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"Ciência e tecnologia como o caminho para o progresso econômico da RPDC"


Introdução

A Coreia do Norte é comprovadamente o país mais sancionado da terra. As sanções estadunidenses contra a Coreia do Norte têm estado em vigor desde a década de 1950 e uma série de resoluções da ONU na última década proibiu, entre outras coisas, a exportação de carvão, ferro e marisco, proibindo ainda de exportar têxteis, petróleo e efectuar empreendimentos conjuntos (joint ventures), assim como os norte-coreanos de trabalharem em outros países. Por que, então, o país até agora não entrou em colapso? Há apenas duas décadas, imagens de macilentas crianças norte-coreanas inundavam a Internet e a maior parte dos observadores previa a morte iminente do país. Mas relatos recentes de pessoas que viajaram ali – antes da proibição de viagens feita por Trump – descrevem um quadro de crescimento económico implausível: altos edifícios de apartamentos, supermercados plenamente abastecidos e norte-coreanos a descansarem em praias ensolaradas, parques aquáticos e estações de esqui. Como é que o país foi capaz de desafiar o labirinto das sanções internacionais e dos EUA para prosseguir a sua "linha Byungjin", a política de buscar progresso paralelo da dissuasão nuclear e do desenvolvimento económico? A maior parte dos sabichões aponta a China como resposta. Se os Estados Unidos pudessem persuadir a China a honrar as sanções internacionais, queixam-se ele, então poderia controlar a beligerante Coreia do Norte. Mas essa lógica assume que a China possui retém todos os cordéis da economia norte-coreana e passa por alto o engenho e os sacrifícios do povo norte-coreano na sua luta para construir um sistema económico que possa aguentar as sanções. A investigação de Kim Soobok sobre a ciência e a tecnologia na Coreia do Norte – baseada em múltiplas viagens ali efectuadas entre 2012 e 2015, além de entrevistas com académicos e peritos norte-coreanos – dá-nos um vislumbre do recente desenvolvimento económico do país e da proeminência dada à ciência e tecnologia nesse processo. As descobertas de Kim também nos dão uma perspectiva sobre a Coreia do Norte que é impossível alcançar do retrato uni-dimensional do país como pária internacional, apresentado pelos media corporativos. Kim apresenta a sua investigação numa série de quatro partes. A primeira discute o período de grave adversidade na Coreia do Norte nas décadas de 1990 e 2000, habitualmente mencionada pelos norte-coreanos como a "Marcha Árdua" e a importância que o país atribuiu à ciência e tecnologia para reconstruir a sua economia. A parte dois discute a solução inovadora da Coreia do Norte para a sua crise energética e a sua luta de duas décadas para irrigar suas terras agrícolas com consumo elétrico significativamente menor do que na era anterior. A parte três discute os avanços do país na produção de fertilizantes e a sua correlação direta com o progresso para alcançar a autossuficiência alimentar. E a parte quatro discute avanços na hidropônica e na utilização da energia solar e geotérmica para construir estufas colectivas a fim de alcançar autossuficiência alimentar e toda a sociedade. Mas em primeiro lugar, uma palavra acerca do autor. Kim Soobok reside em Nova Jersey e propõe desde há muito a reunificação pacífica da península coreana. O seu interesse na ciência e tecnologia da Coreia do Norte começou em 2009 quando fez parte de um grupo de estudo sobre a história coreana. Ele e vários amigos participam da divisão local do Comité 15 de Junho para a Reunificação Pacífica e encontram-se de modo informal nas casas uns dos outros para se conhecerem e reaprenderem a história coreana. A primeira coisa que leram em conjunto foi "Duas Coreias, um futuro" ("Two Koreas, One Future"), um relatório publicado em 1986 pelo American Friends Service Committee com capítulos dos historiadores Bruce Cumings e Jon Halliday. Kim recorda-se de alcançar a compreensão do relatório, escrito em inglês – que não é a sua língua mãe – como um processo laborioso pois ele e os seus amigos tinham de procurar praticamente cada palavra no dicionário inglês-coreano. Depois de um ano de encontros regulares, o grupo esgotou sua lista de leituras e não conseguir encontrar novo material para estudar. Assim, decidiram que cada pessoa deveria escolher uma área de interesse e fazer a sua própria investigação sobre esse tópico a fim de apresenta-la ao resto do grupo. Kim sabia o que queria estudar: a crise alimentar e energética da Coreia do Norte. A Coreia do Norte acaba de sair do período conhecido como a "Marcha Árdua", marcado por escassez alimentar em massa. Muitos no ocidente familiarizaram-se com as imagens de norte-coreanos famélicos que circularam amplamente na Internet. "Naquele tempo, vídeos com testemunhos de desertores norte-coreanos estavam a circular no Youtube", explicou Kim. "Eles falavam acerca de famélicos norte-coreanos a comerem carne humana e coisas assim. Não acrediteis naquelas narrativas mas não sabia o que era verdade". Assim, ele decidiu investigar mais profundamente e descobrir o que a Coreia do Norte estava a fazer para alimentar o seu povo e gerar energia. Kim pesquisou intensamente na Internet e acabou por saber do famoso químico norte-coreano Ri Sung-gi, mais conhecido por inventar o tecido sintético Vinalon.

