Mariátegui: "Aniversário e Balanço da Amauta"


Amauta chega com este número ao seu segundo aniversário. Esteve a ponto de naufragar no nono número, antes do primeiro aniversário. A advertência de Unamuno — “revista que envelhece, degenera” — havia sido o epitáfio de uma obra ressonante porém efêmera. Mas Amauta não havia nascido para ser um episódio, senão para ser história e para fazê-la. Encarar com esperança o futuro. De homens e ideias é nossa força.

A primeira obrigação de toda obra, do gênero que Amauta se impôs, é esta: durar. A história é duração. Não vale o grito ilhado, por maior que seja seu eco; vale a pregação constante, contínua, persistente. Não vale a ideia perfeita, absoluta, abstrata, indiferente aos feitos, à realidade mutável e móvel; vale a ideia germinal, concreta, dialética, operante, rica em potência e capaz de movimento. Amauta não é uma diversão nem um jogo de intelectuais puros: professa uma ideia história, confessa uma fé ativa e multitudinária, obedece a um movimento social contemporâneo. Na luta entre dois sistemas, em duas ideias, não nos acontece sentir-nos espectadores nem inventar um terceiro término. A originalidade a qualquer custo é uma preocupação literária e anárquica. Em nossa bandeira escrevemos esta única, simples e grande palavra: Socialismo. (Com esse lema afirmamos nossa absoluta independência frente a ideia de um Partido nacionalista, pequeno-burguês e demagógico.)

Temos querido que Amauta tivesse um desenvolvimento orgânico, autônomo, individual nacional. Por isso, começamos buscando seu título na tradição peruana. Amauta não deveria ser um plágio nem uma tradução. Tomamos uma palavra de origem Inca para criá-la novamente. Para que o Peru índio, a América indígena, sentissem que essa revista era sua. E apresentamos a Amauta como a voz de um movimento e de uma geração. Amauta tem sido, nesses dois anos, uma revista de definição ideológica, que tem coletado em suas páginas as proposições de diversas pessoas com títulos de sinceridade e competência, que tem querido falar em nome dessa geração e desse movimento.

O trabalho de definição ideológica nos parece cumprido. Em todo caso, já temos ouvido as opiniões categóricas e solícitas em se expressar. Todo debate se abre para os que opinam, não para os que calam. A primeira jornada de Amauta foi concluída. Na segunda jornada, não necessita mais se chamar revista da “nova geração”, da “vanguarda”, das “esquerdas”. Para ser fiel à revolução, basta sê-la uma revista socialista.

“Nova geração”, “novo espírito”, “nova sensibilidade”, todos esses termos envelheceram. O mesmo tem que ser dito de outros rótulos: “vanguarda”, “esquerda”, “renovação”, foram novos e bons em seu momento. Temos nos servido deles para estabelecer demarcações provisórias, por razões contingentes de topografia e orientação. Hoje já são muito genéricas e ambíguas. Sob esses rótulos começam a passar grossos contrabandos. A nova geração não será efetivamente nova senão na medida em que saiba ser, por fim, adulta, criadora.

A mesma palavra revolução, nesta América das pequenas revoluções, se presta bastante ao equívoco. Temos que reivindicá-la rigorosa e intransigentemente. Temos que restituir-lhe seu sentido estrito e cabal. A revolução latino-americana será, nada mais nada menos, que uma etapa, uma fase da revolução mundial. Será simples e puramente a revolução socialista. A essa palavra agregue, segundo os casos, todos os adjetivos que quiseres: “antiimperialista, “agrarista”, “nacionalista-revolucionária”. O socialismo supõe, antecede e abarca todos eles.

À América do Norte capitalista, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América Latina ibera, socialista. A época da livre concorrência na economia capitalista terminou em todos os campos e em todos os aspectos. Estamos na época dos monopólios, vale dizer: dos impérios. Os países latino-americanos chegam com atraso à competição capitalista. Os primeiros postos já estão definitivamente repartidos. O destino desses países, dentro da ordem capitalista, é de simples colônias. A oposição de idiomas, de raças, de espíritos não tem nenhum sentido decisivo. É ridículo falar ainda de contraste entre uma América saxônica materialista e uma América latina idealista, entre uma Roma loira e uma Grécia pálida.

Todos esses são tópicos irremediavelmente desacreditados. O mito de Rodó não trabalha — nem jamais trabalhou — útil e fecundamente sobre as almas. Descartemos, inexoravelmente, todas as caricaturas e simulacros de ideologias e façamos as contas, séria e francamente, com a realidade.

O socialismo não é, certamente, uma doutrina indoamericana. Mas nenhuma doutrina, nenhum sistema contemporâneo é nem pode ser. E o socialismo, ainda que tenha nascido na Europa, como o capitalismo, não é tampouco específico nem particularmente europeu. É um movimento mundial, que não subtrai nenhum dos países que se movem dentro da órbita da civilização ocidental. Esta civilização conduz, com uma força e com meios que nenhuma civilização já dispôs, à universalidade. Indo-américa nesta ordem mundial, pode e deve ter individualidade e estilo; mas não uma cultura nem um senão particulares. Há cem anos devemos nossa independência como nações ao ritmo da história do Ocidente, que desde a colonização nos impôs inelutavelmente seu compasso. Liberdade, Democracia, Parlamento, Soberania do Povo, todas as grandes palavras que pronunciaram nossos homens de então procediam do repertório europeu. A história, entretanto, não mede a grandeza desses homens pela originalidade dessas ideias, senão pela eficácia e genialidade com que as utilizaram. E os povos que mais adiante marcham no continente são aqueles de onde enraizaram melhor e mais rapidamente. A interdependência, a solidariedade dos povos e dos continentes, eram, apesar disso, naquele tempo, muito menores que neste. O socialismo, por fim, está na tradição americana. A mais avançada organização comunista, primitiva, que regista a história, é a Inca.

Não queremos, certamente, que o socialismo seja na América decalque e cópia. Deve ser criação heroica. Temos que dar vida, com nossa própria realidade, em nossa própria língua, ao socialismo indo-americano. Está aqui uma missão digna de uma geração nova.

Na Europa, a degeneração parlamentar e reformista do socialismo impôs, depois da guerra, designações específicas. Nos povos onde esse fenômeno não se produziu, porque o socialismo aparecem recém em seu processo histórico, a velha e grande palavra conserva intacta sua grandeza. Será conservada também na história, amanhã, quando as necessidades contingentes e convencionais de demarcação, que hoje distinguem práticas e métodos, tenham desaparecido.

Capitalismo ou socialismo. Esse é o problema de nossa época. Não nos antecipamos à síntese, às transições, que só podem acontecer na história. Pensamos e sentimos como Gobetti que a história é um reformismo mas com a condição que os revolucionários operem como tal. Marx, Sorel, Lenin, estão aí os homens que fazem a história.

É possível que muitos artistas e intelectuais acusem que acatamos absolutamente a autoridade de mestre irremediavelmente compreendidos no processo pela trahison des clercs. Confessamos, sem escrúpulos, que nos sentimos nos domínios do temporal, do histórico, e que não temos nenhuma intenção de abandoná-los. Deixemos com suas queixas estéreis e suas lacrimosas metafísicas aos espíritos incapazes de aceitar e compreender a época. O materialismo socialista confina todas as possibilidades de ascensão espiritual, ética e filosófica. E nunca nos sentimos mais raivosa e eficaz e religiosamente idealistas que ao assentar bem a ideia e os pés na matéria.

Setembro de 1928

Escrito por José Carlos Mariátegui

NOVACULTURA.info

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