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O "Marighella" de Wagner Moura



Antes de mais nada, é importante deixar claro que não se esperava algo política e ideologicamente mais avançado do diretor Wagner Moura, pois a sua visão de mundo liberal reflete em sua obra. Mas, para além disso, um filme sobre a vida e militância do grande revolucionário Carlos Marighella deveria ter sido melhor do que essa produção de forma e conteúdo no “modelo” Netflix.


O grande problema do filme está no esvaziamento da figura histórica de Marighella como militante marxista-leninista. Isto fica claro na cena em que Marighella é entrevistado por um padre francês que pergunta “Você é maoísta, trotskista ou leninista?”, e o protagonista responde: “Sou brasileiro”; ou seja, uma deturpação do traço e legado mais importante do honrado combatente. Existe uma tendência entre os círculos da esquerda brasileira de romantizar e fetichizar Marighella ao estilo Che Guevara, e o filme cumpre bem esse papel. Ambos se manifestam, ao estágio de consciência do atual campo democrático-popular, como símbolos revolucionários, mas não costumam ser entendidos como figuras à luz do materialismo histórico-dialético: militantes que acertaram, erraram e forneceram determinadas contribuições políticas, teóricas e ideológicas para o movimento comunista.


Na esteira do marxismo-leninismo, Marighella forneceu aportes imprescindíveis aos comunistas. Podemos destacar as suas posições sobre a questão agrária e a defesa da leitura marxista-leninista do Brasil, ou seja, a compreensão das relações de produção semifeudais [1]; a sua crítica ao revisionismo [2] - aqui temos como exemplo a cena do embate entre Marighella e o jornalista revisionista: a intenção do diretor foi boa, mas o diálogo deixa a desejar -; ao ecletismo [3]; e, por último mas não menos importante, o Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano [4]. A questão do campo e do Mini-Manual - obra lida por revolucionários do mundo inteiro - constam de forma muito breve e rasa no roteiro. Essas posições concretas de Marighella, em geral, não possuem destaque no filme, assim como nos documentários sobre o comunista baiano lançados em 2001 [5] e 2012 [6] - embora as obras de Silvio Tendler e Isa Grinspum Ferraz, respectivamente, sejam de maior valia do que a de Wagner Moura.


O filme ainda extrai o conteúdo histórico da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a qual é apresentada como um pequeno grupo de patriotas fervorosos, espontaneístas e concentrados na cidade de São Paulo. Ademais, empobrecem o desenvolvimento de suas noções táticas e estratégicas - em relação à essa questão, o filme “A Batalha de Argel”, de 1966, que trata da luta anticolonial do povo argelino, representa de forma brilhante um processo de lutas. Sintetizando, por mais que a ALN tivesse inúmeras insuficiências, não se tratava de uma organização agitada pela iniciativa heroica de militantes movidos pelas emoções como vemos no filme – em especial na segunda metade da película, quando a repressão começa a avançar contra os lutadores. O filme transmite uma visão “santificadora”, “messiânica” e acrítica da luta como símbolo de martírio e nobreza, ainda que fadada ao fracasso.


A produção de Wagner Moura e Fernando Meirelles passou por uma série de contratempos [7] que se estenderam por anos, mas isso não justifica os inúmeros problemas de roteiro, enredo e etc. Não existe uma contextualização dos fatos, nem tampouco clareza nas perspectivas. Só para citar um exemplo, em nenhum momento é explicado para o espectador o papel da Igreja na trama, sendo que estas cenas ocupam um lugar de destaque no filme - nesse sentido, o de compreender o papel da Igreja Católica no contexto da ditadura, recomenda-se o filme “Batismo de Sangue”, de 2006.


É evidente que o protagonista é Marighella, mas deveria haver um aprofundamento biográfico minimamente consistente dos personagens, levando-se em conta que o filme possui 155 minutos. Quem é o jovem delegado interpretado pelo ator Bruno Gagliasso? A besta-fera do DOPS Sérgio Paranhos Fleury? Nos pareceu mais uma síntese da repressão encarnada em um personagem fictício. Quem, dentre os militantes, é Carlos Eugenio Paz, de codinome Clemente, uma das lideranças da ALN? Por que a personagem da companheira de Marighella, a honrada militante Clara Charf, não foi desenvolvida no filme? Ali, a camarada parece mais com a moça do lar que se preocupa com o marido revolucionário que corre perigo, o que não corresponde com a trajetória da militante. Um ponto positivo foi a escolha de Seu Jorge para o papel principal; por ser uma pessoa retinta, contribuiu para romper com a ideia de “mulato” que embranquece Marighella e afasta a identificação dele como um homem preto.


O filme opta por mostrar a violência da tortura, mas afasta a identificação dos torturadores; apresenta cenas de ação, mas não desenvolve os personagens. Por que os produtores optaram por esse caminho? Essa supressão advém de posições descoladas da materialidade do que realmente foram esses acontecimentos e de quem foram essas figuras históricas; em outros termos, alivia onde deveria bater e torna superficial o que deveria aprofundar.

No universo das produções sobre a ditadura, a obra ora resenhada se encaixa em um escopo menos materialista e mais poético, de bela fotografia e trilha sonora - semelhante ao filme de Cao Hamburguer, intitulado “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”. O filme de Wagner Moura é baseado na bibliografia intitulada “O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, de Mário Magalhães, que é considerada a obra mais completa sobre o revolucionário. Contudo, devido à superficialidade do roteiro, quem não possui conhecimento prévio sobre Marighella e a ALN, ao terminar a sessão, continua na mesma estaca, pois os produtores não fazem jus ao livro cujo o filme é inspirado.


Construído no modelo hollywoodiano, ou melhor, dos streamings, “Marighella” se assemelha muito à série “Narcos”, pois rep