"Síria, a nação amancebada"
- NOVACULTURA.info

- 7 de jul. de 2025
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Com a queda, em dezembro passado, do governo do presidente Bashar al-Assad, após quase quinze anos de resistência à entente ocidental — à qual desde o início se somaram as monarquias do Golfo — a Síria converteu-se na submissa concubina de Israel.
Uma vez entronizado em Damasco, Abu Mohammed al-Jolani, o emir da organização terrorista Hayat Tahrir al-Sham (Organização para a Libertação do Levante), surgido do repulsivo submundo da Frente al-Nusra — em tempos filial da al-Qaeda na Síria e depois base do Daesh — abandonou seu nome de guerra e agora utiliza seu nome real: Ahmed al-Sharaa.
Desde então, o novo presidente tem recebido afagos e elogios da maioria dos países que mais investiram no processo contra o governo de al-Assad: Donald Trump, Emmanuel Macron, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, o emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, e o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan figuram entre os que, na nova Síria, respaldam os ataques dos antigos “jihadistas” contra comunidades religiosas e étnicas que compunham, até então, o tecido social sírio. Embora, por razões óbvias, ainda não tenha se reunido com Benjamin Netanyahu, não há dúvida de que os contatos com ele devem ser tão fluidos quanto com Washington.
E, ao que parece, as forças residuais do Hayat Tahrir al-Sham, compostas majoritariamente por sunitas — hoje centro do novo exército sírio —, estão executando uma campanha de extermínio contra cristãos e xiitas, transformados, desde o último 8 de dezembro, em alvo dessas forças.
Os sunitas, que representam 70% dos 25 milhões de sírios, assumiram o controle de todas as estruturas governamentais e criaram o já temido Jihāz al-Amn al-ʿĀmm (JAA), o novo serviço de inteligência sírio, de onde são conduzidas operações de perseguição contra minorias — sobretudo os alauítas (xiitas), que compõem 15% da população e à qual pertence a família al-Assad.
Foram numerosas — e pouco divulgadas — as chacinas contra a comunidade alauíta. Milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar suas casas em Damasco, Homs e Aleppo, onde também ocorreram prisões em massa e desaparecimentos forçados. Em janeiro, cerca de 2 mil pessoas alauítas foram detidas, acusadas de colaborarem com “o regime Assad”; poucas delas voltaram a ser vistas.
Em março, nas regiões costeiras de Latakia e Tartus, cerca de 200 mil alauítas sofreram deslocamentos forçados; 40 mil já fugiram para o Líbano e centenas foram executados.
Enquanto isso, combatentes drusos no leste da cidade de Jaramana, a cerca de 8 quilômetros de Damasco, ainda tentam conter as forças do atual governo.
Muitos desses crimes foram reivindicados pelo grupo Saraya Ansar al-Sunnah (Brigadas dos Partidários da Comunidade Sunita), que opera desde 1º de fevereiro e é, evidentemente, um braço parapolicial do aparato militar do JAA.
Desde então, os desaparecimentos, execuções e sequestros com fins extorsivos não cessaram. Bairros alauítas estão sendo patrulhados por grupos parapoliciais que semeiam o terror entre essas comunidades.
Enquanto isso, o próprio Estado promove campanhas publicitárias exaltando os valores do islamismo sunita e incitando o ódio contra qualquer minoria — com exceção dos curdos, que rapidamente se alinharam ao novo regime.
O velho hábito do terror
Seja chamado Abu Mohammed al-Jolani ou Ahmed al-Sharaa; se autodenominem Forças Armadas da Síria, Hayat Tahrir al-Sham, Jihāz al-Amn al-ʿĀmm ou Saraya Ansar al-Sunnah — o fato é que não conseguem se desvencilhar do padrão terrorista que, desde que seus fundadores se estabeleceram na Síria após o início da Primavera Árabe, em 2010, mantêm de forma inalterada.
Mais de seis meses após tomar o controle do país, com o aval dos Estados Unidos e de Israel, os terroristas seguem em suas operações, aprofundando cada vez mais suas ações.
No último domingo, dia 22, um shahid (atacante suicida), vestido com uniforme militar, entrou na Igreja Ortodoxa Grega Mar Elias, no bairro damasquino de Dwelaa — uma zona operária densamente povoada no extremo leste da capital — onde cerca de 250 fiéis participavam da missa. O terrorista, após insultar os presentes, detonou-se antes que pudesse ser contido, destruindo boa parte do templo, matando mais de 50 pessoas e ferindo outras 50.
Segundo se sabe, o bairro de Dwelaa — extremamente empobrecido pelos anos recentes de guerra — já havia sofrido com a violência sectária. Meses antes, um veículo suspeito parou em frente à mesma igreja tentando intimidar a comunidade, mas foi repelido pelos fiéis. Desde então, membros da comunidade vêm recebendo ameaças pelas redes sociais.
Após o ataque à Mar Elias, o presidente Ahmad al-Sharaa, por meio de um comunicado, condenou o atentado e prometeu… o de sempre: “trabalhar dia e noite” e utilizar “todas as nossas agências de segurança especializadas para capturar os responsáveis”.
Mais tarde, o Ministério do Interior atribuiu o atentado ao Saraya Ansar al-Sunnah, do qual o governo diz não ter vínculos, acusando-o de ser uma khatiba (célula) do Daesh.
Em todas as comunicações oficiais, as vítimas foram chamadas de “mortos” e não de “mártires” — um detalhe que vai além da semântica, estabelecendo uma clara diferenciação religiosa. Isso gerou grande indignação na comunidade cristã, que desde o início do conflito em 2010 tem se mantido à margem, deixando claro o posicionamento dos fundamentalistas que hoje governam a Síria.
Em alguns bairros cristãos da capital e de outras cidades, foram detectadas armadilhas explosivas colocadas em carros estacionados nas proximidades de igrejas, paróquias e até de casas “suspeitas” de abrigarem cristãos. Mulheres que saem às ruas sem véu passaram a ser hostilizadas.
Os funerais das vítimas, para os quais a comunidade precisou arrecadar fundos devido à crise econômica, transformaram-se em atos políticos — reunindo cidadãos de várias regiões do interior. Isso pode representar um passo importante para unificar os diferentes grupos que resistem aos antigos terroristas e que, com ações como a de domingo, tentam sufocar os dissidentes.
Imediatamente após o atentado à igreja de Dwelaa, as principais igrejas e capelas cristãs do país suspenderam suas atividades — especialmente em Aleppo, capital cristã da Síria, que chegou a abrigar cerca de 200 mil fiéis, mas cuja população foi drasticamente reduzida após 15 anos de terror fundamentalista. O mesmo ocorreu em outros centros cristãos como Damasco, al-Qamishli, Homs, Latakia e Hama, onde, por conta da perseguição iniciada pela al-Nusra a partir de 2011 e do recrudescimento dos conflitos inter-religiosos e interétnicos desde meados de 2024, milhares de cristãos — considerados kufar (infiéis), assim como os xiitas, denunciados como murtaddun (apóstatas) pelos fundamentalistas — foram forçados a se deslocar.
É pouco provável que a ordem para o ataque à igreja Mar Elias tenha partido diretamente do antigo mujahid al-Jolani — hoje reciclado como presidente pró-Ocidente —, mas seu amancebamento com norte-americanos e sionistas já deve tê-lo colocado na mira de seus antigos irmãos. Por isso, ações como a do último domingo, 22, tendem a se repetir com cada vez mais frequência.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional




















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