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"A construção do Estado norte-coreano"


Parte 1

Em 23 de Janeiro de 1968, a Marinha do Exército Popular da Coreia capturou uma fragata americana perto de Wonsan, no mar a leste da República Popular Democrática da Coreia (a partir de agora, RPDC ou Coreia do Norte). O Pueblo era uma nau de tecnologia de ponta, pesando 1.000 toneladas de pura tecnologia de recolhimento de informações (espionagem) e com uma tripulação de 83 membros, a qual estava alegadamente conduzindo operações de vigilância eletrônica das bases militares norte-coreanas. Como resposta a uma das maiores humilhações nos 176 anos de história das forças navais estadunidenses, o Conselho de Segurança Nacional (CSN) norte-americano decidiu, na reunião conduzida em 24 e 25 de janeiro, tomar medidas retaliatórias e despachou forças militares para cercar a Coreia do Norte. Mais tarde, o CSN assinou um documento se desculpando por suas ações hostis e prometendo não mais repeti-las. O Choson (O Pictorial Coreano), um livro ilustrado mensal publicado em Pyongyang, publicou uma história sobre o incidente do Pueblo em seu número de janeiro de 2004 e enfatizou que “o Império Americano não deveria se esquecer da lição de 35 anos atrás e deveria conhecer a vontade resoluta do Choson de hoje”. A Difusora Central Coreana também se referiu ao acidente de maneira desafiadora, declarando que “a pior tragédia da América é que ela não conhece a Coreia do Norte” e que “em um confronto contra a Coreia do Norte, a América só conseguirá desgraça e morte”. Durante os exercícios militares conjuntos de 1999 entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, Pyongyang moveu o Pueblo de Wonsan pela costa leste, através do estreito coreano no Sul e subindo o rio Taedong a oeste para o colocar em exposição pública. O navio agora serve como encarnação da “história viva”, lembrando os norte-coreanos da ameaça americana e do imperativo de defender seu país. O Pueblo também serve como um útil aviso para todos os adversários da RPDC, contra os quais a ideologia nortista da Juche (chuch’e) de autoconfiança é constituída. A Coreia do Sul e os Estados Unidos, entretanto, ainda não absorveram totalmente o “pesadelo Pueblo”. À época do incidente, os Estados Unidos requisitaram à União Soviética que usasse sua influência sobre seu antigo “Estado satélite” para o convencer a entregar a tripulação capturada e o navio. Porém, a influência soviética se provou uma miragem, visto que Pyongyang se manteve firme face à pressão soviética e às demonstrações de força americanas. Lentamente, os americanos perceberam que a Coreia do Norte talvez não fosse o regime títere que eles imaginavam. Esse despertar brutal foi seguido, alguns anos depois, pela publicação de Comunismo na Coreia. Os autores, Robert A. Scalapino e Chong-sik Lee, proveram um ponto de vista alternativo à percepção americana prevalecente sobre a Coreia do Norte. Kim Il-Sung não era simplesmente um fantoche entronado pelos soviéticos, mas um líder comparável a vários outros comunistas que haviam lutado ativamente pela liberação do jugo do imperialismo japonês. Não obstante, o livro só foi longe o bastante para fornecer um estudo “relativístico” da RPDC e parou antes de traçar as raízes históricas e experiências pós-guerra da Coreia do Norte que pudessem dar conta do enfrentamento de Pyongyang quando do incidente do Pueblo e dos eventos subsequentes. Ao fim e ao cabo, tanto Comunismo na Coreia quanto os trabalhos subsequentes sobre o Norte falharam em ajustar as contas com o Juche, o princípio guia que define a RPDC como independente de pressões exteriores, insistente em seus próprios modos e mestra de seu próprio destino. Este artigo busca traçar as origens históricas passadas das instituições políticas norte-coreanas centradas no Juche. Na atual atmosfera polarizada, a qual permite apenas narrativas pró ou anti-Norte, não é fácil fazer avançar uma compreensão alternativa da divisão da Península Coreana e do estabelecimento da RPDC.