O nosso companheiro Sérgio Ricardo


Durante os anos mais cruentos da Ditadura Militar que vigorou em nosso país, as ideias democrático-nacionais e revolucionárias pulularam não somente nos grandes embates do povo trabalhador contra o regime fascista — como na Marcha dos Cem Mil, na Batalha da Maria Antônia ou na Guerrilha do Araguaia —, mas também nas mais diferentes manifestações culturais. A ebulição artística do país, naquele momento, entrelaçou-se com pautas políticas de primeira ordem, e as exibiu em filmes, peças de teatro e discos de música popular. Dois movimentos, a MPB e o Cinema Novo, capitanearam uma juventude acoroçoada que, embora restrita ao idealismo inerente de sua classe social — a pequena burguesia —, soube, em grande medida, concatenar interesses com largas camadas das classes trabalhadoras, deixando um incontestável legado para a consciência nacional e popular.

O nosso companheiro Sérgio Ricardo, que tão bem interpretou as agruras dessas gerações, com um canto que ribomba consequente até os dias de hoje, emprestou a sua genialidade para estes dois movimentos — entre tantos outros. Do primeiro, pode dizer-se que foi um dos precursores; ao lado de Nara Leão e Chico de Assis, buscou romper com as temáticas despolitizadas da primeira geração de bossa-novistas, num projeto de nova representação musical que se utilizasse de materiais rurais e urbanos, além de letras condizentes com o que o Brasil atravessava — estava lançado o gérmen da MMPB (Moderna Música Popular Brasileira). Do segundo, o Cinema Novo, fora figura antológica, dirigindo e escrevendo roteiros para filmes, e os musicando, é claro. Os arranjos e interpretações da trilha sonora de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", compostos em parceria com Gláuber Rocha, lhe asseguram cadeira cativa na História da sétima arte brasileira.

Nos anos áureos da UNE (União Nacional dos Estudantes), Sérgio Ricardo integrara o CPC (Centro Popular de Cultura), apresentando-se em portas de fábricas, bairros periféricos e universidades. Ali, no calor das lutas de massas, fora forjado como artista; a partir de então, os elementos políticos de sua obra jamais o abandonariam. As canções "Calabouço" (inspirada em Edson Luís, estudante assassinado pelos militares), "Tocaia" (em homenagem a Lamarca), "Semente", "Sina de Lampião", "Canto Americano" e "Vou Renovar" atestam o lado do muro que nosso companheiro escolhera para andar.

O nosso companheiro, versátil violonista, antes de "trocar de mal" com a Bossa, viajou para Nova Iorque com Tom Jobim, Sérgio Mendes, João Gilberto e cia., tocando no famigerado Carnegie Hall e exbindo o jazz brasileiro para o mundo, em 1962. Naquela ocasião, tocou a sua Bossa — já não tão mais Bossa — "Zelão", definitivamente uma inflexão do que estava por vir:

"No fogo de um barracão Só se cozinha ilusão Restos que a feira deixou E ainda é pouco só Mas assim mesmo Zelão Dizia sempre a sorrir Um pobre ajuda outro pobre até melhorar"

("Zelão", Sérgio Ricardo)

A supracitada canção fizera tanto sucesso, que nosso companheiro fora motivado a fazer um filme baseado nela. Seu contumaz afã artístico o levara a comprar um barraco no morro do Vidigal, a fim de captar a verossimilhança da história que queria contar [1]. A experiência "antropológica", porém, não se limitou à feitura do filme: Sérgio se envolveu na luta daqueles trabalhadores contra a desapropriação de suas terras para construção de um hotel de luxo. Junto de Chico Buarque de Hollanda e Carlinhos Vergueiro, consegue uma representação legal para os moradores do Vidigal, levando-os à vitória nos tribunais. A mobilização toma vulto em detrimento do filme, e Sérgio começara a fazer shows para levantar fundos para aqueles moradores erguerem suas casas.

Suas parcerias dariam num texto a parte: com Carlos Drummond de Andrade compôs "Estória de João-Joana", único cordel do poeta [2]; com Chico Buarque, além da experiência militante no Vidigal, participara do Festival de Veradero em Cuba; com Ariano Suassuna participou do roteiro musical da peça — que depois virou filme — "O Auto da Compadecida" e com Geraldo Vandré gravara o LP "Juntos".

No cinema, além de Gláuber Rocha, fora parceiro de Ziraldo, Antônio Pitanga, Ruy Guerra e Dib Lufti (seu irmão). Seu primeiro longa-metragem, "Esse mundo é meu", acabara como fracasso de bilheteria: ninguém foi assistir. A data de estreia talvez explique: 1º de Abril de 1964 [3]. Àquela altura, quando o filme iniciava, as tropas golpistas já haviam saído de Minas Gerais para derrubar João Goulart. A amargura daquela "Quarta-feira de cinzas" (como diria outro brilhante compositor, dessa mesma safra, Carlos Lyra) impediu a juventude progressista, público-alvo do filme, de ir ao cinema. Em se tratanto de sua filmografia, ainda destacam-se — não em bilheteria, mas em notabilidade — "O Pássaro da Aldeia" (exibido no Líbano), "Juliana do amor perdido", "A noite do espantalho" (com músicas de Alceu Valença e Geraldo Azevedo) e o recente "Bandeira de Retalhos", que quebrou hiato de 44 anos, estreando em 2018.

Quase íamos nos esquecendo de dizer que nosso companheiro, Sérgio Ricardo, partiu nesta quinta feira (23), aos 88 anos, no Rio de Janeiro. Nosso companheiro, palmilhando o terreno político e lírico, cantou pelo futuro, cantou pelo Brasil, cantou por nós, herdeiros do continuum espírito nacional e democrático.

REFERÊNCIAS

[1] Site de Sérgio Ricardo. Aba "Biografia". Disponível em: https://www.sergioricardo.com.

[2] "Sérgio Ricardo", em Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: http://dicionariompb.com.br/sergio-ricardo

[3] "O ‘primeiro fracasso’ de Sérgio Ricardo foi no dia do golpe. Mas o mundo ainda é dele", de Vitor Nuzzi. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2014/03/o-primeiro-fracasso-de-sergio-ricardo-foi-no-dia-do-golpe-mas-o-mundo-ainda-e-dele-911/

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