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"A Comuna de Paris de 1871"



A Comuna de Paris completa, neste ano de 1946, o seu 72° aniversário. Durante mais de dois meses, os operários de Paris sustentaram uma luta cheia de abnegação e heroísmo contra os inimigos internos e externos, inscrevendo na história do movimento revolucionário uma das suas páginas mais vivas e gloriosas.


Os operários do mundo inteiro inclinam-se diante do heroísmo dos comunitários e honram, na Comuna de Paris, a magnífica iniciação dos operários franceses na luta pela ascensão do proletariado ao poder. A história do primeiro governo proletário serviu como um exemplo, inspirando as gerações operárias posteriores na sua grande luta progressiva pela libertação da opressão e da exploração.


Os fundadores do socialismo científico — Marx e Engels — deixaram nas suas obras uma análise científica profunda da natureza da Comuna de Paris.


Os grandes teóricos estratégicos da revolução social — Lenin e Stalin — estudavam com afinco a experiência da Comuna de Paris. Ainda em 1905, Lênin, na sua obra Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, salientava a significação histórica da luta dos comunitários parisienses e chamava a atenção sobre a necessidade de estudar a experiência da Comuna de Paris.


Lenin voltava frequentemente à análise da experiência da Comuna de Paris. Em 1917, assinalando no seu artigo Sobre a Diarquia o nascimento de um novo poder proletário — na forma de Soviets dos operários e deputados militares —, ao lado do Governo Provisório, ele acentuava:


“Esse poder (os Soviets) é do mesmo tipo que o da Comuna de Paris de 1871”.


Em suas Cartas do Estrangeiro e nas famosas Teses de Abril, Lenin mostra a necessidade de fundar um governo proletário; um "governo-comuna”, cujo protótipo era a Comuna de Paris. Em sua genial obra, intitulada O Estado e a Revolução, Lenin faz uma análise profundíssima da essência da Comuna de Paris. Em janeiro de 1918, falando sobre o trabalho e o controle sociais no artigo Como Organizar a Emulação, cita novamente a experiência da Comuna de Paris, que “deu um grande exemplo de conjugação de iniciativa, independência, liberdade de movimento, energia do impulso das camadas populares e um centralismo espontâneo, estranho às regras”.


E ainda aqui, Lenin assinala que “os nossos Soviets estão seguindo o mesmo caminho”. Na sua obra A Revolução Proletária e o Renegado Kautski e numa série de outros trabalhos, levantando a questão da ditadura do proletariado, ele cita novamente a experiência da Comuna de Paris.


O companheiro Stalin dizia que Lenin “iniciou o Poder Soviético como a forma de governo da ditadura do proletariado, aproveitando-se da experiência da Comuna de Paris e da revolução russa”. (Problemas do Leninismo).


O companheiro Stalin aponta a Comuna de Paris como o embrião da forma política em cujos moldes deve ser realizada a libertação econômica do proletariado. O Poder Soviético é o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dessa forma, assegurando a vitória completa do socialismo.


A Comuna de Paris não deveria, no entanto, vencer a luta desigual contra os inimigos da revolução. A Comuna de Paris foi “a primeira, brava e heroica tentativa do proletariado — embora sem sucesso — de mudar o rumo da história contra o capitalismo”. (J. Stalin, Problemas do Leninismo).


Sua derrota foi o resultado de uma correlação — desfavorável ao proletariado francês — existente àquele tempo entre as forças das classes sociais, e foi, sobretudo, o resultado da falta de um partido proletário dos operários parisienses, capaz de dirigir o movimento revolucionário.


A grande Revolução socialista de outubro, continuando a obra da Comuna, abriu novo caminho na história da humanidade. Em nosso país, sob a direção Lenin-Stalin do partido, a ditadura do proletariado levou o socialismo à vitória.


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Pode-se compreender os acontecimentos do ano de 1871 só em relembrar — mesmo que resumidamente— a história da França no período do Segundo Império.


Em 2 de dezembro de 1871, Luis Bonaparte, eleito presidente da República Francesa, operou uma mudança no governo, dissolveu a Assembleia Nacional e, dentro de um ano, proclamou-se imperador sob o nome de Napoleão III. Luis Bonaparte tomou em suas mãos toda a máquina do governo: o exército, a polícia e o aparelho administrativo. Os banqueiros e especuladores, aos quais Napoleão dispensava uma proteção toda especial, tornaram-se as figuras centrais do governo, dominando toda a economia nacional. Houve uma luta desesperada na Bolsa, em consequência da qual se arruinaram e pereceram milhares de industriais e comerciantes médios e pequenos. A agiotagem na Bolsa, a especulação desenfreada e a pilhagem franca eram completados pelo luxo exorbitante da corte do imperador e da classe dos exploradores.


Marx escrevia:


“Tudo o que há de abominável na estrutura capitalista, a cujas tendências inferiores foi dada completa expansão, exteriorizou-se com uma violência desmedida. E ao mesmo tempo reinavam a orgia da devassidão afogada em luxo, o esplendor da corrupção e uma satisfação diabólica de todas as baixas paixões das classes dominantes”. (Arquivo de Marx e Engels).


Desnudando as misérias da burguesia francesa ao tempo de Napoleão III, o célebre poeta Victor Hugo exclamou indignado:


Ei, depressa!

Trapaceiro, bandido, cretino, lacaio, gatuno,

Sentem-se em tomo da mesa; apinhem-se em volta do dinheiro!...

Negociem todo o país...


