"Uma guerra europeia no Hindu Kush?"

há 19 horas
5 min de leitura

Os bombardeios paquistaneses da quinta-feira, 1º de outubro, contra posições afegãs confirmam a reativação da guerra entre as duas nações. Embora tenha começado no final de fevereiro, depois de uma série de intensos contatos que incluíram bombardeios a Cabul e muitos choques fronteiriços, a partir de fevereiro com algumas ações que incluíram o ataque ao centro psiquiátrico Omid, na capital afegã, onde eram atendidos dependentes de heroína, uma verdadeira praga no país, que deixou 400 mortos e mais de 500 feridos, desde então até o mês passado o conflito poderia ser definido como de baixa intensidade.
Em 18 de setembro, o ataque suicida contra uma mesquita próxima a uma delegacia de polícia na cidade de Kohat, na província de Khyber Pakhtunkhwa (K-P), fronteiriça com o Afeganistão, que deixou cerca de trinta mortos e mais de 100 feridos, foi reivindicado pelo Ittihadul Mujahideen Pakistan (Guerreiros Unidos do Paquistão), liderado por um antigo emir do TTP, Hafiz Gul Bahadur, que contaria também com bases no Afeganistão. Esse foi o gatilho para que as ações se intensificassem, e Islamabad respondeu com um ataque aéreo contra dez alvos afegãos. No final desse mês, Cabul denunciou ter neutralizado cerca de trinta combatentes e capturado outros 32, que se infiltraram desde o Paquistão na província de Nuristão, no leste do país. Embora não se saiba quem poderiam ser esses mortos e detidos, suspeita-se que, desde a guerra antissoviética no Afeganistão, Islamabad mantém uma rede de passagens na fronteira por onde, conforme o caso, filtra combatentes e armamento, de modo que muito possivelmente o que Cabul denunciou pertença a algum dos grupos antitalibãs que operam contra o mulá Hibatullah Akhundzada, o líder supremo do Emirado Islâmico do Afeganistão.
Frente de Resistência Nacional do Afeganistão (FRN), de Ahmad Massoud (filho do histórico comandante Ahmad Shah Massoud) e do ex-vice-presidente Amrullah Saleh. A Frente de Liberdade do Afeganistão (AFF) é um grupo armado ativo desde março de 2022. O Movimento de Libertação do Afeganistão (ALM) é formado por antigos membros do Exército Nacional Afegão (ANA), criado pelos Estados Unidos durante a ocupação. O mais poderoso de todos eles é o Daesh Khorasan, que foi criado pela CIA em 2014 com milicianos levados da Síria.
Como aconteceu na quinta-feira passada, o que, segundo Islamabad, teve como alvos alguns depósitos de armas e munições, nos quais morreram além disso 22 milicianos do TTP, enquanto Cabul denuncia que na realidade morreram uma dezena de civis, entre eles mulheres e crianças.
Desde a chegada do Talibã ao poder em agosto de 2021, o Paquistão denunciou em inúmeras oportunidades o aumento das ações do TTP, tanto contra alvos civis quanto militares em seu território, o que gerou mais de quatro mil mortes. Ações que, segundo o governo do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, são pelo menos toleradas pela liderança talibã. O que Cabul, obviamente, nega, ao mesmo tempo que se desvincula de qualquer tipo de assistência e colaboração com os mujahidin vizinhos.
Nesse marco, é preciso entender que os talibãs paquistaneses participaram durante anos, junto com os afegãos, da guerra contra a ocupação norte-americana, de modo que é lógico que aquela aliança perdurasse, pelo menos de forma velada, possivelmente a cargo de comandos médios afegãos de quadros de inteligência, considerando ainda que a cúpula do governo afegão é majoritariamente pashtun, o grupo étnico mais numeroso do Afeganistão e o segundo no Paquistão, assim como a maioria dos combatentes do TTP, pelo que possivelmente se veem obrigados pelo Pashtunwali (o Caminho do Pashtun), um estrito código de honra e conduta que essa etnia respeita tanto quanto o próprio Alcorão, o que torna praticamente impossível que seja violado. Uma lógica talvez exótica no Ocidente, que alguns povos ainda conservam, por mais primitiva que pareça.
Para além de tudo, o TTP é uma organização independente que luta contra o Estado paquistanês e que, além dos mulás do norte, conta com outros recursos para continuar sua luta.
