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História das Três Internacionais

"Síria, o emirado discreto"

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  • há 50 minutos
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Todos sabemos que, na longa guerra contra o governo do presidente Bashar al-Assad, que começou em 2011 e terminou em 2024, impuseram-se os fundamentalistas wahabitas do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) (Comitê de Libertação do Levante), um grupo armado que emergiu das cloacas do fundamentalismo islâmico com a eclosão da Primavera Árabe, e que se conheceu num primeiro momento como Frente al-Nusra. Depois de anos flertando com a al-Qaeda, acabou praticamente absorvido por um de seus desdobramentos: o Daesh.

 

Financiado pelas monarquias do golfo e com uma sólida relação com serviços de inteligência ocidentais, entre outros a CIA e o Mossad, uma vez cumprida a missão designada, seu emir Abu Mohamed al-Golani, que tinha uma tendência particular a arrancar o coração de suas vítimas e mastigá-los diante das câmeras, depois de entrar vitorioso em Damasco em 8 de dezembro de 2024, sofreu uma metamorfose chamativa, na qual, em vez de se converter num “monstruoso inseto” kafkiano, passou a se transformar em um perigoso pomerânia de pelo curto e barba bem cuidada. A quem trocaram sua Kalashnikov pela Montblanc Meisterstück 149, para voltar a se chamar Ahmed al-Sharaa, e assumir a presidência do país, que acabara de destruir e que agora Turquia e Israel disputam.

 

Além da tragédia que toda essa aventura provocou ao povo sírio, nada terminou em dezembro de 2024; pelo contrário, se é que fosse possível, tudo piorou para as minorias étnicas e religiosas do país.

 

Carregados da lavagem cerebral a que foram submetidos os mujahideen e al-Golani/al-Sharaa, seus ataques contra as comunidades vulneráveis, uma vez conquistada a Síria, seguem fora de controle, com uma vocação absoluta pela vingança, com ataques de grupos paramilitares e turbas organizadas em diferentes regiões do país. Livres de qualquer tipo de represália judicial, já que tudo isso desapareceu, assim como qualquer outro direito de cidadania. Enquanto a polícia e as forças de segurança que deveriam impedir esses pogroms são as mesmas que os organizam.

 

Desde o início de junho, um vislumbre de resistência cidadã começou a se expressar com algumas manifestações e protestos, que costumam ser atacados por atiradores de elite e depois reprimidos pelas forças de segurança, como na cidade oriental de Deir ez-Zor, que mais tarde se estendeu a outras como Aleppo, Idlib, Raqqa, Hama e até Damasco, e as sempre fogosas áreas rurais dos arredores de Homs, berço de muitas rebeliões ao longo da história síria. Na aldeia de al-Jaid, nas proximidades da cidade de Hama, membros da comunidade murshidi, um ramo minoritário alauita, denunciam sofrer ataques constantes de indivíduos à paisana que presumivelmente seriam enviados pelo governo.

 

Em algumas dessas manifestações houve reações violentas após a repressão da polícia. Segundo as autoridades, essas manifestações teriam sido provocadas por membros da minoria alauita, a mesma à qual pertence à família al-Assad, e que se tornou o alvo preferido dos novos senhores da Síria.

 

Em Damasco, multiplicaram-se as operações repressivas em bairros como Ish al-Warwar e Mezzeh 86, de maioria alauita. Tanto suas residências quanto seus comércios são saqueados e incendiados por mascarados pagos pelo regime de al-Golani. Além disso, ao lado do saque e incêndio de residências e comércios, esses mascarados, além de espancar e, em alguns casos pontuais, estuprar mulheres, também assassinam civis apenas sob suspeita de terem colaborado com o antigo governo dos al-Assad. Entre os perseguidos também aparecem membros da própria comunidade sunita que não aderiram cegamente ao novo regime.

