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"Sobre a luta a favor das mulheres em Jharkhand"



Qual era o objetivo da Nari Mukti Sangh (NMS, Organização pela Libertação da Mulher)?

Foi fundada para combater a exploração feudal nas zonas rurais. Os salários eram muito baixos e todos tinham que trabalhar para o latifundiário. Primeiro tinham que trabalhar para o latifundiário e, no tempo que sobrava, tinham que trabalhar para cuidar de suas próprias plantações; trabalhavam de 12 a 13 horas por dia e a única coisa que recebiam como forma de pagamento era 1/2kg de arroz, com casca ou sem. Nos casos em que não podiam pagar suas dívidas, tinham que trabalhar mais e, quando se negavam a trabalhar mais, eram castigados, golpeados. Todas as mulheres da casa, filhas, noras, tinham que trabalhar na casa do latifundiário, onde seriam exploradas sexualmente e assediadas também pelos funcionários do departamento florestal.


Não era permitido às pessoas usar roupas boas ou calçados na frente dos latifundiários. O departamento florestal costumava levantar falsas acusações e jogar os trabalhadores no cárcere. Toda a linguagem utilizada era muito feudal e sempre eram chamados por nomes depreciativos; o trato utilizado pelos Bhumihar (sub-casta de Brahmins) era inclusive o pior. A situação não mudou muito até hoje, as classes trabalhadoras ainda são maltratadas pela alta casta feudal.


Nessa situação, problemas como o dote, o matrimônio infantil, a poligamia e os assassinatos por dote – todos foram problemas de dentro deste sistema mais amplo e contra o qual se formou a NMS.


A violência estatal e doméstica são temas que foram assumidos pela NMS e, em 1990, ela se formou. Os principais objetivos eram que pudessem ser eliminados pelas suas raízes: a violência estatal, a violência sexual e a violência feudal contra as mulheres.


Como a NMS se fortaleceu na área?

Depois da formação, a área de trabalho se ampliou. Um dos temas era o salário mínimo para as mulheres que trabalhavam nos campos dos latifundiários. Em grande parte, as mulheres destes latifundiários feudais não trabalham no cam¬po; dessa forma, eram as mulheres trabalhadoras as que faziam todo tipo de trabalho. Então, antes de mais nada, fizemos a lista do trabalho a ser feito. Aumentar os salários de bidi patta (folhas para tabaco), diminuir as horas de trabalho e aumentar o pagamento em arroz de 1/2kg para 8kg. Através da luta contínua, puderam aumentar os salários de 1/2kg para 8kg. Os pagamentos para a folha de tendu eram de 4 a 5 rupias por paquete (100 folhas).


Em 1983, foi formado o Bidi Patta Majdoori Virodhi Sangharsh Samiti (Comitê de Luta de Trabalhadores de Folha de Bidi). Na mesma época, também se lançou o movimento contra o dote. O movimento contra o álcool também começou por volta de 1980. Esses movimentos receberam muito apoio popular. Houve um movimento em torno da saúde, pois havia medicamentos, mas não chegavam ao povo - esse movimento começou por volta de 1980. As pessoas costumavam dar sete dias de advertência, depois faziam comícios, distribuíam panfletos e então começavam a distribuir os medicamentos.


As pessoas começaram a vir à NMS por conta de mortes por dote; as decisões eram tomadas nas aamsabhas (assembleias gerais), onde todo o povo participa no gram sabha (conselho de aldeia), inclusive o sarpanch (chefe), e a NMS dirigia. As pessoas investigavam o problema e logo ouviam a solução do sarpanch. No caso de a decisão parecer justa, então se aceitava; caso contrário, mulheres da NMS interviam, corrigiam e davam decisões em favor da mulher. Às vezes, os noivos e os pais também eram golpeados como castigo, também tinham que pagar uma multa e se tomava por escrito que o rapaz não voltaria a se casar.


Em casos de novo casamento, após viuvez ou no caso de mulheres abandonadas, o assunto era tratado de maneira similar e se tentava resolver em um fórum público. Esses problemas se davam principalmente nas castas superiores e médias. As pessoas começaram a procurar a NMS para resolver seus problemas em vez de irem às estações policiais. Gente de todos os povos vizinhos começaram a vir atrás das janadalats (Tribunais do Povo). As mulheres de classes média e alta começaram, então, a se associar a nós. As decisões tomadas pela NMS foram bastante progressistas. A responsabilidade pelas mulheres abandonadas no matrimonio recairia na sociedade em geral e, para isso, a sangathan (organização) das mulheres tinha que ter poder. Sabíamos que somente através do empoderamento das mulheres poderíamos pôr fim a estes problemas.


Uma grande quantidade de pessoas vinha às assembleias. Pouco a pouco, o movimento contra o álcool e outros vícios ganharam força nas áreas rurais. As mulheres e as crianças nos apoiaram em grande número. Os homens golpeavam as mulheres por qualquer pretexto, prendiam-nas dentro de casa e diziam: “somos nós que trazemos o dinheiro”.