[1] Felizmente, dois desenvolvimentos recentes facilitaram esta tarefa. Primeiro, um pode se guiar pela emergente literatura sobre os primeiros períodos da RPDC – ainda que muitos estudos se mantenham superficiais e parciais – produzidos particularmente por uma nova geração de acadêmicos nos Estados Unidos e na Coreia do Sul. Em segundo lugar, a abertura de fontes previamente não disponíveis, como os arquivos da Política Imperial Japonesa e os arquivos tomados pelo Exército Norte-Americano na Coreia durante Guerra da Coreia, ambos revelando profusamente sobre as origens e o caráter da formação do governo norte-coreano. Muitos relatos tradicionais ignoraram esses documentos.[2] Este artigo rejeita tanto os argumentos da “sovietização”, populares nos Estados Unidos e na Coreia do Sul, como da “revolução autopropelida”, tese defendida por acadêmicos norte-coreanos e narrativas oficiais do Norte. Em vez disso, ele articula uma perspectiva sintética de que a formação estatal do Norte é melhor compreendida como o resultado de interações recursivas entre estrangeiros – que buscavam exercer influência para configurar o Norte – e coreanos, particularmente o grupo de guerrilha antinipônico comandado por Kim Il-Sung, que lutou para manter sua autonomia. O Estado Juche do Norte emergiu desse cabo de guerra. Após tratar sobre o período desde a gênesis do movimento comunista coreano até os conflitos armados antinipônicos da década de 1930, este artigo apresenta as circunstâncias sobre as quais a Guerrilha Antinipônica emergiu como o centro da política norte-coreana e estabeleceu uma nação em meio às políticas de cooperação e conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética. Para condensar a discussão dos problemas do período de libertação esse artigo se limita à Conferência de Ministros Estrangeiros de Moscou e ao minjukijiron (argumento da base democrática). Ao remate, o artigo situa a emergência das instituições políticas do Norte no ainda inexplorado contexto histórico das contendas entre norte-coreanos e soviéticos sobre “unidade” e “subordinação”, “autonomia” e “criação”. “Sovietização” ou “Revolução Autopropelida” O Governo Militar dos Estados Unidos na Coreia primeiro introduziu a perspectiva do governo norte-coreano pós-libertação como um “Estado satélite” ou “títere” da União Soviética. Já em 29 de setembro de 1945, um oficial norte-americano descrevia a situação no Norte como “sovietização”: “Nesse meio tempo, existe pouco conhecimento das ações políticas ou das políticas de ocupação das forças russas ao Norte. Eles retiraram os japoneses e criaram governos locais, os quais funcionam estritamente sobre a base de um partido único. Existe mais que uma probabilidade de que eles venham a sovietizar a Coreia do Norte assim como sovietizaram o Leste Europeu.”[3] Essa visão foi fortalecida por estudos produzidos por agências governamentais norte-americanas, bem como por acadêmicos sul-coreanos. O Departamento de Estado, por exemplo, em um estudo produzido com base em materiais e testemunhos coletados na Coreia do Norte no final da década de 1950, caracterizou o regime do Norte como um “satélite soviético”.[4] A teoria da sovietização, que a academia americana havia originalmente desenvolvido sobre o contexto do Leste Europeu, foi sistematicamente aplicada à Coreia do Norte por acadêmicos como Yang Homin, Dae-sook Suh, Robert Scalapino, Chong-sik Lee e Erik van Ree. Ela proporcionava um enquadramento conceitual dentro do qual esses acadêmicos conferiam um sentido às suas respectivas observações sobre a RPDC.