top of page

___ VEÍCULO DE INFORMAÇÃO DA URC

NOVACULTURA.info

Marxismo-leninismo e lutas revolucionárias dos povos do mundo

FUNDO-LIVROS-Internacionais.png

Compre os quatro volumes da obra "História das Três Internacionais" de William Z. Foster com até 40% de desconto no pacote promocional

___ PROMOÇÃO

História das Três Internacionais

"Somália, absoluta normalidade"

  • Foto do escritor: NOVACULTURA.info
    NOVACULTURA.info
  • 10 de jul.
  • 5 min de leitura

Na Somália, julho começou com absoluta normalidade; o governo anunciou no dia primeiro a morte de pelo menos 35 mujahidines do al-Shabaab, a franquia da al-Qaeda para o Chifre da África, após uma operação aérea na qual colaboraram “parceiros internacionais”, na região de Baixo e Médio Shabelle, ao sul da capital, Mogadíscio, que se tornou nos últimos meses o coração do conflito que desde 2011 incendeia o país.

 

Segundo o Ministério da Defesa somali, os ataques se concentraram na região de Godey, sobre as localidades de Tawakal, Nuun Garre e Ugunji, onde, além dos milicianos mortos, cerca de vinte deles ficaram feridos, e arsenais e um acampamento dos terroristas foram destruídos.

 

Após os ataques, foi possível ouvir uma forte cadeia de explosões, o que indica a magnitude do armamento acumulado pelos insurgentes. Segundo o ministério, o grupo estava preparando uma série de ataques em diversos pontos do país, como parte de um aumento de suas operações armadas nas proximidades da capital.

 

A guerra contra a que por anos foi a katiba mais ativa da al-Qaeda na África parece encontrar-se em um eterno recomeço, já que, para além das operações “bem-sucedidas” do presidente Hassan Sheikh Mohamud, o país navega sem rumo em um eterno descalabro.

 

A região de Baixo e Médio Shabelle é um entroncamento de caminhos que conectam o interior com a capital, motivo pelo qual é ali que o al-Shabaab tenta se perpetuar para além de suas retiradas táticas, com as quais elude a pressão do Exército Nacional da Somália (ENS), e para onde retorna assim que os militares diminuem o efetivo na área para cobrir outras frentes, numa ação de vaivém, ganhando por desgaste, a cada vez, algumas posições no território em disputa.

 

Desde a ofensiva de 2022, na qual o governo nacional havia recuperado numerosas localidades, com o apoio das milícias de autodefesa conhecidas como Ma'awisley (em maay-maay, uma das línguas mais faladas do país, que poderia ser traduzida como “irregular”), na qual também interveio a aviação norte-americana, drones fornecidos pela Turquia, junto a efetivos da AUSSOM (Missão de Apoio e Estabilização da União Africana na Somália) — cuja continuidade, como todo ano na hora da renovação desse mandato, volta a estar em discussão —, os 12 mil homens dessa missão precisam, para manter sua capacidade operacional, do fornecimento de combustível, alimentos, transporte e assistência médica, fundamentalmente das Nações Unidas e de outros organismos internacionais.

 

O conjunto dessas forças jamais conseguiu formar um bloco sólido capaz de enfrentar os terroristas, já que seu compromisso é sempre limitado pelos interesses próprios de cada nação interveniente, de modo que, a cada retirada, ainda que parcial, os insurgentes retornam, dando início a um ciclo exaustivo, fundamentalmente para as populações civis que, para além da troca de mãos, essas comunidades estão sempre ocupadas e próximas de um novo desastre. Quanto a essa dissociação de forças, Washington a justifica alegando que as divisões internas — que se mantêm constantes no Estado somali — e sua incapacidade de estabelecer uma estratégia coerente contra o terrorismo tornam difícil estabelecer um compromisso financeiro maior que os 500 milhões de dólares por ano, valor que em seu momento havia superado os dois bilhões. Isso mostra o esgotamento da Casa Branca numa guerra na qual está envolvida, com seus altos e baixos, desde 2023. A retirada, ou simplesmente uma redução maior desses aportes, precipitaria a queda do já muito frágil governo federal, fazendo a situação retroceder a antes de 2011, quando a União das Cortes Islâmicas (UCI), antecedente imediato do al-Shabaab, controlava Mogadíscio.

