Gramsci: "Crítica Estéril e Negativa"
- NOVACULTURA.info

- há 60 minutos
- 4 min de leitura

No longo artigo de [Amadeo Bordiga], há algo verdadeiramente digno de nota: o elegante ceticismo com que ele evita tomar uma posição clara sobre pontos dos quais, entretanto, afirma discordar; há uma oscilação contínua entre tese e antítese, sem que, por isso, apresente uma tese “original” própria.
O camarada Bordiga limita-se a sustentar uma posição cautelosa sobre todas as questões levantadas pela Esquerda. Ele não diz: a Internacional coloca e resolve tal ou qual questão desta maneira, mas a Esquerda a colocará e resolverá de outra forma. Em vez disso, diz: a maneira como a Internacional coloca e resolve os problemas não me convence; temo que ela caia no oportunismo; não há garantias suficientes contra isso, etc. Sua posição, portanto, é de permanente suspeita e dúvida. Dessa forma, a posição da “Esquerda” é puramente negativa; ela expressa reservas sem especificá-las de maneira concreta e, acima de tudo, sem indicar concretamente seu ponto de vista ou suas soluções. Acaba espalhando dúvida e desconfiança, sem construir nada.
O artigo começa com uma característica hipótese metafísica. O camarada Bordiga pergunta: é possível excluir 100%a possibilidade de que a Internacional Comunista caia no oportunismo? Mas também podemos perguntar se é possível excluir que até mesmo o camarada Bordiga se torne oportunista, que o Papa se torne ateu, que o industrial Ford se torne comunista, etc. No reino das possibilidades metafísicas, pode-se imaginar o que se quiser, mas um marxista deveria colocar a questão da seguinte maneira: existe a possibilidade de que a Internacional Comunista deixe de ser a vanguarda do proletariado e esteja se tornando a expressão da aristocracia operária corrompida pela burguesia? É assim que a questão deve ser colocada de maneira marxista, e então se torna fácil para qualquer camarada a resolver.
O artigo é um tecido de erros teóricos e práticos que os camaradas certamente apontarão. Limitar-nos-emos a destacar os pontos mais característicos. O camarada Bordiga afirma, a propósito das células, que o tipo de organização partidária não pode, por si só, assegurar seu caráter político nem garantir contra a degeneração oportunista. Mas nós afirmamos que a organização sob a forma de células assegura melhor do que qualquer outra o caráter proletário do Partido Comunista e, mais do que qualquer outra, protege o partido contra o oportunismo.
E, depois de repetir a curiosa afirmação de que o sistema de células é apropriado para a Rússia, embora mais antes do que depois da conquista do poder, e que isso não se aplica aos países com regime democrático-burguês, o camarada Bordiga conclui: “Não somos contra as células, pelo menos como grupos de membros nas fábricas, com funções determinadas.” Então, a Esquerda é a favor ou contra as células? E quais são essas “funções determinadas” que o camarada Bordiga evita especificar? A Esquerda e o camarada Bordiga não se declaram explicitamente contra a bolchevização, mas apenas desconfiam dela porque ela se baseia numa organização em células que seria supervisionada por uma rede de funcionários escolhidos segundo o critério da obediência cega ao leninismo.
Que a direção local do partido deva ser composta por elementos escolhidos ideologicamente está fora de qualquer dúvida, porque sem isso o Partido Comunista não seria o que é. Quanto à obediência cega, trata-se de um método polêmico nada elevado e sobre o qual não vale a pena insistir.
Também é curioso o que o camarada Bordiga escreve sobre o leninismo. Ele afirma que, se o leninismo nada mais é do que marxismo, então é inútil utilizar tal termo; mas imediatamente acrescenta que a Esquerda usará ambos os termos indiferentemente. Não apenas se contradiz aqui, mas há também uma contradição na afirmação sobre o uso indiferente dos dois termos e o reconhecimento simultâneo de que Lenin foi o “completador, em grande parte, do marxismo; e que sua interpretação do imperialismo, bem como suas formulações sobre as questões agrária e nacional, constituem contribuições fundamentais para o desenvolvimento do marxismo”.
Quanto à sua discordância com Lenin, o camarada Bordiga permanece habilmente no terreno das generalidades, sem ser específico. As frases “Discutimos e criticamos Lenin e não estamos inteiramente convencidos por suas contra-deduções” e “As reprimendas de Lenin não me converteram” podem impressionar os pequeno-burgueses, mas os comunistas e os trabalhadores revolucionários apenas darão de ombros.
O camarada Bordiga, sem especificar em lugar algum a extensão de sua discordância com Lenin, continua afirmando que não aceita o sistema tático de Lenin porque ele não contém garantias contra aplicações oportunistas. Mas o camarada Bordiga seria mais sincero se declarasse que rejeita qualquer manobra tática, na medida em que toda manobra tática apresenta o perigo de desvios oportunistas.
A garantia contra os desvios não consiste nas próprias táticas, mas em nós, em nossa consciência comunista, na vigilância e autocrítica de todo o partido, na firmeza dos princípios, no esforço para jamais perder de vista o objetivo revolucionário. Não pretendemos ter esgotado nesta nota as objeções ao artigo do camarada Bordiga. Trata-se verdadeiramente de uma mina de erros e incoerências de toda espécie.
Queremos apenas assinalar aqueles relativos ao antiparlamentarismo e à tática do partido em relação às massas operárias do Aventino. A tática adotada pelo partido — diz o camarada Bordiga — não foi prevista em nenhum congresso. Mas, além do fato de que nenhum congresso previu nem o crime Matteotti nem a reação das massas, acompanhada de sua inclinação para as ilusões aventinistas, qual é a tática que, segundo o camarada Bordiga, deveria ter sido adotada? Ele se abstém de explicá-la de qualquer forma e limita-se a dizer: “Pouco é feito quando muito poderia ser feito.”
Todo o artigo é um documento de verdadeira decadência intelectual. O camarada Bordiga não apenas deixa de tirar as consequências lógicas de suas negações, mas, acima de tudo, deixa de contrapor às diretrizes criticadas novas diretrizes formuladas de maneira clara e completa. Limitar-se, como ele faz, à crítica negativa, espalhar dúvida, ceticismo e desconfiança sem indicar nada de positivamente construtivo constitui não apenas uma falta de caráter, mas também revela pouco respeito ou apego ao partido e à Internacional.
Artigo de Antônio Gramsci, publicado no L’Unità, em 30 de setembro de 1925





































































































































