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"A mãe de um revolucionário"



Quando Jorge e Maria Helena chegaram na esquina, olhavam para todos os lados. Ela, miúda, de minissaia vermelha, camisa branca e cabelo comprido. Ele, sério, preocupado, levava em uma das mãos uma grande mala de couro vermelha e calçava sapatos bem lustrados, vestido com calça jeans e jaqueta. Pararam um táxi e, quando iam se sentar, Hebe chegou correndo: “Pra onde vocês vão?” Jorge se apressou em responder “vamos sair por uns dias, se você puder, passa algumas vezes lá em casa. Mas não se preocupe, mãe. Te ligo às duas.” O táxi partiu e Hebe ficou petrificada, pra onde eles estariam indo? O que aconteceu? Que angústia.


Ao chegar em casa, queria disfarçar, mas não conseguia, queria se sentar ao lado do telefone, mas ainda faltavam quatro horas para as duas da tarde. Queria ligar para a sua amiga Susana, mas não ligou, porque alguma coisa lhe dizia que era melhor não contar para ninguém que eles tinham partido. O cachorro pulava pedindo carinho, porém tudo incomodava Hebe. Decidiu então preparar alguma coisa para o almoço, para quando chegassem Raul, da faculdade, Alejandra, da escola e Tôto, do trabalho.


Abriu a geladeira, olhando tudo sem enxergar, queria achar alguma coisa, tirou abobrinhas, ovos, um pedaço de carne e se aproximou da bancada da pia, procurou o facão e a tábua de carne; colocou seu velho avental de listras azuis e brancas que, como todos os seus outros aventais, estava desbotado no lado esquerdo, lado que sempre usava para secar as mãos. Com seu olhar perdido janela à fora, via quando Jorge e Raul eram pequenos e brincavam na árvore dos fundos, no seu próprio recanto, seu mundo. Também via quando pescavam rãs no valão, na época em que Tôto, pai deles, levava os dois para caçar enguias. Via os cadernos cheios de capricho de Jorge, os insetos de Raul cravados numa tábua. As lágrimas começaram a descer como torrentes pelo seu rosto. Puxou um lenço, se enxugou e começou a cozinhar. Já faltava pouco para que chegasse Alejandra, que sempre vinha com muita fome.


O telefone tocou, e ela pulou para atender. Era Raul para avisar que não viria almoçar. Hebe estava com medo e resolveu não contar nada sobre a partida do irmão e da companheira. Alejandra chegou com o avental escolar numa mão e um bolo de figurinhas na outra. “Manheeeê, tô com muita fome, posso arrumar a mesa?” Hebe respondeu automaticamente. Sentaram-se frente a frente. “Que que você tem, mamãe?”. Hebe disse que estava um pouco resfriada, serviu a comida e ligou a televisão, pois assim não precisavam conversar. Alejandra perguntou por Raul e continuou vendo os desenhos animados.


Para Hebe o tempo não passava nunca. Tôto chegou e, enquanto ele almoçava, ela contou sobre Jorge e Maria Helena. Ele largou o prato e perguntou: “por quê?”. Ela não respondeu. O telefone tocou novamente, era Jorge. “Mãe, te espero no bar da galeria Saturno às quatro.” “Por que num bar?”. “Depois te explico, vem sozinha.”


Hebe quis deitar um pouco, mas não conseguia parar quieta. Alguma coisa não estava bem, ela pressentia. Às três, tomou um banho, trocou de roupa, deu um beijo em Alejandra, que continuava vendo televisão, deu um abraço em Tôto. Ele, quase sussurrando, falou: “te cuida”. Quando chegou na esquina, no ponto do ônibus Dom Roque, o jardineiro do bairro disse que um carro vermelho com vidros escuros estava dando voltas por ali. Ela deu um suspiro e subiu no ônibus sem falar nada.


Entrou na galeria tremendo. Ali na cafeteria do bar estavam os dois. Jorge tinha raspado a barba e cortado o cabelo. Maria Helena tinha uma trança e olhava para todos os lados. Hebe perguntou como e por quê. Jorge, de pé e pálido, só lhe deu um abraçou e disse:


– Mãe, você sabe que a mãe de um revolucionário tem que estar pronta... pra tudo.


O conto “A mãe de um revolucionário”, de Hebe de Bonafini, faz parte da coletânea El corazón en la escritura, composta por textos escritos pelas mães dos desaparecidos-forçados na última ditadura civil-militar argentina (1976-1983).


Garbero, M. F., & Couto, L. R. (2019). A mãe de um revolucionário, de Hebe de Bonafini. Cadernos De Literatura Em Tradução, (21), 72-76.

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