O brilho exterior encobria a podridão interior: a decomposição do Segundo Império. Toda a ilusão e falsidade de sua suposta grandeza desnudaram-se após a crise de 1857. A indústria entrou numa fase de estagnação. Para o governo de Napoleão III, tornava-se cada vez mais difícil equilibrar-se entre a burguesia e o proletariado. Todas as tentativas demagógicas de enfrentar a luta tensa entre o trabalho e o capital falharam. De nada serviram as medidas liberais tardias, tomadas em fins de 1860 pelo gabinete Ollivier. Napoleão resolveu, então, endireitar os negócios e consolidar o trono, dando impulso à política exterior. Participou da guerra ítalo-austríaca. Sua expedição colonial ao México terminou num estrondoso escândalo: os franceses foram expulsos pelo povo mexicano rebelado e Maximiliano, o protegido de Napoleão, fuzilado. As guerras e as expedições mal sucedidas abalaram ainda mais a economia do país e o prestígio do grupo dirigente. O império napoleônico era um cadáver em decomposição e a crise revolucionária amadurecia cada vez mais.


Bismarck achou a época muito favorável para começar uma guerra com a França. Ainda em 1867, ele assegurava à opinião pública que a Prússia nunca faria uma guerra contra a França e nunca pretenderia a Alsácia, pois que os alsacianos eram franceses. Mas passaram-se apenas três anos e Bismarck começou a mudar de tom. A guerra contra a França, havia muito planejada, colocava-se agora em primeiro lugar nos planos agressivos de Bismarck. A Prússia começou então uma aberta provocação de guerra.


Em julho de 1870, irrompeu a guerra franco-prussiana. Bismarck triunfava; ansiava por uma guerra com a França e soubera provocá-la.


O exército francês, arrastado a uma guerra sangrenta e comandado por generais inativos, começou a ser derrotado no primeiro choque com o exército prussiano. A coragem e a bravura dos soldados franceses não conseguiram salvar a situação no front. Na batalha de Sedan, a 2 de dezembro de 1870, o bem equipado exército prussiano infligiu aos franceses um golpe esmagador. Sedan caiu e o exército de centenas de milhares de soldados, junto com o seu comando e o imperador Napoleão III, foram feitos prisioneiros. A derrota de Sedan indicava a queda do regime falido do Segundo Império. A 4 de setembro, a burguesia concentrou em suas mãos todo o poder, estabelecendo “o governo da defesa nacional”. Mas, atrás desse nome pretensioso, ocultava-se apenas um grupinho de especuladores políticos e traidores.


A guerra continuava. A 17 de setembro, o exército prussiano aproximou-se de Paris e começou a sitiá-la.


E enquanto o exército francês lutava, demonstrando grande bravura e espírito de sacrifício — pois os heroicos filhos do povo francês preferiam a morte a deixar o inimigo penetrar na capital da Franca —, os traidores, os generais Trochu e Julio Favre, mantinham — às costas do povo francês — negociações de armistício com Bismarck.


Os operários e artífices parisienses, que, no clímax da luta, organizaram os batalhões da Guarda Nacional, marcharam numa ação unificada em defesa da cidade natal contra os exércitos alemães que a sitiavam.


Este movimento elevado e patriótico contagiou o povo francês. Os representantes das camadas sociais mais diversas lançavam-se na luta contra os alemães. Os melhores filhos do povo francês — Auguste Blanqui, Victor Hugo — dirigiam-se com apelos ardentes à população francesa.


“Que cada casa dê um soldado, que cada cidade se converta num exército!... — escrevia Hugo, em 20 de setembro. “Que as cidades produzam enxames de lanças, reúnam enxames de baionetas!... Que as aldeias peguem nos forcados!... Faremos guerra de dia e de noite; guerra nas cidades, nas planícies, nos bosques! Levantai-vos!... Não dai ao inimigo trégua, descanso, nem sono! Sustentaremos pela pátria uma batalha terrível! Franco-atiradores! Atravessai o matagal... aproveitai a penumbra... atravessai, apontai, atirai, exterminai os invasores... Sede impiedosos, patriotas!”


Em toda a França, organizaram-se destacamentos de guerrilheiros. Em Paris, sobretudo, apresentou-se grande número de voluntários. Os destacamentos de guerrilheiros não entravam na Guarda Nacional, nem faziam parte das tropas regulares; eram conhecidos por diversos nomes: voluntários, guerrilheiros, franco-atiradores. À frente destes destacamentos de guerrilheiros, colocavam-se pessoas das mais diversas camadas e profissões. O organizador e comandante dos carabineiros parisienses foi Djenaro Pierelli, pianista e compositor; o escritor Ponson du Terrail tornou-se comandante do batalhão de “franco-atiradores de Orleans”. Figuras preeminentes de outros países também combateram pela independência da França. Assim, o patriota-democrata italiano, Garibaldi, organizou o “exército dos Vosges”, quase totalmente composto de franco-atiradores. Desde 19 de setembro, os jornais franceses estavam repletos de notícias dos destacamentos dos franco-atiradores e sobre suas operações bem sucedidas contra os prussianos. Com audácia fora do comum combatiam os guerrilheiros na área de Paris, atacavam os alemães de surpresa, inflingindo-lhes golpes sensíveis.


Desde outubro, as guerrilhas desenvolveram-se amplamente nas áreas ocupadas pelos alemães. Os guerrilheiros do “exército dos Vosges” apresentavam um acampamento ininterrupto de franco-atiradores. Um dos muitos exemplos do heroísmo desses homens foi a defesa da cidade de Châteaudun, onde 1.300 franco-atiradores conseguiram conter o exército prussiano de dezenas de milhares. O exército alemão aplicava medidas excepcionalmente drásticas para reprimir o movimento crescente das guerrilhas; para cada soldado alemão morto, eram fuzilados centenas de cidadãos pacíficos, incendiadas aldeias inteiras e quarteirões de cidades.


