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"A generosa luta da guerrilha do Araguaia"



Já houve quem dissesse que a justeza de um fato político não se mede pelo seu êxito ou seu fracasso ocasionais, mas pela sua necessidade histórica. Este elemento de reflexão me vem ao pensamento ao escrever sobre a guerrilha do Araguaia, movimento político e militar.


Para configurarmos o significado global da guerrilha do Araguaia, temos de considerar vários aspectos para não nos limitarmos a uma visão parcial, setorizada ou distorcida dos fatos. Não quero comentar aqui as diversas opiniões que acharam a guerrilha precipitada, inoportuna, e, em consequência, antecipadamente derrotada.


O conceito de oportunidade, parece- me, é, indubitavelmente, um conceito político. Não podemos, por isto, julgara oportunidade ou não da guerrilha por alguns aspectos conjunturais da época em que ela eclodiu (como o do “milagre brasileiro”) ou a falta de um apoio mais significativo da massa urbana em seu favor. Temos de ver a essência do momento político e as suas contradições fundamentais e, a partir daí, analisar não apenas a sua oportunidade, mas a sua inevitabilidade.


A guerrilha do Araguaia teve início num momento em que todos os canais de respiração política da sociedade brasileira estavam trancados. A classe operária impedida de reivindicar os seus mínimos direitos, imprensa censurada, livros apreendidos, um aparelho repressor transformara a tortura em hábito cotidiano, os estudantes impedidos de reivindicar, protestar ou mesmo estudar, prepostos do governo norte-americano assessorando os torturadores brasileiros e a intelectualidade aderindo ou pelo menos silenciando ante o massacre quase que diário de patriotas que morriam, ou nas câmaras de tortura do sistema, ou em lutas desiguais com os órgãos de repressão.


É por volta de dezembro de 1967 que ela começa a se organi/ar. Surge em decorrência da necessidade de se enfrentar a ditadura terrorista pela luta armada. Solução extrema, quando as contradições chegam a um grau tão agudo que não há outra possibilidade, a luta armada se apresentava para todos aqueles que desejavam o fim da ditadura como o único caminho viável. A partir desta data o grupo guerrilheiro começa a se aglutinar, liga-se às massas camponesas da região do Araguaia, palco de sangrentas lutas entre camponeses e donos de terra, grileiros e representantes do fisco. Os guerrilheiros, vindos de várias partes do país procuram tomar contato com os camponeses, vivem com eles, partilham de sua situação de oprimidos.


Durante esse tempo, tendo iniciado com 69 membros, chegam a organizar 86. No entanto, com a ligação que tinham com os habitantes, realizam ações armadas nas quais participam camponeses que não faziam parte da guerrilha. Esta força, indubitavelmente pequena, deixa o sistema militar em pânico. O problema não era apenas a existência desses poucos guerrilheiros na região, mas a sua importância política. Sabedores das proposta concretas que os guerrilheiros apresen­tavam à discussão e reflexão daquelas populações oprimidas, os órgãos de segurança da ditadura se estruturam numa verdadeira operação de guerra. Daí ter sido mobilizado um conjunto de forças que demonstra, por si só, a importância que a ditadura dava à existência dos guerrilheiros do Araguaia.


A este pequeno contingente militar guerrilheiro opõe-se todo o poderio da ditadura que se mobiliza numa operação equiparada por eles mesmos ao corpo expedicionário que combateu na II Guerra Mundial.


Em setembro de 1972, na segunda campanha contra a guerrilha, são empregados cerca de 10 mil homens sob o comando dos generais Vianna Moog e Antonio Bandeira. Segundo notícia veiculada por um jornal paulista, as unidades que acompanharam a operação contra os guerrilheiros do Araguaia eram: Batalhão de Guarda Presidencial; 8º Grupo de Artilharia Antiaérea; Regimento de Cavalaria de Guarda; Polícia do Exército Brasileiro; 10° Batalhão de Caçadores de Goiânia; 6o Batalhão de Caçadores de Ipameri; e 36° Batalhão de Infantaria de Uberlândia. Além destas, havia, também, forças do comando Militar da Amazônia e da 12a Região Militar.


Afirma a notícia que, da Aeronáutica, havia unidades da 1a Zona Aérea do Rio de Janeiro. Da Marinha participou um grupo de fuzileiros navais de Brasília.


A violência, o terrorismo e a rapina se abatem contra as populações do Araguaia. Prisões, torturas, espanca­mentos, humilhações de camponeses pobres, destruição das suas lavouras são praticados, tudo isto para intimidar politicamente os habitantes daquela área. Das duas primeiras operações os guerrilheiros conseguem se esquivar, na velha tática de fugir e atacar, mas somente atacar para ganhar.


Do outro lado, a repressão também procura se adaptar á situação: contrata “bate-paus”, recruta informantes, procura isolar os guerrilheiros da população local. Além disto, prepara-se para uma nova campanha. Decide construir mais cinco quartéis, sendo quatro na Transamazônica: Marabá, Altamira, Itaituba, Humaitá. Outro em Imperatriz, no Maranhão. Todo este aparato bélico, evidentemente, não foi mobilizado apenas para exterminar fisicamente menos de cem guerrilheiros, mas para exterminar o que eles simbolizavam politicamente para aquelas populações oprimidas do Araguaia.


Não podemos, nem é nossa intenção aqui, fazer um levantamento sistemático das razões militares que obrigaram os guerrilheiros a se dispersarem, dois anos depois de terem iniciado o movimento. Segundo o Relatório Ângelo Arroio, chacinado na Lapa, em São Paulo, morreram em combate quinze membros da guerrilha; desapareceram sem outras referências cinquenta e um; e feridos e presos em combate, quatro. Um total de setenta entre mortos e desaparecidos.


O saldo de mortos da parte do inimigo não foi computado. Mas, o que precisa ser registrado aqui, é a importância que o movimento guerrilheiro do Araguaia teve como detonador político da elevação do nível de consciência dos seus habitantes. Depois da dispersão da guerrilha, os camponeses do Araguaia compreenderam que não eram mais simples joguetes em um sistema de exploração iníquo e desumano. Continuam lutando organizados, tendo na consciência o exemplo daqueles heroicos precursores que plantaram as raízes de uma consciência crítica e revolucionária entre os explorados do Araguaia.


por Clóvis Moura, no Jornal dos Sem Terra, Número 210 - Maio 2001

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