[5] Para os americanos que travavam da Guerra Fria, a teoria da sovietização fazia parecer óbvio que o governo da Coreia do Norte não era um ator autônomo e que a União Soviética era a responsável por dirigir a divisão da Península Coreana. Muitos fatos, todavia, se uniram para dar crédito à teoria da sovietização. Ao final da Segunda Guerra Mundial, os militares soviéticos avançaram rumo à Coreia do Norte e permaneceram como força de ocupação lá por alguns anos, guiando o regime recém-estabelecido rumo a um modelo de desenvolvimento stalinista. Começando pelo período de luta armada antinipônica, os comunistas norte-coreanos, liderados por Kim Il-Sung, tinham um histórico de apoio à União Soviética sob slogans como “Protegeremos a União Soviética com armas!” Ademais, os norte-coreanos desejavam um novo sistema político – um que diferisse da democracia burguesa – e um sistema econômico que fosse guiado não pelo mercado, mas por planejamento central, e não pelo lucro capitalista, mas por aspirações de elevar os meios de vida. Como um resultado, a teoria da sovietização acabou sendo o único e mais convincente roteiro conceitual para se entender a Coreia do Norte. A teoria da sovietização, entretanto, tinha um número de falhas severas. Para começar, o governo da Coreia do Norte não era um “governo vagão”[6] como muitos dos governos do Leste Europeu. Os comunistas coreanos não só tinham apoio popular no Norte, mas eles também mantiveram cuidadosamente uma distância da força de ocupação soviética desde seu início. Mesmo na devastação do período pós-Guerra das Coreias, Pyongyang manteve sua atitude desafiante perante tanto seu inimigo de guerra, Washington, como seu aliado, Moscou. Pyongyang era combativa o bastante, já então, para ganhar a rara distinção de ser rotulada por Moscou (muito antes de George W. Bush usar o mesmo rótulo meio século depois) como um “Estado pária – o último país com um sistema stalinista e certamente o país mais isolado do mundo”. A Coreia do Norte pode ser muitas coisas, mas um satélite soviético não é uma delas. Se os Estados Unidos e a Coreia do Sul estão dominados pela teoria da sovietização, o Norte oferece uma visão oposta. Bem cedo, acadêmicos no Norte desenvolveram a teoria Juche, que explica a formação do regime do Norte em termos de uma revolução democrática popular autóctone.[7] O Norte a oferece enquanto narrativa oficial, traçando as raízes históricas do regime até a luta armada antinipônica que Kim Il-Sung organizou e liderou.[8] De acordo com a versão oficial, a RPDC resultou da “Árdua Marcha” executada pelas guerrilhas antinipônicas que travou uma luta armada de liberação, independente dos comunistas chineses e soviéticos. A ajuda externa raramente é reconhecida como se qualquer admissão de ajuda fosse comprometer a pureza da luta autóctone e autocentrada que fundou e sustenta o país. As narrativas oficiais do Norte, entretanto, incorrem em dificuldades, assim como a teoria americana da sovietização. Os acadêmicos norte-coreanos não providenciam os detalhes das ações tomadas pela guerrilha de Kim Il-Sung imediatamente antes e depois da mesma se deslocar para a Coreia do Norte com medo que tais detalhes pudessem expor os limites da teoria da “revolução autopropelida”. Tampouco eles discutem, pelas mesmas razões, as influências exercidas e as mudanças forçadas pela União Soviética. A história oficial do Norte revela um viés de seleção bem orquestrado sobre fatos desconfortáveis – por exemplo, sobre as eleições separadas realizadas em 1948, para que Pyongyang não fosse acusada de ter pressionado pelo estabelecimento de um governo separado, consolidando, portanto, a divisão entre as Coreias. Ademais, normalmente se encontra o refrão de que a lacuna entre os objetivos políticos declarados de Pyongyang e os resultados factuais fora preenchida pelo gênio individual de Kim Il-Sung. Este artigo busca não explicar o caráter único de um indivíduo, mas analisar a estrutura social e o curso da história que propiciou a formação da estrutura de autoridade norte-coreana. Ao analisar o estabelecimento do sistema norte-coreano, deve-se evitar por um lado a perspectiva da sovietização e, por outro, a perspectiva da revolução autopropelida, ambas as quais colocam uma ênfase unilateral em um aspecto particular daquilo que é inerentemente uma complexa interação entre atores divergentes. A atual crise econômica do Norte[9] provê um caso em exame de ambas essas perspectivas, nenhuma das quais explica o problema que se tem à mão. Por exemplo, acadêmicos da Coreia do Sul e Estados Unidos, que enfatizam a dependência do Norte de forasteiros, explicam a crise econômica em termos de problemas internos com a perspectiva de revolução autopropelida do Norte. Acadêmicos da Coreia do Norte, por contraste, que salientam a autossuficiência de seu sistema, localizam as causas de suas dificuldades econômicas em fatores externos. Para se desenvolver um argumento coeso e coerente, este artigo busca ir além desses enquadramentos unilaterais. No começo dos anos 1990, um novo tipo de literatura que reconhecia tanto a influência forçada dos soviéticos como as dinâmicas internas da sociedade norte-coreana, surgiu, sintetizando ambas para explicar a trajetória do desenvolvimento do Norte.