“... Os alemães são bárbaros e vangloriam-se disso. Orgulham-se de ter recuado 15 séculos, tornando-se novamente os germanos do tempo do barbarismo”, escrevia o jornal Liberté, a 9 de janeiro de 1871.


Em resposta à ferocidade e à pilhagem dos alemães, as guerrilhas aumentaram. Os destacamentos dos guerrilheiros tornavam-se tão fortes que chegavam a tomar cidades. A 27 de dezembro, Garibaldi tomou a cidade de Dijon e, a 31 do mesmo mês, a cidade de Gray. Os guerrilheiros faziam voar pelos ares as pontes das estradas de ferro, capturavam os cavalos e destruíam os veículos do exército alemão.


Após a traição de Trochu e a capitulação de Paris, a 28 de janeiro de 1871, os destacamentos dos franco-atiradores foram dissolvidos; mas alguns deles, tendo conservado suas armas, tomaram parte ativa na defesa de Paris após a insurreição popular de 18 de março. A intrépida resistência e a luta heroica dos franco-atiradores fizeram sua parte: adiaram o dia da derrota definitiva da França, infligiram danos materiais ao exército prussiano e demonstraram a capacidade do povo francês de lutar pela sua independência e liberdade. As gloriosas tradições dos franco-atiradores chegaram até nossos dias e manifestaram-se no grande desenvolvimento da luta de guerrilhas contra a ocupação dos fascistas alemães. Os destacamentos dos guerrilheiros, que foram criados e agiram no território da França ocupada, eram chamados pelo nome histórico de “franco-atiradores”.


O governo da “defesa nacional” receava, em 1871, que os operários, vencendo os prussianos, levantassem em seguida as armas contra a burguesia do seu país.


“Obrigado a escolher — disse Marx — entre o dever nacional e os interesses de classe, o governo da “defesa nacional” não hesitou um minuto: tornou-se o governo da traição nacional” (Guerra Civil na França).


A 28 de janeiro de 1871, o traidor dos interesses nacionais — Julio Favre — chegou a um acordo com os alemães sobre a rendição de Paris e o armistício. Concluído o armistício, a burguesia apressou-se em fortificar seu poder para a luta contra o povo. Em duas semanas, foram feitas as “eleições” para a Assembleia Nacional. A 13 de fevereiro, foi instalada a Assembleia Nacional, sendo composta em 2/3 de monarquistas. Em sua primeira sessão, a Assembleia Nacional recusou-se reconhecer a República na França. Para chefe de governo, foi eleito Thiers, o violento inimigo do povo.


“Antes de se tornar um homem de Estado, ele já tinha exteriorizado seu talento de mentiroso, na qualidade de historiador” — dizia Marx, referindo-se a Thiers.


Sob Napoleão III, Thiers foi membro do corpo legislativo e encabeçava o reacionário “Partido da Ordem”.


“Thiers, esse anão-gigante — dizia Marx — fascinou durante mais de meio século a burguesia francesa, porque representava a expressão ideal mais completa da corrupção dessa classe... Thiers só era fiel à sua sede insaciável de riqueza e ao seu ódio pelos que produziam essa riqueza. Era pobre como Job quando, ao tempo de Louis Felipe, entrou pela primeira vez na direção do ministério e, ao deixá-lo, era milionário.” (A Guerra Civil na Franca).


Temendo o povo armado, a Assembleia Nacional reunia-se, não na Paris revolucionária, mas na cidade provincial de Bordeaux, transferindo-se depois para Versalhes.


A burguesia francesa enveredou pelo caminho da traição dos interesses nacionais. Essa traição evidenciou-se primeiro na sabotagem; mais tarde, na recusa direta de defender a França contra a invasão alemã; e, finalmente, na capitulação vergonhosa diante do inimigo.


Aos verdadeiros filhos de França, tornou-se evidente que só a classe operária, chefiando todas as massas populares, tinha capacidade de resolver realmente os problemas democráticos; que justamente a classe proletária, unida aos camponeses e aos intelectuais esclarecidos, podia defender os direitos democráticos das massas populares contra os abusos da reação.


Essa verdade também é confirmada pela experiência atual do povo francês na luta pelas conquistas democráticas, contra a reação e contra os traidores dos interesses nacionais da França, — Daladier, Pétain, Laval, — que entregaram o povo francês aos imperialistas alemães.


Os reacionários franceses e o seu fiel servidor — o mestre da perfídia e da traição, Thiers — preparavam-se para o ato final da traição, para a destruição de todas as forças revolucionárias da França, para a assinatura da paz vergonhosa com os prussianos, para descarregar, depois, nas costas do proletariado francês todo o peso da indenização de 5 bilhões de francos! Mas isso era irrealizável enquanto existisse a Paris revolucionária, prosseguindo na sua luta heroica e inspirando o povo francês na abnegada defesa da pátria; a Paris revolucionária, que tinha resistido a um cerco de 5 meses - apesar da traição e da fome -, permitindo assim a organização de uma obstinada guerra defensiva no interior, era o único obstáculo sério no caminho da conspiração antinacionalista e contrarrevolucionária de Thiers.


