"A visão martiana dos Estados Unidos"
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Vou falar sobre algo que me parece fundamental quando nos aproximamos da obra de José Martí, que são suas Escenas Norteamericanas (Cenas Norte-Americanas). Creio que essa é a pedra angular da visão martiana dos Estados Unidos. Embora possam ser encontrados outros documentos na obra literária e nos textos de conteúdo já declaradamente político de Martí dedicados a esse assunto, não é possível abordá-lo com profundidade se não partirmos da leitura das Cenas Norte-Americanas.
Por que as Cenas? Porque as Cenas são uma espécie de caleidoscópio da vida cotidiana nos Estados Unidos, criado por Martí ao longo de quase 15 anos de residência naquele país, e abrangem os temas mais diversos. Nelas vamos encontrar, desde fatos miúdos do dia a dia, do modo de vida, dos costumes, da chegada dos imigrantes, das festas populares, das concentrações, fatos recriados pela imprensa sensacionalista, digamos, como os suicídios, até aspectos transcendentes da história daquele país nos anos em que Martí viveu nele, como a Conferência Pan-Americana, que diz respeito às relações dos Estados Unidos com a América Latina, ou as campanhas presidenciais, que resultam surpreendentes pela enorme semelhança que guardam com o que acontece hoje em dia nos Estados Unidos em acontecimentos similares.
Podemos encontrar grandes festas, como a inauguração da Estátua da Liberdade, ou a inauguração desse ícone da modernidade que é a Ponte do Brooklyn, que ainda hoje é testemunha do que acontece na Nova York de nossos dias, ou podemos falar de desastres naturais que afetaram a vida de toda a nação, como o terremoto de Charleston, ou a inundação de Johnstown, ou a conquista de novos territórios, como a invasão do oeste e a ocupação da extensa zona de Oklahoma, sobre a qual Martí produziu páginas verdadeiramente memoráveis.
Martí escreveu as Cenas Norte-Americanas de 1881 até 1892, quando já, devido a seus compromissos políticos cada vez mais urgentes, às atividades de preparação da guerra de Cuba e a outras urgências de seu ofício, foi impedido de continuar com os compromissos cotidianos que tinha com os jornais mais renomados do continente. Pensemos que ele escreveu, numa primeira etapa, para La Opinión Nacional, de Caracas, e depois ampliou essa colaboração para La Nación, de Buenos Aires, que era um dos jornais mais modernos, não só na América Latina, mas em escala internacional, pela quantidade de correspondentes que tinha em outros lugares do planeta e pela tecnologia que o jornal empregava. Mas depois se estendeu a El Partido Liberal, do México; também colaborou com La República, de Honduras, com La Opinión Pública e La Nación — havia outro jornal chamado La Nación também —, em Montevidéu. E além disso, essas crônicas não apareciam apenas nesses periódicos com os quais ele tinha colaboração estabelecida, mas muitos outros jornais as reproduziam sem lhe pagar um centavo por isso; pegavam-nas de La Nación, ou do Partido Liberal, ou de onde fosse, e as reproduziam.
Mas, além disso, ele também escreveu em outros órgãos de imprensa que circulavam dentro da emigração hispânica estabelecida nos Estados Unidos, como La América, do qual ele mesmo chegou a ser diretor; em El Economista Americano, El Avisador Cubano, o de Trujillo; primeiro El Avisador Cubano, e na segunda etapa El Avisador Hispanoamericano; El Porvenir, o outro jornal de Enrique Trujillo. Enfim, ele chegava aos hispanofalantes por todas as vias possíveis, tanto escrevendo para os jornais que estavam ao sul do Rio Bravo quanto para os que circulavam dentro da emigração hispânica dentro dos próprios Estados Unidos.
E tudo isso estava direcionado — a meu ver — a uma vontade explícita de alertar com todas as armas ao seu alcance — umas mais explícitas, outras mais sutis — sobre os perigos cada vez mais iminentes que significava a vizinhança com o gigante das botas de sete léguas, do qual falaria depois em 1891, naquele ensaio magistral do gênero em língua espanhola, que é Nuestra América.
