Sobre o Golpe Militar em Mianmar



Breve panorama histórico


Mianmar é um país situado no sudeste asiático que faz fronteira com Índia, China e Bangladesh pelo norte e Oceano Índico, Tailândia e Laos na porção sul. Na época do Império Britânico, a região foi anexada junto à Índia, o que custou mais de cem anos de dominação colonial. Durante o período colonial, com a intervenção dos ingleses, etnias rivais foram forçadas a se aproximarem no âmbito territorial em um esquema semelhante ao que os próprios britânicos e outros países imperialistas europeus fizeram na África.


Em 1937, a metrópole fragmentou a região da Índia dando origem a Birmânia (antigo nome de Mianmar) e, dessa data até 1962, passou por um relativo desenvolvimento econômico devido ao cultivo do arroz e da borracha. Nesse meio tempo, durante a Segunda Guerra Mundial, o país foi invadido pelo imperialismo japonês, derrotado posteriormente na frente asiática do conflito global. Três anos após o final da guerra, em 1948, a Birmânia conquista a sua independência. No entanto, os anos de estabilidade interna duraram pouco, pois, em 1962, um golpe militar liderado pelo general Ne Win foi desferido contra a democracia liberal e instaurou uma ditadura militar-fascista que duraria 26 anos.


De 1962 até 1988, o general fascista consolidou um governo antinacional, antipopular, corrupto até a medula e reprimiu violentamente todas as forças democráticas e populares que se postaram contra o regime genocida. Devemos ressaltar que a repressão liquidou o Partido Comunista em todas as suas frentes. Na década de 80, o país sofreu as consequências de uma forte crise econômica que gerou fome e desemprego em massa; esse fator, somado ao desgaste do governo militar, fez com que a população se levantasse contra o regime ocupando as ruas em 1988.


No contexto das lutas contra a ditadura no final dos anos 80, surge a líder do movimento: Aung San Suu Kyi, filha do líder popular Bogyoke Aung San. Esse último, conhecido como o “Pai da Nação”, além de ser um dos fundadores do Partido Comunista, é considerado a figura de maior relevo no processo de independência da Birmânia. Durante os protestos de 1988 – 89, a violência reacionária foi brutal: milhares de pessoas foram mortas e a crise econômica-institucional chegara a um ponto de não retorno. Nessa conjuntura, Suu Kyi contribuiu decisivamente para a fundação do partido Liga Nacional pela Democracia (LDN) e, no posto de secretária-geral dessa agremiação, percorreu o país realizando comícios onde em seus discursos pregava posições pacifistas pequeno-burguesas, que contribuiu para confundir as massas, ao estilo do líder histórico da nação vizinha: Mahatma Gandhi. A atuação contra o regime rendeu a sua prisão em 1989, fato que escalou a revolta popular. Foi nesse mesmo ano que os militares alteraram o nome do país de Birmânia para Mianmar.


Com intuito de colocar panos quentes na situação, os militares optaram por uma abertura política moderada aprovando uma nova constituição, mas a condição era: se 25% das cadeiras fossem destinadas aos militares, o regime permitiria eleições para a Assembleia Nacional. Em 1990, o Partido de Suu Kyi obteve ampla vitória nas eleições para a Assembleia Nacional, mas na prática quem continuou a governar foram os militares, envolvidos visceralmente com o poder. A situação semicolonial do país continuou a se aprofundar nos anos seguintes mesmo quando, em 2010, depois de duas décadas, foi organizado um novo pleito para o Legislativo que elegeu para presidente, no início de 2011, o ex-general Thein Sein e o regime militar - ainda que na aparência - foi dissolvido. Essa ressalva tem que ser feita, pois Mianmar é um caso, como o de outras semicolônias, de país no qual o exército sempre está envolvido politicamente em maior ou menor grau, de forma direta ou por trás das cortinas.


O presidente eleito libertou Suu Kyi e outros presos políticos, desregulamentou os meios de comunicação censurados e estabeleceu parcerias com a China no setor energético.


Em 2016, Suu Kyi assumiu o cargo de Conselheira de Estado, e se fortaleceu como principal figura da jogatina podre do velho estado mianmarense. O seu ativismo pacifista tornou-se reconhecido mundialmente, o que rendeu a Suu Kyi o Prêmio Nobel da Paz em 1991. No seu governo de aparências, deu sinal verde para os militares massacrarem as minorias islâmicas Rohingyas.


Devemos destacar que Mianmar possui uma particularidade em relação a questão religiosa - cerca de 70% da população é adepta do budismo, crença que possui inserção milenar na região. Mas, ali, hegemonizam vertentes radicais que perseguem os Rohingyas, grupos étnicos que seguem o islamismo. Esse segmento minoritário da sociedade local é vítima de uma limpeza étnica; além disso, não possuem cidadania, não podem viajar, comprar terras ou se casar sem autorização do governo. Devido a esse cenário, os Rohingyas veem imigrando em massa para Bangladesh.


O golpe


Nas eleições presidências de 2020, Suu Kyi saiu vitoriosa e o seu partido obteve uma votação massiva. A exemplo da vizinha Tailândia, os militares de Mianmar não largam o osso e articulam sucessivas ditaduras. Não tardou para que Suu Kyi fosse derrubada em um novo golpe militar. Os militares não reconheceram a vitória da presidenta, contestando a sua legitimidade e afirmando o seu caráter fraudulento – mesmo sem provas - e, no dia 1º de fevereiro de 2021, ocuparam o Senado e o Parlamento declarando estado de emergência. Os antecedentes da eleição foram permeados por uma ampla campanha de desinformação nas redes sociais, onde as famosas Fake News espalharam a confusão entre o povo visando preparar terreno para o golpe.


Os parlamentares não civis e Suu Kyi foram presos, a mídia censurada e o acesso à internet controlado pelos golpistas. As informações sobre a conjuntura local são escassas, porém transmitidas através de internet fantasma ou de fugitivos que rumam à Bangladesh para divulgar para o mundo os acontecimentos de Mianmar.


Desde a primeira experiência ditatorial, os militares enriqueceram tornando-se grandes burgueses e latifundiários. As altas patentes do exército reacionário começaram a se envolver no setor energético e comercial após o golpe de 1962, e hoje detêm grande parte de conglomerados graças às privatizações de estatais nos anos 90. A Corporação Econômica de Mianmar (CEM) e a Empresa Pública de Holdings Econômicas de Mianmar Limitada (EPHEML) são envolvidas com bancos, telecomunicações, mineração, tabaco, turismo, entre outras áreas. Estes conglomerados são a fonte de riqueza de generais, outros parasitas do alto escalão e suas famílias que, por sua vez, possuem 1/3 das ações destas corporações. Vieram à tona informações de que boa parte da fortuna dos conglomerados foi o que tornou possível o golpe - que, em parte, consiste em uma tentativa de assegurar os interesses dos bandidos fardados.


Referente ao plano internacional, é possível concluir que os generais de Mianmar foram apoiados pelos Estados Unidos para derrubar o governo de Suu Kyi, sob o pretexto de que ela havia se aproximado demais dos chineses desde 2016. A China já se posicionou em relação ao golpe e defendeu a saída diplomática para a resolução dos conflitos.


Até o momento, centenas de milhares de pessoas seguem protestando, desde 1º de fevereiro, contra o golpe que já assassinou em torno de 100 - 150 pessoas. Recentemente, os protestos escalaram devido à suspensão da audiência do processo de Suu Kyi.


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