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"O Imperialismo Ianque e o Perigo de Guerra"



A principal característica política mundial, atualmente, é uma crescente tensão, dentro dos vários países capitalistas e entre as grandes potências numa escala mundial, isto é, entre as forças da reação e as forças da democracia. Sublinhando esta situação geral, e dando-lhe urgência em toda parte, está o esforço dos Estados Unidos, controlados como são pelos grandes e corporações, de conquistar o domínio mundial. Wall Street está tentando forçar uma paz ditada pelo imperialismo americano a um mundo resolvido a transformar em realidade os objetivos democráticos pelos quais os povos combateram e derrotaram as potências fascistas do eixo. A tensão causada por esta ofensiva do imperialismo americano pelo controle mundial se tornou agora tão intensa que provoca receios, entre as massas, neste e em outros países, de outra guerra mundial, uma guerra que se travará com armas atômicas, bacteriológicas, super temíveis. Vejamos o que há de verdade neste receio de guerra. Colocar claramente a questão de se há ou não o perigo de guerra será o objetivo principal do meu informe.


Depois da Batalha de Stalingrado, quando a perspectiva da vitória final se abriu diante dos países democráticos, os grandes capitalistas dos Estados Unidos, capitalizando sobre o grande poderio industrial e militar deste país e sobre a debilidade causada pela guerra em outros países, já haviam resolvido que, no período de pós-guerra, estabeleceriam uma paz que seria formulada de acordo com os interesses de Wall Street e não com os dos povos democráticos.


Hoje, a política exterior americana está sendo ditada pelo Partido Republicano, o principal partido do capital financeiro imperialista. Exatamente o que era a política desse partido foi indicado ainda durante a guerra, quando declarei o seguinte no Daily Worker de 25 de julho de 1944, comentando a campanha presidencial:


"Não nos enganemos. Um governo Dewey seguiria uma política ativamente imperialista e seria um inimigo da democracia e do progresso em todo o mundo."


A sua marcha, se não fosse contida pela resistência democrática, levaria à crise econômica, ao renascimento da reação fascista e a uma terceira guerra mundial.


Para este fim, mesmo antes de concluída a guerra, os grandes trustes deste país desfecharam uma grande ofensiva econômica, política e diplomática destinada a invalidar a URSS e outras forças democráticas e a fazer de Washington (isto é, Wall Street) a capital do mundo. Desde então, esta ofensiva imperialista americana tem sido continuada, vigorosamente e sem descanso. Está sendo conduzida sob palavras de ordem hipócritas acerca da defesa da democracia mundial e acerca da necessidade de os Estados Unidos exercerem a liderança moral do mundo. Esta hipocrisia só encontra símile na do Vaticano, que, embora fale em nome da preservação da paz mundial, constantemente declara o seu apoio à Doutrina de Truman, aos piores reacionários e fazedores de guerra.


Entre os objetivos específicos estabelecidos pelo imperialismo americano nesta ofensiva pela conquista do mundo podemos enumerar os seguintes:


— Reduzir a União Soviética à situação de uma potência de segunda classe.

— Forçar a Grã-Bretanha à situação de sócio mirim de Wall Street.

— Criar uma Europa reacionária antissoviética, dominada pelos Estados Unidos.

— Transformar as nações derrotadas — Alemanha, Japão e Itália — em satélites dos Estados Unidos.

— Estabelecer a hegemonia econômica e política americana sobre as nações coloniais que estão afrouxando os seus laços com os Impérios britânico, holandês, e belga.

— Fortalecer o controle monopolista americano sobre toda a América Latina.


Juntamente com estes grandiosos projetos de conquista, os magnatas de Wall Street também planejaram dirigir as Nações Unidas como julgassem conveniente; assegurar o seu controle sobre os mercados do mundo através das vastas e importantes indústrias deste país; e estabelecer bases navais e aéreas americanas em todo mundo. Dentro dos Estados Unidos, como base de todas as suas conspiratas imperialistas, propuseram-se estabelecer um regime ultrarreacionário, militarizado, se não declaradamente fascista.


Tal é a espécie de paz imperialista que o governo de Truman, controlado pelos trustes, e o Partido Republicano, com a sua chamada política bipartidária, estão tentando impor ao mundo, com o auxílio do Vaticano, dos social-democratas da direita e de fascistas e reacionários capitalistas em vários países. Os Estados Unidos na verdade se tornaram os organizadores e os dirigentes da reação em todo o mundo.