"O entendimento do trabalho de Ri Sung-gi sobre o "têxtil juche" abriu os meus olhos para a filosofia da auto-confiança", disse Kim Soobok. Ele queria aprender mais e começou então a sua trajectória de estudo da ciência e tecnologia na Coreia do Norte. Kim visitou a Coreia do Norte múltiplas vezes de 2012 a 2015 e viajou por muitas regiões, incluindo Nampo, Pyongsong, Anju, Namhung, Wonsan, Geumgangsan, Gaesong e a municipalidade de Saepo County, ao norte da DMZ [zona desmilitarizada]. Ali, ele visitou o Instituto de Ciência Vegetal Pyongyang, o Complexo Siderúrgico Chollima, o Complexo Químico da Juventude Namhung, a Fábrica de Telhas Chollima, os Pomares do Rio Daedong, o departamento de biologia da Academia Nacional de Ciências, a Rua dos Cientistas de Satélites e um centro de pecuária na Municipalidade de Saepo. A cada ida visitou também a feira internacional de comércio efectuada duas vezes por ano em Pyongyang e entrevistou peritos da Grande Sala de Estudos do Povo e da Academia Nacional de Ciências, bem como várias universidades, para aprender acerca dos sectores alimentar e energético da Coreia do Norte. "Podem-se encontrar vídeos na Internet acerca destes lugares, mas aprendi muito mais por realmente estar ali pessoalmente e conversar directamente com as pessoas", diz Kim. "Cada dia era tão interessante que o tempo voava". Kim nunca estudou ciência, a qual sempre considerou como campo especializado reservado a peritos. Mas na Coreia do Norte ele descobriu que a ciência não é algo fora do alcance de pessoas comuns e ficou surpreendido pelo modo como aplicavam conhecimento científico simples para melhorar suas vidas quotidianas. "Se cientistas fossem à Coreia do Norte teriam muito a aprender e a fazer ali", afirmou. "Quero partilhar o que vi com pessoas daqui e ampliar o nosso entendimento do país". Devido à proibição de viagens de Trump, Kim já não pode mais viajar à Coreia do Norte. No ano passado ele planeara comparecer à Feira Comercial Internacional de Rason e à Feira Comercial Internacional de Pyongyang e desejara aprender mais acerca do "fluxo em canais naturais" (os quais discute em profundidade na parte um desta série). Ele também planear comparecer ao Chuseok, o feriado nacional que celebra o fim da colheita, juntamente com os prisioneiros políticos repatriados que sofreram longas penas (os quais haviam sido aprisionados na Coreia do Sul durante as ditaduras de Syngman Rhee, Park Chung-hee e Chun Doo-hwan, sendo libertados e repatriados para o norte por ocasião da histórica cimerica Kim Dae-jung-Kim Jong-il, em 15 de Junho de 2000). O mais recente conjunto de sanções de Trump à Coreia do Norte impediu Kim de estudar o país sob outros aspectos. Relatos no Youtube de vídeos educacionais sobre a Coreia do Norte foram encerrados. "Dois anos de colecta de vídeos desapareceram da noite para o dia", disse Kim. Ele arrepende-se de não ter tido a previdência de guardar os ficheiros no seu disco duro. As descobertas que Kim apresenta nesta série de artigos fazem parte de um trabalho que estava em andamento quando a proibição de viagens de Trump o forçou a pô-lo em suspenso por tempo indefinido. Embora incompleta, a sua investigação, espera ele, pode contribuir para um melhor entendimento da Coreia do Norte e do seu povo.