Eis a razão por que os traidores se apressavam em atacar os operários parisienses e a Guarda Nacional. A 15 de fevereiro, foi publicada uma ordem, suprimindo os ordenados dos guardas nacionais. O governo burguês recusou-se a prolongar o prazo do pagamento dos aluguéis das casas dos parisienses. Quase 3/4 da população de Paris — não só os operários, mas também a pequena burguesia — estavam ameaçadas de despejo por falta de pagamento dos aluguéis. Em princípios de março, publicou-se um decreto ordenando a liquidação, num prazo de duas semanas, de todos os pagamentos atrasados. Esse decreto atingiu muito a pequena e média burguesias; muitos pequenos estabelecimentos abriram falência e fecharam. Foi proibida a circulação dos jornais democráticos e começaram as prisões dos revolucionários. A 17 de março, prenderam Blanqui e encarceraram-no já condenado à morte.


O governo começou a concentrar as tropas em Paris. Em meados de março, a Assembleia Nacional tornou pública a resolução de dissolver a Guarda Nacional. Para este fim, Thiers veio pessoalmente a Paris.


Pairava sobre Paris a ameaça direta da vitória da reação. A queda de Paris equivaleria à queda de toda a França.


“... Cabia a Paris, — escrevia Marx — lutar abnegadamente pela causa da França, que só poderia ser salva de uma completa decadência e renascer para uma nova vida através de uma revolução, através da destruição da estrutura política e social que a levou ao Segundo Império...” (A Guerra Civil na França).


Tendo suportado um cerco de cinco meses, agravado pela fome, os parisienses e, sobretudo, os operários, estavam dispostos a realizar novos milagres de heroísmo na luta contra os prussianos e os traidores da França. Para esse momento, os operários prepararam-se melhor. Em fevereiro, organizaram o Comitê da Federação dos Guardas Nacionais. No meio dos eleitos, havia alguns socialistas preeminentes, membros da Primeira Internacional, um dos quais era o operário Varlin. O Comitê Central gozava de grande confiança por parte dos guardas nacionais e da população laboriosa da capital.


A maior falha do Comitê Central, na direção da luta, era sua tática defensiva; residia no fato de não querer iniciar uma ofensiva contra o governo de Thiers. Em compensação, este não se deteve diante do desenvolvimento da guerra civil. Thiers apressava-se em aniquilar os parisienses. Na noite de 17 para 18 de março, as tropas do governo chegaram até às alturas de Montmartre. Avançando inesperadamente, Thiers tentava tirar os canhões dos operários. No entanto, seus planos falharam: não conseguiu desarmá-los!


O Comitê Central da Guarda Nacional tomou a si a tarefa de dirigir a defesa de Paris contra os alemães. Armava o povo, nomeava e substituía os comandantes. A Guarda Nacional tornou-se a única força armada de Paris.


Com a chegada da Guarda Nacional, houve a confraternização dos soldados de Thiers com os guardas nacionais. Muitos soldados passaram-se para o lado do povo e fuzilaram, aí mesmo, o general Lecomte, que tinha dado ordem de atirar contra as massas desarmadas, nas quais havia muitas mulheres e crianças. O general Clément Thomas também foi executado, por ter elaborado, ainda antes de 18 de março, um projeto de execução em massa de operários parisienses. A audácia e a investida revolucionária dos operários fizeram sua parte: aos operários insurretos reuniam-se os pequenos funcionários, os professores, os médicos. Na tarde de 18 de março, foram ocupadas todas as repartições do governo pela Guarda Nacional. Nos edifícios do Conselho Municipal e do ministério da Guerra, flutuavam as bandeiras vermelhas. Thiers e seus ministros fugiam covardemente para Versalhes, conseguindo, no entanto, uma divisão das tropas regulares.


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A insurreição de 18 de março foi uma resposta natural das massas proletárias ao avanço da burguesia reacionária.


Um traço característico da insurreição em Paris foi a fusão dos dois problemas — nacional e de classe: a luta pela libertação da França da invasão alemã e a luta pela libertação do proletariado da opressão do capitalismo.


O Comitê Central da Guarda Nacional, que era composto principalmente de operários e artífices da capital, tornou-se governo provisório.


À passagem do poder para as mãos do proletariado, a burguesia respondeu com a guerra civil. Nesta luta, o proletariado francês sentiu duramente a falta de um partido revolucionário unido, que pudesse dirigir com perícia a sua luta. O Comitê Central não soube aproveitar até o fim a vitória de 18 de março e não impediu a retirada das tropas regulares de Paris. Cometeu um erro maior ainda: o de não ter avançado em direção de Versalhes para esmagar o foco contrarrevolucionário, enquanto Thiers não tivesse tido tempo de reunir forças militares e restaurar a disciplina entre os soldados.


O Comitê Central da Guarda Nacional declarou que considerava temporários os seus poderes, isto é, vigentes apenas até a eleição da Comuna. Seus membros receavam ser acusados de usurpação do poder.


A 26 de março, foram feitas as eleições para o Conselho da Comuna. A maioria dos operários de Paris participaram dessas eleições. Dos 86 membros eleitos da Comuna, 28 eram operários e 18 destes membros da Primeira Internacional. O resto do Conselho era composto principalmente por intelectuais — médicos, professores, jornalistas, etc.. A Comuna, na sua maioria — conforme disse Marx — era composta “de operários ou de reconhecidos representantes da classe proletária”. (A Guerra Civil na França). O proletariado era a força vencedora da Comuna. A 28 de março, com a presença de grande massa popular, realizou-se a solene proclamação da Comuna.


