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"A 'Pós-verdade' já existe há muito tempo e se chama mentira"


O logotipo que encabeça as páginas do jornal Estado de São Paulo remete a Bernard Gregoire, um francês que, em 1876, saía pelas ruas de São Paulo a cavalo, tocando um trompete e anunciando as notícias do dia. A ousadia do Estadão, que realizava vendas avulsas dos jornais nas mãos de Gregoire, foi alvo de ridicularização por parte dos concorrentes do jornal. Talvez não soubessem que, centenas de anos antes, eram também a cavalo que chegavam as notícias. O que se entende como o primeiro jornal do mundo, a “Acta Diurna”, idealizada por Júlio César no século II a.C como um instrumento de hegemonia de seu império, se valeu de uma engenhosa estrutura logística que contava com mudas de cavalos estrategicamente localizadas, capazes de cobrir todo o Império Romano.

Hoje, os jornais fingem não saber que as notícias falsas sempre existiram. As Actas Diurnas de Júlio César, que continham as informações oficiais do império, eram rotineiramente acompanhadas de publicações próprias das oficinas de escribas, que contavam causos, fofocas, mentiras. Mais: há indícios de que as Actas, registradas na madeira e expostas em público, eram também copiadas em placas de cera de abelha e posteriormente registradas em papiros, para a leitura pessoal. Nesse processo, sem dúvidas houve também toda sorte de “novas informações” duvidosas. Mas a imagem do homem a cavalo que anuncia notícias pela cidade também não é exclusiva de Júlio Cesar, nem d’O Estado de São Paulo. Na idade média, na Europa, trovadores viajavam de feudo em feudo contando histórias fantásticas sobre dragões, riquezas, traições, discordâncias. Muitas inventadas, a gosto do público e para o ônus dos retratados (que, no feudo anterior, eram o público).