"O custo do Bloqueio na atenção à saúde em Cuba"
- NOVACULTURA.info

- 31 de mar.
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Em um contexto marcado pelo recrudescimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos, a Mesa Redonda desta sexta-feira evidenciou a dupla realidade que o sistema de saúde cubano enfrenta: por um lado, a solidariedade internacional e a vontade política de governos irmãos; por outro, os impactos objetivos de uma política de cerco que, segundo dados oficiais, acumula perdas de mais de 4,183 bilhões de dólares no setor.
O programa televisivo serviu para detalhar o impacto das restrições norte-americanas, assim como as estratégias de resistência criativa que o país tem desenvolvido para garantir o direito constitucional à saúde.
O Dr. Julio Guerra Izquierdo, vice-ministro da saúde, detalhou a complexidade do Sistema de Saúde cubano — composto por mais de 10 mil consultórios, 451 policlínicas e 149 hospitais — e destacou que o Estado financia integralmente essa estrutura como um direito constitucional, apesar do assédio externo.
“O bloqueio dos Estados Unidos contra o setor de saúde é real e permanente”, afirmou. E quantificou: “Ao longo dos anos de bloqueio houve um impacto acumulado de mais de 4,183 bilhões de dólares apenas no setor da saúde. Se considerarmos apenas o último ano, até 2025, são mais de 288 milhões de dólares”.
Para dimensionar o impacto na vida cotidiana dos cubanos, o especialista apresentou três exemplos que resumem a magnitude do cerco:
25 dias de bloqueio equivalem ao financiamento necessário para cobrir as necessidades do quadro básico de medicamentos de Cuba durante um ano (mais de 339 milhões de dólares).
9 dias de bloqueio equivalem ao financiamento necessário para importar materiais médicos descartáveis (seringas, gazes, suturas, reagentes) durante um ano (cerca de 129 milhões de dólares).
21 horas de bloqueio equivalem ao custo da aquisição da insulina necessária para pacientes diabéticos durante um ano (cerca de 12 milhões de dólares).
“Isto significa que o impacto do bloqueio sobre a saúde é palpável e objetivo”, resumiu o médico. “Pode-se dizer ‘não há dinheiro para um parafuso’. Mas quando não há dinheiro para salvar vidas, é difícil”.
O ano de 2026 acrescentou um nível adicional de complexidade: o déficit de combustível e os impactos no sistema eletroenergético nacional. Diante desse cenário, o sistema de saúde teve que reorganizar seus serviços para priorizar o atendimento aos mais vulneráveis.
“A falta de combustível e de energia elétrica impacta diretamente as instituições de saúde. Para isso, o sistema estabeleceu um conjunto de prioridades”, indicou o Dr. Julio Guerra.
Entre elas, destacou a garantia de atendimento em todos os níveis, o programa materno-infantil — considerado de máxima sensibilidade para o país —, a vigilância epidemiológica e o atendimento a urgências e emergências, especialmente pacientes oncológicos e aqueles em tratamento renal substitutivo por hemodiálise.
“Nenhum deixou de receber o tratamento que sabemos que é vital. Não ter esse tratamento significa também a vida”, enfatizou.
Como parte das soluções estruturais, Cuba impulsionou uma estratégia de mudança da matriz energética nas instituições de saúde. Até o momento, foram instalados painéis solares em 282 policlínicas, 78 casas de idosos, 97 lares maternos, 74 centros de convivência para idosos e 15 hospitais — um esforço apoiado pelo governo, empresas estatais e também por formas de gestão não estatal.
O Dr. Julio Guerra também aproveitou para desmentir categoricamente uma informação falsa que circulou nas redes sociais, segundo a qual 19 pacientes teriam falecido no Hospital Hermanos Ameijeiras durante uma queda nacional de energia. O especialista, que estava no local durante o incidente, relatou o ocorrido:
“É verdade que no sábado, durante a desconexão do sistema eletroenergético nacional, houve um problema técnico no gerador e o hospital ficou às escuras por alguns minutos. Em seguida, o serviço foi restabelecido como previsto”, esclareceu. “E, como dado curioso, naquele dia nenhum paciente morreu no Hospital Ameijeiras. Sabemos que hospitais registram mortes regularmente em unidades de terapia intensiva. No entanto, naquele dia não faleceu nenhum paciente”.
O diretor lamentou a disseminação dessas informações irresponsáveis: “São pessoas inescrupulosas que nem sequer valorizam o enorme sacrifício dos profissionais, tanto os que estavam atendendo os pacientes quanto os que rapidamente resolveram o problema do gerador. Isso pode acontecer. Mas o importante é estar preparado para essas situações e garantir a vida dos pacientes, que é nossa razão de ser”.