Em relação ao partido, a Comuna dividia-se em minoria e maioria. É verdade que não eram organizações partidárias, no exato sentido da palavra. A minoria do Conselho da Comuna era composta pelos proudhonistas. Parte deles — os proudhonistas da direita — era contrária à repressão dos inimigos da revolução proletária; os proudhonistas não admitiam, de maneira geral, a necessidade de uma luta política e a organização de um forte poder revolucionário. Os outros proudhonistas, os “proudhonistas-coletivistas da esquerda”, apesar dos ensinamentos de Proudhon, consideravam indispensável lutar pela coletivização da propriedade dos meios de produção, ligando-se às massas proletárias, às organizações profissionais e aos clubes democráticos. A maioria dos “proudhonistas da esquerda” eram membros da Internacional e mantinham contato com ela. Vinte e cinco dos oitenta e seis membros da Comuna formavam a “minoria”. Um dos mais preeminentes e ativos componentes da “minoria” era o encadernador Varlin, eleito para membro da Comuna simultaneamente por três distritos. Além de Varlin, pertencia à “minoria” também o operário húngaro Leo Frankel, membro da Primeira Internacional e organizador do movimento profissional parisiense.


A “maioria” do Conselho da Comuna era composta de democratas da pequena burguesia; os “novos jacobinos” (36 membros) e os “blanquistas” (12 membros). Os “novos jacobinos” consideravam-se continuadores da revolução burguesa do fim do século XVII. Eles não compreendiam que a revolução de 18 de março de 1871 diferia fundamentalmente de todas as revoluções anteriores. Os “novos jacobinos” desejavam consolidar a pequena propriedade e só “limitar” o grande capital. Na luta contra os inimigos do povo, eles agiam com indecisão.


O mais preeminente deles era Charles Delescluze.


A “maioria” era, no entanto, liderada pelos blanquistas e não pelos jacobinos. Dirigiram a defesa de Paris, mas quase não tomaram parte nas medidas social-econômicas da Comuna. Os blanquistas eram partidários de um poder forte e centralizado — a ditadura revolucionária. Mas, não estando ligados às massas proletárias, aspiravam estabelecer a ditadura de um grupo de revolucionários e não a ditadura da classe proletária. Entre os blanquistas, ocupava lugar de destaque o jornalista Raoul Rigault, que ocupava o cargo de procurador da Comuna. Ainda que tardiamente, Rigault iniciou uma luta inclemente contra os inimigos da revolução. Em resposta às atrocidades dos versalheses, implantou o regime do terror de classe e, pela sua sentença, foram fuzilados dois grupos de contrarrevolucionários.


Enquanto se precediam às eleições para a Comuna, Thiers reuniu o exército em Versalhes e, nos primeiros dias de abril, iniciou suas hostilidades contra a Comuna. Começou um novo cerco da Paris revolucionária. Os comunistas sitiados levantaram-se como um só homem em defesa de Paris.


Em circunstâncias extraordinariamente difíceis, a Comuna deveria criar uma nova máquina do poder governamental. Ela não poderia aproveitar a velha organização burguesa, que era uma arma nas mãos das classes exploradoras para a opressão dos operários.


Marx, baseando-se ainda na experiência da revolução de 1848, mostrava em sua obra "O 18° Brumário de Luis Bonaparte", que os operários, tomando o poder em suas mãos, devem destruir, demolir o aparelho governamental burguês e criar sua nova máquina governamental.


O proletário Theisz, nomeado pela Comuna para o cargo de diretor do departamento dos Correios, encontrou quase todas as suas seções paralisadas. Nas outras repartições, a situação também era idêntica. A sabotagem dos funcionários e empregados colocou praticamente, diante da Comuna, o problema da criação de uma nova máquina governamental. E, realmente, a Comuna de Paris fez a primeira tentativa da história de destruir a velha máquina governamental burguesa e criar uma nova, proletária. Essa tarefa teve início pelo exército:


“... O primeiro decreto da Comuna foi a dissolução do exército permanente e sua substituição pelo povo armado”. (K. Marx — A Guerra Civil na França).


O mais alto órgão governamental — a Comuna — foi eleito pelo sufrágio universal. Todo membro da Comuna que não cumpria a vontade do povo era afastado do seu posto. Muitos organizadores admiráveis destacaram-se nas fileiras da classe proletária. Assim, por exemplo, o operário Varlin, que dirigia a Intendência; o operário Frankel, encabeçando a Comissão do Trabalho. Milhares de operários e de operárias ocuparam postos de direção na administração subalterna e nos batalhões da Guarda Nacional. O mais surpreendente — dizia o comunitário Serrailler — é que todos executam suas tarefas de tal maneira, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.


“A Comuna — escrevia Marx — devia ser um órgão laborioso e não parlamentar, e, ao mesmo tempo, um corpo legislativo e executivo." (A Guerra Civil na França).


A Comuna aboliu a policia burguesa. Os próprios operários armados se encarregavam da guarda da cidade. Estabeleceu-se em Paris uma ordem admirável, nunca antes vista.


A Igreja foi separada do Estado e a Escola da Igreja. Foram abertas novas escolas. Os ordenados dos professores foram aumentados. A Comuna elaborou um plano de construção de creches e de jardins de infância para os filhos das operárias. Os juízes eram eleitos pelo povo, podiam ser substituídos e eram responsáveis perante a Comuna.


“Assim, desmembrando a máquina governamental — dizia Lenin—, a Comuna substituiu-a como que “somente” por uma democracia maior: a dissolução do exército permanente, a completa elegibilidade e removibilidade de todos os funcionários. Mas, na realidade, isto significa “apenas” uma substituição em proporções gigantescas das instituições existentes por outras de natureza radicalmente diversa. Aqui se observa justamente um dos casos de “transformação da quantidade em qualidade”: uma democracia, realizada com a maior perfeição e sequência possíveis, transforma-se de burguesa em democracia proletária...”


