"Em que lugar da África fica a Rússia?"
- NOVACULTURA.info

- há 58 minutos
- 5 min de leitura

Poucas semanas antes de Benjamin Netanyahu vender a Donald Trump a Operação Fúria Épica, com a qual, em poucos dias, conseguiriam se livrar do governo dos aiatolás e se apropriar de todo o seu petróleo — o que é evidente que não foi alcançado —, o Pentágono já havia começado a buscar a forma de expulsar a Rússia da África.
Para isso, precisa, sim ou sim, quebrar a relação de Moscou com a perigosa presença da Rússia na África e, particularmente, com a Aliança dos Estados do Sahel (AES), o trípode anticolonialista composto por Mali, Burkina Faso e Níger, que há três anos, após exterminarem a ominosa presença francesa e norte-americana de seus países, resistem aos ataques do terrorismo fundamentalista financiado pelos países do Golfo Pérsico e articulado a partir de Washington e Paris, utilizando mais uma vez as khatibas da al-Qaeda, que na região operam sob o nome de Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM, na sigla em inglês), e a franquia do Daesh, Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS). Além disso, o Pentágono precisa cortar o fornecimento de equipamentos e mercenários russos às fileiras do exército de Khalifa Haftar, que controla todo o leste da Líbia e que, após anos de tensões com Moscou, a diplomacia e a inteligência do presidente Vladimir Putin conseguiram, como em vários países do continente, ampliar sua presença.
Apesar dos enormes esforços dos mujahideens, apoiados pela França e pelos Estados Unidos, a AES conseguiu resistir e manter a unidade.
O poder dos terroristas conseguiu manter por semanas o bloqueio dos acessos de petróleo e outros insumos vitais a cidades como Bamako, a capital do Mali, com mais de quatro milhões de habitantes. Enquanto isso, as incursões em aldeias, onde além de assassinar os takfiris (apóstatas), incendiam casas e plantações; saqueiam desde veículos até animais e colheitas. Ao se retirarem, além do rastro de destruição que deixam, obrigam os jovens a se incorporarem à milícia. Esses ataques praticamente cotidianos provocaram que, apenas em Burkina Faso, o número de deslocados alcance dois milhões e meio.
Também são centenas as baixas que provocaram entre as fileiras dos exércitos regulares desses três países, onde são frequentes as emboscadas, ataques a unidades militares, atentados e sabotagens contra instalações vitais tanto para os militares quanto para o desenvolvimento da vida civil, como usinas elétricas ou estações de tratamento de água, por exemplo.
Nesse contexto, no último sábado, 25 de abril, mujahideens aliados aos separatistas tuaregues, da Frente de Libertação de Azawad (FLA), do norte do Mali, lançaram uma onda de ataques e atentados coordenados contra diferentes pontos de Bamako, incluindo seu aeroporto Modibo Keïta, a cerca de 15 quilômetros do centro da capital, que se encontra junto a uma base da Força Aérea, além de outros centros urbanos do centro e norte do país. Já em 2024, o JNIM havia atacado o aeroporto e um campo de treinamento militar próximo a Bamako, onde assassinaram dezenas de militares.
A operação tornou-se a maior ação terrorista dos últimos anos. Em comunicado, as FAMa (Forças Armadas do Mali) informaram que, após algumas horas de combate, os terroristas haviam se retirado e a situação estava sob controle.
Os ataques incluíram a principal base militar das FAMa, localizada na localidade de Kati, próxima a Bamako. Ali se encontra o ministro da Defesa, Sadio Camara, que algumas fontes deram como morto. Alguns vídeos mostram colunas de caminhões e motocicletas circulando pelas ruas de Kati.
Também foram registrados ataques em algumas localidades do centro do Mali, como Sévaré e Mopti, além de Kidal e Gao, onde algumas informações relatam tiroteios e corpos nas ruas.
Os insurgentes teriam conseguido posições em alguns bairros da cidade de Kidal, no Norte, epicentro da rebelião separatista tuaregue de 2012. Ao mesmo tempo, porta-vozes do movimento Azawad afirmavam que suas forças tinham controle total da cidade e de algumas zonas de Gao, outra cidade do nordeste do país — o que não foi confirmado por nenhuma outra fonte.
