"Etiópia, mais um naufrágio"

há 15 minutos
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A notícia passou quase despercebida, e com razão, no contexto dos atuais conflitos da região; foi irrelevante, quando já não há tempo sequer para falar da guerra civil do Sudão, onde o exército e os paramilitares continuam se matando; estima-se que os mortos já cheguem a meio milhão. Todos os dias dezenas de civis se somam ao massacre, como aconteceu no último sábado, 10 de outubro, nas proximidades da fronteira com o Egito, onde dezenas de homens morreram em consequência de um ataque aéreo enquanto trabalhavam em uma mina de ouro a céu aberto, uma das tantas que existem no norte do Sudão e que em boa parte financiam a guerra, que já dura mais de três anos. As poucas imagens que chegaram mostram restos de corpos espalhados pelo local. Um canto remoto da região de Shamal al-Wadi, no estado do Nilo (Sudão), a cerca de 40 quilômetros da fronteira egípcia.
A organização humanitária que divulgou a informação confirma que seriam pelo menos 80 os mortos, de um contingente de mais de 120 trabalhadores; muitos teriam sofrido ferimentos graves, razão pela qual se espera que o número de falecidos continue aumentando, principalmente pela falta de atendimento médico. Suspeita-se que o massacre tenha sido de responsabilidade do Egito, que, sabe-se, colabora com as Forças Armadas Sudanesas (FAS) a partir de uma base secreta de drones que controla na área, conforme se soube em fevereiro passado, para combater as Forças de Apoio Rápido (FAR), por sua vez financiadas em grande parte pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) e pela exploração irregular de ouro. O que fez de seu comandante, Mohamed “Hemetti” Dagalo, o homem mais rico do Sudão.
Por sua vez, o porta-voz do Exército egípcio informou que suas forças realizam “a terceira fase” de uma campanha para combater a exploração ilegal de ouro no deserto oriental, “dentro de suas próprias fronteiras, e não em território sudanês”, ainda que as imagens mostrem ao menos uma bomba de origem egípcia NASR 400 sem detonar. Já o chefe militar das FAR, o general Abdul Fattah al-Burhan, uma vez conhecida a informação, limitou-se, sem mencionar responsáveis, a comentar que foi “um incidente doloroso”.
Enquanto isso acontece do outro lado do mar Vermelho, a Península Arábica está em chamas, e esse incêndio, que compromete toda a indústria petrolífera saudita, se não for detido logo, calcinará os mercados do mundo. Quando todas as costas do Golfo Pérsico, onde, enquanto estas linhas são escritas, dois cargueiros afundam perto de Ormuz depois de serem atacados por projéteis desconhecidos em incidentes separados.
O que põe mais lenha na fogueira é a inação de Donald Trump, que não sabe onde se meter na guerra para a qual foi arrastado por seu amigo Bibi e seu genro, Jared Kushner, enquanto um grande vexame parece aguardá-lo em menos de vinte dias.
Mas, como se a guerra civil sudanesa fosse pouco, os avanços houthis no Iêmen e no sul da Arábia Saudita, as tormentas que assolam a navegação em Ormuz desde o fim de fevereiro passado, a crônica situação da Somália, onde a sede e a guerra se encarregam dos que sobrevivem, pois no Sahel pululam alguns milhares de mujahideens financiados pelos EAU, apoiados pelo Ocidente e pela Ucrânia, que transmitem sua mensagem wahabita pela boca dos Kalashnikovs. Na Etiópia, mais uma vez começou a temporada de guerras. Aquela notícia do início, que passou quase despercebida e que, em razão dos atuais conflitos da região, foi irrelevante, terá que continuar esperando seus quinze minutos de fama.
Razões para não dar atenção a uma notícia
Prestes a completar três anos do Acordo de Pretória, que pôs fim à guerra civil na Etiópia (2020-2022), travada pelo governo federal contra os separatistas da Frente de Libertação Popular de Tigré (FLPT), que levou cerca de um milhão de vidas, e pelo qual agora estaria recrutando crianças menores de quinze anos, o conflito se reinstalou há várias semanas.
Ambos os lados alegam, conforme o caso, diferentes violações do pactuado na África do Sul em 2022, mas, para além de qualquer sutileza, o certo é que a guerra, ainda que de baixa intensidade, está novamente ativa, o que acrescenta mais tensão à extensa crise da região que, numa linha reta, um tanto caprichosa, desde a fronteira entre a Argélia e o Mali até a fronteira do Irã com o Paquistão, cerca de 5 mil quilômetros, está infestada de conflitos, e que, para ser discreto e comedido, a linha do caos poderíamos continuar por vários milhares de quilômetros mais, atravessando o Paquistão, em guerra com o Afeganistão e em crescente crise de violência com as províncias separatistas do Baluchistão e Khyber Pakhtunkhwa (K-P), continuando pela Índia, que sempre tem suas razões para a turbulência, por Bangladesh, que após o golpe de 2024 se reposicionou junto a Islamabad em oposição a Nova Delhi, e seguindo por Mianmar, com uma guerra civil que já dura mais de cinco anos, estendendo-se por todo o seu território, chegando até a fronteira com o Laos e a Tailândia. Outros quatro mil quilômetros mal contados.