As medidas tomadas pela Comuna testemunham que ela era o embrião de um novo tipo de Estado, com a forma política da ditadura do proletariado.


A República dos Soviets — disse o companheiro Stalin — representa, pois, a forma política procurada e, afinal, encontrada, nos moldes da qual deve ser realizada a libertação econômica do proletariado e a vitória completa do socialismo.


A Comuna de Paris foi o embrião dessa forma. O Poder Soviético é o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento”. (Problemas do Leninismo (*)


A Comuna de Paris existiu somente durante 72 dias e, no decurso desse tempo, manteve luta inexorável contra os versalheses. O período tão exíguo como foi o da existência da Comuna, a inexperiência e, sobretudo, a inexistência de um partido realmente revolucionário não lhe permitiram desenvolver, em toda amplitude, as medidas social-econômicas. Ao lado disso, as atividades da Comuna oferecem um interesse excepcional e têm uma grande significação histórica.


“A grande realização socialista da Comuna foi a sua própria existência e o seu trabalho” — escrevia Marx.


Suas realizações concretas testemunham brilhantemente que toda a atividade do poder popular era aplicada no interesse dos operários. As fábricas dos burgueses fugidos foram entregues aos operários. A Comissão do Trabalho restaurava nelas a produção e distribuía o trabalho entre os desempregados. Os operários, juntamente com a administração, esboçavam os planos de produção e estabeleciam os regulamentos internos. Nas oficinas em que permaneceram os proprietários, a Comuna controlava a taxação das tarefas. A Comuna proibiu os proprietários de aplicar penalidades; foi também proibida a entrega dos pedidos do Estado aos operários através de contratantes, que enriqueciam à custa daqueles.


Aos pobres, foram devolvidos os objetos depositados nas casas de penhor. Os operários foram transferidos dos porões úmidos e escuros para as casas dos ricos. Em todas as ações da Comuna transparecia a preocupação pelas massas proletárias.


A Comuna, porém, não foi coerente em todas as suas medidas. Cometeu um grande erro, não expropriando o Banco Nacional e perdeu, com isso, a oportunidade de aumentar os seus recursos materiais e de destruir o apoio econômico da reação versalhense.


Apesar disso, a política social-econômica da Comuna tinha uma orientação socialista.


“...Na sociedade atual — disse Lenin — o proletariado, escravizado economicamente pelo capital, não pode dominar politicamente, sem romper as correntes que o prendem ao capital. Eis por que o movimento da Comuna tinha de ter, forçosamente, matizes socialistas...”


Em todas as suas obras, a Comuna apoiava-se nas massas. Foram organizadas associações profissionais e clubes proletários. As mulheres operárias que se tinham ligado ativamente à vida política auxiliaram com entusiasmo a Comuna. Foi fundado o Comitê Central das Cidadãs, do qual fez parte a revolucionária russa, Elisabeth Dmitrieva, que vivia àquele tempo em Paris. As mulheres também participaram ativamente da defesa de Paris. Foi organizado um batalhão feminino, sob o comando da comunitária Louise Michel. As massas populares apoiavam o seu poder e o auxiliavam de todas as maneiras possíveis, descobrindo danos, sabotagens, especulações e denunciando os bens ocultos dos contrarrevolucionários.


Com a Comuna — escrevia Marx — venceu “...a primeira revolução, na qual o proletariado foi abertamente reconhecido como a única classe ainda capaz de uma iniciativa popular. Isto foi admitido até por grandes camadas da classe média parisiense: os pequenos comerciantes, os artífices, os lojistas; todos, com exceção dos grandes capitalistas.” (A Guerra Civil na França.)


A Comuna atraiu essas camadas não somente por ter resolvido sabiamente o problema dos credores e devedores, mas também porque ela diferia radicalmente de todas as formas de governo, que não deram à classe média nada além de ruína e opressão política.


A Comuna fez também tentativas de atrair para seu lado os camponeses.


Desde os primeiros dias da revolução, foram publicados, na imprensa de Paris, artigos nos quais se chamava a atenção sobre a necessidade da união da Paris revolucionária com os camponeses.


Em abril, a Comuna imprimiu 100 mil folhetos, nos quais se dirigia aos camponeses. O apelo dizia que a Comuna queria dar as terras aos camponeses. Os folhetos eram lançados de balões sobre as aldeias, pois, estando Paris sitiada, a Comuna não tinha outro meio de se comunicar com os camponeses.


“...Irmão... — diziam os comunitários em seu apelo - ...Nossos interesses são idênticos... Paris não quer... (guarde bem isto, você, trabalhador rural, pobre diarista, pequeno proprietário, roído pelo usurário; fazendeiro, arrendatário, sitiante — todos vocês que semeiam, colhem e trabalham com o suor de vossas faces)... que a melhor parte dos frutos de vosso trabalho caiba a um ocioso qualquer. Paris quer... terras para os camponeses; instrumentos para os operários e trabalho para todos.”


Mas a Comuna não conseguiu fazer dos camponeses seus aliados. Apenas em regiões isoladas houve levantes de camponeses; mas eram impotentes sem a direção dos operários e, logo, foram reprimidos.