Como enfrentou o departamento florestal?

Mesmo contra grande assédio do departamento florestal, foi a NMS quem tomou a iniciativa. Formou-se a Jungle Surakshasamiti (Comitê de Segurança da Floresta). O Comitê ia às áreas florestais em grupo. A Jungle Surakshasamiti assumiu a responsabilidade de proteger as pessoas e os bosques do departamento florestal. Mais uma vez, o povo apoiou essa ação. Isso deteve a interferência dos jamindars (latifundiários) e do departamento florestal.


Como enfrentaram a violência doméstica?

Lentamente, as mulheres começaram a se aproximar e se atentar para cada problema. Também enfrentavam problemas domésticos e, em alguns casos, de violência no lar. Nos casos em que as mulheres foram expulsas de seus casamentos, a família do noivo se viu obrigada a pagar um salário pelo trabalho que elas haviam realizado na casa e, também, deviam devolver o dote que tinham levado no momento do casamento. Onde as mulheres não se casariam de novo, se assegurou que obtivessem sua parte da propriedade. Também houve demandas de salário por seus trabalhos domésticos e os maridos deviam se ocupar de suas necessidades diárias.


Questões sobre novos casamentos, casamento infantil e poligamia foram listadas no manifesto da NMS. A força da NMS trabalhou contra a opressão promovida pelas forças feudais, criou pressão contra o matrimônio infantil e o dote. Tudo isso diminuiu e as pessoas não se atreviam mais a tomar o dote abertamente, nem a buscar o matrimônio infantil.


Sob a influência da cultura imperialista, aumentaram-se os incidentes de violação e abuso sexual. As pessoas começaram a questionar quem seria o responsável por isso. A NMS respondia que era responsabilidade de todo o povo. No caso de qualquer incidente, eram dadas três advertências ao infrator; se ele não parasse, era tomada uma ação. O narivahini (Asa Feminina) tomava uma ação, mas as ações eram tomadas depois de uma deliberação.


Em alguns casos, o departamento florestal e as forças feudais também começaram a reagir, e às vezes pessoas eram presas. Mas, uma vez que a organização se tornou mais forte, as forças reacionárias tiveram que deixar a área.


Na casta inferior, a caça às bruxas e as superstições também prevaleceram. As pessoas raramente visitavam médicos. Em alguns casos, em que não conseguimos chegar lá, as pessoas morreram devido à falta de serviços médicos. As viúvas, as mulheres pobres nas seções mais fracas, também foram rotuladas de bruxas e responsáveis pelas mortes. Então, às vezes, essas mulheres eram espancadas e trancadas. Muitas vezes as mulheres eram marcadas como bruxas, sentenciadas e mortas.


A NMS distribuiu panfletos, organizou reuniões e mobilizou movimentos contra essas coisas. Levou ao médico as pessoas que não haviam sido tratadas e falou contra superstições. Onde foi necessário, algumas pessoas também foram penalizadas. Dessa forma, em grande medida, pudemos controlar a situação. Os lugares onde ainda não temos alcance, as pessoas são afetadas por essas coisas. Em alguns lugares onde mulheres foram assassinadas, foram convocados Tribunais do Povo e as pessoas foram castigadas.


Em 1990, foram formados comitês em quatro distritos. Houve eleições para presidente, secretário e tesoureiro, além de um comitê executivo de cinco pessoas. Houve uma convenção de três dias e se organizou um programa aberto no dia 8 de março, no distrito de Giridih. Pessoas de quatro distritos (Dhanbad, Giridih, Bokaro, Hazaribagh) participaram da convenção. Houve uma grande concentração e uma reunião pública assistida por sete mil pessoas. Todos os comitês de distrito receberam a responsabilidade de expandir a sangathan e fortalecer a organização.


Os latifundiários locais criaram seus próprios exércitos privados. Em Giridih e Dhanbad, criaram o “Sunlight Sena” (Exército do Sol), e em Hazaribagh estabeleceram “Jharkhand Muktivahini” (Libertação de Jharkhand). O Estado ten¬tou criar um exército privado e assim começou a repressão.


Em 1997, nove distritos (Dhanabad, Giridih, Bokaro, Hazaribagh, Palamu, Dumaka, Gaya, Chatara, Latehar) realizaram suas próprias convenções, e ocorreu uma convenção central da qual participaram 50 mil pessoas. A gente da NMS começou a campanha, anunciou o evento com um mês de antecedência e começou a arrecadar fundos. Foram distribuídos aproximadamente 1 lakh (100mil) de folhetos e as pessoas contribuíram muito. Todos receberam o lanche gurchura (açúcar de palma com flocos de arroz) no café da manhã. Todo o programa foi organizado graças à força do povo.


Depois de 2004, a polícia começou a repressão e ativistas da NMS e pessoas comuns foram presas durante o programa do 8 de março. O Estado sempre tentava perturbar o programa, mas não pôde fazer desaparecer por completa a programação.