[10] Esse grupo de acadêmicos explicam a emergência do sistema norte-coreano em termos de fatores externos, como as origens da divisão da Coreia na Guerra Fria, bem como de fatores internos, como a tradição confucionista, o controle colonial japonês, o atraso da estrutura socioeconômica coreana e o sin kukka kõnsõl undong (Movimento de construção da nova nação). Graças aos seus esforços, o processo de formação estatal entre 17 de dezembro de 1945 e 9 de setembro de 1948 é agora melhor compreendido.[11] Para avançar ainda mais nossa compreensão, é importante traçar historicamente quais condições sociais herdou o exército de guerrilha antinipônico – o principal ator envolvido na formação do Estado. De igual maneira, uma perspectiva sintética ainda é necessária, uma que explique a formação estatal do Norte enquanto um processo dinâmico de fatores internos e externos enredados em uma relação causal recorrente. A falha dos trabalhos existentes em explicar a resiliência do Norte joga luz sobre essa necessidade. Se o Norte é, como argumentam alguns acadêmicos atuais, um governo estabelecido e sustentado pela União Soviética, por que ele não colapsou com a União Soviética como tantos outros “satélites” no Leste Europeu? Como é que o Norte, supostamente enquanto um regime títere da União Soviética, agora acusa Moscou de revisionismo e chama por uma “luta contra o revisionismo”? Ao mesmo tempo, como é que o Norte, supostamente um Estado autossuficiente, depende tão profusamente de fatores externos que, na sua ausência, levam a um colapso de sua agricultura? Qualquer explicação da formação do Estado do Norte deve confrontar esses problemas. A população norte-coreana temia o Exército soviético desde o primeiro dia de sua chegada e mesmo os comunistas coreanos mantiveram uma relação tênue com ele. O Exército soviético chegou como uma força de ocupação e fez esse fato ser conhecido pelos coreanos ao dar ordens e estabelecer diretivas. O Exército soviético depredou a economia do Norte ameaçando a subsistência de cidadãos comuns e exerceu livremente seu poderio militar, pondo em perigo suas vidas.[12] Enquanto atos criminosos cometidos por soldados soviéticos individuais não duraram, a União Soviética continuou a, por exemplo, expropriar plantas industriais, desmontando e enviando para a União Soviética os geradores elétricos da maior subestação de geração de energia, Sup’ung, no que era, à época, a Coreia. Tal atividade foi conduzida, supostamente, para coletar indenizações de guerra contra o Japão. O tamanho da expropriação soviética pode ser inferido de um relatório que reconhece que o comando de ocupação diretamente controlava a produção em 38 fábricas de indústria pesada e – pelos cinco meses cobertos no relatório – enviou 8.535 toneladas de bens dessas fábricas para a União Soviética sem nenhum tipo de compensação.[13] Apesar da União Soviética tentar estabelecer empreendimentos conjuntos, a Companhia Marítima Choson-Soviética e a Companhia de Petróleo Choson-Soviética são representantes do que ocorreu entre ambos os países. Essas companhias foram uma ferramenta para que os soviéticos assumissem o controle, sem investimentos extensivos, das principais industrias do Norte e abastecessem a União Soviética com recursos e produtos norte-coreanos. Os soviéticos tentaram até mesmo arrendar os três portos de Chongjin, Najin e Unggi da mesma forma que os britânicos haviam arrendado Hong Kong. A maior parte dos empréstimos fornecidos pela União Soviética eram esboçados para “fortalecer as posições econômicas soviéticas na Coreia do Norte”. Por fim, os empréstimos foram usados para pagar pelos gastos que os soviéticos incorreram ao produzir bens nas fábricas que seu Exército havia confiscado e para enviar tais produtos de volta à União Soviética. Os soviéticos não pagaram compensação pelos bens norte-coreanos que levaram.