Nenhuma outra nação na história, nem mesmo a Alemanha nazista ou o Japão militarista, jamais estabeleceu para si mesma objetivos imperialistas de tal importância. O programa todo é fantasticamente impossível. Ainda mais, os leaders imperialistas de Wall Street o tornaram ainda mais impossível porque esperaram estabelecer este domínio americano do mundo, não depois de um longo período de anos, mas imediatamente após o término da guerra. A sua diplomacia da bomba atômica e a sua truculência geral nas Nações Unidas e em todos os quatro cantos da terra se basearam nesta concepção de tomar de uma vez a direção do mundo.


Mas esta ofensiva imperialista de Wall Street contra a democracia mundial não obteve sucesso. E por dois motivos principais. Primeiro, as forças do capital monopolista em escala mundial se enfraqueceram muito na guerra — os Impérios alemão, japonês e italiano foram destruídos; os Impérios britânico, francês e holandês também foram seriamente minados; enquanto, em toda a Europa como em outras partes do mundo, os efetivos dos grandes monopolistas, financistas e latifundiários foram seriamente reduzidos. Somente nos Estados Unidos e no Canadá o capitalismo monopolista pôde se fortificar, mas, ainda aqui, sofre de sérias debilidades econômicas e políticas. Em segundo lugar, o imperialismo americano não alcançou o seu objetivo, porque as forças democráticas do mundo se fortaleceram muito em consequência da guerra. A URSS se tornou uma das primeiras potências do mundo, os povos coloniais estão se levantando quase em toda parte, a Europa está viva com uma nova e militante democracia e os Sindicatos e os Partidos Comunistas aumentaram de muito as suas forças em todo o mundo. Estas forças democráticas estão oferecendo resistência ao imperialismo americano, em escala internacional. As relações das forças da democracia e da reação são radicalmente diferentes, depois desta guerra, do que eram depois da primeira guerra mundial. O resultado geral é que as Nações Unidas de maneira alguma se transformaram no instrumento conveniente para os Estados Unidos que Wall Street esperava. Em consequência, os imperialistas tiveram de depender, cada vez mais, da ação unilateral dos Estados Unidos como no caso da Grécia e Turquia. Este rumo de ação está enfraquecendo grandemente as Nações Unidas. Pelo mesmo motivo, os slogans mundiais americanos de livre comércio e de livre empreendimento estão encontrando oposição eficaz nas várias conferências mundiais e nos mercados do mundo. Em suma, a situação do após-guerra — uma reação mundial enfraquecida e uma democracia mundial fortalecida — está em ação para bloquear os planos imperialistas de Wall Street de conquista do globo.


O imperialismo americano inquestionavelmente obteve inúmeras vitórias importantes desde o fim da guerra, mas também sofreu muitas contenções e derrotas. A Grã-Bretanha, embora tenha sido forçada a uma posição secundária em relação com a deste país, não é de maneira alguma uma presa dócil do imperialismo americano. Os interesses britânicos basicamente entram em conflito com os interesses de Wall Street em muitas partes do mundo e esta contradição está prenhe de perigos dinâmicos para a situação do grande capital americano. Na Europa, também, o imperialismo americano obteve algumas vitórias, como a exclusão (que se revelará temporária) dos comunistas dos governos da França e da Itália. A democracia na Europa, entretanto, está mais do que sustentando as suas posições na sua luta contra a reação nativa e a reação americana. O Japão foi reduzido virtualmente a uma colônia de Wall Street, mas a Alemanha e a Itália de maneira alguma foram capturadas pelo imperialismo americano. Na América Latina, a despeito da recém-anunciada "amizade" com a Argentina, os Estados Unidos também defrontam sérias dificuldades. Especialmente no mundo colonial, o futuro se mostra sombrio para os imperialistas, com a Índia, a Indonésia, a Indochina, a Birmânia, Madagascar e outras grandes colônias a se movimentarem, irresistivelmente, a despeito de revezes temporários, para maior independência. A China, particularmente, registra uma grande perda para os imperialistas de Wall Street, com o governo de Chiang-Kai-Shek, alimentado de colher pelos Estados Unidos, combatendo agora de costas para a parede, contra a onda crescente do vigor democrático do povo chinês. E, mais importante do que tudo, a URSS, vanguarda das forças democráticas do mundo, não se deixa intimidar pela diplomacia da bomba atômica de Wall Street; a sua influência é agora maior do que nunca e está aumentando rapidamente. Há ainda a poderosa e crescente resistência do povo americano ao imperialismo de Wall Street. Contudo, a vitória mais significativa do imperialismo americano desde o fim da guerra foi conquistada neste país, quando, em novembro passado, o Partido Republicano, o principal partido do imperialismo americano, capturou ambas as Casas do Congresso. Isto, vemo-lo agora, está aumentando o perigo de fascismo nos Estados Unidos.