Ora, essa vontade de alertar não é fruto do acaso, nem de um rapto de inspiração. Não estou negando nada ao poeta que Martí sempre foi em todos os momentos: não é possível, em Martí, separar o político do poeta, ou vice-versa; creio que os dois formam uma unidade indissolúvel, e quem tentar separá-los terá uma visão parcial e limitada das duas zonas extraordinárias, por seu valor, dessa personalidade tão singular.
Eu dizia que essa vontade de alertar não foi apenas fruto dessa inspiração que possa ter tido o poeta, mas foi parte de uma estratégia muito bem pensada.
E quero compartilhar com vocês uma anedota, porque creio que foi no ano de 2001 ou 2002 que se fez, no Centro de Estudos Martianos, um colóquio sobre Martí e a ALCA, ou algo assim, não me lembro exatamente do título, mas era em torno da tentativa estadunidense de reeditar aquilo que se havia tentado em torno da Conferência Pan-Americana, e de nos impor um Tratado de “Livre” Comércio para as Américas, que por sorte não prosperou como eles teriam desejado. E chamava-me a atenção que, na convocação a esse colóquio, convocavam-se cientistas políticos, economistas, historiadores, sociólogos, filósofos e outros especialistas, e os linguistas e literatos, como eu, não constávamos na lista de especialistas que deveríamos comparecer, com nosso exercício acadêmico, para ajudar a desfazer a falácia daquela tentativa.
E com esse ânimo, e com o costume que sempre tenho de ver as coisas pelo lado que não é o habitual, de encontrar o recíproco em tudo o que se põe diante de mim, pus-me a ler Cenas Norte-Americanas, e verdadeiramente há em Martí algo que passei a chamar — porque não encontrei um rótulo que lhe caísse bem na exegese já reconhecida — “discurso do alerta”.
O que é isso? Designo com esse termo o uso consciente de um grupo de recursos expressivos de ordem linguística, literária, poética; o uso dos sinais de pontuação tão especial que Martí tem, sempre com a vontade de alertar, mas sem empregar a censura.
É preciso lembrar de algo que ele diz, em carta, a Bartolomé Mitre y Vedia, do jornal La Nación, da Argentina: que as coisas censuráveis se censurarão por si mesmas. A única coisa que ele vai fazer é pôr os olhos limpos de preconceitos em todos os campos e o ouvido aos diversos ventos. E depois dar informação sobre o que está acontecendo, de maneira tal que as coisas se censurem por si mesmas. Ele não vai dizer: isto é bom, isto é mau, isto se deve fazer, ou não se deve fazer; exporá os fatos de tal modo que o leitor seja capaz de tirar suas próprias conclusões a respeito, e sempre encadeará seu discurso de tal maneira que o leitor se sinta comprometido, seja capaz de responder a perguntas ora explícitas, ora implícitas no texto que está lendo. Utilizará, digamos, entre muitos outros recursos, o suspense para, ao final de um parágrafo enorme, dizer quem é o indivíduo.
Lembro-me, por antológico nesse sentido, de um parágrafo que tem quase uma página; imaginem vocês que parágrafo seria esse, com quase uma página de extensão, onde ele começa dizendo: quem faz tal coisa e mais tal coisa, todas as coisas são terríveis: quem mercadeja com os homens — estou parafraseando — para, ao final de toda uma série de orações começadas pelo pronome relativo “que”, dizer: ponto e vírgula, “Blaine é esse”. James Gillespie Blaine, o gênio diabólico da Conferência Pan-Americana.
Ora, desde quando podemos encontrar na obra de Martí esse tipo de proceder? Creio que desde os textos mais precoces de suas Cenas Norte-Americanas podemos encontrar isso.
Há uma crônica do ano de 1881, publicada em 3 de dezembro daquele ano em La Pluma, de Bogotá, que se chama Coney Island, cujo início é verdadeiramente ilustrativo nesse sentido. Reparem que Martí tinha apenas pouco mais de um ano nos Estados Unidos. Poder-se-ia pensar que uma pessoa, em pouco mais de um ano, não tenha tido tempo suficiente para sair do deslumbramento inicial, do impacto inicial que essa realidade pode causar em alguém que vem de um ambiente tão diferente daquele país, de um âmbito provinciano, cheio de mansidão, como corresponderia à Havana de sua infância e primeira juventude, e ao que ele conhecera na Espanha e ao que havia conhecido até então. Ele devia estar verdadeiramente impactado.