06 de fevereiro de 2018

Ciência e tecnologia como o caminho para o progresso econômico

Após o colapso da União Soviética e do Bloco do Leste, na década de 1990, a Coreia do Norte perdeu oitenta por cento do seu comércio e assistiu a um declínio drástico na sua capacidade de importar petróleo. Imagine tentar sobreviver após uma queda súbita de oitenta por cento do seu próprio rendimento. É uma analogia imperfeita mas pode nos dar uma ideia da situação pavorosa do país naquele tempo.

Em Julho de 1994, em meio a esta crise, Kim Il-sung, o líder supremo do povo norte-coreano desde os tempos da luta armada anti-japonesa, faleceu subitamente. Para coroar tudo isto, nos Verões de 1995 e 1997 uma série de grandes inundações devastou o país numa escala sem precedentes.

Oitenta por cento da Coreia do Norte é montanhosa e a extração do carvão e minerais subterrâneos é a artéria vital da indústria norte-coreana. Era preciso bombear para fora rapidamente a água a fim de restaurar suas milhares de minas subterrâneas devastadas pelas inundações, mas a crise energética do país atingia o máximo e não havia eletricidade para operar as bombas. A fibra sintética vinalon, extraída do carvão, era a base material para a maior parte do vestuário da Coreia do Norte, mas sem o carvão o país já não podia produzir têxteis. Com o minério de ferro também submerso, a produção de aço chegou a um impasse. Mas a maior dificuldade era a incapacidade da agricultura para alimentar o povo. Sem combustível, o país não podia bombear água para irrigar os campos de arroz. E o declínio nas importações de petróleo significava que a Coreia do Norte já não podia produzir fertilizantes baseados na nafta, um subproduto da refinação de petróleo. Esta agricultura devastada e o congelamento da produção de cereais marcaram o início do período conhecido como "Marcha Árdua". Levou muitos anos para a Coreia do Norte restaurar suas minas de carvão e normalizar a produção. Os leitores nos Estados Unidos recordam-se do Furacão Sandy, o qual varreu partes de Nova Jersey e Nova York em Outubro de 2012. Ele derrubou ramos de árvores que já estavam sobrecarregadas por uma queda de neve anterior. Um ramo arrancado caiu sobre numa linha de transporte de eletricidade e isto provocou uma explosão numa subestação, a qual levou a um apagão numa vasta região que perdurou durante vários dias. A minha casa ficou sem eletricidade durante onze dias. Não podíamos cozinhar e não tínhamos calor, de modo que todos na minha família ficaram doentes. Acendemos velas e passámos noites a tiritar debaixo de cobertores. Os postos de gasolina não tinham eletricidade para operar as bombas. Os poucos que tinham geradores para ficarem abertos tinham filas infindáveis de pessoas. Isto aconteceu nos Estados Unidos, os quais se consideram o país mais avançado, devido a um ramo de árvore caído após alguns dias de ventos fortes. Imagine o dano sofrido pelos norte-coreanos quando todo o país ficou submerso. Sem alimentos nem calor num país onde os invernos são longos e cruéis, o que terá experimentado o povo norte-coreano? Enquanto isso, a Coreia do Sul ostentava o seu status como um dos dez países mais ricos do mundo e o seu povo gastava de maneira frívola seu rendimento disponível em férias além-mar. Os novos-ricos da Coreia do Sul deleitavam-se no laser ocioso em campos de golfe e bares na região autónoma coreana de Yanbian, na China. A administração do sul dessa época, de Kim Young-sam, aplicou todos os meios de pressão sobre o Japão para que abandonasse seu compromisso de enviar ao norte 50 mil toneladas de arroz como ajuda humanitária. Os Estados Unidos e a Coreia do Sul preparavam-se para o colapso da Coreia do Norte através dos seus numerosos exercícios militares conjuntos e os