A despeito destes êxitos nacionais, entretanto, a situação mundial se apresenta de maneira muito insatisfatória e alarmante para Wall Street; mostra que o imperialismo americano, com todas as suas ameaças de guerra, não pode forçar a sua paz imperialista ao mundo. A política internacional apresenta o quadro da democracia mundial em marcha para a frente, a despeito de tudo o que o imperialismo americano e os seus aliados reacionários podem fazer para detê-la. Daí que os senhores dos grandes negócios americanos estejam aflitos, com o pesadelo de uma democracia radical e do socialismo em avanço, que, acreditam, porão fim ao capitalismo e ao seu "livre empreendimento". Estão convencidos de que o imperialismo americano deve dominar a todo custo — ou o sistema mundial do capitalismo estará perdido. Nunca, na história dos Estados Unidos, a classe capitalista americana esteve tão assustada, confusa e pessimista como agora. Em consequência, está tentando aplicar medidas cada vez mais drásticas para obter a sua própria dominação imperialista do mundo. Este novo impulso à ofensiva imperialista se exprime com agudeza na chamada Doutrina de Truman de intervenção militar em vários países para derrotar as forças da democracia.


Anteriormente, o depósito de armas do imperialismo americano consistia principalmente de ameaças com a bomba atômica e de manobras de preparação de guerra, do uso político das reservas de alimentos entre os povos famintos e da coerção política dos países devastados pela guerra pela concessão ou negação de empréstimos financeiros. Estas armas são muito poderosas, mas naturalmente não são poderosas o bastante. De maneira que a elas foi acrescentada a política de aberta intervenção militar pelos Estados Unidos, ao lado da reação, em várias situações críticas em outros países. Esta Doutrina de Truman está sendo executada abertamente na Grécia e na Turquia com o objetivo expresso de combater a nova democracia europeia e o socialismo, convenientemente apelidado de comunismo. A nova doutrina do presidente Truman é a edição de 1947 do Pacto Anti-Komintern de Hitler.


A Doutrina de Truman, levada à sua conclusão lógica, chegaria a iniciar guerras civis em dados países, a fim de manter minorias reacionárias no Poder governamental ou lhes dar esse Poder. Realmente, em vários países, os Estados Unidos praticamente já estão travando a guerra contra as forças democráticas. Este estímulo à guerra civil não é exatamente uma nova política, entretanto, para os imperialistas americanos. A história da América Latina tem muitos exemplos de governos instituídos por golpes, de Estado organizados por aventureiros americanos. Na China, também, o resultado da nossa política é a guerra civil atual. E, na Polônia, as tentativas dos imperialistas britânicos e americanos, continuada por vários anos, de forçar governos reacionários contra a vontade do povo polonês, culminaram em tentativas armadas para derrubar o atual governo democrático. Agora o que se propõe é o amplo uso desta técnica de guerra civil na Europa. A consequência é que todos os aventureiros reacionários e fascistas da Europa, desde De Gaulle na França até Petkov na Bulgária e Nagy na Hungria, continuarão achando que podem contar com o apoio do presidente Truman, mesmo até o ponto de guerra civil.


A Doutrina de Truman, entretanto, teve consequências negativas muito sérias para o imperialismo americano. O deslavado apoio aos regimes reacionários grego e turco, e a ameaça de seguir uma linha semelhante em outros países, chocou e alienou forças democráticas em todo o mundo. Aqui, nos Estados Unidos, as grandes massas veem que a Doutrina de Truman entra diretamente em conflito com os nossos interesses nacionais. Esta política pôs de lado os fingimentos de democracia do programa exterior de Wall Street e expôs a nu o seu coração reacionário. Até mesmo muitos reacionários americanos duvidam da sabedoria da Doutrina de Truman, explicando, com razão, que está provocando o antagonismo das forças liberais e democráticas de todos os países.


Agora temos o chamado Plano Marshall. O objetivo deste Plano é tentar executar a Doutrina de Truman e, se possível, torná-la mais digerível às massas democráticas, iniciando um plano de super empréstimos para toda a Europa. De acordo com este plano, bilhões de dólares seriam colocados pelo governo dos Estados Unidos à disposição dos vários governos europeus. Este plano, é claro, se Wall Street tiver êxito, se revelará apenas outra maneira de a reação combater mais eficazmente a democracia. O simples fato de que um plano financeiro tão grandioso deva ser projetado e apoiado por poderosos leaders políticos indica a profunda convicção, nas fileiras capitalistas, de que a atual política imperialista americana na Europa não está obtendo êxito e deve ser grandemente fortalecida. Por trás disto há também um grande receio pela estabilidade do capitalismo na Europa.