Cabul tem contas pendentes com o Paquistão, para além do TTP. Algumas dessas contas são tão remotas quanto a época em que os britânicos traçaram a Linha Durand, em 1893. Essa linha delimitou o Afeganistão do então Raj britânico e foi traçada por sir Henry Mortimer Durand. Nenhum governo de Cabul reconheceu esse traçado. Ainda mais porque essa linha separa em dois a pátria dos pashtuns. O que provoca, no interior do Paquistão, que em si mesmo é um resultado artificioso da péssima Partição da Índia britânica em 1947, constantes tensões separatistas, não só com os pashtuns assentados fundamentalmente em Khyber Pakhtunkhwa, embora também haja fortes expressões separatistas no Baluchistão e nas províncias de Sindh e Punjab, onde as disputas não são apenas territoriais, mas também culturais e identitárias.
Não é tão distante quanto a Linha Durand. Existe uma tensão entre os talibãs e quem quer que governe a partir de Islamabad. Eles nunca esquecerão o serviço que o Paquistão prestou aos Estados Unidos e a toda a coalizão internacional que lutou contra eles de 2001 a 2021.
Quando, em novembro de 2001, o então subsecretário de Estado norte-americano, Richard Armitage, advertiu o general Pervez Musharraf, presidente do Paquistão, de que: “o Paquistão poderia se unir à coalizão internacional ou ser bombardeado até a ruína”.
Terceiros em discórdia
A rivalidade do Paquistão com a Índia, produto desse contexto, não é uma questão marginal, mas um fator que vem ganhando maior volume à medida que a relação Cabul-Islamabad se deteriora. Apesar de que o Afeganistão sempre estará pressionado pelo Paquistão por não ter saída para o mar, pelo que, para a entrada e saída de mercadorias, depende sempre de seus portos.
O que Islamabad faz, apenas fechando suas fronteiras, é se munir de uma arma letal para a economia afegã. Por isso os talibãs, para depender menos do Paquistão, devem encontrar novos sócios econômicos e políticos, o que tem um único nome: o Irã, enquanto a China está cada vez mais preocupada com seus múltiplos investimentos nos dois países em conflito.
Embora os terceiros a que se refere este subtítulo não sejam os persas, mas sim os indianos, os ucranianos, os bielorrussos e, claro, os russos e os norte-americanos, que pousaram de emergência nas alturas do Hindu Kush, levando até a Ásia Central a guerra que se trava na Europa Oriental há mais de quatro anos. Informações recentes revelaram uma trama que tem muito a ver com a crise afegão-paquistanesa e talvez também com a nova fase em que entrou, já que informações recentes apontam que a Índia estaria financiando a compra, por parte do Talibã, de drones bielorrussos, embora para muitos analistas essa informação tivesse, mais que tudo, a intenção de prejudicar Minsk em sua aliança com a Rússia. E como prova disso, Islamabad diz ter restos de um drone bielorrusso derrubado em seu território, do qual até agora não mostrou nada.
Sim, é verdade que o Afeganistão fechou um acordo técnico-militar com Moscou para o reparo de equipamentos de fabricação russa, do qual a Bielorrússia não é alheia, já que está integrada ao complexo militar-industrial da Rússia.
Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, informou que a Ucrânia começou a terceirizar o envio de armas e munições do Ocidente ao Daesh Khorasan, a maior força de oposição ao Emirado afegão, utilizando a extensa fronteira em comum com o Paquistão.
O que, se confirmado, faria entender que a Rússia permitisse à Índia a aquisição de material bélico de seu único aliado na Europa.
O que repercutiria na já muito confusa relação que Islamabad mantém com Moscou, com quem flerta com a possibilidade de acordos na área energética, embora todos saibam, e o presidente Vladimir Putin melhor que ninguém, que o governo de Shehbaz Sharif não move um papel sem o aval de Washington, que parece ter conseguido levar uma guerra europeia às alturas do Hindu Kush.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional











































































































































