60 anos do Partido dos Panteras Negras

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No que tange a posição dos Marxista-Leninistas no século XXI, uma das tarefas que se impõe após a contrarrevolução que levou a cabo a queda do socialismo na URSS e no Leste Europeu, é a de retomar legados importantes dentro da tradição do movimento comunista, combatendo a autofobia e o revisionismo, e propagando este legado histórico. No processo ocorrido desde as confusões revisionistas no seio dos movimentos revolucionários, até a hegemonização de um “marxismo” catedrizado, ocorre que o que a narrativa dominante toma como Marxismo, é a sua versão domesticada para os interesses da burguesia, fazendo assim com que importantes movimentos revolucionários orientados pelo Marxismo-Leninismo se tornem esquecidos, ou sejam lembrados se removendo sua essência revolucionária e deixando o que é “aceitável” para a Burguesia. A narrativa em torno do Black Panther Party é uma demonstração deste processo.
Consideramos que estudar a história do Partido dos Panteras Negras é particularmente importante para o movimento comunista tendo em vista que: A defesa de um legado histórico, de uma determinada tradição, da qual os comunistas estão inseridos e devem divulgar estas lutas históricas, se tratando de um movimento que, se vendo como uma parte da revolução proletária mundial, aplicou de maneira viva a teoria marxista-leninista para as experiências concretas do povo negro; A luta contra a deformação de sua história, combatendo as narrativas que removem seu conteúdo revolucionário; Se tratando de um movimento que encontrou as respostas para o problema do povo negro na teoria marxista-leninista, assim nos dando ensinamentos importantes para o combate à opressão racial sob os princípios do marxismo-leninismo. Tal aspecto é essencialmente significativo para os comunistas no Brasil, onde o racismo ainda faz parte da superestrutura, mantendo o negro na subalternização, sendo assim a superação deste problema racial uma das tarefas da revolução brasileira. O que não significa que a apreensão dos ensinamentos da experiência histórica do Partido dos Panteras Negras se dá de maneira mecanicista e dogmática, mas sim em um processo dialético, compreendendo as particularidades brasileiras.
Primeiros anos
No dia 15 de outubro de 1966, foi fundado, em Oakland, Califórnia, por Huey P. Newton e Bobby Seale, o Black Panther Party, o Partido dos Panteras Negras. A fundação do Partido se dá logo depois de uma série de revoltas espontâneas por parte das massas negras dos Estados Unidos, a partir de 1964(inicialmente contra a lei Jim Crow da segregação racial). Um dos auges dessa revolta foi a rebelião de Detroit de agosto de 1967. Mesmo após a fundação do Partido, antes de sua massificação e expansão para outros Estados, ainda era sob este panorama histórico que ele conseguiria se estabelecer enquanto vanguarda do povo negro dos Estados Unidos, onde em abril de 1968, a rebelião explodiu em 125 cidades dos Estados Unidos. Mao comentou este período que vai de 1964-68 se referindo a ele como “Uma tempestade nunca antes vista na história daquele país. Demonstra que existe uma força revolucionária extremamente poderosa nos mais de vinte milhões de negros dos Estados Unidos”, em sua declaração de apoio à luta dos afro-americanos “Uma nova tempestade contra o Imperialismo”. É nesse período também que são assassinados tanto Malcolm X como Martin Luther King.
Nesse contexto, inspirados pela prática de Malcolm X e orientados pelo nacionalismo negro radical, surge o Black Panther Party. A noção de “ganhar a liberdade por quaisquer meios necessários” de Malcolm X deixou profundas raízes entre os fundadores do Black Panther Party se vendo como, nas palavras de Newton, “um testamento vivo para o trabalho de Malcolm X quando era vivo”. Assim, o partido surge propondo a autodefesa armada das comunidades, em resposta à frequente violência policial que as comunidades negras sofriam. Assim, a um primeiro momento o Partido dos Panteras Negras surge advogando de que as rebeliões espontâneas das massas negras se convertessem em autodefesa armada organizada. Junto da fundação, Huey tomou a iniciativa de escrever o programa do Partido. Huey afirmou, antes de escrever o programa: “Precisamos de um programa. Nós temos que ter um programa para o povo. Um programa que se relacione com o povo. Um programa que o povo possa entender. Um programa que o povo possa ler e enxergar, e que expresse suas aspirações e necessidades ao mesmo tempo. Tem de se relacionar com o significado filosófico de para onde no mundo estamos indo, mas o significado filosófico também terá que se relacionar com alguma coisa específica.”
