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"A bandeira vermelha sobre Berlim: entendendo a história por trás da foto"


Em um dia como esse [2 de maio] a Bandeira da Vitória era erguida de modo definitivo sobre o Reichstag, finalizando assim a Batalha de Berlim, uma das mais sangrentas de toda a Segunda Guerra Mundial. Uma das fotos mais famosas de toda a História é a do soldado soviético colocando uma bandeira da URSS no prédio. Parece algo simples de compreender — os soviéticos tomaram o prédio e hastearam sua bandeira, não? Na realidade, essa história é bem mais complexa do que parece.


A Bandeira da Vitória e o Reichstag

Afinal, de onde surgiu a Bandeira da Vitória e quem decidiu que erguer uma bandeira sobre o Reichstag seria um símbolo do fim da guerra?


Muitos concordam que o termo “Bandeira da Vitória” surgiu com Stalin. Há poucos anos, foi editado no Brasil um livro¹ chamado “Sobre a Grande Guerra Patriótica”, organizado e traduzido pelos Professores João Cláudio Pitillo e Ricardo Quiroga Vinhas. O livro é uma coletânea de discursos, ordens e artigos de Stalin no período da guerra. Em 6 de novembro de 1944, em Moscou, Stalin, durante um discurso para comemorar o aniversário da Revolução, diz:


“Agora resta para o Exército Vermelho sua última e decisiva missão: concluir junto com os exércitos dos nossos aliados o trabalho de destruição das tropas fascistas alemãs, vencer as feras no seu próprio covil e hastear sobre Berlim a bandeira da vitória.”


Portanto, já em 1944 havia, no alto comando soviético, a intenção de se hastear uma bandeira sobre Berlim como símbolo da derrota alemã.


Andrey Danilov, funcionário do Arquivo Estatal de Documentação Científica e Técnica de Belarus, em um artigo² publicado na agência de notícias bielorrussa Belta, afirma que um Estandarte da Vitória, vermelho, de veludo, com ornamentos nas bordas e com uma foice e martelo e uma Ordem da Vitória no centro, chegou a ser confeccionado na Fábrica de Bordados Nº7 de Moscou, mas nunca foi entregue às tropas que atacariam Berlim. Ao invés disso, diz o autor, no início de abril de 1945, foi dada uma ordem pelo comando soviético de que cada divisão avançando sobre Berlim deveria produzir e carregar consigo uma bandeira vermelha que poderia ser hasteada sobre a cidade.


Ao passo que os soviéticos iam tomando prédios em Berlim, iam-se hasteando bandeiras vermelhas, de modo que havia centenas de bandeiras da URSS tremulando sobre a cidade mesmo antes do hasteamento da Bandeira da Vitória definitiva.


Mas onde hastear então a mais simbólica de todas? O Reichstag pareceu a escolha mais acertada para a ocasião. Esse prédio abrigava o antigo parlamento alemão, praticamente inexistente durante o governo de Hitler. Em 1933, o Reichstag foi incendiado pelos nazistas, que, na altura, culparam os comunistas e usaram isso como manobra para instaurar uma ditadura de perseguição política. Além do simbolismo de tomar o Reichstag para recuperar a honra dos comunistas, o prédio era alto, visível de vários pontos da cidade, localizado em uma área relativamente aberta do centro histórico da cidade de Berlim e perto do rio Spreer.


O ataque ao Reichstag

Com o alvo definido, bastava tomá-lo. Desde o dia 28 de abril, os soviéticos tinham acesso a praticamente todo o centro de Berlim, bombardeando inclusive os jardins da Chancelaria do Reich, onde, no subsolo, se escondia Hitler em seu bunker. O Reichstag ficava bem próximo disso.


Antes de chegar propriamente ao prédio, os soviéticos tiveram de tomar os prédios próximos, que abrigavam a sede da Gestapo, a polícia secreta nazista, e o Ministério do Interior.

No dia 30 de abril de 1945, o ataque ao prédio de fato começou. O autor Arseny Zamostyanov, em um artigo na revista “Istorik”³, explica:


“Soldados da 150ª Divisão de Rifles Idritsa (…) sob o comando do Major General Vasily Shatilov, começaram o ataque ao Reichstag na manhã de 30 de abril de 1945.”


O combate foi obstinado. Os soviéticos acabaram descobrindo que o prédio havia sido previamente preparado para ser defendido e várias metralhadoras e canhões estavam posicionados para defender o local. Dentro, haviam milhares de soldados nazistas.


