"70 longos anos: a Guerra da Coreia e o movimento pela paz em 2020"


No último dia 25, a página Liberation School, ligada ao Partido pelo Socialismo e a Libertação (Party for Socialism and Liberation), dos Estados Unidos, realizou uma entrevista com o Partido Democrático-Popular (PDP) sul-coreano acerca do tema da Guerra da Coreia, por ocasião dos setenta anos de seu início. Enquanto importante força política de luta das massas da Coreia do sul, o PDP foi fundado em novembro de 2016, mesmo que já estivesse ativo nas lutas de massas muitos anos antes. Lutam pela independência nacional, que enxergam como um pré-requisito para a construção de um regime democrático-popular e a conquista da reunificação da Coreia. Ademais, seu programa reivindica uma “retomada da política de bem-estar”, distinta da “política de bem-estar” defendida pela socialdemocracia. Buscam organizar a retomada das “propriedades corruptas das forças anti-populares”, como os Chaebols (grandes empresas familiares controladas pelos capitalistas), o capital estrangeiro e as bases militares estrangeiras. Utilizariam estas riquezas para “resolver o problema do desemprego e a precarização do trabalho, efetuar uma política de educação livre e comum, saúde e habitação, e cancelar as dívidas dos camponeses e famílias.” O PDP apresenta um programa científico e claro para resolver os problemas da Coreia do sul, colocando ênfase na retirada das tropas estrangeiras e na reunificação nacional sob bases confederativas. Na presente data, pensamos ser importante que tais informações venham à tona para o público brasileiro.

O pano de fundo e o contexto da guerra

Liberation School: O início oficial da Guerra da Coreia foi em 25 de junho de 1950, mas não conseguimos compreender a guerra começando a partir daí. A partir de sua perspectiva, por onde devemos começar?

PDP: Objetivamente, houve 2.617 ataques do Sul contra o Norte durante o ano de 1949, sob o regime de extrema-direita e pró-americano de Syngman Rhee. Assim, não podemos entender que a guerra eclodiu exatamente em 25 de junho de 1950. O governo militar dos Estados Unidos dissolveu forçosamente os comitês populares, formados enquanto organizações independentes do povo sul-coreano, e massacraram e oprimiram exaustivamente as forças patrióticas, democráticas e do movimento de libertação nacional após o exército dos Estados Unidos ter chegado à Coreia do Sul em setembro de 1945, enquanto força de ocupação.

Todo o povo coreano, salvo um punhado de forças pró-americanas e de extrema-direita, realizaram o “Encontro Conjunto de Representantes dos Partidos Políticos e Organizações Sociais do Norte e Sul da Coreia” em abril de 1948, em Pyongyang, e decidiram pela retirada imediata das tropas estadunidenses e pelo estabelecimento de um governo unificado pela própria iniciativa e poder da nação coreana.

Porém, foi estabelecido um governo separado no Sul por parte dos Estados Unidos e da intervenção da ONU, que se encontrava sob dominação dos Estados Unidos. Então, a Coreia do Norte teve de estabelecer seu próprio governo. Desenvolveu-se a condição pela eclosão de uma Guerra da Coreia.

Liberation School: Como vocês caracterizam a Guerra da Coreia? Quais foram as questões fundamentais, e o que definia os diferentes lados e forças?

PDP: O primeiro aspecto da Guerra da Coreia foi ter sido uma batalha entre a nação coreana e o imperialismo ianque. Os imperialistas estadunidenses conduziram a guerra junto a um total de dezesseis países.

Outro aspecto foi ter se tratado da primeira guerra do imperialismo ianque contra um país pequeno que terminou em uma derrota.

Os Estados Unidos se tornaram os líderes das forças imperialistas após a Segunda Guerra Mundial, após a qual a Coreia foi o primeiro país invadido. Os Estados Unidos não tomaram a península coreana inteira, o que significa que perderam completamente a guerra.

Liberation School: Quando começou a Guerra da Coreia, o que os operários e camponeses do Sul pensavam sobre ela, e o que fizeram?

PDP: Dado que a Guerra da Coreia foi uma guerra entre a nação coreana e os imperialistas ianques, quase todos os operários e camponeses do Sul rejeitaram os militares estadunidenses. Ademais, os militares norte-coreanos implementaram resolutamente muitas reformas democráticas, como a reforma agrária, para “confiscar sem indenização e distribuir a terra gratuitamente para os camponeses”, algo que a Coreia do Norte fizera logo após a libertação nacional. De acordo com números da Coreia do norte, cerca de quarenta mil sul-coreanos se alistaram voluntariamente no exército norte-coreano a partir do início da Guerra da Coreia.