[14] Os norte-coreanos reagiram de uma forma previsível.[15] Eles viam os soviéticos com desprezo, tanto que a palavra rosûkke (russos) se tornou um termo depreciativo. Esses sentimentos de traição e ressentimento serviram como as sementes das quais slogans patrióticos cresceriam e se espalhariam. Um dos slogans popularizados chamava os norte-coreanos a defender sua identidade nacional: “mesmo que leiamos escritas estrangeiras, nossa mente deve ser enraizada em nosso próprio país”. Foi a partir desse ressentimento e desdém que o ethos do Juche se desenvolveu. Em oposição ao outro soviético, a nação norte-coreana nasceu. Em 3 de novembro de 1946, pela primeira vez, na Península Coreana o povo norte-coreano participou em eleições para os comitês provinciais, citadinos e de condados. Depois que o Comitê do Povo da Coreia do Norte foi estabelecido em 22 de fevereiro de 1947, os coreanos cada vez mais exerceram seu poder de tomar decisões e expressaram suas identidades de forma mais assertiva, com pouca consideração pela influência soviética. Essa mudança na balança de poder nas relações Coreia do Norte-soviéticos pode ser vista pelas lentes da mudança na quantidade de literatura soviética que foi traduzida e publicada na Coreia do Norte durante esse período. Como a tabela 1 mostra, o número de publicações traduzidas, produzidas pelo Departamento de Propaganda do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores e pela Choso Munhwa Hyophoe (Associação Cultural Coreano-Soviética), aumentou dramaticamente entre 1946 a 1947,[16] mas diminuiu consideravelmente em 1948. Ao mesmo tempo, a União Soviética promovia ao mundo a superioridade de seu sistema socialista energicamente, e a Coreia do Norte estava em uma posição apta a receber a “cultura avançada” soviética. A diminuição na tradução e publicação de literatura soviética, portanto, reflete uma diminuição da influência soviética sobre a Coreia do Norte. Ademais, o declínio nas publicações marxistas-leninistas, combinado com o fato que o Partido dos Trabalhadores da Coreia tinha um “número muito diminuto de ideólogos marxistas”[17] providenciou um chão fértil para o pensamento “no estilo coreano” e para a ideologia nacional estabelecerem suas raízes.

Os anos 1950 foram uma época de provação para o povo norte-coreano. Tendo sofrido um grau de devastação sem paralelos durante a Guerra da Coreia, eles foram deixados com desafios inevitáveis da reconstrução a partir das cinzas. Seus desafios se tornariam ainda mais complexos pela recusa soviética de providenciar toda a assistência necessária.[18] Os coreanos se tornariam ainda mais ressentidos vez que consideravam o comportamento soviético com uma traição do combativo povo norte-coreano.[19] Com a subida de Kruschev ao poder, as relações norte-coreano-soviéticas azedariam ainda mais. A União Soviética utilizava seu status de grande potência e exercia pressão para interferir nos negócios internos norte-coreanos. À medida que Pyongyang resistia, Moscou acusava o regime desafiador de ser uma “sociedade fechada” e “isolacionista”, usando os mesmos termos que o Ocidente invocaria décadas depois para criticar o Norte.[20] Em resposta, desde a metade até o final da década de 1950, o governo norte-coreano caracterizou a interferência soviética em seus negócios como “revisionismo moderno”. Sua oposição a esse revisionismo criou o momentum necessário para estabelecer o princípio Juche de “fazer as coisas do nosso jeito”. Como resultado, a Coreia do Norte desenvolveu um sistema único, diferente daquele dos Estados socialistas do Leste Europeu. Ainda que a Coreia do Norte possa dividir algumas das características básicas do Estado moderno e algumas das características comuns aos Estados socialistas, suas características peculiares resultam de suas primeiras interações com a União Soviética. Apenas no contexto histórico da luta do Norte contra ambos os “seus principais inimigos”, os Estados Unidos e seu suposto patrono, a União Soviética, é que se pode começar a entender a ênfase da RPDC na centralização ao redor de seu líder, “tradições e realizações revolucionárias”, a estratégia de sucessão e a “arte da liderança”.