Contudo, ouçam o que ele diz no início de Coney Island: “Nos fastos humanos, nada se iguala à prosperidade maravilhosa dos Estados Unidos do Norte. Se há ou não neles” — se há ou não — “falta de raízes profundas; se são mais duradouros nos povos os laços que ata o sacrifício e a dor comum do que os que ata o interesse comum; se essa nação colossal leva ou não” — sempre a disjuntiva, para que o leitor tire suas próprias conclusões — “em suas entranhas elementos ferozes e tremendos; se a ausência do espírito feminino, origem do sentido artístico e complemento do ser nacional, endurece e corrompe” — reparem em verbos tão poderosos: endurece e corrompe — “o coração desse povo espantoso, isso o tempo dirá…”, não sou eu quem diz. Isso o tempo dirá. E ele começa fazendo essa afirmação absoluta, é uma oração enunciativa afirmativa: nos fastos humanos, nada se iguala à prosperidade maravilhosa dos Estados Unidos do Norte. Por quê? Porque, dizendo outra coisa — quem eram os que podiam ler no século XIX, quem tinha acesso aos jornais no século XIX? A classe média alta, elites que, em sua maioria — não estou dizendo nada estranho —, em sua maioria, embora houvesse pessoas de um espírito americanista muito arraigado, em sua maioria admiravam essa prosperidade maravilhosa, e a viam como uma maravilha, como um exemplo a seguir. Pensemos que um homem como Domingo Faustino Sarmiento, que era um homem culto, uma mente com um legado importante para a tradição intelectual americana, queria que Martí desse mais de ianque e menos de Martí, e elogiou a prosa martiana, foi um dos primeiros a ver a grandeza na prosa martiana, mas sempre queria que Martí desse mais do ianque, porque era um admirador daquele mundo desenvolvidíssimo, para dizê-lo de maneira talvez um tanto exagerada, mas era assim que se via os Estados Unidos a partir de nossa América nos fins do século XIX.
Ora, essa maneira de Martí alertar a respeito dos perigos que os Estados Unidos encerram, a meu ver, vai em duas direções: uma é o olhar para o interior dos próprios Estados Unidos, e outra é o olhar para a relação dos Estados Unidos com nossa América.
Esse olhar para o interior abrange os aspectos mais diversos: a família é um fator ao qual Martí concede um valor fundamental; o desvio da infância, que deserta do lar em famílias onde as crianças não são acolhidas como deveriam, nem são educadas no amor, no desinteresse e no respeito aos pais; o matrimônio por conveniência; ou seja, ele fala inclusive do matrimônio como uma espécie de aluguel ou de venda, porque as relações estão sempre condicionadas, sobretudo nas classes economicamente dominantes, ao fator dinheiro.
E reparem que há um fragmento onde ele fala dessas relações amorosas pervertidas — por assim dizer —, e diz que os homens não sabem — está falando dos homens — “cativar a formosura com as únicas armas que a rendem, e a compram ou a tomam em aluguel, o que é o mesmo que deitar uma hidra no tálamo. A mulher, que sempre abomina quem a paga, sente ódio de si mesma e cai de um lado e de outro, buscando refúgio. Honradas às vezes, como em algo se hão de comprazer, comprazem-se com arroubos de enamoramento e ardores de paixão, em suas joias e vestidos; por onde, às vezes, é profunda virtude o que parece um defeito. Cria-se um ser novo, triste como uma chaga: a esposa manceba.” Ou seja, a esposa cortesã, a esposa prostituta.
“Cria-se um ser novo, triste como uma chaga:” — reparem nesse símile de sabor expressionista: triste como uma chaga — “a esposa manceba.” E depois, não satisfeito com o símile expressionista, ele usa esse oxímoro, que é a exacerbação da antítese entre os dois extremos: a esposa não pode ser uma manceba, não pode ser uma prostituta; supõe-se que a esposa seja um ser sagrado, a quem se respeita e se ama, e a prostituta é desprezada; mas, claro, se a mulher está se prostituindo por dinheiro, isso é responsabilidade de toda a sociedade.