Liberation School: Como os três anos de guerra ativa transformaram a península?

PDP: Como resultado da Guerra da Coreia, cerca de 2,5 milhões de pessoas morreram no Sul e no Norte, então, morreram cerca de 5 milhões de pessoas no total. O incidente de No Gun Ri é um massacre ilustrativo no Sul, onde a 1ª Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos e o 7º Corpo de Regimento de Cavalaria evacuou mais de setecentos moradores e refugiados da aldeia, e mataram-nos à beira do rio. No Massacre de Sinchon, um ilustrativo massacre civil no Norte, cerca de 35 mil pessoas, incluindo crianças, foram cruelmente mortas por militares estadunidenses. Poucos anos após a guerra, um golpe militar ocorreu no Sul sob instigação dos Estados Unidos.

Na Coreia do Norte, ao contrário, os operários, camponeses e forças armadas estavam firmemente unidos em torno do Presidente Kim Il Sung e do Partido, sendo assim possível estabelecer as relações de produção socialistas em três anos, entre 1956 e 1958, e concluir a industrialização socialista em catorze anos, entre 1956 e 1969.

Liberation School: Por que a guerra terminou com um armistício, ao invés de um tratado de paz?

PDP: O Artigo 4 do Acordo de Armistício declara: “Para garantir uma resolução pacífica da questão coreana, os comandos militares de ambos os lados recomendam que os governos dos países em questão, de ambos os lados, dentro de três meses após ser assinado e entrar em vigor o Acordo de Armistício, realizem uma conferência política de alto nível em ambos os lados, pelos respectivos representantes políticos, para que resolvam mediante negociações a retirada de todas as forças estrangeiras da Coreia e a resolução pacífica da questão coreana.”

Isso mostra que o Acordo de Armistício de 1953 foi um procedimento inicial para se alcançar um tratado de paz.

Porém, os Estados Unidos e a Coreia do Sul assinaram um Tratado de Defesa Mútua, e mantiveram as tropas estadunidenses estacionadas no Sul da Coreia. Ao fazerem-no, os Estados Unidos violaram o Acordo de Armistício. A conferência política de Genebra foi finalmente sabotada por conta da intervenção dos Estados Unidos. A razão por que os Estados Unidos não quiseram assinar um tratado de paz pode ser observada no caso do Vietnã. Após o Acordo de Paz de Paris de 1973 ter posto fim à guerra, as forças estadunidenses se retiraram dentro de dois meses, e o Vietnã foi reunificado um ano depois.

O legado da guerra

Liberation School: Como a guerra conformou a política, a economia e a sociedade no Sul?

PDP: A Coreia do Sul é uma colônia completa ocupada pelos militares estadunidenses, oprimida politicamente pelos Estados Unidos e economicamente subordinada aos países imperialistas, incluindo os Estados Unidos. Após o golpe militar de 1961, a tirania do ditadura militar-fascista continuou por trinta anos, e desde então, esteve em vigor um regime pró-ianque e neoliberal que explora severamente os operários, camponeses e todo o povo.

A Coreia do Sul não possui liberdade de associação partidária ou a rudimentar liberdade de ideias e expressão, devido a uma lei fascista conhecida como Lei de Segurança Nacional. Na economia sul-coreana, todos os elos no processo de reprodução, como a produção e a distribuição, são subordinados aos países imperialistas, incluindo os Estados Unidos e o Japão. Assim, todos os setores da indústria pesada, indústria leve e agricultura são unilateralmente hipertrofiados, ou as complementariedades entre eles são fragmentadas.

Liberation School: E quanto ao movimento pela paz?

PDP: O movimento pela paz na Coreia é inseparável do movimento pela independência e reunificação nacionais. As tropas ianques são a fonte da guerra. Conduzem exercícios de guerra contra a Coreia do Norte e experimentos com armas bioquímicas de destruição em massa. São o principal obstáculo para a paz na península coreana e no Nordeste asiático. Portanto, focamos na luta pela retirada das tropas dos Estados Unidos. O movimento pela independência nacional é, portanto, também um movimento anti-guerra, pela paz e pela reunificação.

Liberation School: No que o PDP tem focado?

PDP: No momento, o PDP tem focado nas lutas pela conclusão da independência nacional e a democracia popular. Concretamente, o PDP conduziu um protesto pacífico de 24 horas em frente à Embaixada dos Estados Unidos e de uma base estadunidense, com a palavra de ordem “Fora tropas ianques da Coreia do Sul.” Também realizamos demonstrações semanais pela retirada das Forças dos Estados Unidos da Coreia (FEUC). As tarefas prioritárias pela democracia popular são a abolição da Lei de Segurança Nacional e a dissolução do Partido Unificado do Futuro (PUF), uma força pró-americana de extrema-direita. Também protestamos diariamente contra o PUF.