serviços de inteligência sul-coreanos encorajavam os media a divulgarem a previsão de que a Coreia do Norte entraria em colapso dentro de três semanas ou três meses, no máximo três anos. Os norte-coreanos não falam muito acerca das suas dificuldades durante a Marcha Árdua. O que eles sofreram é inimaginável para o resto do mundo, mas têm grande orgulho no facto de que sobreviveram à beira do colapso e alcançaram o que consideram uma ressurreição tal como a fênix, através do próprio esforço e da adesão à sua filosofia nacional da autoconfiança. Eles têm grande fé na sua liderança e encaram a vitória na luta armada contra o Japão colonial, da geração anterior, como uma inspiração para a sua luta atual. Após dezesseis longos anos de dificuldades, em 2008-2009 a Coreia do Norte finalmente começou a normalizar a produção em todas as indústrias nacionais. Ela declarou 2012, o qual assinalou o centenário do nascimento de Kim Il-sung, como o ano da "abertura da porta rumo a uma nação forte e próspera". A aparentemente miraculosa recuperação da Coreia do Norte quando estava à beira do colapso resultou de decisões políticas chave tomadas pelo então líder norte-coreano Kim Jong-il o qual, em meio à sua própria batalha com o câncer, dirigiu o país no sentido de centrar-se no desenvolvimento da ciência e tecnologia na reconstrução das suas indústrias com base na filosofia da auto-confiança. Mesmo na altura da sua crise econômica, a Coreia do Norte, pensando à frente, decidiu apertar o cinto e atribuir seus recursos limitados ao desenvolvimento tecnológico a invés de compras de alimentos a curto prazo. Numa inspecção local a uma fábrica subterrânea de tornos automáticos, em 1995, Kim anteviu não apenas a restauração das fábricas aflitas do país como também o seu redesenho e reequipamento com tecnologia de vanguarda. A auto-confiança e a importância da Ciência e Tecnologia O princípio da autoconfiança – de que se pode e deve resolver os problemas utilizando seus próprios recursos e aptidões e não se tornar dependente de potências estrangeiras – foi a filosofia condutora do líder fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, desde a luta anticolonial do povo coreano contra os japoneses. E esta tem sido a filosofia condutora do país desde então. A experiência da Coreia do Norte durante a Guerra Coreana – quando países que haviam prometido apoiá-la não cumpriram o fornecimento de armamentos no seu momento de necessidade desesperada – reafirmou a sua crença de que para garantir a sua sobrevivência ela não pode confiar em outros e precisa desenvolver os seus próprios recursos. Kim Jong-un, seguindo os passos do seu pai e do seu avô, dá a mais alta prioridade ao desenvolvimento da ciência e tecnologia como o motor por trás da construção de uma "forte nação socialista" e encara os projectos dos cientistas como a chave para melhorar o sustento económico do povo. Em 2013, o comité central do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte anunciou um esboço dos seus planos para o "desenvolvimento da ciência e tecnologia na era de Kim Jong-un" e sua "Linha Byungjin", isto é, o desenvolvimento simultâneo da sua dissuasão nuclear e da economia. Esta delineou as seguintes prioridades principais que o país deveria resolver através da ciência e da tecnologia:

Aumentar a produção de cereais; Atender as necessidades energéticas do país; Utilizar recursos e know-how internos para criar uma "economia popular auto-susentada"; Modernizar a economia popular e alcançar a automação e integração da produção utilizando tecnologia de controle numérico por computador; e Fazer da ciência a base de todos os aspectos da sociedade, tais como gestão económica, educação, cuidados de saúde, atletismo, administração da terra, etc.