Encontrei por aí algumas leituras de gênero a respeito, onde falam se ele era misógino, se rejeitava a mulher, e não sei mais o quê. Martí, nesse sentido, em relação à mulher norte-americana, assinala reiteradas vezes que o que ocorre nesse tipo de relação não é responsabilidade unicamente da mulher; é um problema social, em que elas, mais do que culpadas, são também vítimas de uma sociedade deformada, onde a espiritualidade é um bem menor.
E assim podemos encontrar exemplos, seriam centenas os exemplos que poderíamos mencionar nesse sentido.
Algo que aterroriza Martí na sociedade norte-americana é o grande número de suicídios, e como isso afeta terrivelmente as famílias, independentemente das classes sociais. Os jornais sensacionalistas continuamente dão notícias desse tipo, e nós, que trabalhamos na edição crítica das Obras Completas, como temos que buscar informação complementar para documentar cada fato, cada acontecimento do que ele está relatando, nos deparamos muitas vezes com o nome e os dados dos suicidas. E, digamos, numa crônica que trabalhei do ano de 1885, uma das tantas em que ele recria o fato de um jovem de família proeminente que levou a mãe e a irmã a um lugar afastado à beira-mar, matou as duas e depois se suicidou. E quando nos pusemos a procurar, com a ajuda do amigo Sarracino, que é um expert nessas lides detetivescas, e que tem ensinado quase todos os demais da equipe, quem era o indivíduo era o jovem Young Johnson, filho de um diplomata que havia sido ministro dos Estados Unidos na Europa; estudava Direito na Universidade de Yale e, segundo dizia a imprensa norte-americana, havia decidido suicidar-se desencantado com o mundo, e a imprensa atribuía isso aos nefastos ensinamentos de Spencer.
Martí vai muito além em sua crônica, porque ele expõe o fato sem dizer o nome; mas diz: “Falta algo que refreie. Neste povo de gente emigrada, falta o ar da pátria, que serena. Neste povo vasto de gente isolada e fechada em si mesma” — isolada e fechada em si —, “falta o trato frequente, a comunicação íntima, a prática e a fé na amizade, as enérgicas raízes do coração, que prendem e renovam a vida. Neste povo de labor, enorme campo de luta pela fortuna” — reparem: enorme campo de luta pela fortuna —, “as almas apaixonadas de solidão morrem, ou mal termina o gozo da riqueza, já voam os miolos pelos ares, porque lhes parece que não há mais gozo.”
Nossa América não pode, de forma alguma, erguer-se sobre exemplos assim de desenvolvimentismo social que negligenciem a espiritualidade do ser humano e fomentem o egoísmo em prol de uma prosperidade e de um êxito financeiro, profissional, ou simplesmente de notoriedade social, de fama, onde o melhor do ser humano seja deixado de lado.
E isso é no âmbito privado, mas no âmbito público acontecem coisas terríveis. Digamos que, no ano de 1884, ele dedica toda uma série de crônicas, das quais não vou ler nada por razões de tempo, ao escândalo financeiro de Ferdinand Ward e Ulysses Grant, quando a quebra do Banco de Marina e a colossal fraude em que Ferdinand Ward envolveu o general norte-americano Ulysses Simpson Grant, herói da Guerra de Secessão e depois Presidente dos Estados Unidos. E Martí realmente se espanta de como um homem com um desempenho heroico durante a Guerra de Secessão, independentemente dos erros e defeitos que expôs em seu exercício presidencial, tenha cedido a tentações econômicas de algo de que não precisava em absoluto. E, bem, realmente, ao que parece, Grant foi enganado naquele momento; mas as pessoas não são capazes de discernir, quando há dinheiro envolvido, até onde vão os princípios e até onde vai sua responsabilidade cidadã diante da tentação de ganhar dinheiro. E assim ocorre com reiterados personagens.