Enquanto isso, na cidade de Gao, a mais extensa do norte do país, com pouco menos de 100 mil habitantes, alguns moradores relataram disparos e explosões que teriam começado nas primeiras horas do sábado.
A origem do mal
Essa joint venture entre terroristas e milicianos tuaregues viveu diferentes fases desde seu início, em 2012, quando os tuaregues, aproveitando o período de anarquia que se abriu após o golpe de Estado contra o presidente Amadou Touré, e com toda a região fortemente abalada pelo que ocorria na Líbia após a derrubada e o martírio do coronel Gaddafi, acreditaram estar diante de uma nova oportunidade para concretizar a criação de Azawad, sua mítica nação que se estende do norte do Mali e abrange vastas regiões da Mauritânia, Argélia, sul da Líbia e Níger. Embora suas reivindicações sejam indiscutíveis, como as de tantos outros povos como os balúchis, curdos ou saarauís, a presença colonial e a continuidade de seus herdeiros formais tornaram impossível concretizar essas aspirações.
Isso permitiu que algumas khatibas da al-Qaeda, que a CIA havia transportado para a Líbia, financiadas pela Arábia Saudita, se deslocassem para o norte do Mali e infiltrassem a rebelião do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA), a aliança das tribos tuaregues, dando assim oportunidade à França de ocupação militar ativa em sua antiga colônia, primeiro com a Operação Serval e depois com a Barkhane, até ser expulsa em 2022, após o golpe dos coronéis liderados por Assimi Goïta, que até agora continuam governando o país e foram os promotores da aliança anticolonial que tanto preocupa Washington e seus aliados europeus.
Os Estados Unidos precisarão trabalhar muito intensamente na África, continente que as últimas administrações mantiveram à margem de seus interesses, o que permitiu à China se fortalecer no campo comercial e à Rússia no político e militar — um coquetel amargo demais para os norte-americanos.
E tudo começa pelo principal: a Líbia, que é o país com maiores reservas de petróleo do continente, às quais as grandes petrolíferas norte-americanas estão tentando retornar após anos de ausência. Já em fevereiro, a Chevron fechou um acordo para exploração petrolífera na costa líbia; ao mesmo tempo, a Exxon Mobil, em 2025, acertou seu retorno ao país após ter se retirado em 2013. Sem dúvida, nesse contexto da guerra no Oriente Médio, esse tipo de negociação se multiplicará não apenas na Líbia, mas também na região do Sahel, rica em urânio e outros minerais, à qual precisam retornar com urgência.
Não por acaso, soube-se que, apenas duas semanas atrás, chegou ao sul da Líbia o tenente-general John Brennan, do exército dos Estados Unidos, que foi recebido por dirigentes de grupos armados líbios que se mantiveram em conflito durante anos e agora parecem dispostos a se unir, após Brennan conseguir que realizassem exercícios militares conjuntos com tropas norte-americanas, com o objetivo de incorporá-los à luta armada para expulsar a Rússia do continente. A esses exercícios somaram-se contingentes do exército alemão prestando assistência médica, forças turcas oferecendo apoio com drones, além de representantes da Itália, Reino Unido, Egito e França, e forças do Chade, vizinho ao sul da Líbia e ao leste do Níger, além da inteligência ucraniana, que tem grande atividade no norte do Mali e também no Sudão, operando contra qualquer tipo de interesse russo.
Para além das guerras travadas no Oriente Médio, onde não é uma utopia que os Estados Unidos possam perder sua condição de potência dominante, será na África que, mais cedo ou mais tarde, ocorrerá a batalha que definirá o destino de todos nas próximas décadas.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional







































































































































