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História das Três Internacionais

"A injustiça que pesa como uma dívida eterna"

Foto do escritor: NOVACULTURA.info
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há 11 minutos
4 min de leitura

 

Há dores que não se dissipam; tornam-se eternas e acompanham quem as sofre até o último suspiro. José María Uranga sabia disso. Quando lhe perguntaram pela filha, Nancy Uranga Romagoza, a florete cubana que voltava triunfante de Caracas, mal conseguiu dizer, com a voz embargada: “Hoje, assim como no primeiro dia, estou sempre me lembrando dela. Eu, a mulher… Mas o que vamos fazer? Vinte e tantos, trinta anos colocando flores para ela…”. Em seguida, recostou-se lentamente no espaldar, como que buscando amparo no próprio vazio da dor. Porque há vazios que nunca terminam, e há pais que precisam aprender a conviver com uma ausência semeada a sangue e fogo.

 

Haymel Espinosa tinha apenas alguns meses quando seu pai, Miguel Espinosa Cabrera, copiloto do voo da Cubana de Aviación, morreu no atentado terrorista de Barbados. Já adulta, ela confessa no documentário Explosão a bordo: “Quantas vezes precisei dele ao meu lado, quantas vezes quis tê-lo por perto. Quis tê-lo comigo no dia em que me casei. Sinto que essa foto está incompleta: estou ao lado da minha mãe, mas falta o meu pai”. E acrescenta: “Quando te tiram alguém assim, tão de repente, fica essa esperança de que possa voltar. Para mim é um sonho, e é o que sempre sonho com o meu pai. Às vezes penso que vou encontrá-lo, que talvez tenha sido um náufrago”.

 

Naquele 6 de outubro de 1976, duas bombas explodiram a bordo de um avião da Cubana de Aviación em pleno voo. Iam 73 pessoas, entre elas 24 adolescentes da equipe juvenil de esgrima. A maioria ficou reduzida a fragmentos sobre o mar. Somente os restos mortais de oito cubanos puderam ser recuperados, e se converteram em símbolo de todos os caídos.

 

A notícia do ataque se espalhou como pólvora e dinamitou o coração das mães que, orgulhosas, aguardavam o abraço dos filhos; dos pequenos a quem o terrorismo privou para sempre do abraço do pai; das famílias às quais arrancou de uma só vez a bronca, os tapinhas no ombro, a alegria de vê-los casar e de ver florescer sua descendência.

 

O terrorismo não lhes tirou apenas a vida: roubou-lhes também a despedida, o corpo a velar, a mão a apertar, a palavra que ficou por dizer. Deixou, em troca, uma foto incompleta, uma cadeira vazia, um telefone mudo, uma pergunta que envelhece com os anos.

 

Em uma morte natural, ainda que a dor seja um abismo, existem ritos que ajudam a nomear a perda. Num atentado, ao contrário, o luto se transforma em interrogatório: como terá vivido aquele último momento? Em que estaria pensando? Por que fazer algo assim? A mente se recusa a aceitar o fato, o coração espera, e a ausência se torna uma ferida que sangra cada vez que essa data se aproxima.

 

Somente as famílias que foram vítimas do terrorismo conhecem essa dor insuperável, esses choros abafados que irrompem de madrugada, a raiva que não encontra destinatário, a culpa absurda por continuar vivo e a obstinada recusa em aceitar o irreversível.

 

Muitos pais não resistiram ao golpe: a tristeza tomou conta deles e se ancorou tão fundo na alma que lhes roubou o fôlego. A esperança das famílias começou a se desvanecer. Com que ânimo olhariam a vida de frente? Que pai está preparado para enterrar um filho, para sobreviver a ele?

 

Dizem que, naqueles dias, a dor se multiplicou e a vida do país parou por completo. A Praça da Revolução, em Havana, era um mar de povo enlutado, comovido, indignado.

 

Os jornais da época eternizaram cenas que ainda hoje nos estremecem: mães que se curvavam sobre as fotos dos filhos, como se quisessem devolver-lhes o alento; outras, agarradas a um corpo que já não estava ali. E as fotos, já eternas, daqueles rapazes e moças que voltavam triunfantes de Caracas, ou de seus companheiros aqui, fazendo, profundamente comovidos, a mais dura guarda de honra.

 

Tudo ficou gravado na memória coletiva, e também a frase de Fidel, repetida como um eco que não cessa: “Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme”. Naquele dia, na Praça, o Comandante disse palavras belas, sentidas: “Suas medalhas jazerão no fundo do oceano e se erguerão no Olimpo da Pátria”.

 

Mas os mesmos que induziram aquele ato se encarregaram de que seus perpetradores nunca pagassem pelo crime. Orlando Bosch foi indultado e Luis Posada Carriles morreu impune, sem responder perante a justiça. Enquanto isso, as famílias cubanas seguiam colocando flores, contando aniversários e padecendo ausências.

 

A impunidade acrescentou à perda uma segunda ferida: a de saber que aqueles que semearam o terror puderam envelhecer em paz, passear sem correntes, dormir sem culpa, enquanto uma mãe continuava falando com uma fotografia e uma filha aprendia a amar o pai de ouvir falar.

 

Cada 6 de outubro, Cuba revive a dor daquele dia: o nó na garganta, o abraço multiplicado, a ausência que se senta à mesa. Enquanto houver memória e a justiça continuar pendente, Barbados seguirá doendo. Doerá ainda que a impunidade se disfarce de esquecimento, porque aquela injustiça pesa como uma eterna dívida.

 

Do Granma

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