Também o fato de como as campanhas eleitorais para a Presidência, ou para os cargos públicos em qualquer nível de governo nos Estados Unidos, se convertem num vasto campo de luta pela fortuna, para dizê-lo com as palavras do fragmento que acabei de citar. A única coisa que importa é chegar ao poder, a única coisa que importa é ganhar os votos; não importa se é preciso mentir. Martí diz: mente-se conscientemente, espreita-se, rapina-se, sussurra-se, atira-se lodo, atiram-se tinas de lama sobre as cabeleiras brancas e veneráveis; o lodo sobe até os arções da sela. Ele se espanta, e diz: “Não concebe nossa fidalguia latina tal transbordamento;” pelo menos nós, hispano-americanos, temos um senso de cavalheirismo que não chega a esses extremos. Ou seja, se é preciso mentir, mente-se; se é preciso comprar alguém, compra-se; para isso existe o dinheiro e existem os rapazes, os “politicianos” — um neologismo cunhado por Martí, que vem do inglês politicians, para aludir aos trabalhadores do voto.
E em meio a toda essa galeria de personagens, uns mais proeminentes, outros menos, há alguém que se destaca acima de todos. Martí não costumava falar mal de ninguém; se tivesse que falar mal, simplesmente não falava; mas creio que James Gillespie Blaine é o único homem que ele rejeitou profundamente. Há outro, que creio ser Justo Rufino Barrios, embora em menor medida que Blaine. A rejeição estava muito justificada nos dois casos. Mas esse homem, James Gillespie Blaine, que foi candidato à Presidência no ano de 1884 pelo Partido Republicano, contra Grover Cleveland, dos Democratas — que venceu Cleveland —, esse homem é um homem verdadeiramente funesto. E no ano de 1888 há um texto de Martí, escrito como uma crônica, onde ele resenha o discurso de Blaine num estádio de Nova York, que verdadeiramente se converte em um dos retratos de homens vivos, dos poucos, porque creio que dos vivos estão Whitman e Blaine, todos os demais foram retratos póstumos; ele dizia: “morre um homem notável, estudo sua vida.” Era um modo de se aproximar da essência dos Estados Unidos porque, como dirá na semblança do General Grant, “culminam as montanhas em picos e os povos em homens”.
Quando fala de Blaine, desse discurso de Blaine, vejam como ele o retrata no momento em que começa a falar. Diz dele: “E fala do que traz pensado com pouco gesto, com uma mão na balaustrada, com a cabeça atrás, caída sobre o ombro direito, com o olho que não olha” — o olho que não olha — “senão deixa cair de cima o olhar; e o olho é desafiador, agressivo, frio, viscoso, e mais muro que porta, feito para convocar ao combate e regozijar-se nele e em ver prostrado o inimigo; é olho que espera de pé, que não recua, que não se fecha à noite, que voltou, cínico e duro, de sua viagem pelas almas, olho de esmalte, um diamante negro embutido em marfim: olho de corsário.”
Quem ler essa descrição desse indivíduo, duvido muito que a esqueça, porque é verdadeiramente o olho de um réptil o que está sendo descrito, com essa capacidade de espreitar, de surpreender, de ser traiçoeiro; mas esse “olho de corsário” tem para mim também outra conotação: é o do corsário, o bandido do mar que conhecemos, o que rouba conscientemente; mas é também Napoleão, o grande Corso, que tem um significado especial para os homens do século XIX.
Por último, e já para concluir, gostaria de falar brevemente — porque os outros colegas vão abordar isso com maior profundidade — sobre o olhar às relações Norte-Sul nas Cenas Norte-Americanas.
Eu diria que é uma constante: não há um único fato que tenha a ver com as relações Estados Unidos-América Latina que Martí não tenha tocado de um modo ou de outro em suas Cenas.