O objectivo declarado da Coreia do Norte é tornar-se uma sociedade em que o povo não mais de suor e trabalho para conseguir um escasso mínimo mas sim para viver confortavelmente através dos frutos do avanço científico e tecnológico. Kim Jong-un, mantendo o lema do seu pai, "Ponha os pé na sua terra e os olhos sobre o mundo", instruiu os membros do partido a elevarem a ciência e tecnologia da nação a um "nível globalmente competitivo" e a adquirir know-how avançado em indústrias de alta tecnologia, tais como as da informação, nanotecnologia e bio-engenharia. Os cientistas na Coreia do Norte são altamente valorizados pelo serviço que prestam ao país e recebem tratamento preferencial. Sob a liderança de Kim Jong-un, a Coreia do Norte construiu complexos residenciais completamente novas para o pessoal de ensino da Universidade Kim Il-sung e para o Instituto de Tecnologia Kim Chaek, tendo destinado ruas inteiras com complexos de apartamento a cientistas envolvidos no Unha Rocket e nos programas de lançamento de satélites. O país também construiu uma área de lazer reservada unicamente a cientistas no Lago Yeonpung, próximo da cidade de Gaechon. "Tornar todo o povo em talentos científicos e técnicos" é uma palavra de ordem nacional na Coreia do Norte. O partido estimula todo o povo, incluindo trabalhadores e agricultores, a tornarem-se pensados e inovadores científicos nos seus respectivos campos. A Academia Nacional de Ciência, a Academia Nacional de Ciência da Agricultura e a Academia Nacional de Ciência Médica trabalham em estreita colaboração com produtores em indústrias básicas e essenciais para promoverem as suas capacidades tecnológicas e capacitarem trabalhadores e agricultores a inovar novas tecnologias. Nas próximas três partes discutirei o papel da ciência no aumento da produção de cereais na Coreia do Norte. Os requisitos chave para a produção cerealífera são fertilizantes, água, sementes e terra. Realmente, a pessoa que cultiva a terra é a mais importante, mas isso é outra discussão. A parte dois centra-se na luta de duas décadas da Coreia do Norte para obter água para os campos e a parte três acerca de avanços na produção de fertilizante. Sementes e terra são assuntos para nova investigação se no futuro eu tiver a oportunidade de viajar à Coreia do Norte no futuro.