[21] Em resumo, o Juche, como instituição central norte-coreana, emergiu a um só tempo da oposição e da concordância com a União Soviética. Parte 2 O surgimento do governo popular da Coreia do Norte A modernidade na Europa Ocidental é caracterizada, dentre outras coisas, pela formação do Estado-nação, a ascensão do capitalismo e a formação ideológica do individualismo e do liberalismo. Em contraste, a modernidade na Península Coreana foi marcada pela luta pela soberania contra a colonização do imperialismo nipônico, o desenvolvimento de uma sociedade colonial semifeudal e a formação ideológica do coletivismo. Devido ao fato de o Estado coreano não ter emergido de um processo de diferenciação de desenvolvimento de uma sociedade civil, como é o caso dos Estados da Europa Ocidental, os coreanos tanto no Norte como no Sul distinguem dois períodos de sua modernidade: kundae (tempos recentes) e hyondae (tempos contemporâneos). O Estado norte-coreano emergiu a partir dos seguintes desenvolvimentos históricos: 1) o movimento de longa duração dos comunistas coreanos para construir um sistema de ditadura do proletariado; 2) sua solidariedade internacional com o Partido Comunista Chinês e; 3) a ocupação exclusiva da Coreia do Norte pelo Exército soviético imediatamente antes do término da Segunda Guerra Mundial. O movimento comunista e a luta armada antinipônica A base política e as origens históricas da inevitável formação de Estados separados na Península Coreana podem ser encontradas primeiro dentro do movimento comunista coreano. Mesmo tendo o Komintern retirado seu reconhecimento do Partido Comunista da Coreia enquanto um de seus ramos no final de 1928, os comunistas coreanos continuaram com suas atividades clandestinas por meio de organizações de massa, como sindicatos revolucionários e associações de camponeses. A tarefa deles era auxiliada pela grande ressonância da ideologia socialista e do pensamento reformista camponês tradicional, bem como pelos sentimentos dos camponeses e trabalhadores explorados pelo colonialismo nipônico. Apesar disso, até 1945, os comunistas não concretizaram uma organização centralizada que lideraria o esforço para estabelecer um novo Estado. As organizações comunistas haviam desempenhado um papel menor na luta pela soberania e exerceram uma influência limitada sobre as atividades próprias dos sindicatos dos trabalhadores e associações de camponeses. Após a derrota do movimento Primeiro de Maio (samil undong) em 1919, o centro do movimento de independência gravitou rumo à luta armada antinipônica, e todas as atividades militantes de grupos como o Movimento Exército da Independência, Exército da Liberação Nacional, Brigada de Voluntários Coreanos e a Unidade de Guerrilha Antinipônica, de Kim Il-Sung, cresceram em força. Durante sua longeva luta, o grupo de Kim Il-Sung se desenvolveu de Exército Popular da Guerrilha Antinipônica para Exército Revolucionário do Povo Coreano. Por uma combinação de fatores, emergiu como uma poderosa força política equipada com os alicerces ideológicos necessários para estabelecer o poder de um Estado popular (inmin chongkwori). Primeiramente, Kim Il-Sung era famoso por sua luta armada antinipônica durante os anos 1930. Após a libertação, ele foi recebido de forma triunfal de volta na Coreia como um herói lendário e a “estrela guia da libertação nacional”. O grupo de Kim Il-Sung ganhou popularidade ao vencer batalhas amplamente noticiadas, como a de Pochonbo, em 4 de junho de 1937, enquanto comunistas como Pak Honyong não eram tão conhecidos na população pelo fato de a maior parte de suas atividades ter sido conduzida de