A Secretaria Sul-Coreana da Federação Sindical Mundial (SSC FSM) realiza demonstrações semanais pela libertação da classe operária e a revolução social. A SSC FSM é o único sindicato na Coreia do Sul que se filiou à FSM. A maioria dos membros do PDP também ingressou. O PDP publica nosso órgão partidário mensal, Locomotiva da Insurreição, e educamos nossos membros e defendemos as lutas populares com este órgão.

O PDP realizou o Fórum Internacional Coreano (FIC) e conduziu debates sobre políticas progressistas e científicas todos os anos. Desde o ano passado, realizou o Festival Internacional do Primeiro de Maio (FIPM) para os operários e o povo. Neste ano, reduzimos as atividades do FIPM por conta da pandemia da Covid-19, uma condição excepcional, mas o PDP certamente superará tais adversidades.

O caminho para a paz

Liberation School: Quais são as perspectivas para a paz na atualidade? O que é necessário para a conquista da paz na península?

PDP: A paz na península coreana será possível somente após a retirada das tropas estadunidenses. As tropas estadunidenses são uma força de ocupação para a Coreia do Sul e um exército invasor para a Coreia do Norte. Sua retirada, então, é a luta mais urgente e necessária a ser conduzida por toda a nação coreana. A atual crise de guerra, que está escalando para um nível elevado, mostra que a paz na península coreana não pode ser conquistada sem que as tropas estadunidenses sejam retiradas da Coreia do Sul.

Enquanto as tropas estadunidenses estiverem estacionadas na Coreia do Sul e persistirem os exercícios de guerra contra a Coreia do Norte, as perspectivas para a paz serão obscuras. Estamos convencidos, a partir de nossa experiência histórica, que se transformarmos a luta pela retirada das tropas ianques em uma insurreição de todo o povo sul-coreano, e se toda a nação coreana lutar com grande unidade, poderemos retirar as tropas estadunidenses da Coreia do Sul.

Liberation School: Quais são as principais tarefas do movimento pela paz?

PDP: A verdadeira paz só será possível sem o imperialismo, e o líder do imperialismo é os Estados Unidos. Somos da opinião que um verdadeiro movimento pela paz deve ser um movimento anti-imperialista e anti-ianque. Nós acreditamos que as forças progressistas e amantes da paz do mundo podem e devem conduzir uma luta anti-imperialista e anti-guerra para impedir todas as guerras do mundo conduzidas pelas tropas estadunidenses, e retirar todas as tropas estadunidenses estacionadas no exterior. A chave é a formação de uma frente única anti-imperialista e anti-ianque e uma ação conjunta anti-imperialista e anti-ianque.

Liberation School: Como o povo dos Estados Unidos pode apoiar os esforços pela paz na Coreia?

PDP: Lembramos fato histórico de que a justa luta contra a Guerra do Vietnã pelo povo dos Estados Unidos teve uma influência significativa no fim da Guerra do Vietnã e na retirada das tropas dos Estados Unidos deste país. As lutas pela retirada de tropas estrangeiras e a construção de um movimento pela paz anti-imperialista e anti-guerra nos Estados Unidos são uma solidariedade internacional muito importante. A luta contribuirá grandemente para a conquista da paz na Coreia.

Liberation School: Concluindo, há algo mais que vocês queiram que o povo dos Estados Unidos conheça?

PDP: A maior parte da informação distorcida da Coreia que circula no exterior é falsificada. É importante que os americanos possuam uma percepção justa e científica sobre a Coreia.

A Coreia do Sul conquistou progresso social por meio de sangrentas lutas do povo, mas é ainda ocupada pelos Estados Unidos militar, política e economicamente.

Dizemos o mesmo quanto à percepção sobre a Coreia do Norte. A percepção segundo a qual a Coreia do Norte é um “Estado que viola os direitos humanos” e um “Estado para a guerra” foi manipulada como parte das manobras dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte. Na realidade, a Coreia do Norte nunca invadiu outros países.

A nação coreana possui uma história de mais de 5 mil anos, e nunca invadiu outros países durante este período. Certamente retiraremos as tropas dos Estados Unidos da Coreia do Sul em um futuro breve, conquistaremos a independência nacional e a democracia popular, e concluiremos a reunificação pacífica e independente do país. O PDP cumprirá sua nobre missão internacionalista e sempre dará seu melhor para unir os operários e povos de todos os países.

NOVACULTURA.info

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