O programa central foi levado a cabo em Patna. Esses programas contribuíram para a expansão da organização e ela foi liderada unicamente por mulheres. Em grande medida, foram as mulheres rurais que lideraram o movimento. Em 2002, duzentas mulheres lideraram o programa; recolheram aproximadamente 600 a 700 mil rupias. As mulheres intelectuais também apoiaram a sangathan e o movimento. Algumas das mulheres da NMS foram mantidas detidas durante seis meses. As prisões foram feitas. As mulheres NMS estiveram na vanguarda da luta contra os senhores feudais.


Conte-me sobre sua trajetória pessoal no movimento.

Minha participação no movimento popular começou em 1973-1974. Enfrentei muitas dificuldades no princípio. As pessoas relutavam em aderir ao movimento, porque não estavam plenamente conscientes e também estavam sob a influência dos latifundiários. Mas, por causa do tema da terra e dos salários, a gente começou a se unir e a força da sangathan começou a crescer. Esse foi o momento em que começamos a pedir salários iguais para homens e mulheres e 8 horas de trabalho.


Meu povo está nos distritos Giridih. Lentamente, mais e mais homens e mulheres adivasi começaram a se unir a nós. O Estado também começou sua propaganda anticlasse, dizendo que essa organização é só para mulheres adivasi. Logo, distribuímos os folhetos e fizemos reuniões para combater isso, pra dizer que “essa organização é para todas as classes trabalhadoras, é para todas as mulheres pobres de todas as castas e tribos”. Às vezes, eram os líderes que cometiam erros de exclusão, mas os trabalhadores eram muito claros sobre a inclusão.


Até 1980 eu ficava em casa e trabalhava na minha região, mas depois de 1980 saí de casa. Eu sequer consegui assistir aos funerais de minha mãe e de meu pai, pois em 1980 eu já tinha me convertido em militante em tempo integral. Nasci numa família camponesa adivasi pobre e, portanto, não pude estudar. Ali não havia uma tradição de educação para as mulheres. Toda a minha educação ocorreu através da organização. Ainda assim, minha educação nunca foi completada, porque nunca se completa uma educação revolucionária.


Como vê o patriarcado em sua sociedade?

Existe patriarcado na sociedade adivasi. As mulheres não têm direito a propriedade. O nome do pai é que é transmitido na família e as mulheres devem permanecer servis nela. A única diferença aqui é que o casamento não é tão sacrossanto e as mulheres podem abandoná-lo e casar novamente, há essa permissão na sociedade. Uma mulher também pode trabalhar e ganhar a vida separadamente. Mesmo as mulheres que ingressam no NMS tiveram que enfrentar resistência patriarcal, mas não era forte o suficiente para impedir sua plena participação.


Foram por esses motivos que as mulheres Adivasi e Dalit ingressaram na NMS. Quando as mulheres eram solteiras ou viúvas, não tinham tantos problemas por lá. No movimento contra o dote, participaram quase todas as mulheres e a NMS ainda está ativa; entretanto, não pode trabalhar abertamente porque há uma repressão muito forte por parte da polícia. Hoje, a NMS ainda participa ativamente em qualquer assunto que se apresente diante do povo. A gente se dá conta de que, se não estamos unidos, perdemos nossa jal-jangal-jameen (água, floresta, terra).


Ainda hoje, a questão da desnotificação, nos termos da Lei de Posse de Chhota Nagpur (CNTA) , é um grande desafio que o povo enfrenta e que está protestando energicamente contra isso. O povo ainda está com a gente, mas o Estado está tentando enfraquecer a organização, tenta cooptar os membros oferecendo cargos no sistema panchayat para separá-los da organização. Estão mirando os adivasi porque esses são a base sólida da organização. Entendemos que o governo está tentando desviar as pessoas e diluir o movimento. Hoje em dia, a repressão policial é nosso maior desafio, o Estado está aterrorizando pessoas e rotulando-os como naxalistas. Nos locais onde nossa influencia é forte, a repressão é também muito forte. Os membros da NMS são rotulados como maoístas e encarcerados.


O estado tenta seduzir os adivasi dando coisas materiais como motocicletas, etc. Sempre dizemos às pessoas que esses confortos não nos levarão à verdadeira libertação e nos manterão escravizados neste sistema de exploração. Por que se distanciam das massas e se convertem em agentes do sistema estatal e explorador? É seu dever se colocar ao lado das massas e trabalhar por sua libertação.


Ainda hoje, o movimento tem forte apoio do povo e estamos trabalhando para desenvolver uma consciência política revolucionária dentro dele. Começamos novamente a trabalhar para reconstruir o movimento e fazê-lo avançar.



“Interview of Sheela Marandi”, publicado na Weapon of Criticism, em 20 de maio de 2017. Esta foi a primeira entrevista concedida pela dirigente do Partido Comunista da Índia (Maoista) por após sua libertação, no início de 2016.

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