Hidráulica na Coreia do Norte

Irrigar os campos – uma luta de duas décadas

Durante a ocupação da Coreia pelo Japão (1910-1945), o governo colonial retirava todo o arroz da Coreia em benefício do Japão, deixando quase nada para os coreanos. Ter arroz com caldo de carne naquela época era um luxo pelo qual toda a gente ansiava. Assim, imediatamente após a libertação, o aumento da produção de arroz tornou-se a principal prioridade agrícola da Coreia do Norte. Segundo Jo Byeong-heon, sul-coreano perito em assuntos norte-coreanos, a Coreia do Norte construiu 40 mil quilómetros de canais de irrigação, bem como cerca de 1700 reservatórios e 25 mil estações de bombagem no período a seguir à libertação. No princípio da década de 1960, o país construiu mais 50 mil estações de bombagem nas áreas agrícolas e irrigou completamente toda a sua agricultura. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a Coreia do Norte sistematicamente produziu 3,5 a 4,3 milhões de toneladas de cereais por ano durante a década de 1960, bem como 5 a 6,5 milhões de toneladas nas décadas de 1970 e 1980. Esse número ascendeu firmemente para as 9 milhões de toneladas/ano em 1993, mas decaiu para 2,6 milhões em 1996, na altura da Marcha Árdua. Quando a alta súbita nas importações de combustíveis e a escassez de eletricidade no princípio da década de 1990 paralisaram as estações de bombagem e a água já não podia chegar às terras agrícolas, a Coreia do Norte procurou respostas na ciência. Ela precisava de meios de irrigar sua agricultura sem depender da eletricidade e chegou a uma ideia simples mas radical. A ideia baseou-se no princípio da gravidade. Oitenta por cento da terra da Coreia do Norte é constituída por montanhas e terras altas onde a água da chuva se acumula naturalmente. Assim, os seus cientistas consideraram: se se puder conduzir a água dos cumes das montanhas para que fluam até as áreas agrícolas, já não serão mais precisas as estações de bombagem que consomem tanta eletricidade. Assim, a Coreia do Norte começou a construir barragens em cotas altas, nas montanhas, e escavou centenas de quilômetros de canais a fim de conduzir a água para as planícies. Sem combustíveis para alimentar equipamento pesado, a construção, sobretudo em terreno montanhoso acidentado, foi toda feita por trabalho humano. Unidades voluntárias de dezenas de milhares de trabalhadores, agricultores, jovens e mulheres das províncias e cidades de todo o país vieram participar juntos neste projeto massivo de construção. A construção principiou em 1999 e um novo projeto de canal foi completado em média a cada três anos. Transportar betão e equipamentos por centenas de quilómetros para o local da construção através de estradas más e com tempo inclemente não foi uma façanha fácil. E alimentar, vestir e abrigar dezenas de milhares de voluntários exigiu um nível de organização notável. As equipes de construção, sobretudo jovens, aguentaram condições penosas nas montanhas, onde as temperaturas facilmente caem para 40º Celsius negativos nos meses mais frios do inverno. Elas cavaram túneis, centímetro a centímetro, para conduzir a água através das montanhas. Empurraram vagonetas cheias de entulho e rochas através de caminhos longos e estreitos, muitas vezes em subida, e transportaram materiais pesados com água até à cintura. Um vídeo norte-coreano de locais de construção recentes mostra pessoas que parecem sólidas e bem equipadas, mas em vídeos anteriores a maior parte dos trabalhadores parecia esquelética e estava de mãos nuas. Muito longe das suas famílias, eles cuidavam-se uns aos outros quando ficavam doentes.

O Estado cuidou dos filhos dos homens e mulheres que se voluntariaram para a construção dos canais nos seus muitos infantários por todo o país e nos centros de cuidados infantis próximos dos estaleiros de construção. Também estabeleceu áreas de descanso e recreação para os tempos livres das equipes de trabalho. Canções dedicadas à construção de canais descreviam-nos como heróis nacionais e o governo central homenageou aqueles que morreram a trabalhar nos canais como mártires revolucionários, concedendo as mais altas honras às suas famílias. Se realmente entendermos o que custou ao povo da Coreia do Norte construir os "canais de fluxo natural" sob as mais amargas condições durante a Marcha Árdua, então entenderemos a resiliência que hoje fortalece a sociedade norte-coreana. Eis alguns dos canais que a Coreia do Norte completou nas últimas décadas ou que estão atualmente em construção: A construção do canal Gaechon-Lago Taesong começou em Novembro de 1999 e foi completada em Outubro de 2002. Ele estende-se por 100 milhas [160,9 km] e consiste de 90 canais em túnel e 21 reservatórios. Milhares de trabalhadores voluntários construíram uma barragem maciça em Daegak-ri na Cidade de Gaechon e escavaram canais através de Sunchon, Pyongwon, Daedong e Jeungsan até o Lago Taesong na Cidade Nampo. A barragem em Daegak-ri eleva o nível da água do Rio Daedong e, deste modo, a água pode fluir naturalmente para várias regiões na Província Pyongan Sul, a jusante, através de canais feitos pelo homem, sem a utilização de energia eléctrica

