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Grabois: "A Conferência da Mantiqueira, golpe mortal no Liquidacionismo"



1940 foi um ano negro de ascensão do fascismo. Paris caía vergonhosamente em mãos da Whermacht, entregue sem luta pela burguesia francesa. Hitler, eufórico, julgava assegurado por um milênio o domínio do nazismo do mundo.


Em nosso país, levado por essa ilusória realidade, a ditadura fascista de Vargas traçava a sua política. Navegava nas ondas da feroz reação que assolava então o mundo capitalista. O ditador do Estado Novo proclamava, em discurso tristemente célebre, no encouraçado Minas Gerais, sua adesão à nova ordem de Hitler. Tal declaração correspondia internamente à intensificação do mais impiedoso terror contra o movimento operário e antifascista. A polícia era um departamento da Gestapo que dirigia toda a sua iniminosa atividade.


O furor e o ódio da ditadura voltam-se, particularmente, contra o partido do proletariado, o Partido Comunista do Brasil, que desfraldava a bandeira da luta contra o fascismo. O Partido Comunista era duramente golpeado. A sua direção nacional fora presa pelos cães-de-fila do verdugo Felinto Muller e, após ela, caíam as mais importantes direções estaduais.


Nessa época, o policial Batista Teixeira afirmava, jactanciosamente, nos jornais das classes dominantes, que liquidara o Partido Comunista e acabara com o comunismo no Brasil.


Pura fanfarronice de policial fascista.


Apesar de seriamente atingido, o Partido existia e lutava. O Partido palpitava pleno de vida na figura heroica de seu provado chefe, o camarada Prestes, que encarcerado diante dos algozes do Tribunal de Segurança, a 7 de novembro daquele ano, saudava o povo brasileiro pela passagem de mais um aniversário do maior acontecimento da história da humanidade – a Grande Revolução Socialista de Outubro. Com sua atitude, Prestes mostrava que o Partido não morrera. Onde está um comunista, está o Partido.


O exemplo de Prestes inspirava muitos militantes de base e quadros intermediários que, em liberdade, jamais deixaram de combater e erguer bem alto a bandeira do Partido. Estes comunistas lançaram-se ardorosamente no trabalho de rearticulação das forças do Partido, então desprovidas de um centro dirigente geral capaz de coordenar sua atividade em âmbito nacional.


O Partido, reorganizado no Distrito Federal, lutava destemidamente entre as massas contra o fascismo e pelas liberdades, pela anistia para Prestes e demais presos políticos e contra o Estado Novo. O mesmo fato se verificava em vários Estados. O Partido reestruturava-se e desenvolvia atividade política no Pará, Ceará, Sergipe, Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte, Estado do Rio, Minas, Goiás e Rio Grande do Sul.


Todos os organismos estaduais do Partido começavam a coordenar a sua atividade e marchavam rapidamente para a escolha de um centro diretor único. Os criminosos desígnios da reação de esmagar o Partido estavam sendo frustrados.


Diante disso, o governo fascista de Vargas e sua polícia de bandidos apelavam para outros recursos a fim de atingir o Partido. Criaram uma organização nitidamente provocadora e policial, a Ala Militar Revolucionária com o objetivo de envolver os militantes pouco experientes e de menor nível político e ideológico em toda sorte de aventuras. Essa provocação foi prontamente desmascarada pelo Partido. No entanto, o plano principal da reação era golpear o Partido por dentro, impedir que ele se rearticulasse e desenvolvesse qualquer atividade política. Nessa tarefa infame teve um papel destacado o renegado e traidor Silo Meireles.


Alegando ser um dos dirigentes do movimento insurrecional de 1935 em Recife e de ter vivido durante alguns anos na União Soviética, Silo Meireles tentava, por todos os modos, desviar do trabalho do Partido os militantes que o procuravam, colocava-se abertamente contra a rearticulação do Partido e contra qualquer ação política dos comunistas. Silo Meireles, sob o pretexto absurdo e inadmissível de que a atividade do Partido constituía uma provocação, combatia descaradamente o Partido e exigia a sua dissolução. Para Silo e os poucos elementos que o seguiam, os comunistas deviam ficar na mais completa passividade e confiar na ação política dos chamados tenentes, como Eduardo Gomes, Etchegoyen e outros agentes dos imperialistas, dos latifundiários e da grande burguesia. Desse modo, Silo e seus sequazes exigiam que a classe operária renunciasse a ter um partido político independente, que renunciasse às suas reinvindicações políticas próprias, que ficasse a reboque da burguesia e dos latifundiários. Essa, em resumo, a teoria liquidacionista de Silo Meireles.


O Partido, então, apesar de suas grandes debilidades, não se deixou envolver pelas teses de Silo Meireles. Arrancou a máscara desse traidor que se apresentava como revolucionário, denunciando-o como inimigo do Partido e da revolução.


Já nesse período, a gloriosa União Soviética tinha sido traiçoeiramente invadida pelos agressores nazistas. O Partido compreendeu que os destinos de toda a humanidade, e por conseguinte os do povo brasileiro, dependiam da vitória dos exércitos soviéticos sobre as hordas fascistas. Tudo, portanto, deveria estar subordinado à derrota do nazismo. Nessa mesma época, o governo brasileiro, sob a pressão das massas, declarava guerra às potências agressoras.