Nesse momento, cabe dizer que a invasão ao Reichstag se dividiu em vários grupos do Exército Vermelho, cada qual com uma bandeira vermelha. Assim, a luta, que se dava corpo a corpo com o inimigo em cada sala, andar, escadaria, aconteceu simultaneamente envolvendo vários grupos de soviéticos, que iam hasteando suas bandeiras em pontos que haviam conquistado como meio de demarcação. Os primeiros grupos a adentrarem o prédio foram os homens dos capitães Vasily Davydov e Stepan Neustroev e do tenente Konstantin Samsonov.


Na noite do dia 30 de abril, com Hitler já morto, havia ao menos 4 bandeiras da URSS penduradas no prédio, mas todas em paredes laterais, estátuas e pórticos. Algumas delas foram derrubadas pelos nazistas. A mais alta de todas foi a hasteada numa estátua do Kaiser Guiherme II pelo sargento Mikhail Yegorov e pelo o sargento júnior Meliton Kantaria, sob o comando do tenente Alexei Berest — todos homens do capitão Stepan Neustroev. Porém, mesmo assim, não havia nenhuma ainda tremulando sobre a cúpula do prédio.


Foi apenas horas depois, na madrugada de 1º de Maio, que Yegorov e Kantaria conseguiram colocar a bandeira do seu grupo na cúpula propriamente dita, mas ainda em uma parte baixa dela, tendo em vista que os combates seguiam pelo prédio e essa operação se deu bem próxima de uma guarnição da defesa nazista que lutava no terraço do prédio. Eles conseguiram posicionar a bandeira com o apoio de um grupo de escolta do sargento Ilya Syanov. Essa bandeira se tornaria então a Bandeira da Vitória.


Mais tarde, por seu ato de bravura, todos os envolvidos foram condecorados com a mais alta honraria: Herói da União Soviética.


Depois de ter vencido a batalha nos andares superiores do Reichstag, no amanhecer do Dia do Trabalhador de 1945, os soviéticos descobriram que nos porões se escondiam ainda milhares de nazistas que seguiam resistindo. Os combates prosseguiram e esses grupos só foram suprimidos no dia 2 de Maio, dia no qual as tropas do general Helmuth Weidling, que defendia a cidade, também se renderam, finalizando a Batalha de Berlim.


Com dessa rendição total, mais uma vez Yegorov e Kantaria subiram ao topo do prédio para reposicionar a bandeira exatamente no topo da cúpula. O trabalho foi extremamente perigoso, tendo em vista que tal cúpula era formada por uma estrutura de armação de metal e vidro, que estava quebrado. Yegorov, que ia na frente, cortou as duas mãos em várias partes com os cacos de vidro. A altura do topo da cúpula até o chão era de aproximadamente 50 metros e uma queda seria provavelmente fatal.


Mesmo assim, no amanhecer do dia 2 de Maio de 1945, a tarefa foi cumprida. Depois de terem subido a bandeira, os soldados gritaram “URÁ!” (“viva!”) e finalmente tremulou no topo da cúpula do Reichstag a Bandeira da Vitória. Mas, para nosso infortúnio, não havia um fotógrafo para registrar esse momento.


As fotos que vemos

Os fotógrafos soviéticos só conseguiram chegar no prédio após o ato de colocação da bandeira. Vale lembrar que os embates seguiam por toda a cidade e os prédios vizinhos do Reichstag ainda estavam cheios de nazistas, por isso o problema de locomoção.


Para marcar o momento histórico e criar a iconicidade do fim da guerra, a colocação da bandeira foi encenada várias outras vezes para ser capturada pelas lentes dos correspondentes de guerra soviéticos. Durante os dias 2 e 3 de maio, vários grupos que haviam tomado parte do assalto ao Reichstag retornaram ao prédio e reposicionaram suas bandeiras, sempre acompanhados da imprensa de guerra.


Existem diversas fotos do hasteamento da bandeira em diferentes pontos do Reichstag, tomadas por diferentes fotógrafos, mas nenhuma mostrando a cúpula, tendo em vista que era desnecessário (e talvez impossível) reencenar uma operação tão perigosa. A bandeira da cúpula, a única Bandeira da Vitória de verdade, foi vista pelo mundo apenas através de uma fotografia aérea tirada pelo correspondente de guerra do jornal Pravda Viktor Tyomin.


