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A luta dos trabalhadores rurais do ES contra o latifúndio e a monocultura do eucalipto



No início do último mês de maio, os trabalhadores sem terra do norte do Espírito Santo rumaram a capital do Estado para reivindicar junto aos órgãos governamentais o assentamento das famílias acampadas debaixo de lonas há mais de 6 anos esperando o sonho de conquistar a terra para trabalhar, desenvolvê-la para tirar o sustento e garantir uma vida mais digna para suas famílias.


Os trabalhadores sem-terra capixabas denunciam que mais de 800 famílias estão sem resposta há anos, sem receber nenhum apoio dos governos estadual e federal, sofrendo todo tipo de mazela, miséria e pobreza, com a falta de estrutura básica e a total insegurança para as famílias, principalmente os mais vulneráveis, crianças e idosos, além de todo o tipo de preconceito de modo geral, não conseguem trabalho por ser sem-terra e não conseguem a posse da terra pela ação das estruturas burocratizadas dos órgãos públicos em todos os níveis de poder.


Na ocasião os trabalhadores sem-terra vieram mais uma vez se reunir com o governador Renato Casagrande (PSB) para exigir que as terras devolutas sejam entregues para quem nela trabalham e que se resolva o impasse. Os trabalhadores denunciam que as terras da Reforma Agrária estão sendo apropriadas pelas empresas de eucaliptos que dominam o cultivo no Espírito Santo, servindo para o acúmulo de riqueza da burguesia local, do latifúndio e dos seus mestres estrangeiros e para a miséria dos que nada tem. Outra situação é que a falta de transparência e a falta de fiscalização facilita a invasão das terras pelas grandes empresas que deveriam ser destinadas a Reforma Agrária.


Segundo eles não existem políticas públicas para os acampados e quem mais sofrem são as crianças e idosos. OS trabalhadores sem-terra denunciaram que foi suspenso o transporte que levavam as crianças para escola, e que agora terão que fazer uma longa caminhada até chegar a escola. Outra situação que vem dificultando ainda mais é que as crianças queixam que são excluídas pelas outras crianças por serem de família sem-terra.


Com a carestia dos alimentos e o aumento do custo de vida a cada dia vai ficando mais difícil para as famílias comprar alimentos e o acesso nos mercados é precário devido a falta de renda, se queixam que a cada dia está ficando mais difícil de encontrar algum bico, quanto mais trabalho com carteira assinada e que a única esperança é o acesso a terra para trabalhar, uma vez que a volta ao centro urbano já não é possível pois não teriam condição de custear aluguel, sendo assim, viver debaixo da lona a única saída, mesmo sendo muito desconfortável, muito quente e quando chove molha tudo.


Esse cenário ocorreu nos primeiros meses do ano, quando tiveram que fazer uma campanha de arrecadação para comprar alguns rolos de lona e refazer seus barracos. Segundo eles, ninguém vive na lona por que quer, mas é porque não tem pra onde ir.


As 60 famílias do acampamento Ondina Dias em Nova Venécia desde 2017 continuam a lutar decisivamente pela terra, desde que foram despejadas em abril de 2019 da Fazenda Neblina que constituía uma área de mais de 1,1 mil hectares. Após reintegração de posse das terras improdutivas aos latifundiários devedores de impostos pelo poder público burguês, as famílias foram alocadas para o Pequeno Mundo, uma área de reserva ambiental da Prefeitura de Nova Venécia que é uma área de brejo, um lugar inseguro com muito animais peçonhentos como informam os camponeses. O local foi dividido em pequenas metragens para que cada família pudesse reconstruir novamente seus barracos de tábua e lona e plantar algumas verduras no pequeno espaço em volta desses barracos.


Os camponeses relatam que o tratamento é bem diferente em relação aos grandes proprietários das terras, enquanto seus direitos legítimos à terra para produzir alimentos são desrespeitados e tratados com morosidade, sofrimento e humilhação, enquanto os ricos latifundiários tem todo o poder político, jurídico, midiático e militar ao seu favor. As suas reivindicações para ter o título da terra é tratada em regime de urgência como foi a articulação dos agropecuaristas no Congresso Nacional na tramitação da aprovação em agosto de 2021 do Projeto de Lei 2633/20 de Bolsonaro que facilita a regularização fundiária das terras da União, beneficiando mais de 300 latifundiários que pode autodeclarar o tamanho de suas terras sem vistoria prévia, incentivando grileiros e criminosos ambientais com a justificativa da drástica falta de servidores públicos, além de perdoar dívidas milionárias de impostos não pagos pelo não uso da terra.


Apesar de todo o sofrimento, os camponeses pobres do Norte do Espírito Santo buscam reagir a toda adversidade de forma coletiva procurando envolver em sua causa os trabalhadores e operários da cidade encontrando em muitos solidariedade.


E a luta desses trabalhadores rurais também se torna uma luta mais ampla pela defesa do meio ambiente, diante dos efeitos catastróficos do ponto de vista sócio-ambiental da monocultura do eucalipto que avanço no Espírito Santo. Entre 2007 e 2015, segundo o Atlas da Mata Atlântica do Espírito Santo, os plantios de eucalipto ocuparam mais 45 mil hectares de terras, o uso do solo que mais cresceu no período.


E é justamente essa monocultura que concentram boa parte dos latifúndios do Estado, com mais de 134 mil hectares. A Suzano e a Aracruz Celulose, que se fundiram em 2018 para se tornar uma gigante mundial do setor, com domínio de 16% do mercado mundial, dominam o campo capixaba, de modo que apenas uma das fazendas da empresa em Conceição da Barra tem 52,3 mil hectares, o que representa uma área maior que a soma de todos os assentamentos de reforma agrária existentes no Espírito Santo.



ABAIXO SEGUEM FOTOS DA ATUAL SITUAÇÃO DO CAMPONESES DO ACAMPAMENTO ONDINA REIS