Connolly: "Socialismo e Nacionalismo Irlandês"
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A vida pública da Irlanda foi geralmente tão identificada com a luta pela emancipação política que, naturalmente, o lado econômico da situação recebeu apenas uma quantidade muito pequena de atenção por parte de nossos historiadores e homens públicos.
O Socialismo Científico baseia-se na verdade incorporada nesta proposição de Karl Marx: “a dependência econômica dos trabalhadores em relação aos monopolistas dos meios de produção é o fundamento da escravidão em todas as suas formas, a causa de quase toda miséria social, do crime moderno, da degradação mental e da dependência política”. Assim, esse falso exagero das formas puramente políticas que revestiu na Irlanda a luta pela liberdade deve parecer ao socialista um erro inexplicável por parte de um povo tão fortemente oprimido como o irlandês.
Mas o erro está mais na aparência do que na realidade.
Apesar da atitude reacionária de nossos líderes políticos, a grande massa do povo irlandês sabe muito bem que, se conquistasse aquela liberdade política pela qual luta com tanto ardor, ela teria de ser utilizada como um meio de redenção social antes que seu bem-estar pudesse ser assegurado.
Apesar dos exageros ocasionais quanto aos seus resultados imediatos, deve-se lembrar que, ao esforçarem-se decididamente, como fizeram, em direção a esse objetivo político definido, os irlandeses estão trabalhando segundo as linhas de conduta estabelecidas pelo Socialismo moderno como condição indispensável para o sucesso.
Desde o abandono do infeliz insurrecionismo dos primeiros socialistas, cujas esperanças estavam exclusivamente concentradas no triunfo eventual de uma insurreição e da luta de barricadas, o Socialismo moderno, apoiando-se no método mais lento, porém mais seguro, da urna eleitoral, dirigiu a atenção de seus partidários para a conquista pacífica das forças do governo no interesse do ideal revolucionário.
O advento do Socialismo só pode ocorrer quando o proletariado revolucionário, de posse das forças organizadas da nação (o poder político do governo), puder construir uma organização social em conformidade com o curso natural do desenvolvimento industrial.
Por outro lado, o esforço cooperativo não político sucumbirá inevitavelmente diante da oposição das classes privilegiadas, entrincheiradas atrás das muralhas da lei e do monopólio. É por isso que, mesmo quando é intensamente conservador do ponto de vista econômico, o nacionalista irlandês, ainda que com seu falso raciocínio, é um agente ativo da regeneração social, na medida em que procura investir de pleno poder sobre seus próprios destinos um povo efetivamente governado nos interesses de uma aristocracia feudal.
A seção do exército socialista à qual pertenço, o Partido Socialista Republicano Irlandês, nunca procura esconder sua hostilidade em relação àqueles partidos puramente burgueses que atualmente dirigem a política irlandesa.
Mas, ao inscrever em nossas bandeiras um ideal ao qual eles também prestam homenagem verbal, não temos qualquer intenção de nos juntar a um movimento que possa degradar a bandeira do Socialismo revolucionário.
Os partidos socialistas da França se opõem aos meros republicanos sem deixar de amar a República. Da mesma forma, o Partido Socialista Republicano Irlandês busca a independência da nação, ao mesmo tempo em que se recusa a conformar-se aos métodos ou empregar os argumentos do nacionalista chauvinista.
Como socialistas, não somos imbuídos de ódio nacional ou racial pela lembrança de que a ordem política e social sob a qual vivemos foi imposta aos nossos pais pela ponta da espada; de que durante 700 anos a Irlanda resistiu a essa injusta dominação estrangeira; de que a fome, a pestilência e o mau governo transformaram esta ilha ocidental quase num deserto e dispersaram nossos compatriotas exilados por toda a face do globo.