O máximo de esforços deveria ser desenvolvido para ajudar às forças em luta contra o hitlerismo, em particular a União Soviética, que suportava toda a carga da guerra. O Partido lançou as palavras-de-ordem de União Nacional contra o fascismo, pela abertura da segunda frente na Europa e pelo envio de uma força expedicionária brasileira para combater o nazismo.


Naquelas circunstâncias, mais do que nunca, era imprescindível um Partido Comunista forte, coeso e audaz, a fim de mobilizar todas as forças contra o inimigo comum. E, justamente nessa emergência, surgiram novos defensores do liquidacionismo. Levantam a estranha e criminosa tese de que a atividade ilegal prejudicava a luta contra o nazifascismo, e como o Partido não tinha vida legal, deveria desaparecer. Ao tomar essa posição, praticamente, tudo faziam para destruir o Partido clandestino revolucionário do proletariado. A mentira, a calúnia, a distorção premeditada dos fatos, eram empregadas da maneira mais vil contra o Partido. A dissolução do Partido era pregada abertamente por antigo dirigente que se transformara no líder dos liquidacionistas.


Em entrevista à imprensa burguesa, defendia sem rodeios o desaparecimento do Partido. Essa é a fase mais séria do liquidacionismo. Devido ao nível ideológico extremamente baixo do Partido naquele período, essa tendência estranha ao proletariado chegou a influenciar muitos camaradas honestos e revolucionários, particularmente os que se encontravam no cárcere.


Na luta contra o liquidacionismo nessa fase, desempenhou um papel decisivo a Conferência da Mantiqueira.


As forças do Partido cresciam. A Comissão Nacional de Organização Provisória, que coordenava a ação de vários organismos estaduais, articulava-se com os camaradas que levantavam o Partido em S. Paulo e em vários Estados. Este fato foi de fundamental importância, pois dessa articulação surge a proposta para realizar uma conferência nacional que aprovasse a linha política, traçasse uma justa política de organização e elegesse o Comitê Central, que orientasse e dirigisse o Partido em escala nacional.


Na preparação dessa conferência – a II Conferência Nacional do P.C.B. – o centro político era a luta pela derrota do nazifascismo, mas do ponto de vista ideológico os trabalhos preparatórios da conferência giravam em torno do esmagamento do liquidacionismo como tendência no movimento revolucionário da classe operária brasileira. A Conferência da Mantiqueira – nome com que passou à história do P.C.B. a II Conferência Nacional – foi a mais elevada expressão da luta contra o liquidacionismo. A preparação da Conferência desenvolveu-se num clima de combate sem tréguas aos liquidacionistas. O fato de a Conferência da Mantiqueira ter eleito a nova direção nacional do Partido significou um pesado golpe nos liquidacionistas. A bandeira invencível do Partido foi desfraldada em todo o país. O Partido torna-se mais forte e coeso. Os liquidacionistas eram condenados e repelidos. A necessidade de um Partido Comunista combativo e revolucionário foi reafirmada. Prestes foi reconhecido como o único chefe do Partido. Esse é um dos grandes méritos da Conferência da Mantiqueira.


No entanto, apesar do duro golpe que sofreram com a Conferência da Mantiqueira, os liquidacionistas prosseguiram em sua atividade antipartidária. Depois da Conferência, novas teses liquidacionistas surgiram sob outras formas. Elas tiveram a sua expressão nos anos de 1944 e 1945 no chamado Comitê de Ação, na proposta de um Congresso das Esquerdas e na formação da União Socialista Popular, movimentos esses tendentes a rebaixar o papel dirigente do Partido, a dissolvê-lo no seio das massas sem partido e deixar a classe operária sem o instrumento decisivo de sua libertação.


Quem deu o golpe de misericórdia no liquidacionismo foi o camarada Prestes. A sua atitude firme em defesa do Partido foi a artilharia pesada assestada contra os liquidacionistas. Prestes no cárcere jamais deixou de defender o Partido. Condenava energeticamente todos os que se colocavam contra o Partido e, uma vez posto em liberdade, acatou sem nenhuma reserva o Partido para assumir, em seguida, a sua direção. O camarada Prestes contribuiu decisivamente para alertar aos militantes honestos que enveredaram pelo falso e perigoso caminho do liquidacionismo, trazendo-os para o seio do Partido.


A Conferência da Mantiqueira e a posição de Prestes de inabalável fidelidade ao Partido desbarataram as forças do liquidacionismo no movimento revolucionário brasileiro.


Quando se comemorava o 10º aniversário da Conferência da Mantiqueira, o espírito de Partido que presidiu a realização daquela histórica reunião precisa existir em grau bem mais elevado na consciência de todos os militantes comunistas. A execução das tarefas da revolução brasileira exige um forte e poderoso Partido. Hoje não se trata de defender o Partido contra os liquidacionistas, mas fazê-lo crescer de acordo com as necessidades da luta de nosso povo pela paz, as liberdades e a independência nacional.


Essa é a palavra de ordem do camarada Prestes a todos os membros do Partido: construir, fortalecer e desenvolver o nosso próprio Partido Comunista, como verdadeiro Partido marxista-leninista, feito à imagem e semelhança do glorioso Partido de Lenin e Stalin.



Por Maurício Grabois, publicado no Jornal Voz Operária (RJ), em 29 de agosto de 1953.