Paris estava separada da província, cercada pelos prussianos e as tropas de Thiers, e isolada do mundo pela muralha chinesa das mentiras e calúnias dos versalheses. Os reacionários versalheses compreendiam perfeitamente que, quanto mais tempo a Comuna vivesse, tanto mais popular se tornariam suas ideias entre os camponeses, e que os camponeses não tardariam em eleger o proletariado da cidade para seus dirigentes e considerá-lo o seu irmão mais velho.


Lenin e Stalin indicaram como uma das causas mais importantes da derrota da Comuna de Paris a circunstância da burguesia reacionária francesa “ter conseguido indispor os incultos camponeses e a pequena burguesia provincial contra o proletariado parisiense...” (Lenin.)


A indecisão da Comuna e sua recusa de tomar uma atitude ofensiva foram aproveitadas por Thiers para ordenar e reorganizar seu exército. No decorrer do mês de abril, os versalheses conseguiram aproximar-se das muralhas de Paris, trazendo cerca de 100 mil soldados e centenas de canhões. A superioridade numérica estava do lado de Thiers. Assim mesmo, os versalheses não se decidiam a desferir um ataque geral contra Paris.


Os comunitários não souberam aproveitar o tempo nem os recursos disponíveis para fazer uma guerra revolucionária. A Comuna tinha nos seus arsenais 285 mil rifles do novo sistema “Chassepot”, sem aproveitamento. Não havia um regulamento revolucionário adequado, nem disciplina militar nas hostes da Guarda Nacional.


O comando não estava bastante centralizado, encontrando-se ao mesmo tempo nas mãos da Comissão Militar da Comuna e do Comitê Central da Guarda Nacional. Entre a Comuna e o Comitê surgiam atritos.


Além de tudo isso, a Comuna lutava com pouca energia contra os contrarrevolucionários, os espiões e os conspiradores; e o número deles não era pequeno em Paris. A Comuna fechou muito tarde os jornais reacionários e só em fins de abril foi que aprisionou alguns partidários de Versalhes.


A Comuna estava também muito debilitada pela luta interna, travada entre a “maioria” e a “minoria”. Assim, por exemplo, quando, em maio, a Comuna criou o Comitê da Salvação Pública para lutar contra os inimigos do povo, a “minoria” manifestou-se contrária às atividades desse Comitê. 22 membros da “minoria” chegaram a declarar que se retirariam da Comuna, em sinal de protesto contra as atividades do Comitê da Salvação Pública. Mas os operários obrigaram os dissidentes a voltar para a Comuna.


Os comunitários parisienses lutavam heroicamente contra os versalheses. Os proletários do mundo inteiro acompanhavam com grande interesse a luta desigual dos seus companheiros franceses. A Comuna recebia também cartas e apelos dos operários de outros países. Assim, por exemplo, a reunião dos operários, realizada em Genebra, a 15 de abril de 1871, dizia assim na sua mensagem à Comuna de Paris:


“Na revolução comunitária de 18 de março, saudamos o aparecimento da classe proletária na arena política, e o despontar da era das reformas sociais... Irmãos e irmãs de Paris! Aconteça o que acontecer, vossa causa não perecerá, porque é a causa da libertação universal dos operários... O grande entusiasmo e as vivas simpatias que despertastes nos operários de todos os países, mostra que vossa causa não pode perecer".


A secção da Primeira Internacional escrevia à Comuna:


“Os corações de todos os operários estão convosco”.


O Congresso proletário belga afirmou que a Comuna ressurgiria das cinzas como vencedora.


Para aniquilar a Comuna de Paris, a pandilha da burguesia reacionária francesa entrou em entendimentos vergonhosos com o exército alemão. Thiers apressou-se em concluir a paz pérfida e odiosa. Em maio de 1871, foi assinado em Frankfurt o tratado da paz. De acordo com este tratado, a França cedeu à Alemanha a Alsácia e metade da Lotharíngia, comprometendo-se também a pagar 5 biliões de francos de indenização.


Thiers e Bismarck entenderam-se logo na luta contra a Comuna. Bismarck não temia o exército de Napoleão III; o que ele mais temia era o povo revolucionário de Paris, que tinha criado um poder realmente democrático. Segundo ele próprio confessa, Bismarck só teve uma noite de insônia durante toda a guerra franco-prussiana: foi a noite em que chegou a primeira notícia da proclamação da Comuna.


Bismarck libertou 100 mil prisioneiros de guerra franceses, que foram mandados por Thiers contra os comunitários. Então, Bismarck passa do pretexto de auxílio (o regresso urgente dos soldados e a permissão dada aos exércitos versalheses de atravessar as posições alemãs), para a intervenção direta. Ele propôs um novo acordo a Thiers: o de um sítio comum de Paris, com o fim de criar um bloqueio da fome para a cidade. Bismarck perdeu a calma quando os versalheses não conseguiram realizar seu plano de tomar Paris em “alguns dias”, dizendo que não podia concordar com novas protelações do pagamento da indenização. Até as ações sanguinárias do carrasco Thiers pareciam muito suaves à reação prussiana.


Seu auxílio patente na repressão à Paris revolucionária, Bismarck o apresentava cinicamente por “neutralidade”.


O cerco dos soldados de Versalhes apertava-se cada vez mais em torno da Paris revolucionária.


A 21 de maio, após um sítio prolongado, os versalheses penetraram em Paris. Iniciou-se uma luta obstinada, violenta e desigual nas ruas da cidade, que ainda durou 7 dias. A 28 de maio, caiu a última barricada. Um pequeno grupo de comunitários, os heroicos sobreviventes que a defendiam, foi fuzilado junto às paredes do cemitério de Père-Lachaise. Teve início um terror nunca visto dos vencedores contra os vencidos.


