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História das Três Internacionais

"Eu sou Magda, a de blusa rosa na SONA"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • 21 de jul.
  • 4 min de leitura

 

Era noite, estava escuro. Eu usava uma lanterna para enxergar o caminho. Mas ouvi alguém dizer: “Camarada, abaixe a sua lanterna”. Era comigo que estavam falando.

 

Então abaixei o foco da lanterna. Eu nem tinha percebido que ela estava apontada para cima. Quando abaixei a lanterna, no círculo de luz vi uns pés de chinelo, uma calça comprida dobrada na barra e, ao lado disso... a ponta do cano de um fuzil comprido. Foi ali que tive minha primeira imagem do Novo Exército Popular. Impressionante!

 

Eu tinha acabado de ser incorporada a uma unidade do Novo Exército Popular para participar do aniversário do Partido. Era a minha primeira vez. Dava para perceber. Porque eu cheguei usando sandálias, calças sociais e uma blusa rosa. Não era camiseta, era realmente uma blusa. E, justamente por ser novata, claro, eu caí. Mas não foi na montanha, foi ainda na estrada. Então torci o pé e precisei me recuperar — em dois dias — para poder acompanhar a mudança de acampamento. Nós mudávamos de acampamento a cada três dias porque o inimigo estava muito ativo na nossa região.

 

E, como eu era recém-chegada, acabei dando meu nome verdadeiro! Em minha defesa, eu tinha acabado de acordar. Ainda estava sonolenta quando alguém me perguntou qual era meu nome. “****, senhor!” — respondi, estendendo a mão. Aí percebi o erro. “Magda! Eu sou a Magda!”

 

Desafios da organização

 

Minha designação foi para um esquadrão ampliado. Como resposta ao movimento de retificação do Partido, essa unidade desceu de uma parte das montanhas e se aproximou de onde estava o povo. A maior parte da unidade vinha do campesinato. Em seguida vinham jovens pequeno-burgueses que, pelas conversas, eram muito esperançosos quanto ao futuro da revolução e do país.

 

No trabalho de organização, era o camarada camponês quem batia à porta das casas e perguntava como as pessoas estavam. Já os pequeno-burgueses ministravam os estudos e lideravam as discussões (alguns eram responsáveis pelo abastecimento ou atuavam como médicos). Na maior parte das vezes, o trabalho de organização acontecia à noite, porque os camponeses passavam o dia nos campos e plantações. Nós, por outro lado, realizávamos pela manhã as atividades de consolidação da nossa unidade. Eram discussões educacionais.

 

Nossas áreas eram de recuperação e expansão. Fazia quase 20 anos que os camaradas não visitavam esses lugares devido ao intenso processo de militarização. Como fazia muito tempo que não viam o exército popular, as reações das massas eram variadas. Em uma casa que visitamos, enquanto o pai estava muito feliz em nos ver e tinha inúmeras histórias para contar, a mãe hesitava em nos deixar entrar. Os militares intimidavam as massas para que não recebessem o exército em suas casas. O povo também era cauteloso ao acolher os camaradas, porque os soldados às vezes se passavam por integrantes do exército popular.

 

Justiça no movimento revolucionário

 

Quando entrei, também queria ouvir falar de casos relacionados à justiça revolucionária.

 

Aprendi no movimento que a justiça não é “inflexível”. Existe compreensão e consideração pela comunidade. Por exemplo, quando uma pessoa indígena comete uma infração dentro do movimento, em vez de receber imediatamente uma punição, caso seja considerada culpada, ela pode ser entregue à sua própria comunidade, que se responsabilizará por garantir que não volte a cometer o mesmo ato nem cause novos danos. Isso também representa um reconhecimento da cultura das minorias nacionais e de suas próprias formas de responsabilizar quem comete erros. Mas tudo depende da gravidade do caso. O importante é que haja diálogo entre a comunidade, o exército e o Partido. Não é como na justiça burguesa, onde a pessoa é imediatamente presa, especialmente se for pobre. Aqui, a justiça não é cega.

 

Foi aí que percebi a importância de documentar as experiências relacionadas ao avanço da justiça revolucionária. Imagine se conseguíssemos registrar todas essas experiências; seria muito mais fácil orientar outras unidades na aplicação da justiça. Também poderíamos demonstrar claramente a diferença entre a justiça do movimento revolucionário e a justiça do governo reacionário.

 

Agora estou retificada quanto a evitar a integração

 

Foi algo que abriu minha mente quando percebi que eu mesma fazia parte do Novo Exército Popular. Como eu carregava uma pequena arma, uma pistola calibre .45, não podia simplesmente passar o tempo conversando nas casas das massas.

 

Participei dessa experiência porque nunca havia conseguido me integrar ao exército, nem mesmo quando ainda estava na organização juvenil. Eu era realmente fechada para isso. Não havia como me convencer a subir para as montanhas.

 

Passei duas semanas na unidade do exército. Eles não sabiam que eu era advogada. Apenas nosso comandante e alguns oficiais sabiam. Foi somente quando cheguei a este setor que me abri para a integração. Os relatos de assédio e militarização das comunidades eram muito intensos. Por isso, retifiquei minha postura de evitar a integração.

 

Eu sentia que estávamos muito distantes da revolução. Talvez houvesse um certo conservadorismo, decorrente da adaptação às leis reacionárias. Acabávamos presos ao enquadramento de que não éramos uma força armada. Eu sentia que deveria surgir alguém entre nós como Hannah Cesista, que se juntou ao exército, não é?

 

Ela já havia sido aprovada no exame da Ordem quando decidiu aderir à revolução armada. Em vez de comparecer aos tribunais e apresentar processos, foi para o campo servir ao povo. Para ela, as reformas legais já não eram suficientes. Havia visto tantas pessoas pobres enganadas pelo sistema de justiça e por um sistema que precisava ser transformado. Ela foi morta em fevereiro de 2024 por militares em Bohol. Eram cinco pessoas. Disseram que houve um confronto, mas eles já haviam se rendido. Mesmo assim, os soldados os torturaram e depois os massacraram.

 

Minha experiência comprovou que pessoas como eu, advogadas, realmente precisam assumir um papel na revolução, para além de contestar leis repressivas e aceitar casos jurídicos. Para ser advogada no movimento, não é necessário estudar Direito nem passar no exame da Ordem. O que se exige de uma advogada é trazer a verdade à tona. Afinal, não deveria ser esse o verdadeiro papel da advocacia? Também acredito que a discussão sobre justiça revolucionária ainda precisa ser aprofundada.

 

É verdade que os advogados patrióticos são extremamente necessários nos dias de hoje. Mas, enquanto o sistema opressor não for transformado e enquanto permanecerem no poder aqueles que controlam as leis, a economia e a cultura, a advocacia será apenas um curativo sobre as feridas apodrecidas da sociedade.

 

(Escrito por Mia Andres a partir de uma conversa com Magda)

 

Do Liberation

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