 

A represália violenta contra o restante das comunidades (drusos, cristãos, curdos, ismaelitas, um ramo dos xiitas), além dos alauitas, desde a queda de Bashar al-Assad, adotou formas diversas, que vão desde execuções sumárias até vandalismo organizado. Isso obrigou o deslocamento forçado de milhares de pessoas, o que também incide no retorno dos milhares de autoexilados que, desde o início da guerra, vivem em acampamentos na Turquia, na Jordânia e até mesmo de alguns que pretendiam regressar da Europa.

 

Essas matanças, tingidas de dívidas pendentes surgidas durante os anos de guerra, estão vinculadas a intenções de realizar uma profunda limpeza étnico-religiosa, na qual não apenas a minoria alauita corre o risco de ser eliminada, mas também outras minorias são alvo, das quais não escapam sunitas moderados, como os sufis e outras escolas do sunismo.

 

Bairros e aldeias, etnias e seitas, na mira

 

O desmedimento da guerra que alguns chamam de civil — além de nela terem operado desde o início, assim como na Líbia, mercenários trazidos de muitas nações do mundo islâmico, particularmente vindos do sul da Rússia e de algumas nações da Ásia Central — gerou, como todas as guerras, ódios incontroláveis, já não apenas entre as milícias em conflito, mas entre as populações civis, que agora os vencedores utilizam em benefício de seus planos de se perpetuarem no governo da Síria, para articulá-los como um aríete em combinação com o regime genocida de Benjamin Netanyahu e seus sócios de Washington.

 

Nesse contexto, ainda que a violência de represália posterior à queda do governo de al-Assad já existisse, as divisões intercomunitárias transtornaram-se de maneira irreconciliável, ao menos a médio prazo.

 

A nova ordem estabelecida e suas políticas de segurança — se é que se pode chamar assim esse sistema delinquencial baseado em vendetas e saques — fazem com que milhões de sírios vivam em um invariável estado de vulnerabilidade, de modo que muitos já não vislumbram, nem sequer remotamente, um futuro minimamente previsível.

 

As minorias sabem perfeitamente que carecem de qualquer tipo de proteção, repetindo as experiências que outros já viveram em Cabul, Mossul, Raqqa, Sirte ou Derna, e tantas outras cidades que tiveram a tragédia de cair sob o controle de alguma tentativa de estabelecer um emirado de conotações takfiristas.

 

As reiteradas massacres de alauitas, realizados em algumas cidades da costa mediterrânea como Latakia ou Tartus a partir de março de 2025, e os enfrentamentos entre beduínos do regime com grupos armados da comunidade drusa, autodenominados Movimento dos Homens Dignos, em Sweida, o enclave druso, em julho deste ano.

 

Por isso, nesse contexto, ficam totalmente desacreditadas as recentes condenas à morte ditadas no dia dez passado contra o presidente Bashar al-Assad, por um tribunal penal de Damasco, junto a uma série de funcionários de seu governo e um de seus primos, Wassim al-Assad. A sentença, sem nenhum viso de legalidade, ditada à revelia, provocou que o debate sobre a conveniência ou não desse tipo de julgamento — que têm muito de farsescos, carentes de respeitabilidade e que, num contexto de normalidade, jamais poderiam ter ocorrido — recordasse processos igualmente ilegítimos sofridos por outras personalidades globais que enfrentaram os interesses sionistas-norte-americanos, como o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio “Lula” da Silva, a presidenta argentina, hoje detida, Cristina Fernández de Kirchner, o ex-primeiro-ministro paquistanês, hoje detido, Imran Khan, a ex-primeira-ministra bangladeshi Sheikh Hasina, hoje exilada na Índia, e o ex-presidente equatoriano Rafael Correa, exilado na Bélgica.

 

Ainda é muito cedo para avaliar a profundidade das feridas que quase quinze anos de guerra deixaram na sociedade síria, que, aos olhos das minorias, ainda não terminou, e que continua sob um emirado que se articula discretamente, que tenta não chamar a atenção do mundo, mas que submete sua população a uma constante cadeia de represálias e ataques de turbas tanto espontâneas quanto articuladas pelos vencedores. Ainda que, talvez, muito antes que se possa descobrir a profundidade desses danos, o povo sírio possa se ver diante de uma balcanização articulada entre Ancara e Tel Aviv.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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