O Plano Marshall é um esquema para colocar toda a Europa em servidão econômica e política em relação com os Estados Unidos. Isto já foi esclarecido pelos que o apoiam. Por trás desse plano surge também a proposta do reacionário Churchill para o estabelecimento de um bloco antissoviético de potências da Europa ocidental, os chamados Estados Unidos da Europa. E uma tentativa de dividir o mundo em dois campos armados e hostis. Naturalmente, o nosso Partido apoia empréstimos financeiros, tão grandes quanto possível, aos países democráticos empobrecidos da Europa. Talvez o nosso Partido necessite de formular um programa geral de auxílio americano à Europa. Uma grande parte de tal programa deve ser a luta contra o ditame, pelos imperialistas de Wall Street, de condições políticas reacionários para os empréstimos, e insistir em que esses empréstimos sejam formulados no interesse comum do povo da Europa e dos Estados Unidos. Devemos compreender claramente que o Plano Marshall não é um substitutivo da Doutrina de Truman, mas uma extensão e um reforço dessa doutrina. O que surgirá do Plano Marshall depende da resistência dos povos europeus às condições políticas estabelecidas por Wall Street para auxílio financeiro.


A política exterior imperialista americana, de ameaças de guerra e de brandir de espadas, serve a muitos fins importantes. Antes de tudo, é uma arma para arrancar concessões econômicas e políticas às nações mais fracas e para reduzi-las à situação de Estados-títeres dos Estados Unidos. Em segundo lugar, é um meio de estimular as forças reacionários na Europa, de lhes dar a esperança da sua desejada guerra entre os Estados Unidos e a URSS. Em terceiro lugar, essas manobras de guerra, criando um terrorismo ideológico neste país, são uma conveniente cortina de fumaça por trás da qual se pode levar avante o programa do grande capital, de reação política e de formas fascistas, nos Estados Unidos. Em quarto lugar, o temor deliberadamente cultivado da guerra oferece uma excusa plausível para manter e estender os estabelecimentos militares nos Estados Unidos, que agora se elevam à cifra sem precedentes de 16 bilhões de dólares por ano em tempo de paz.


Por trás destes objetivos imediatos das manobras de guerra americanas há um verdadeiro perigo de guerra. Naturalmente a Doutrina de Truman, promovendo a guerra civil em apoio a minorias reacionárias, é por isso mesmo uma ameaça à paz mundial. Uma guerra civil na França ou na Itália, por exemplo, — e há esse perigo em consequência da intervenção e da conspiração imperialista americana, — pode causar uma guerra entre nações, de longa repercussão. Há também perigo verdadeiro quando o mais poderoso país capitalista do mundo está febrilmente se armando, como o fazem agora os Estados Unidos, e quando está levando avante uma verdadeira ofensiva diplomática, econômica e de propaganda contra a URSS, acompanhada por ameaças militares que estão se tornando cada vez menos veladas. Em vista de tudo isto, seria loucura ignorarmos a existência de um perigo de guerra potencial. Isto seria uma política de avestruz, que poderia levar a um desastre. As únicas conclusões pertinentes que podemos tirar de toda a situação são as de que a política exterior de Truman, se não for contida, levará à guerra; e que, portanto, devemos combatê-la como sendo essencialmente uma política de guerra.


Ao determinar o grau do perigo de guerra existente não devemos reduzir o perigo de guerra a uma abstração teórica, nem devemos pintar um quadro que faça parecer que a guerra está muito próxima. Devemos particularmente fazer oposição a toda ideia de que a guerra é inevitável. Devemos fazer uma sóbria análise marxista da situação, pesando dialeticamente os fatores pró e contra a guerra. Um elemento importante nesta análise, um fator que temos negligenciado até agora, é analisar os agrupamentos da classe capitalista americana em relação à política exterior e as forças sociais que agem sobre esses grupos. Isto é fundamentalmente necessário, pois, como os capitalistas constituem a classe dominante, as suas atitudes e as suas maneiras de ser são de importância decisiva nas grandes questões da guerra e da paz.


Neste ponto, observemos que um elemento básico do revisionismo de Earl Browder era a sua estimativa, grosseiramente falsa, dos agrupamentos capitalistas neste país. Via os elementos da extrema direita e via o grupo de Roosevelt, mas não via o grosso dos capitalistas entre esses dois extremos. Cometeu o ridículo erro de tentar classificar as seções decisivas do capital financeiro como parte do grupo de Roosevelt. Este absurdo pôs completamente a perder todos os seus cálculos. Não devemos cometer tal erro, seja em relação à direita ou à esquerda, ao analisar as tendências entre os capitalistas.