forma subterrânea. Segundo, como os guerrilheiros antinipônicos começaram a conduzir atividades partidárias enquanto membros do Partido Comunista Chinês e, também, por estarem, após 1940, sob o Comando Soviético do Extremo Oriente, tais atividades eram acima de tudo limitadas a projetos de construção partidária. Porém, transformando esse limite em uma vantagem, eles se engajaram ativamente na organização de células partidárias em muitas comunidades locais, o que acabou expandindo e fortalecendo suas influências. [22] Ao contrário de Pak Honyong – que, após a libertação, reuniu os seus e tentou consolidar seu poder no centro nacional de Seul –, Kim Il-Sung continuou sua prática de estabelecer bases nas províncias no sentido de propagar sua influência e eventualmente cercar e tomar o centro do país.[23] Terceiro, a guerrilha antinipônica havia desenvolvido uma identidade mais coerente que outros grupos políticos dentro ou fora da Coreia à época. Eles ganharam bastante confiança pelo fato de terem conseguido superar a brutal campanha “anti-minsaengdan”[24] e a chamada “Marcha Árdua”,[25] o que os diferenciava de outros grupos comunistas. Após a libertação, eles divulgaram suas experiências enquanto “caráter e disciplina revolucionárias”, elevando-se como padrão normativo para grupos políticos em busca do poder, o que viria a ter profundas consequências.[26] Por um lado, tal caracterização levou a lutas faccionais, posto que outros grupos comunistas ou nacionalistas que também haviam participado do movimento de libertação nacional[27] não eram tão valorizados quanto as guerrilhas antinipônicas e seus primeiros seguidores. Por outro, tornou-se uma tendência confiar e promover, enquanto elites de poder norte-coreanas, os graduados da Escola Revolucionária Mangyongdae (Mangyongdae hyongmyong hagwon), cuja maioria dos frequentadores pertencia aos descendentes das guerrilhas. Quarto, a Unidade de Guerrilha Antinipônica tinha a experiência de estabelecer uma base de guerrilha e formar uma organização de massa sob condições difíceis.[28] Como será discutido mais tarde, tal experiência lançou as bases para a tese da “base revolucionária democrática”, que justificava o estabelecimento de um governo separado no Norte e consolidou a divisão. Quinto, as experiências das guerrilhas antinipônicas guiaram suas decisões no processo de criação do Exército do Povo Coreano. Eles primeiro formaram pequenas unidades nas províncias e depois as integraram em um único e grande Exército por meio de um anúncio oficial. Apesar da Guerrilha Antinipônica ter feito compromissos e até mesmo concessões a outras facções, tomando um lugar secundário em muitas das estruturas burocráticas do governo, ela controlava diretamente o Exército sob todas as circunstâncias. Ela aceitava as manobras táticas, pois havia aprendido com suas próprias experiências de guerrilha aquilo que Mao Tsé-Tung havia popularizado: “o poder político nasce do cano do fuzil”.[29] A origem do conceito de songun (prioridade militar), comumente mencionado na Coreia do Norte de hoje, pode ser relacionado às práticas da Unidade de Guerrilha Antinipônica deste período. Sexto, Kim Il-Sung se baseou em sua experiência de forjar alianças para formular a política de construção de uma frente popular na Coreia do Norte pós-libertação. Durante as campanhas antinipônicas, o grupo de Kim trabalhou assiduamente para estabelecer uma frente anti-imperialista unida, com todas as forças – independentemente de suas origens regionais ou de classe – que lutassem contra os japoneses.