A foto que acabou sendo imortalizada com o nome “Bandeira da Vitória hasteada sobre Berlim” é de autoria do fotodocumentarista soviético Yevgeny Khaldey. Ele subiu aos telhados do Reichstag com três soldados para tirar a fotografia e fez várias capturas de diferentes ângulos. Note que tal foto se dá na lateral do prédio, não na cúpula. Neustroev, Yegorov, Kantaria, Brest, Syanov ou Davygov não estavam presentes. Dessa maneira, o rapaz que hasteia a bandeira na foto é Aleksey Kovalev, natural de Kiev, Ucrânia. Ele é ajudado por Abdulhakim Ismailov, do Daguestão, na Rússia, e Leonid Gorychev, de Minsk, Bielorrússia.


O destino final

A Bandeira da Vitória ficou hasteada sobre o Reichstag por vários dias, até ser retirada para ser levada para Moscou, em uma cerimônia solene. Antes de embarcar para a URSS, a bandeira foi pintada com as inscrições que a fazem tão famosa hoje. Nela, foram escritas, de forma abreviada, as forças que operaram para o seu hasteamento. Lê-se: 150º Divisão de Rifles Idritsa, Ordem de Kutuzov 2ª classe, 79º Corpo de Fuzileiros, 3º Exército de Choque da 1º Frente Bielorrussa. “Ordem de Kutuzov” se refere a uma condecoração que a divisão ganhou por atuações passadas na guerra.


De volta à Moscou em 1945, ela foi escalada para participar da parada militar de 24 de junho na Praça Vermelha, onde deveria desfilar com toda pompa na primeira fileira. A organização da parada chamou Neustroev, Yegorov, Kantaria e Syanov para carregarem a bandeira, mas, feridos por conta dos combates, nenhum deles conseguia marchar, de maneira que a ideia foi abandonada e a Bandeira da Vitória não tomou parte do épico desfile.


Ela foi levada ao Museu das Forças Armadas para ser eternamente preservada. Uma cópia exata foi colocada em exposição e a original foi guardada em uma caixa blindada nos cofres do museu em condições de conservação ideais, onde permanece até hoje, tendo saído poucas vezes de lá.


Somente vinte anos depois, em 1965, ela viu novamente a luz do dia e pôde ser finalmente desfilada na Praça Vermelha: foi realizada uma parada militar para comemorar a Vitória na guerra (a primeira desde 1945 para celebrar tal fato) e ela foi empunhada justamente por quem a colocou sobre o Reichstag: Mikhail Egorov, Konstantin Samsonov e Meliton Kantaria, que já estavam 20 anos mais velhinhos. Kantaria, inclusive, virou deputado do Soviete Supremo.


Até hoje, usam-se cópias nas paradas militares anuais no 9 de Maio e é bastante comum ver Bandeiras da Vitória sendo usadas nas festividades do Dia da Vitória na Rússia e em vários lugares do mundo. Ela também foi usada nas guerras da Ucrânia nos últimos anos por grupos comunistas e pode hoje ser facilmente adquirida em sites de vendas online da China.


por Lucas Rubio

Graduando em Letras: Português-Russo pela UFRJ e membro do Grupo de Estudos 9 de Maio


NOTAS


(1) STALIN, Josef. Sobre a Grande Guerra Patriótica. Organização de João Claudio Platenik Pitillo e Ricardo Quiroga Vinhas. São Paulo: Editora Raízes da América, 2016, 1ª ed.

(2) DANILOV, Andrei. Знаменосцы Победы. Семь фактов о последнем штурме “логова фашистского зверя”. Agência Belta. Disponível em: <https://www.belta.by/society/view/znamenostsy-pobedy-sem-faktov-o-poslednem-shturme-logova-fashistskogo-zverja-390274-2020/>. Acesso em maio de 2021.

(3) ZAMOSTYANOV, Arseny. Знамя Победы. Disponível em: <https://xn--h1aagokeh.xn--p1ai/journal/41/znamya-pobedyi-a3.html>. Acesso em maio de 2021.

- BORMOTOVA, V.I. 70 лет назад, 2 мая 1945 г. во время Второй мировой войны советские войска овладели столицей Германии Берлином. Ministério da Defesa da Federação da Rússia. Disponível em: <http://mil.ru/winner_may/history/more.htm?id=12037657@cmsArticle>. Acesso em maio de 2021.



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