Na questão da política exterior há em geral três agrupamentos entre os capitalistas. O primeiro, uma seção menor dos capitalistas, constitui o partido declaradamente da guerra. Entre eles há democratas como há republicanos. Este grupo favorável à guerra é constituído pelos elementos mais conscientemente fascistas do nosso país. A essência da sua atitude é a de que acreditam que uma paz imperialista americana pode ser ditada ao mundo somente depois que a URSS for esmagada militarmente. Vozes típicas entre esses fazedores de guerra são os Hearst, Patterson, McCormick, Bullitt, Earle, McArthur, etc. Consideram a guerra com a URSS inevitável — e quanto mais cedo melhor. Enchem a nossa imprensa e o nosso rádio com inflamadas declarações guerreiras. São advogados mais ou menos declarados de uma guerra "preventiva" contra a URSS. Desejam usar a bomba atômica contra esse país, enquanto, pelo que supõem, os Estados Unidos têm o seu monopólio. São ultramilitaristas e advogados insolentes da política de firmeza com a Rússia. Estão agora exigindo uma decisão sobre a política para com a Rússia. Vários leaders trabalhistas, como Matthew Woll e David Dubinsky, devem ser classificados neste grupo declaradamente favorável à guerra, juntamente com muitos social-democratas de direita e comunistas renegados. Muitos dos mais eminentes prelados católicos também se encontram neste grupo poderoso.


O segundo e mais poderoso grupo da classe capitalista tem concepções muito contraditórias sobre o que deve ser a política exterior americana, especialmente em relação à questão da guerra. Em geral, com algumas reservas, acreditam que uma guerra com a URSS é talvez inevitável, apoiam a linha geral de firmeza com a Rússia e a Doutrina de Truman de intervenção direta contra as forças democráticas em vários países. São igualmente campeões da atual política exterior, chamada bipartidária, de manipulação das reservas alimentares e imposição de condições políticas reacionárias aos empréstimos financeiros para países devastados pela guerra. Apoiam o programa do governo, de propaganda antissoviética e de expansão militar, inclusive os três grandes salientes aéreos antissoviéticos que o governo está construindo no Polo Norte, através das ilhas japonesas e via Mediterrâneo e Oriente Médio, e o estabelecimento de bases militares em todo o mundo.


Este setor da classe capitalista, o maior e o mais decisivo, embora em geral tenha a perspectiva de uma guerra eventual, diverge quanto à questão da guerra. Tendo o palpite de que as forças em escala mundial são definitivamente contra o início de uma nova guerra, estes capitalistas são assaltados por muitas dúvidas e receios. Muitos deles vacilam quanto à sabedoria da Doutrina de Truman e muitos outros hesitam quanto ao fornecimento dos grandes fundos necessários para o Plano Marshall — e estabelecem condições políticas reacionárias para esse auxílio. Também duvidam da eficácia da bomba atômica como arma militar decisiva. Temem que a Grã-Bretanha não participe de uma guerra antissoviética. Veem com alarme o cansaço de guerra dos povos europeus e especialmente o poderoso espírito anti-guerreiro do povo americano. Temem o vigor da URSS e das novas democracias. Mostram-se céticos quanto à possibilidade de ganhar uma guerra antissoviética e temem que essa guerra possa trazer o fim do capitalismo e a vitória mundial do socialismo. Daí que vacilem quanto a atitudes que levam à guerra. Estas contradições e vacilações neste amplo grupo de capitalistas são intensificadas pelas rivalidades partidárias entre os dois grandes partidos.


Às vezes, este grupo mais amplo de capitalistas, inclinando-se para os advogados declarados da guerra, aguça perigosamente a sua atitude antissoviética e antidemocrática, como, por exemplo, na proposta de Hoover para um tratado de paz em separado entre os Estados Unidos e a Alemanha. Mas, por outro lado, ainda nutre a esperança de que, sem recorrer à guerra, possa impôr, através de negociações, a sua paz imperialista à União Soviética e ao resto do mundo. Os seus Ieaders no governo ocasionalmente chegam a acordo com a URSS em alguns pontos importantes, embora com muito labor e angústia.


Isto até torna possível certo grau de acordo na próxima conferência, em novembro, dos Ministros do Exterior.


Os principais porta-vozes deste grupo capitalista decisivo são os Hoover, Vandenberg, Truman, Marshall, Dulles, Dewey, Connally, etc. É o grupo capitalista mais decisivo, o que está atualmente dando forma às relações exteriores americanas. A maioria dos "leaders" trabalhistas atualmente segue este grupo capitalista em política internacional .