Tomemos, por exemplo, um acontecimento tão distante da época de Martí — bem, não tão distante, mas não exatamente contemporâneo —, como foi a guerra Estados Unidos-México; Martí recorre a ela constantemente porque foi um espólio terrível e inacreditável, não só para o México, mas para nossa América, e sentou um precedente funesto para as relações entre as duas áreas geográficas e culturais. Mas, além disso, a fatos como a Guerra do Pacífico ele também dedica atenção; fatos como as guerras na América Central em 1885, quando Justo Rufino Barrios quis impor à força seu projeto de união às pequenas repúblicas da região, e os Estados Unidos se preparavam para intervir no conflito. E Martí, vendo o que havia acontecido na Guerra do Pacífico e enxergando mais longe que todos os demais, diz numa crônica desse ano de 1885, quando se fala da morte de Justo Rufino Barrios e da guerra, que ainda está acesa. E diz: “A que viria a intervenção americana caso El Salvador, que vê com maus olhos todo governo que lhe venha da Guatemala, derrubasse o que agora tem, que lhe veio de lá, incapaz de absorver El Salvador pela força, mas ainda capaz de governá-lo por meio de um salvadorenho que lhe prometa não lhe ser hostil em troca de sua aliança?”
Reparem que ele usa a pergunta: a que viria? Se o problema é entre El Salvador e a Guatemala, o que os Estados Unidos têm a ver com isso? E mais adiante diz: “Somente estes problemas se apresentam agora na América Central: em que pode algum deles afetar os Estados Unidos, senão em um ou outro cidadão seu que anda por lá” — não diz vivem lá, nem estão lá; que andam, estão realmente rondando —, “que andam lá em número muito menor que os de qualquer outra nacionalidade; mas os povos não se formam para agora, mas para amanhã. Os Estados Unidos apalparam os próprios ombros e os acharam largos. Por violência confessa nada tomarão; por violência oculta, talvez. Pelo menos se aproximarão de tudo aquilo que desejam. Ao istmo” — ou seja, ao Panamá — “o desejam, ao México não o querem bem; disfarçam de si mesmos sua má vontade, e gostariam de se convencer de que não a têm; mas não o querem bem.”
Creio que é um parágrafo que parece ter sido escrito hoje, a propósito de Cuba, a propósito do próprio México, a propósito da Venezuela, da Bolívia, de tudo o que está acontecendo, do que está acontecendo no Brasil, do que já ocorreu nas eleições na Argentina e do que está fazendo Macri, que está arruinando o país.
Creio que Martí deve ser lido realmente com devoção inteligente, como dizia Unamuno. Não devemos nos casar com a “vigência”, porque, para mim, esse termo “vigência” um pouco me incomoda. Por quê? Porque creio que não são todos os homens que conseguem ser homens de seu tempo, e Martí foi, acima de tudo, um homem de seu tempo em plenitude. O que acontece é que, como o clássico que é, sem dúvida alguma, deixou ensinamentos para todos os tempos. Sem deixar de ver que é um homem de seu tempo, é preciso lê-lo com devoção inteligente, e aplicar, do que ele diz ali, o que tem a ver com o que estamos padecendo hoje.
Claro que os Estados Unidos, naqueles momentos, Martí diz: por violência confessa nada tomarão. Já não lhes importa, já estão às claras; isso é algo que mudou bastante nesse sentido, e já não lhes importa a opinião pública. Mas Martí deve ser lido, e é preciso ver essas Cenas Norte-Americanas realmente como o que são: como um extraordinário monumento literário de valores inquestionáveis, mas também como um texto historiográfico de valor perene sobre a história desses quase 15 anos que Martí viveu nos Estados Unidos.
Não é possível entender a história dos Estados Unidos do final do século XIX sem ler essas Cenas Norte-Americanas. Uma pena que há tanta gente que pensa que isso é apenas jornalismo, motivado pelo fato factual, pela conjuntura; mas não, esses textos têm uma autonomia incrível do ponto de vista literário, mas também têm um extraordinário valor como textos cognoscitivos do ponto de vista historiográfico. E creio que o mais importante hoje é que os leiamos. E encerro minha intervenção com um cordial convite à leitura dessas formidáveis Cenas Norte-Americanas.
Publicado em 18 de junho de 2016, por Dialogar, dialogar









































































































