Mas, voltando ao norte da Etiópia, encontramos Tigré, praticamente na mesma geografia: a Região ou Kililoch de Tigré, onde mais uma vez a FLPT busca sua autonomia em relação a Adis Abeba, a capital do governo central, e a Eritreia reativa a guerra contra a Etiópia depois de 20 anos.
No último dia 20 de setembro, havia sido anunciada a integração à Aliança pela Sobrevivência das Forças Populares da Etiópia (Tsimdo), que é uma coalizão político-militar rebelde que busca o fim do governo central.
Adis Abeba acusa a Eritreia de estar por trás dessa frente, ainda que, durante a última guerra civil, os eritreus tenham participado ao lado das forças regulares do primeiro-ministro Abiy, as quais receberam acusações de ter perpetrado toda sorte de crimes de guerra, não só contra os rebeldes, mas também contra a população civil. Praticando políticas de terra arrasada na região tigrina, onde destruíram aldeias, incendiaram plantações e armazéns de grãos, exterminaram milhares de cabeças de gado, inutilizaram estações de tratamento de água e usinas elétricas, envenenaram poços de água e fizeram do estupro em massa uma arma com a qual não só se atacavam as mulheres, mas que produzia um efeito desmoralizador entre os homens, muitos dos quais, depois de longas sessões de tortura, foram assassinados. Contra essa mesma comunidade à qual apenas um par de anos atrás tanto mal provocaram, agora os eritreus se aliam para combater as tropas federais, ou Força de Defesa Nacional da Etiópia (FDNE).
Acordo que, a partir de Asmara, foi negado, apesar de múltiplos relatórios indicarem que tropas eritreias penetraram em Tigré e estão colaborando com os rebeldes. Sendo hostilizados por drones da FDNE, o que acelera a possibilidade de um novo conflito interno que vai derivar em uma guerra regional.
A atual situação no Iêmen, particularmente em toda a linha sobre o mar Vermelho, a mais disputada nesta nova faceta da guerra que desde 2014 os houthis mantêm com a Arábia Saudita e seus peões locais, compromete o desejo de Adis Abeba de conseguir se apoderar de portos eritreus para resolver uma de suas mais graves condições, a de ser um país sem litoral; assim, somando-se às fluidas relações entre Adis Abeba e Pequim, os Estados Unidos, junto com os sauditas, têm interesse em fortalecer o vínculo com o presidente eritreu Isaias Afwerki, dado que suas costas se encontram em frente aos setores costeiros que os houthis acabam de arrebatar da aliança entre os sauditas e o governo fantoche iemenita do Conselho de Liderança Presidencial (CLP), com sede na cidade de Áden.
Como já vemos, a complexa situação regional não beneficia em nada a política interna da Etiópia, que se encontra encurralada entre a guerra civil sudanesa a oeste; Eritreia, Djibuti e Somália a leste; e, ao norte, o cada vez mais agressivo Egito, pela controversa entrada em operação da Grande Represa do Renascimento Etíope sobre o Nilo Azul, que já começou a subtrair água do curso inferior do rio Nilo, fato de que, apesar da guerra, Cartum, onde o Azul se une ao Branco, também tomou nota.
Enquanto a Etiópia parece ter começado a naufragar, vêm em seu resgate nada menos que os Emirados Árabes Unidos que, com a perda da influência em Áden, começaram a incrementar suas relações com a Etiópia, o que lhes permitiu assistir, a partir de seu território, os paramilitares sudaneses, que também estabeleceram dentro do território etíope um campo de treinamento e uma base que funciona como local de refúgio, reabastecimento e hospital.
Enquanto a nova guerra começa a se fazer sentir nas comunidades do norte do país, os mais de 110 milhões de habitantes ainda sofrem as consequências da anterior, já que a produção agrícola não se recompõe. Somada à crise de fertilizantes e combustível derivada da inépcia de Trump com o Irã, junto com o efeito do El Niño, a crise se converte em um verdadeiro gargalo. Por isso, espera-se que o país necessite de assistência humanitária de maneira urgente.
Talvez seja por esse contexto que algumas notícias, como a do naufrágio de uma embarcação ao norte da cidade de Obock (Djibuti), que transportava mais de trezentas pessoas, das quais pelo menos 140 morreram e outras 90 continuam desaparecidas desde a noite de 8 para 9, a maioria de nacionalidade etíope que buscava chegar ao Iêmen para seguir rumo aos países do Golfo em busca de emprego, uma das rotas migratórias historicamente mais transitadas da região e que, apesar das guerras, jamais foi interrompida.
Desde 10 de setembro, já se registrou a chegada de 25 mil pessoas vindas da Etiópia, que se somarão às 180 mil que o haviam feito desde o início do ano. No ano passado, cerca de mil morreram ou desapareceram na rota que liga o Chifre da África ao Iêmen através do Djibuti; parece que essa notícia também passou quase despercebida, irrelevante, como um naufrágio a mais.
Por Guadi Calvo, no Línea Internacional













































































































