O terceiro grupo capitalista, decididamente uma fração menor, tem, como os seus mais eminentes porta-vozes, Henry A. Wallace e o senador Pepper. E o que resta da antiga seção rooseveltiana dos capitalistas. Representa, na maioria, pequenos capitalistas. Há poucos, se há, grandes capitalistas financeiros. Este grupo segue uma linha de paz internacional; é pela colaboração amistosa com a URSS e pela unidade do Grande Trio. O apoio a este grupo, por parte da imprensa capitalista, é mínimo, mas dispõe de muitos seguidores entre as categorias inferiores de funcionários sindicais e entre as grandes massas da população.


Quanto às massas democráticas do povo americano — operários, lavradores, negros, intelectuais, pequenos comerciantes, etc., — são muito contra a guerra e este é o mais decisivo fator entre todos no nosso cálculo. Um inquérito recente da organização Gallup mostrou que 62% da população acredita que a cooperação americana com a União Soviética é possível. E, num inquérito do Town Meeting of the Air, especificamente sobre a questão do auxílio financeiro e militar à Grécia e à Turquia, 75% das respostas declaravam que a chamada Doutrina de Truman é uma política que conduz à guerra. O povo americano é obstinadamente não militarista. Lutou para que as tropas regressassem de ultramar e fossem desmobilizadas, imediatamente depois de cessada a guerra. É em geral contra o treinamento militar universal, o controle militar da energia atômica, os enormes orçamentos militares e vários outros projetos militaristas caros ao coração dos fazedores de guerra e imperialistas.


Embora reconhecendo este antimilitarismo básico de massa do povo americano, o nosso Partido se iludiria perigosamente se, ao mesmo tempo, não notasse certas atitudes perigosas entre certos setores das massas. É um fato que, devido aos incessantes ataques da imprensa e do rádio, grande número de elementos democráticos, inclusive muitos operários, estão profundamente envenenados contra a URSS e contra as novas democracias europeias. Um exemplo perigoso disto se viu durante a Convenção do Sindicato dos Trabalhadores Internacionais de Roupas de Senhora — anticomunista e antissoviética. Muitos "leaders" trabalhistas, em geral progressistas, também foram afetados pela atual histeria anticomunista. Estes preconceitos não somente aleijam os operários na sua luta geral contra o programa nacional da reação de Wall Street, como especialmente os confundem quanto à política exterior. Há perigo ainda mais grave de que. no caso de uma verdadeira crise internacional, esses elementos contaminados sejam presa fácil dos fazedores de guerras, de tendências fascistas. Tudo isto leva à conclusão de que há a mais patente necessidade de despertar os operários e os seus aliados progressistas ante o sério perigo representado peio anticomunismo, pelas manobras imperialistas e pela provocação guerreira antissoviética ao estabelecimento de uma paz democrática mundial.


Os três agrupamentos capitalistas que analisei rapidamente não são, naturalmente, estáticos. Os seus efetivos e a sua influência variam sob diferentes pressões e condições. O perigo de guerra pode ser materialmente aguçado por forças que aumentem os efetivos e o prestígio do primeiro grupo, o mais decididamente favorável à guerra. E, vice-versa, o perigo de guerra será diminuído pelo enfraquecimento desses elementos de extrema direita.


Um aumento do perigo de guerra pode ocorrer sob pelo menos três condições:


O grupo de fazedores de guerra pode tornar-se realmente perigoso no caso do sério enfraquecimento das forças democráticas deste país através da perda de greves importantes, através da promulgação de leis reacionários pelo Congresso, como a lei do trabalho escravo Taft-Hartley, ou especialmente através de uma grande vitória dos republicanos nas eleições presidenciais de 1948. — Os fazedores de guerra também podem tornar-se uma ameaça com o aparecimento de uma severa crise econômica, durante a qual muitos capitalistas se voltariam para um programa de governo de fabrico de munições, a fim de manter ocupadas as suas fábricas. — Também poderiam tornar-se ameaçadores caso atitudes de desespero fossem geradas entre os imperialistas por um agudo senso de insucesso da sua política internacional, isto é, pela criação de uma situação em que poderiam tentar resolver, por meios militares, os problemas de controle que não podem resolver pela diplomacia, pelo dinheiro ou por alimentos.


Qualquer destas três condições, ou todas juntas, podem tornar agudo o perigo de guerra, entregando maior soma de poder nas mãos dos piores e mais inescrupulosos imperialistas e fazedores de guerra deste poderoso país.