 

Essa situação contribui para que o al-Shabaab continue fortalecendo suas capacidades táticas e logísticas, graças à sua flexibilidade estratégica, sempre se adaptando ao novo cenário proposto pelo inimigo. Pois eles não precisam do controle permanente dessa população, mas sim de instalar o aviso de um retorno certeiro, no qual os que colaborarem com as forças regulares serão punidos individualmente, até a confiscação de seus bens — que podem incluir não apenas seus animais e veículos, mas também seus filhos: os homens, para serem incorporados como milicianos, e suas filhas, como escravas sexuais dos mujahidines —, podendo chegar até a perda de suas vidas e bens, além das exações compulsivas como castigo geral pela colaboração de seus vizinhos. Assim, todos eles preferem o controle das estradas vicinais por onde passa o comércio e a vida da população que precisa se deslocar de um ponto a outro da região.

 

O impasse

 

Diferentes atores concordam que, no atual contexto da guerra contra o terrorismo na Somália, a guerra está estagnada, e que a cada ação de um há uma reação do outro, permanecendo praticamente no mesmo ponto, martirizando a população civil, impedindo seu desenvolvimento e aumentando a incerteza dos vinte milhões de somalis, que ainda se encontram sobrecarregados pela mudança climática, que alterou de forma contundente seu regime de chuvas, tornando-o muito mais intenso — o que produz inundações de características desconhecidas —, ao mesmo tempo em que se estendem as temporadas de seca, o que repercute obviamente de maneira direta na produção agrícola, historicamente já escassa, obrigando ao deslocamento de centenas de milhares de pessoas, que se somam às expulsas pela guerra, projetando um panorama no mínimo tão diabólico quanto o anterior.

 

Alguns especialistas insistem que, para encontrar uma solução, ao menos para a guerra — para depois tentar outra para a questão climática —, seria preciso explorar outro caminho, não militar, já que essa opção na Somália, praticamente desde sua independência — da qual em primeiro de julho passado se completaram 66 anos —, não teve um momento de paz, vivendo em estado permanente de guerras fronteiriças, instabilidade política, social e alimentar, e conflitos armados de características étnicas, tribais e religiosas, o que fez da Somália o epítome do Estado falido, uma definição feita sob medida para este país, onde o poder político real mal alcança algumas quadras de Villa Somalia, sede do governo, enquanto no resto do país o poder estatal se encontra fragmentado por profundos vazios de poder tribal ou diretamente insurgente.

 

Com a ofensiva do al-Shabaab em 2025, o controle territorial dessa geografia voltava a retroceder ao de 2022, ao mesmo tempo em que já foi descartada a possibilidade das eleições presidenciais que deveriam ter ocorrido este ano, já que o mandato oficial do presidente Mohamud — que chegou ao cargo pela segunda vez em 2022, prometendo “uma guerra total ao terrorismo” — deveria ter cessado em maio passado. Ainda assim, não existe consenso para que se possa realizar, em um prazo ao menos razoável, uma nova disputa eleitoral, o que abrirá inevitavelmente um novo foco de tensão.

 

É muito difícil imaginar que propostas um novo governo político poderia trazer a seu eleitorado, que outra nova tentativa, em que direção seguir — já que tudo, absolutamente tudo, fracassou na Somália, desde os ensaios marxistas no início dos anos noventa, à chegada do fundamentalismo muçulmano uma década depois, até as últimas provas neoliberais promovidas pelo Departamento de Estado norte-americano, com presidentes formados em universidades dos Estados Unidos que chegaram ao poder com todo o aval de Washington.

 

Um após outro, esses modelos se espatifaram contra um muro de concreto, que tem seus fundamentos no passado colonial — assim como praticamente em todos os países do continente, que foram marcados a ferro por tudo o que veio depois das concessões que as nações europeias se autoconcederam na Conferência de Berlim (1884-1885).

 

A Somália não escapa, nem escapará por um longo tempo, do constante ciclo de violência no qual está aprisionada, de modo que, em algumas semanas, se não antes, estaremos novamente falando de mais mortes, de mais desespero, o que significa absoluta normalidade.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

capa41 miniatura.jpg
PROMOÇÃO-MENSAL-maio 2026.png
  • TikTok
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Telegram
  • Whatsapp
JORNAL-BANNER.png
bottom of page