O canal irriga 245 mil acres [99.147 hectares]. A província já não precisa das 380 estações de bombagem e 530 bombas de água que utilizava anteriormente e pode portanto poupar 60 megawatts-hora de electricidade por ano. O canal também proporciona água potável e ajuda a província a cumprir seus objectivos gerais de gestão da água, incluindo a prevenção de inundações na bacia do Rio Jaeryong. A província também construiu numerosas pequenas e médias hidroeléctricas ao longo do canal. O canal Baekma-Cholsan é constituído por uma barragem em Baekma no Município Pihyun, Sinuiju e 174 milhas [280 km] de canais (ver Figura 1). A construção começou em Maio de 2003 e foi completada em Maio de 2005. O canal irriga aproximadamente 112 mil acres [45.325 hectares] e aumentou a produção anual de cereais em 100 mil toneladas por ano. A construção começou em Fevereiro de 2016 e ainda está em curso. Ele começa no Lago Yeonpung, bem conhecido como área de repouso para os cientistas do país, próximo da Cidade de Gaechon, 65 milhas [105 km] a norte de Pyongyang. Ele conduzirá a água da região superior do Rio Chongchon para regiões não alcançadas pelo canal Gaechon-Lago Taesong: Gaechon, Sonam, Dokchon, etc (ver figura 1). Canal Mirubol A região Mirubol costumava bombar água do Rio Namgang, um afluente do Rio Daedong, e do Rio Ryesong. Mas dizem que a terra nesta região era tão estéril que os seus aldeões estavam sempre a adiar o seu cultivo. Assim, o lugar é chamado Mirubol, o que significa "adiar". Isso agora mudou com a construção do Canal Mirubol, uma formidável conduta de 137 milhas [220 km] construída para redireccionar o caudal das cabeceiras do lendário Rio Rimjin e criar canais em túnel através das vastas e escarpadas Montanhas Ahobiryong. Ele conduz a água do Reservatório Risang, de onde flui para várias regiões a fim de irrigar 63 mil acres [25.495 ha] em três municípios – Goksan, Singye e Suan (ver Figura 2). Foram eliminadas 80 das 106 bombas de água anteriormente usadas para irrigar a região e assim o canal poupa 27 MWh de eletricidade por ano. O canal começa no Lago Jangsu e flui através de Haeju, Gangryong e Byoksong, acabando então em Ongjin. A construção começou em Janeiro de 2012 e foi completada em Novembro de 2016. O canal estende-se por 76 milhas [122 km] e consiste de 30 túneis de água e mais de 400 estruturas, tais como pontes de condutas subterrâneas. Irriga mais de 24 mil acres [9.712 ha]. Atualmente em construção, o Canal 2 a Sul da Província Hwanghae começa em Cheongdan e acabará em Yonan. Outros projetos de gestão da água Os veios de água subterrâneos escoam entre camadas de rocha. A Academia Nacional de Ciências da Coreia do Norte desenvolveu um aparelho que pode detectar veios de água a 300 metros abaixo do solo. Graças à localização destas fontes de água profundas a Coreia do Norte construiu centenas de cisternas por todo o país a fim de armazenar água para a prevenção de secas. Cientistas norte-coreanos também desenvolveram métodos agrícolas que consomem menos água. Exemplo: utilizando canteiros secos para arroz; plantando menos plantas mas com maiores espaços entre sementes – o que realmente rende mais grãos; e transformando arrozais (paddies) onde a água é inacessível em campos para culturas de sequeiro. Além da gestão da água, a Coreia do Norte está também a reorganizar explorações agrícolas com o objectivo de mecanizar a agricultura. Graças a estes esforços, a Coreia do Norte recuperou-se decididamente da sua crise alimentar da década de 1990 e está a progredir ano a ano rumo ao seu objetivo da autossuficiência alimentar. O país agora voltou sua atenção para a melhoria da qualidade da dieta popular através da diversificação de fontes de proteína, vegetais frescos e laticínios. Na parte 3 apresentarei o progresso da Coreia do Norte na produção de fertilizantes e a sua correlação direta com o aumento da produção alimentar.

Enriquecer o solo – produzir para além da subsistência

Junto ao Rio Chongchon, em Namhung, Provínci