Por outro lado, uma vitória das forças democráticas neste país, especialmente nas eleições de 1948, retiraria o chão de sob os rápidos fazedores de guerra e os tornaria impotentes. Há muitos sinais de que tal vitória está sendo preparada.


A análise precedente mostra bem os motivos por que devemos estar alerta para combater o perigo de guerra. Este país é o centro deste perigo e nós, comunistas americanos, temos responsabilidades especiais no combatê-lo. Devemos denunciar impiedosamente e combater todas as medidas dos provocadores de guerra, seja na forma de propaganda guerreira ou de verdadeiros preparativos militares. Com a aprovação da lei Taft-Hartley há agora um perigo fascista nos Estados Unidos, o que significa que há também um perigo de guerra. Devemos analisar cuidadosamente as origens, o caráter e a urgência deste incipiente perigo fascista. No desenvolvimento das eleições nacionais de 1948, também devemos levantar palavras de ordem antifascistas e antiguerreiras. O povo americano está certo nos seus receios de guerra, na ânsia com que tantos milhares de pessoas se reúnem agora em torno do programa de paz de Henry Wallace. O povo americano sente o perigo de outra guerra mundial e deseja tomar precauções contra isto. Devemos apoiá-lo e auxiliá-lo na execução desta resolução.


Na nossa luta por uma paz democrática, contra os imperialistas provocadores de guerra, há vários fatores importantes que devemos ter sempre em mente.


O primeiro e o mais básico destes fatores é mostrar aos operários e às demais forças progressistas que a política exterior do governo é altamente prejudicial aos interesses nacionais. Uma ameaça mais perigosa é a tentativa dos reacionários de fazer parecer que a sua chamada política exterior bipartidária é uma política nacional, iniciada no interesse de todo o povo. Isto está ligado à ideia tola, mas muito difundida, de que a política de classe se detém à margem do oceano. A todo custo, devemos deixar claro para as massas que a política exterior do nosso governo é a política exterior do grande capital e, como tal, prejudicial para as massas. Devemos fazê-las compreender que os grandes capitalistas, a fim de roubar a todas as pessoas que podem colher entre as suas garras, tanto aqui como no estrangeiro, formulam a política nacional e a política exterior, que são apenas duas faces de uma mesma política. Assim, a luta contra o imperialismo deve estar ligada a todos os interesses imediatos e a todas as lutas diárias dos operários, à luta contra as tendências fascistas nos Estados Unidos.


Em segundo lugar, devemos ter por alvo fazer com que as massas compreendam que a política exterior americana é reacionária, imperialista e agressivamente expansionista em caráter. Na Grã-Bretanha, que todo inglês compreende que é o coração de um grande império, é relativamente fácil dar ao povo pelo menos um indício do conteúdo imperialista da política do governo — até mesmo do governo trabalhista. Mas, como o nosso país tem apenas algumas colônias de pouca importância, é muito mais difícil fazer com que as massas compreendam que os Estados Unidos são, ainda assim, um império e que o governo está conduzindo uma política imperialista. Isto exige um infinito trabalho educacional de nossa parte para descobrir a natureza imperialista da impiedosa campanha de Wall Street para estabelecer o seu dominante controle nas várias partes do mundo. Devemos ensinar às massas que uma guerra como a que os instigadores da guerra estão agora advogando seria reacionário, seria dirigida contra a democracia e tenderia a estabelecer o fascismo mundial.


Em terceiro lugar, devemos convencer as massas de que a guerra que os instigadores agitam e preparam seria uma guerra desnecessária. Devemos mostrar-lhes, incansavelmente, que não há conflito entre os interesses dos povos americano e soviético e demonstrar que, pelo contrário, com atitudes corretas, relações comerciais e culturais mutuamente proveitosas podem ser estabelecidas entre essas duas grandes nações. Devemos atribuir a atual tensão internacional diretamente aos seus responsáveis — aos imperialistas de Wall Street, que desejam conquistar o mundo para o bem dos seus lucros, ainda que tenham de provocar uma das guerras mais tenebrosas para consegui-lo. Dia a dia, devemos advogar a política rooseveltiana de colaboração entre as três grandes potências. Devemos fazê-lo concretamente, na base das longas e amistosas relações existentes entre os povos americano e russo.


