As eleições e o cenário político no Equador



O Equador foi um dos países latino-americanos que nos últimos anos foi governado por um setor nacionalista burguês, além de passar por um processo de golpe. Com a vitória de Rafael Correa nas eleições presidenciais de 2007, o país deu início ao que era chamado de “Revolução Cidadã” (2007— 2017) - um processo de pequenas reformas no âmbito da sociedade semicolonial equatoriana, que implementou uma série de programas sociais através da utilização dos recursos oriundos da exploração dos abundantes recursos naturais existentes no país (petróleo e reservas minerais). Do ponto de vista da política externa, o governo de Rafael Correa promoveu posições de caráter independente, com aproximação com países como Cuba, Venezuela, Rússia e China, algo bastante progressista para as condições dos países latino-americanos. Tais mudanças, como não poderiam deixar de ser, não agradaram o imperialismo estadunidense e os setores mais reacionários das classes dominantes equatorianas. Os grandes meios de comunicação da grande burguesia pró-imperialista do país — que da mesma maneira que o restante dos países latino-americanos, são uma fortaleza da reação — desde o princípio travaram uma luta intensa contra os nacionalistas, representados no movimento lançado por Rafael Correa. Ainda em 2010, o governo foi vítima de uma tentativa de golpe liderada por policiais, que chegaram a invadir o Congresso e o Aeroporto Internacional de Quito. Na época, além dos partidos reacionários tradicionais e da grande imprensa monopolista do Equador, a tentativa golpista (fracassada) foi apoiada por um auto-denominado “Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador (PCMLE)”, um partido que se utiliza de um palavrório “antirrevisionista” para propagar e desenvolver uma linha política essencialmente direitista.


No pleito eleitoral realizado em 2017, os nacionalistas burgueses escolheram Lenin Moreno como candidato. Lenin Moreno havia sido vice-presidente do Equador (2007-2013) e era do mesmo partido de Rafael Correa (Movimento Aliança País). Depois de vencer as eleições em 2017 — graças ao apoio decisivo que teve de Rafael Correa e dos apoiadores do presidente —, Moreno passou, de modo assumido, para o lado da reação, rompendo politicamente com o ex-presidente. A história dos movimentos de libertação nacional dirigidos pela burguesia é repleta de exemplos de traição como este, onde figuras politicamente medíocres e instáveis são alçadas a postos importantes, seja pela ingenuidade, seja pelas ilusões de classe dos líderes que dirigem o processo. O resultado dessa alteração no cenário político do Equador obedecia a uma tendência de avanço do processo de intervenção do imperialismo na região, que pode ser muito bem observada a partir da onda de golpes de Estado (Honduras, Paraguai, Brasil) ou das tentativas de golpe (Venezuela). Moreno, além de retomar o programa neoliberal em certa medida abandonado pelos nacionalistas a partir de 2007, também passa a liderar uma campanha de perseguição contra o ex-presidente Rafael Correa. Também não demorou para que o próprio Moreno estivesse no centro de escândalos de corrupção, o que contribuiu para garantir os seus altos índices de rejeição. Em 2019, eclodiram manifestações populares contra o governo de Lenin Moreno, que havia decidido aumentar o preço dos combustíveis. Na ocasião, Moreno acusou Rafael Correa de ser um dos “responsáveis" pelos protestos, mostrando o seu completo desespero. Não podemos deixar de mencionar uma das ações mais desprezíveis cometidas por Lenin Moreno: a decisão de entregar o jornalista Julian Assange para os seus algozes no Reino Unido. Frente a perseguição sofrida pelos principais representantes do imperialismo, o fundador do Wikileaks havia sido generosamente acolhido pela Embaixada do Equador em Londres, em uma clara decisão anti-imperialista do anterior governo do Equador dirigido por Rafael Correa.


É necessário destacar que a situação do Equador se agravou dramaticamente com a chegada da pandemia do coronavírus ao país. Foi precisamente o Equador um dos primeiros a colapsar diante do aumento do número de casos, os quais produziram imagens que chocaram o mundo, onde cadáveres eram largados a céu aberto e o descaso completo para com a população desassistida revelou de maneira cristalina o caráter reacionário e anti-popular dos governantes do país. Tal situação caótica e, ao mesmo tempo, reveladora, é resultado direto da implementação de uma política neoliberal essencialmente reacionária e anti-povo. Diante desse cenário, as recentes eleições — com o seu primeiro turno ocorrido em 7 de fevereiro 2021 — foram realizadas em um contexto propício para que as forças alinhadas ao ex-presidente Rafael Correa recuperassem suas posições no governo central. É necessário lembrar que Rafael Correa foi impedido de concorrer como vice-presidente na chapa liderada por Andrés Araus (ex-Ministro do Conhecimento e Talento Humano durante o governo de Rafael Correa), já que é vítima de uma perseguição judicial semelhante a que Lula sofre no Brasil. Em sua campanha eleitoral, Araus adotou um discurso anti-neoliberal, defendendo o legado de Rafael Correa. O candidato apoiado por Rafael Correa teve como oponentes principais o banqueiro Guillermo Lasso e o “ecossocialista" Yakú Perez. Guillermo Lasso é um adversário tradicional dos apoiadores de Rafael Correa, tendo disputado uma eleição contra o ex-presidente em 2013 e 2017. Para traçarmos uma comparação com o cenário político brasileiro, Guillermo Lasso pode ser considerado uma espécie de Paulo Guedes equatoriano. Vale lembrar os nossos leitores que os “comunistas" do PCMLE apoiaram Guillermo Lasso em 2017, o que revela o avançado nível de putrefação ideológica dessa organização. Contudo, o candidato que foi alvo dos holofotes da imprensa internacional, apresentado como uma “novidade" das eleições neste ano foi o “ecossocialista" Yakú Perez. Perez é um típico candidato pequeno-burguês, que possui excelentes relações com setores importantes da grande burguesia equatoriana e com o próprio imperialismo. Perez é prefeito de Azuay e é conhecido por sua “militância" em defesa dos povos indígenas. Entre os grandes feitos de tal “militância”, para além de sua oposição ferrenha aos governos de Rafael Correa, estão o seu apoio ao golpe de Estado no Brasil em 2016, Bolívia em 2019 e as tentativas de golpe na Venezuela e Nicarágua. Farto são os relatos e materiais disponíveis que comprovam a relação deste candidato com a Embaixada dos Estados Unidos no Equador, o que por si só revela sua real natureza, independente de qual seja o seu discurso político (este também bastante problemático). Após a realização do primeiro turno das eleições, quando fora ratificada a sua eliminação do pleito do segundo turno, Yaku Pérez passou a afirmar que havia sido vítima de “fraude eleitoral”, responsabilizando nominalmente o ex-presidente Rafael Correa.


A vitória do candidato Andrés Araus, ainda que possa representar alguma mudança na situação política equatoriana, pelos seus limites inerentes, não alterará as tendências de aumento da intervenção e tentativa de golpes de Estado pró-imperialistas. As forças marxista-leninistas não podem depositar suas fichas e esperanças nos correistas da chamada “revolução cidadã”, portanto devem ter bem claro o caráter de classe e as contradições existentes dentro desse movimento. Contudo, isso não significa que é correto fazer frente única com o imperialismo e com a grande burguesia equatoriana em sua luta contra os apoiadores de Rafael Correa. É necessário reconhecer que Rafael Correa cumpriu papel relevante em seu governo, onde destaca-se em algum nível a sua posição de defesa da soberania nacional do Equador, bem como suas posições favoráveis a independência de todos os povos da região. Esses são fatos concretos que nenhuma retórica “esquerdista” pode negar.


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