"Futebol e ficção na Gaza das crianças sem pernas"
- NOVACULTURA.info

- 3 de jul.
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A imagem era perfeita para as manchetes. Na sede do U.S. Institute of Peace, em Washington, Gianni Infantino, presidente da Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA), colocava um boné vermelho com a inscrição “USA” enquanto anunciava 75 milhões de dólares para construir cinco campos de futebol, uma academia e um estádio para 20 mil torcedores em Gaza.
Ao seu lado, Donald Trump abençoava o projeto: “Cada dólar gasto é um investimento na estabilidade e na esperança de uma região nova e harmoniosa”. A Junta da Paz, afirmou, demonstrava “como se pode construir um futuro melhor”.
O futebol cria realidades paralelas, mas Gaza insiste em ser mais cruel do que qualquer ficção. Enquanto em Washington eram elaborados os projetos arquitetônicos, nos hospitais da Faixa os médicos operavam, sem anestesia, crianças cujos corpos haviam sido transformados em escombros pela guerra.
Segundo informou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no final de 2025, mais de 42 mil dos 172 mil feridos desde outubro de 2023 sofreram lesões incapacitantes. Um quarto deles são menores de idade: cerca de 10 mil crianças com deficiências permanentes. A organização Save the Children elevava o número de menores feridos para aproximadamente 40 mil, muitos sem membros, sem visão ou sem mobilidade.
Gaza abriga “a maior coorte de crianças amputadas da história moderna”. Somente nas dez semanas posteriores a 7 de outubro, mais de mil crianças perderam uma ou ambas as pernas. “A maior taxa de amputações infantis do mundo”, confirma a Universidade Americana de Beirute.
Os que sobrevivem nem sempre conseguem comemorar. Ahmed, de dez anos, brincava na rua quando uma bomba destruiu suas pernas. Agora espera por uma prótese que, segundo a própria OMS, é quase impossível de conseguir: os centros de reabilitação não funcionam e o acesso aos equipamentos básicos permanece bloqueado.
A maioria desses ferimentos, que deveriam ser tratáveis, transforma-se em condenações para toda a vida. Além disso, ter uma deficiência em Gaza multiplica o risco de morrer sem receber tratamento adequado.
O paradoxo se aprofunda quando se recorda o contexto. No mesmo dia em que Trump falava de paz, advertia o Irã: “Se estiverem tentando se rearmar, nós os destruiremos sem piedade”. Sua estratégia de “paz coercitiva” vincula a estabilidade de Gaza à neutralização de Teerã, ignorando a raiz do conflito.
Assim, perpetuam-se as condições para que crianças como Rateb Abu Qleeq, de nove anos, vejam seu futuro desaparecer. Seu primo Ahmed fabricou para ele uma prótese com um tubo para que pudesse voltar a brincar. Isso não é uma solução: é um diagnóstico.
O projeto da FIFA promete um estádio para 20 mil pessoas. Mas com que pernas jogarão as crianças amputadas? Com que olhos assistirão à partida se perderam a visão?
O investimento não é destinado às crianças que sofrem com a guerra, mas ao simulacro de uma paz que não existe. Enquanto a ajuda para a reabilitação continua bloqueada, o futebol transforma-se no cenário de uma tragicomédia global, na qual os feridos são o único público cuja opinião jamais foi solicitada.
De Washington, a “paz” tem nome de estádio. De Gaza, a “esperança” tem a forma de uma muleta improvisada. Para as crianças da Faixa, o gol continua sendo marcado contra o próprio time.
Do Granma







































































































































