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"O Marxismo e a guerra no Donbass"


O Borotba é frequentemente criticado por apoiar as Repúblicas Populares no Donbass, pelo fato de que nossos camaradas lutam nas milícias e pelo auxílio na construção pacífica de uma nação em torno de Lugansk e Donetsk. Essa crítica se dá não apenas por aqueles ex-esquerdistas que sucumbiram ao fervor nacionalista e apoiaram primeiro o Maidan, e depois a guerra de conquista de Kiev no Donbass. Outros nos criticam do ponto de vista do “pacifismo marxista”, desenvolvendo uma ideia sobre uma “nova conferência de Zimmerwald”.

1914 = 2014?

Os “zimmerwaldistas” comparam a guerra no Donbass com a Primeira Guerra Mundial. Traçar paralelos históricos é sempre algo complicado. Esse paralelo é completamente sem sentido. Na Primeira Guerra Mundial de 1914-1918, blocos de países imperialistas de força aproximadamente igual lutaram por mercados, buscas de matérias-primas, e colônias. A vitória do bloco Anglo-francês, em retrospectiva algo previsível, não era tão óbvia para os contemporâneos da guerra, mesmo para marxistas. Por exemplo, Lev Kamenev, líder dos Bolcheviques, previu uma vitória da Alemanha naquela guerra.

Em 1914 uma batalha mortal envolveu dois centros de acumulação de capital, dois sistemas de divisão capitalista do trabalho, com seus centros em Londres e Berlim. Esses sistemas alcançaram seus limites de expansão territorial nos anos 1870, um esbarrando nas fronteiras do outro. O último ato dessa expansão foi a rápida partilha do Continente Africano entre as grandes potências.

O confronto dessas divisões de trabalho (o alemão, anglo-francês, americano e japonês) foi a causa econômica da Primeira e Segunda Guerra. Após a II Guerra, havia apenas um sistema como esse–encabeçado pelos Estados Unidos. No final dos anos 40, eles incorporaram os sistemas europeu e japonês, e nos anos 70 absorveu as ex-colônias, na década de 1980 a China e países de democracia popular do Leste Europeu, e na década de 1990 a União Soviética.

A reação direitista e neoliberal de Reagan-Thatcher deu a esse sistema sua forma acabada e atual. No coração desse sistema reside a Reserva Federal, como a organização que produz a reserva de moeda mundial, o FMI, a OMC e o Banco Mundial.

Após 2008, esse sistema entrou num período de crise sistêmica, as causas disso temos examinado em outros locais, e uma queda gradual. Como resultado desse colapso, as elites capitalistas de alguns países começaram a enfrentar as “regras do jogo”, estabelecidas por Washington, porque o sistema existente não era mais tão atrativo quando era antes da crise.

Portanto, não temos dois blocos travando um conflito mortal (como em 1914), mas um situação inteiramente nova, sem analogias históricas, onde o sistema se decompõe e começa a cair aos pedaços, e alguns grupos capitalistas(organizados em estados-nação e formações transnacionais) tentam revisar o atual quadro desse sistema, enquanto outros grupos(os “Comitês Regionais” de Washington), ao contrário, se agarram ao status quo e buscam punir aqueles que usurpam os sagrados princípios desse sistema.

Os conflitos dentro do sistema estão relacionados a suas contradições internas, e não resultados de uma disputa entre centros individuais de acumulação de capital e seus sistemas de divisão do trabalho, como foi em 1914 e 1939.

O Imperialismo Moderno é um sistema mundial

Aqueles que apresentam o conflito ucraniano como uma disputa entre o Imperialismo Russo e o dos Estados Unidos a 1914 possuem habilidades analíticas do nível do propagandista Dmitry Kiselyov, que ameaça transformar a América em "cinzas nucleares". Rússia e os Estados Unidos não são comparáveis em seu poder econômico; eles lutam em diferentes categorias de peso. Mais além, não existe “Imperialismo russo”, e mesmo “Imperialismo americano” no sentido de 1914 também não. Existe um sistema imperialista mundial hierarquicamente organizado tendo os Estados Unidos como a potência central. Existe uma classe capitalista russa, que nessa estrutura não reside nem no primeiro ou mesmo no segundo "andar", que tentou erguer seu "status" nesta hierarquia e agora está assustada com sua própria audácia, após conhecer a resistência de um Ocidente unido.

Imagine por um momento que a Rússia é um país imperialista a la 1914, que é, como a Itália com seu “imperialismo de migalhas”. Essa Rússia realmente possuiria interesses relacionados principalmente ao transporte de hidrocarbonetos, e, em muito menor medida em ativos industriais. No entanto, estes não são os interesses para os quais ele iria deliberadamente arriscar a ruína de suas relações com o Ocidente.

Na crise ucraniana, a elite capitalista russa não conduziu nenhuma estratégia imperialista determinada, apenas responderam aos desafios de uma situação em rápida evolução. Essa reação foi acanhada, contraditória, inconsistente–o que mostrava para