[30] Encorajado por seu sucesso nessa empreitada, Kim estabeleceu um princípio da atividade do Partido para a construção de uma “Frente Unida Nacional Democrática”, baseada na aliança entre trabalhadores e camponeses, e desenvolveu políticas que privilegiavam as massas em detrimento das elites, bem como o estado subjetivo daquelas massas em detrimento de suas condições materiais. Esses princípios foram posteriormente formalizados em motes como “o trabalho é feito pelo povo, mas a revolução é conduzida pelas massas” e “a revolução não é alcançada pela origem social das pessoas, mas sim por seu pensamento.” Não apenas o grupo de Kim habilmente explorou sua longa e dura luta armada antinipônica para legitimar sua acumulação gradual de poder, mas também elevou esses seis pontos ora mostrados como os únicos princípios operativos internos do Estado norte-coreano. Com o passar do tempo, essas seis características se institucionalizaram de tal forma que elas coletivamente se tornaram tanto a base para a unidade partidária de Kim pelos próximos 60 anos como o mecanismo que reproduz seu poder centralizado. Relações com o Partido Comunista Chinês e a União Soviética Apesar dos coreanos terem participado ativamente da Revolução Chinesa durante o período colonial, muitos deles tinham dificuldades de trabalhar com os comunistas chineses. Em agosto de 1930, quando os comunistas coreanos decidiram cessar seus esforços para reestabelecer o Partido Comunista Coreano e, em vez disso, juntaram-se ao Comitê da Manchúria do Partido Comunista Chinês (PCCh), o PCCh ignorou seus esforços. Com uma boa dose de ceticismo, o PCCh comentou a respeito dos comunistas coreanos: “[…] apesar de muita energia ter sido gasta no Movimento Coreano na Manchúria desde o passado até o presente, não apenas a colheita tem sido diminuta, mas o domínio ideológico tem sido fraco”. Em particular, as pessoas associadas com o grupo ML (Marxista-Leninista) eram apontadas como uma fonte potencial de sectarismo, com o PCCh chegando ao ponto de baní-las da possibilidade de tomar posição de liderança dentro do Partido.[31] Kim Il-Sung, em contraste, ocupava uma posição de alto nível no PCCh e construiu um relacionamento de sucesso com seus camaradas chineses.[32] Ele participou no estabelecimento do Exército Aliado Antinipônico, uma unidade militar integrada de soldados coreanos e chineses, e trabalhou com os comunistas chineses para estabelecer a Frente Unida Anti-imperialista. O PCCh o via como um líder que era “tranquilo sob pressão, esperto e um comandante admirável”.[33] Zhou Baozhong chegou mesmo a relatar ao Comando do Exército Soviético do Extremo Oriente que “Kim Il-Sung é um excelente comandante militar[…] Entre os camaradas coreanos no Partido Comunista Chinês, ele é bastante superior. Ele pode desempenhar importantes tarefas no sul da Manchúria, a oeste do rio Amnok e na Coreia do Norte”.[34] As experiências de Kim Il-Sung e seus colegas no PCCh foram amplamente utilizadas na Coreia do Norte pós-libertação. Os laços de amizade forjados nesse período continuaram a prover uma sólida base para a solidariedade ideológica e algumas vezes pessoal entre o PCCh e o governo norte-coreano.[35] Ainda mais, sem o apoio do PCCh e da República Popular da China, teria sido muito mais difícil para o governo norte-coreano manter sua independência da União Soviética, e o destino da Coreia, como consequência, teria sido mais próximo àquele dos países do Leste Europeu, cuja autonomia foi afetada. 23 de outubro de 1940 marcou um ponto de viragem nas relações de Kim com os comunistas estrangeiros enquanto sua unidade de guerrilha se deslocava para Khabarovsk, na União Soviética. Kim estabeleceu uma base temporária na região do monte Paektu, no extremo leste da Sibéria, para dirigir ações de unidades menores na Coreia e no sudeste da Manchúria. Enquanto permaneceu na União Soviética, ele frequentemente se encontrava com o comandante do Primeiro Exército Aliado do Extremo-Oriente da União Soviética, K. A. Merichikov, bem como com o membro do comitê militar, T. F. Shtikov. Kim Il-Sung visitou Moscou antes da União Soviética declarar confrontos abertos contra o Japão e também se encontrou com A. Zhukov, comandante supremo do Exército Soviético de Ocupação da Alemanha e representante Soviético para a Autoridade de Ocupação Alemã, e A. Zhdanov, secretário do Comissariado de Assuntos Políticos do Partido Comunista da União Soviética[36]. Ter se encontrado com os altos líderes soviéticos e aqueles responsáveis pela administração na prática foi um importante passo político para Kim Il-Sung, que, mais tarde, se tornaria o líde