Em quarto lugar, devemos mostrar às massas, também, que a guerra que Hearst e os seus comparsas preparam não será apenas uma guerra desnecessária, mas também uma guerra perdida. Nas duas guerras mundiais, o povo americano escapou com pequenas perdas porque outros povos sustentaram o grosso dos combates, a maior parte dos sofrimentos e das baixas. No nosso país, os operários na verdade gozaram de empregos mais firmes e melhores padrões de vida do que antes. Consequentemente, jamais sentiram, realmente, no seu coração, o terror de ferro da verdadeira guerra. Os instigadores de guerra tentam explorar as fáceis experiências de tempo de guerra dos americanos fazendo parecer que a guerra antissoviética seria uma espécie de pic-nic. Devemos destruir completamente esta noção ilusória. Devemos mostrar às massas que uma guerra dirigida contra as forças democráticas do mundo seria uma guerra atômica bilateral, esmagadora nos seus horrores e na sua destruição; que os Estados Unidos teriam de travar a guerra virtualmente sozinhos e que a guerra possivelmente não seria ganha por nós. Devemos tornar claro que uma terceira guerra mundial resultaria na completa devastação do nosso país e de outras partes do mundo.


Em quinto lugar, devemos demonstrar sistematicamente às massas os efeitos imediatamente prejudiciais da histérica instigação de guerra agora em desenvolvimento neste país. Isto é, devemos tornar claro que, enquanto os reacionários gritarem, do alto dos telhados, sobre um iminente período de guerra, e enquanto esta provocação de guerra não tiver um freio, mais rapidamente eles poderão assustar e levar o povo a adotar o seu perigoso programa de militarismo, mais facilmente poderão forçar a aprovação de leis antissindicais e, em geral, poderão adiantar-se para o seu objetivo de ultra reação ou fascismo. Devemos mostrar claramente às massas que a luta por uma paz popular pressupõe a luta enérgica contra os anticomunistas sistemáticos, os imperialistas e, os instigadores de guerra. Uma das principais razões por que os reacionários puderam levar para a frente a lei antissindical Taft-Hartley no Congresso foi precisamente a orgia selvagem de propaganda anticomunista e de instigação de guerra atualmente em desenvolvimento nos Estados Unidos.


Em sexto lugar, devemos combater resolutamente toda sugestão de que uma guerra americano-soviética é inevitável. Neste ponto, temos muito a aprender com os comunistas de outros países. Em muitos países os reacionários estão depositando as suas esperanças numa próxima guerra americano-soviética, pois essa guerra lhes prolongaria a vida. Mas os Partidos Comunistas desses países estão firmes na sua atitude de que o povo não deixará que essa guerra possa acontecer


Embora, como marxistas, saibam que o imperialismo gera a guerra, não dão auxílio nem descanso aos seus inimigos, aceitando uma perspectiva de guerra para o futuro mensurável. O mais resoluto de todos, neste sentido, é o povo soviético. Imaginemos que profundo choque seria para o mundo, e como se alegrariam os instigadores de guerra, se Stalin declarasse que, na sua opinião, a atual tensão internacional leva à guerra. Na recente comunicação oficial soviética sobre a abolição da pena capital, afirma-se que se pode agora considerar que a paz está segura por um longo período de tempo. Uma declaração tão categórica da certeza da paz tem por trás de si uma firme convicção de que as forças democráticas do mundo estão agora suficientemente fortes para impedir que se produza outra guerra mundial. Mas, se esse prognóstico otimista do longo período de paz se revelar verdadeiro, os militaristas instigadores de guerra nos Estados Unidos terão de ser decisivamente derrotados pelo povo americano.


A paz não se desenvolve automaticamente — é necessário lutar por ela. Enquanto durar o capitalismo, a luta contra a guerra e pela paz terá de continuar. Nos Estados Unidos, nós, comunistas, temos uma tarefa especialmente urgente, nesse sentido, no momento atual, no combate aos instigadores de guerra, pois o grande capital americano se atirou a uma campanha mundial de poder e está insistentemente tentando forçar o seu tipo de paz imperialista ao mundo. Devemos reconhecer francamente o perigo de guerra envolvido em atitudes intervencionistas como a Doutrina de Truman e devemos advertir o povo a estar em guarda contra elas. Como observei antes, devemos ser cuidadosos e não sobrestimar o perigo de guerra, mas também não devemos reduzir este perigo a uma simples abstração teórica. Cabe-nos considerar dialeticamente a situação como marxistas, pesar o perigo de guerra tal como existe e combater os instigadores de guerra com a cabeça fria e sem descanso. Nesta luta crucial, o Partido Comunista deve colocar-se na linha de frente.


Informe de William Z. Foster lido na reunião de 27-30 de junho de 1947 do Comité Nacional do P. C. Americano


Publicado na Problemas - Revista Mensal de Cultura Política, nº 3, outubro 1947.

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