A enunciação de fatos como os que acabo de expor não é capaz hoje de inspirar nem de dirigir as energias políticas da classe trabalhadora militante da Irlanda; essa não é a base de nossa determinação de libertar a Irlanda do jugo do Império Britânico. Reconhecemos, antes, que durante todos esses séculos a grande massa do povo britânico não teve qualquer existência política; que a Inglaterra foi, política e socialmente, aterrorizada por uma classe governante numericamente pequena; que as atrocidades perpetradas contra a Irlanda só podem ser imputadas à ambição inescrupulosa dessa classe, ávida por enriquecer-se às custas de homens indefesos; que, até a geração atual, à grande maioria do povo inglês foi negada uma voz deliberativa no governo de seu próprio país; que é, portanto, manifestamente injusto acusar o povo inglês pelos crimes passados de seu governo; e que, no pior dos casos, só podemos acusá-lo de uma apatia criminosa ao submeter-se à escravidão e permitir-se ser transformado em instrumento de coerção para a escravização de outros. Uma acusação tão aplicável ao presente quanto ao passado.
Mas, embora nos recusemos a basear nossa ação política numa antipatia nacional hereditária e desejemos antes o companheirismo com os trabalhadores ingleses do que considerá-los com ódio, desejamos, com nossos predecessores, os Irlandeses Unidos de 1798, que nossas animosidades sejam enterradas com os ossos de nossos ancestrais — não há partido na Irlanda que acentue mais, como princípio vital de sua fé política, a necessidade de separar a Irlanda da Inglaterra e torná-la absolutamente independente. Aos olhos dos ignorantes e dos irrefletidos isso parece uma inconsistência, mas estou persuadido de que nossos irmãos socialistas na França reconhecerão imediatamente a justeza do raciocínio sobre o qual tal política se baseia.
Sustentamos que “a emancipação econômica do trabalhador exige a conversão dos meios de produção em propriedade comum da Sociedade”. Traduzido para a linguagem corrente e para a prática da política real, isso ensina que o caminho necessário a ser percorrido rumo ao estabelecimento do Socialismo requer a transferência dos meios de produção das mãos dos proprietários privados para as dos organismos públicos diretamente responsáveis perante toda a comunidade.
O Socialismo busca então, no interesse da democracia, fortalecer a ação popular sobre todos os organismos públicos.
Os organismos representativos na Irlanda expressariam mais diretamente a vontade do povo irlandês do que quando esses organismos residem na Inglaterra.
Uma República Irlandesa seria então o depositário natural do poder popular; a arma da emancipação popular, o único poder que mostraria à plena luz do dia todos esses antagonismos de classe e linhas de demarcação econômica agora obscurecidos pelas névoas do patriotismo burguês.
Nisso não há um traço de chauvinismo. Desejamos preservar com o povo inglês as mesmas relações políticas que mantemos com o povo da França, da Alemanha ou de qualquer outro país; a maior amizade possível, mas também a mais estrita independência. Irmãos, mas não companheiros de cama. Assim, inspirando-se por outro ideal, conduzido pela razão e não pela tradição, seguindo um caminho diferente, o Partido Socialista Republicano da Irlanda chega à mesma conclusão que o nacionalista mais irreconciliável. O poder governamental da Inglaterra sobre nós deve ser destruído; os laços que nos prendem a ela devem ser rompidos. Tendo aprendido com a história que todos os movimentos burgueses terminam em compromisso, que os revolucionários burgueses de hoje se tornam os conservadores de amanhã, os socialistas irlandeses se recusam a negar ou perder sua identidade junto àqueles que compreendem apenas pela metade o problema da liberdade. Eles buscam apenas a aliança e a amizade daqueles corações que, amando a liberdade por si mesma, não têm medo de seguir sua bandeira quando ela é erguida pelas mãos da classe trabalhadora, que é a que mais necessita dela. Seus amigos são aqueles que não hesitariam em seguir esse estandarte da liberdade, em consagrar suas vidas a seu serviço, mesmo que isso os conduzisse à terrível arbitragem da espada.
Por James Connolly, publicado no L’Irlande Libre, Paris, em 1897









































































































































