul.


Regressando ao Rio em 1762, Barbosa foi logo tratando de se livrar da farda, resolvendo, com o apoio paterno, viajar para Portugal, onde pretendia completar os estudos. Tal propósito seria dificultado pela morte repentina do pai, valendo-se então da amizade de seus antigos condiscípulos, os irmãos José de Luís Vasconcelos e Luís José de Vasconcelos e Souza, filhos do Marquês de Castelo Melhor, que passaram a protegê-lo. Figuras de projeção na corte, José Luís se tornaria sucessivamente conde de Pombeiro e Marquês de Belas, enquanto Luís José chegaria ao posto de Vice-Rei do Brasil em 1779-1790. Foram esses amigos que abriram as portas da fama, ou seja, da sociedade lisboeta, ao talentoso mulato brasileiro, que muito bem soube aproveitar a oportunidade.


Tendo em vista a cor e a origem modesta de Barbosa, empecilhos à sua aceitação pela elite portuguesa, seus protetores fizeram-no receber ordens menores, sendo ele nomeado capelão da Casa da Suplicação. É assim, de batina e se acompanhando numa viola de arame, que o poeta-compositor entra em cena na década de 1770, cantando suas modinhas e lundus para a corte de D. Maria I. A presença de tão pitoresca figura, um mestiço da Colônia que apresentava um tipo de canção diferente de tudo o que se conhecia naquele meio, causou forte impacto e a consagração do cantador, principalmente por parte das damas, sempre cortejadas, às vezes até de forma atrevida, nos improvisos do brasileiro.


Uma consequência desse sucesso seria a sua designação para liderar a Nova Arcádia, a Academia de Belas Artes de Lisboa, entidade que se propunha a continuar as tradições da Arcádia Lusitana, defensora do ideal de cultivo da música e da poesia. O encargo aconteceu por indicação do Conde de Pombeiro, patrono da Academia, que aliás se reunia em dependências de seu palácio.


Nem tudo era aplauso no convívio do artista com a aristocracia portuguesa. Sua popularidade nos salões e, sobretudo, seu prestigio literário, tido como imerecido por figuras como Felinto Elísio, Nicolau Tolentino e o próprio Manoel Maria du Bocage, acabaram por desencadear a ira desses e de outros medalhões, que passaram a hostiliza-lo com feroz entusiasmo. Há mesmo um escrito do erudito doutor Antônio Ribeiro dos Santos, que condena, indignado, a influência de Caldas Barbosa sobre a juventude: “Eu não conheço um poeta mais prejudicial à educação [...] do que este trovador de Vênus e Cupido: a tafularia do amor, a meiguice do Brasil, e em geral a moleza americana, que faz o caráter das suas trovas, respiram os ares voluptuosos de Pafus e Cítara, e encantam com venenosos filtros a fantasia dos moços e o coração das damas”. O mais importante é que a estocada do doutor Ribeiro é atestado de que as modinhas de Caldas Barbosa eram tipicamente brasileiras, pouco tendo a ver com as modas lusitanas, tese defendida com empenho pelo historiador José Ramos Tinhorão.


Em 1798 foi publicado em Lisboa o volume I da Viola de Lereno: colecçao de improvisos e cantigas de Domingos Caldas Barbosa. Lereno Selinuntino era o nome arcádico adotado por Barbosa, uma homenagem ao também poeta Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622), o “Lereno Pastoral”. O livro registra o que de melhor se conhece de sua obra. No primeiro quarto do século XIX, saíram mais quatro edições desse volume, uma das quais (em 1884) publicada na Bahia. Em 1826 seria lançada, ainda em Lisboa, a primeira edição completa em dois volumes. Considerando-se o acanhado movimento editorial da época, o fato mostra que o livro foi um secesso. No século XX, novas edições seriam realizadas, duas das quais no Brasil (1944 e 1980).