Um Quarteto (ainda) Novo



Em matéria de música popular, a década de 1960 foi tão fértil em talentos que, além de nos legar intérpretes e compositores como Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Milton Nascimento, Marília Medalha, Edu Lobo e tantos outros, ainda ofertou um riquíssimo time de músicos instrumentistas – na maior parte das vezes relegado aos bastidores das apresentações e gravações.

Heraldo do Monte, Hermeto Paschoal, Airto Moreira e Téo de Barros compõem esse time, que está mais para esquadrão. O quarteto, na esteira das influências do jazz que adentravam o Brasil após a clausura política do Estado Novo, soube como poucos harmonizar os ritmos nordestinos com o samba e o importado gênero de Nova Orleans.

Nasceram como um trio (Heraldo, Airto e Téo) para acompanhar Geraldo Vandré em apresentações e gravações (é possível ouvi-los no clássico “Canto Geral”, de 1968). Também emprestaram a sua genialidade musical à canções interpretadas por Jair Rodrigues.


Já com a integração do “Bruxo” Hermeto Paschoal, o grupo, ao lado de Edu Lobo e Marília Medalha, interpretou a clássica (e vencedora) “Ponteio”, no III Festival de Música Popular Brasileira.

O “Quarteto Novo” teve uma breve duração (de 1966 a 1969) e lançou somente um disco, homônimo, em 1967, pela Odeon: o que bastou para tornar o grupo um objeto de culto (aqui e no exterior) e elevar a obra a categoria de legendária.

Hoje, mais de 5 décadas depois, o Quarteto ainda é novo. Novo num duplo sentido: continua sendo um disco incógnito (por isso digno de recordação) para muitas pessoas, e além disso esbanja modernidades em materiais musicais.

Após a dissolução, cada membro seguiu a sua trajetória. Falemos um pouco sobre cada um deles (e o que tocavam durante a efêmera duração do Quarteto Novo):

Téo de Barros (contrabaixo e violão): autor de “Disparada” (em parceria com Geraldo Vandré), a vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira, em 1966, juntamente com “A Banda” (Chico Buarque). O artista notabilizou-se, também, por auxiliar na produção da montagem “Arena Canta Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, para o Teatro Arena. Produzira, juntamente com o valoroso Marcus Pereira (do selo “Discos Marcus Pereira” de música popular brasileira), a coleção “Música Popular do Centro Oeste”, com 4 LPs. Além da prófícua carreira como arranjador de discos: trabalhou com Dick Farney, Adauto Santos, Inezita Barroso e tantos outros. Foi lançar o seu primeiro disco individual (que se chama “Primeiro Disco”, justamente para ironizar a demora em fazê-lo) somente em 1981.

Hermeto Paschoal (piano e flauta): o alagoano dispensa apresentações. Figura incontornável quando o assunto é a música instrumental brasileira. Sua obra legou um espaço de existência ao instrumentista brasileiro, asseverando a demanda que os jovens (tanto os músicos quanto o público) tinham por uma música moderna, experimental e sem rótulos. Tocou com os mais renomados artistas do jazz, como Miles Davis, em pé de igualdade, redimensionando, inclusive, o próprio termo jazz. A faixa “Serei Rei”, de seu disco “A música livre de Hermeto Pascoal”, atesta o grau de seu experimentalismo: a equipe tivera de se deslocar até uma fazenda para gravar sons de gansos, perus e porcos. Afora a natureza (também tira som de lagoas e de coquinhos de jerivá), sua ousadia instrumental pode ser ouvida a partir de bacias, facões, colheres, pinicos e garrafas – estas foram incluídas nas gravações de Herbie Hancock, por obra da influência do “Bruxo”. Está na ativa até hoje, fazendo shows com seu filho, Fábio Paschoal. Destaque para seus discos “Slave Mass” (1977) e o “Montreux Jazz Festival Ao Vivo” (1979).

Airto Moreira (bateria): o percussionista descansa à sombra dos louros conquistados em meio as suas exibições no Brasil e no mundo afora. Junto de sua companheira, Flora Purim, exportou o que há de melhor em nossa música, tocando temas brasileiros nas principais salas de concerto dos EUA e da Europa. Se apresentou junto de Jaco Pastorius e Wayne Shorter na lendária banda de jazz fusion “Weather Report”, além de ter participado do disco “Bitches Brew” (1969), de Miles Davis, e dos discos “Return do Forever” e “Light as a Feather” (ambos de 1972), da banda de Chick Correa. Vale a pena conferir os seus primeiros trabalhos, junto de César Camargo Mariano e Humberto Cláiber, no “Sambalança Trio” (álbuns de 1964 e 1966).


Heraldo do Monte (viola e guitarra): outro valoroso músico que deu fôlego ao movimento dos músicos instrumentistas de nosso País: nos anos 1980, criou a “Banda Medusa”, ao lado Amilson Godoy (piano), Cláudio Bertrami (baixo) e Chico Medori (bateria). E em parceria com Elomar, Paulo Moura e Arthur Moreira Lima, gravou o necessário “ConSertão” (1982), um verdadeiro passeio pela nossa música: vão de Villa-Lobos a Gonzagão. Emprestou sua genialidade a Geraldo Vandré, Zimbo Trio, Jhonny Alf, Dominguinhos e muitos outros.

As faixa do disco “Quarteto Novo”, de 1967:

LADO A

01- “O Ovo” (Hermeto Paschoal)

02- “Fica Mal Com Deus” (Geraldo Vandré)

03- “Canto Geral” (Geraldo Vandré/Hermeto Paschoal)

04- “Algodão” (Luiz Gonzaga)

LADO B

05- “Canta Maria” (Geraldo Vandré)

06- “Síntese” (Heraldo do Monte)

07- “Misturada” (Geraldo Vandré/Airto Moreira)

08- “Vim de Santana” (Téo de Barros)

REFERÊNCIAS

“Quarteto Novo” – Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira. Disponível em: http://dicionariompb.com.br/quarteto-novo.


“Quarteto Novo, Odeon, 1967” – O Som do Vinil. Disponível em: https://osomdovinil.org/quarteto-novo-quarteto-novo/.

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