O carrasco de Versalhes, general Galliffet, dirigia a desforra sanguinolenta. Fuzilava todos em cujas mãos encontrava pólvora, e todos os que tinham aspecto de operários. Fuzilavam-se os homens de cabeça grisalha, porque estes “lembravam a revolução de 1848” e poderiam ter sido participantes da mesma. A burguesia dispensava aos chefes do proletariado um tratamento especialmente rigoroso.


A comunitária Louise Michel descreve em suas recordações a vingança dos versalheses contra um dos magníficos dirigentes dos comunitários, o operário Varlin:


“Varlin, com as mãos amarradas, teve que subir a colina, sob os gritos, apupos e golpes de uma multidão de patifes, em número aproximado de 2.000. Avançava com andar firme e cabeça erguida. Um soldado qualquer tomou inesperadamente do fuzil e pôs termo aos seus sofrimentos. Outros lançaram-se em sua direção para acabar de matá-lo, porém ele já estava morto.”


Milhares de comunitários foram fuzilados, centenas de milhares jogados em cárceres e desterrados para trabalhos forçados, perecendo a maioria em consequência de trabalho excessivamente pesado e de doenças malignas. Os versalheses fuzilavam também mulheres e crianças; entre os prisioneiros encontravam-se 600 crianças.


“A civilização e a justiça da estrutura burguesa — escrevia Marx — revelam seu verdadeiro e sinistro aspecto, quando os escravos e os oprimidos se levantam contra seus senhores. Então, essa civilização e essa justiça mostram ser barbarismo sem disfarce e vingança iníqua. (A Guerra Civil na França.)


A Comuna de Paris não existiu muito tempo, mas o proletariado jamais esquecerá seus heroicos feitos. Todos os anos, os operários parisienses reúnem-se no cemitério de Père-Lachaise, junto à “parede dos federados”, onde foi executado o último punhado de heroicos defensores da Comuna, e deitam coroas sobre os túmulos dos comunitários.


A Comuna de Paris sofreu a derrota, porque a classe proletária da França não estava ainda unificada. Eles ainda não tinham seu partido proletário marxista e revolucionário capaz de dirigir sem hesitação os operários contra a burguesia. E, no entanto, “...a chefia do partido é o principal na ditadura do proletariado, quando se tem em vista uma ditadura sólida e completa e não uma ditadura como o foi, por exemplo, a Comuna de Paris, que não foi uma ditadura completa nem sólida” (J. Stalin — Problemas do Leninismo).


Os blanquistas e proudhonistas, que entravam na composição da Comuna, apegavam-se a teorias errôneas e utópicas; vacilavam frequentemente, mostrando-se indecisos na luta. Em Paris, no ano de 1871, “...a direção da revolução era dividida entre dois partidos e nenhum deles pode ser chamado de partido comunista”. (J. Stalin — Problemas do Leninismo)


A experiência da Comuna de Paris mostrou com evidência extraordinária à classe proletária da França e de outros países toda a importância e a indispensabilidade da criação e fortalecimento de um partido político-proletário, realmente revolucionário.


★ ★ ★


Marx, avaliando a luta dos comunitários parisienses, escrevia que, apesar da Comuna ter sido derrotada, os “princípios da Comuna são eternos e não podem ser aniquilados; eles sempre voltarão à ordem do dia, até a classe proletária conseguir sua libertação”.


Marx entusiasmava-se com o heroísmo dos parisienses que “investiam contra o céu”, e tinham levado o movimento revolucionário a uma nova e superior etapa. Mostrava que a luta do proletariado pela ditadura é um processo longo. A classe proletária “terá de suportar uma luta tenaz, passar por uma série de processos históricos, que transformarão por completo as condições e os homens”.


Apesar da derrota sofrida pela Comuna de Paris, a causa defendida pela Comuna demonstrou ser imortal, pois é a causa da completa libertação política e econômica da opressão e da exploração do proletariado.


A Comuna de Paris de 1871 favoreceu o movimento revolucionário em todos os países. As lições da Comuna de Paris foram aproveitadas pela heroica classe proletária da Rússia em sua luta armada de 1905 contra o tsarismo e, sobretudo, na luta pela vitória da grande revolução de outubro de 1917, que consolidou o Poder Soviético em 1/6 do globo terrestre.


Analisando a experiência da Comuna de Paris de 1871, Marx mostra que a organização política do tipo da Comuna de Paris é a da ditadura do proletariado. Esta conclusão não sofreu, no entanto, maior desenvolvimento nas obras de Marx e Engels. Numa época histórica nova, em novas condições de lutas de classe do proletariado, Lenin e Stalin, partindo da teoria marxista, e estudando a experiência da revolução russa de 1905 e 1917, que gerou uma nova forma de organização política da sociedade — os Soviets de deputados, operários e camponeses —, chegaram a conclusão de que justamente os Soviets representam a melhor forma política da ditadura do proletariado, que assegura a construção de uma sociedade nova e socialista.


Os povos da grande URSS honram a memória dos heróis da Comuna de Paris e orgulham-se de ter continuado vitoriosamente a grande causa comunitária. Sob a direção Lenin-Stalin do partido bolchevique, eles realizaram a grande Revolução Socialista de Outubro e criaram em seu país um Estado de tipo novo — o Estado Soviético. Destruindo todos os meios de exploração do homem pelo homem, construíram o socialismo e marcham, confiantes, em direção ao comunismo.


por I. Galkin


do Bolchevique, n. 5, março de 1946.


Fonte: Revista Divulgação Marxista, nº 12, dezembro de 1946

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