Hospital Calixto García: Sustentar a vida em meio à complexidade
A diretora do Hospital Clínico-Cirúrgico “Calixto García”, Iliovanys Betancourt Plaza, apresentou os desafios enfrentados por uma instituição com 130 anos de história, que já formou milhares de profissionais de saúde e mantém hoje ativos seus 21 pavilhões sem fechar nenhum serviço, apesar das limitações impostas pelo bloqueio.
Ela explicou que a complexidade estrutural do hospital exige suporte elétrico em cada pavilhão, o que encarece e tensiona a organização dos serviços. “Isso torna as atividades mais complexas”, afirmou, referindo-se a um cenário em que o atendimento médico, especialmente a pacientes politraumatizados, deve cumprir os chamados “tempos de ouro”, decisivos para salvar vidas.
No entanto, reconheceu que essas condições são afetadas pelo bloqueio, obrigando o pessoal a se reinventar constantemente e desenvolver protocolos mais complexos diante da escassez de recursos e insumos.
Betancourt Plaza destacou que o setor de urgências, aberto 24 horas, é um ponto estratégico do hospital, onde diversos espaços devem se adaptar para o atendimento de feridos, inclusive em situações com múltiplas vítimas. Nesse contexto, a disponibilidade de tecnologias médicas, como ventiladores de diferentes tipos e marcas, nem sempre é uniforme, o que adiciona dificuldades às decisões clínicas.
Também apontou que o planejamento cirúrgico teve que ser ajustado às condições atuais, chegando a ocorrer até três programações no mesmo dia. “Precisamos realizar cirurgias com a participação de especialistas de diferentes áreas ao mesmo tempo”, explicou, o que exige alta coordenação e recursos tecnológicos nem sempre disponíveis.
A diretora também abordou o impacto na formação de novos profissionais. A irregularidade nos tempos cirúrgicos limita as oportunidades de aprendizado para estudantes e residentes, que precisam desenvolver habilidades em cenários mais complexos. Soma-se a isso a perda de intercâmbios acadêmicos internacionais devido às restrições do bloqueio.
No plano humano, destacou que as dificuldades não se limitam à instituição. Os profissionais de saúde enfrentam, no cotidiano, as mesmas carências que o restante da população, desde problemas elétricos até o estresse de não poder trabalhar nas condições ideais. “Há um custo humano para os pacientes, mas também para os profissionais de saúde”, afirmou.
Apesar disso, o hospital mantém estratégias de reorganização dos serviços diante de contingências, apoiado não apenas no pessoal médico, mas também em trabalhadores essenciais como operadores de geradores e equipes de apoio, cuja atuação considerou indispensável.
Cardiocentro pediátrico: Quando o bloqueio impacta diretamente a vida
Por sua vez, o diretor do Cardiocentro Pediátrico do Hospital “William Soler”, Eugenio Selman Housein Sosa, enfatizou que o bloqueio “afeta a vida dos cubanos em todas as suas dimensões” e lembrou que mais de 80% da população nasceu sob seus efeitos.
No caso da cardiologia pediátrica, advertiu que essas restrições impactam diretamente o atendimento de doenças cardiovasculares, que continuam sendo a principal causa de morte no mundo.
Segundo o especialista, a impossibilidade de acesso a tecnologias, medicamentos e dispositivos — muitos deles com patentes ou componentes de origem norte-americana — afeta diretamente a saúde dos pacientes. “Não ter acesso a isso prejudica o paciente”, afirmou, acrescentando que as limitações também atingem insumos básicos como cateteres, além de problemas relacionados ao fornecimento de energia e água, essenciais para a higiene hospitalar.
Selman Housein Sosa alertou que essas condições buscam provocar o colapso do sistema de saúde, embora tenha destacado a capacidade de resistência do pessoal médico cubano. Nesse sentido, afirmou que o povo testemunha diariamente o esforço e a dedicação dos profissionais para preservar a vida, mesmo diante das dificuldades.
“Nosso povo não deve ter dúvidas de que o exército da saúde, em nenhuma circunstância, irá falhar”, afirmou. No entanto, reconheceu que algumas intervenções podem sofrer atrasos, seja pela gravidade de outros pacientes, seja pela necessidade de garantir recursos indispensáveis.
Do Cubadebate







































































































