Assim, Huey escreveu o programa do Partido dos Panteras Negras com base no “o que queremos” (as demandas concretas e imediatas) e “no que acreditamos” (as aspirações):
1. Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino de nossa Comunidade Negra. Nós acreditamos que o povo preto não será livre até que nós sejamos capazes de determinar nosso destino.
2. Queremos emprego para nosso povo. Nós acreditamos que o governo federal é responsável e obrigado a dar a cada homem emprego e renda garantida. Nós acreditamos que se o homem de negócios americano branco não nos dá emprego, então os meios de produção devem ser tomados dos homens de negócios e ser colocados na comunidade de modo que o povo da comunidade possa organizar e empregar todas as pessoas e dar-lhes um padrão elevado de vida.
3. Precisamos acabar com a exploração do homem branco na Comunidade Negra. Nós acreditamos que este governo racista tem nos explorado e agora nós estamos demandando a quitação do débito de quarenta acres de terra e duas mulas. Quarenta acres e duas mulas foram prometidos 100 anos atrás em restituição pelo trabalho escravo e assassinato em massa do povo preto. Nós aceitaremos o pagamento em moeda corrente, que será distribuída às nossas muitas comunidades. Os Alemães estão agora reparando os Judeus em Israel pelo genocídio do povo Judeu. Os Alemães assassinaram seis milhões de Judeus. O Racista Americano tomou parte no massacre de mais de vinte milhões de pessoas pretas; consequentemente, nós sentimos que esta é uma demanda modesta que nós fazemos.
4. Nós queremos moradia, queremos um teto que seja adequado para abrigar seres humanos. Nós acreditamos que se os senhores de terra brancos não dão moradia descente para a nossa comunidade negra, então a moradia e a terra devem ser transformadas em cooperativas de maneira que nossa comunidade, com auxílio governamental, possa construir e fazer casas descentes para as pessoas.
5. Nós queremos uma educação para nosso povo que exponha a verdadeira natureza da decadente sociedade Americana. Queremos uma educação que nos mostre a verdadeira história e a nossa importância e papel na atual sociedade americana. Nós acreditamos em um sistema educacional que dê a nossos povos um conhecimento de si mesmo. Se um homem não tiver o conhecimento de si mesmo e de sua posição na sociedade e no mundo, então tem pouca possibilidade relacionar-se com qualquer outra coisa.
6. Nós queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar. Nós acreditamos que o povo preto não deve ser forçado a lutar no serviço militar para defender um governo racista que não nos protege. Nós não lutaremos e mataremos os povos de cor no mundo que, como o povo preto, estão sendo vitimizados pelo governo racista branco da América. Nós nos protegeremos da força e da violência da polícia racista e das forças armadas racista, por todos os meios necessários.
7. Nós queremos o fim imediato da brutalidade policial e assassinato do povo preto.Nós acreditamos que nós podemos terminar a brutalidade da polícia em nossa comunidade preta organizando grupos pretos de autodefesa que são dedicados a defender nossa comunidade preta da opressão e da brutalidade racista da polícia. A segunda emenda da Constituição dos Estados Unidos dá o direito de portar armas. Nós acreditamos consequentemente que todo o povo preto deve se armar para a autodefesa.
8. Nós queremos a liberdade para todos os homens pretos mantidos em prisões e cadeias federais, estaduais e municipais. Nós acreditamos que todas as pessoas pretas devem ser liberadas das muitas cadeias e prisões porque não receberam um julgamento justo e imparcial.
9. Nós queremos que todas as pessoas pretas quando trazidos a julgamento sejam julgadas na corte por um júri de pares do seu grupo ou por pessoas de suas comunidades pretas, como definido pela Constituição dos Estados Unidos. Nós acreditamos que as cortes devem seguir a Constituição dos Estados Unidos de modo que o povo negro receba julgamentos justos. A 14ª emenda da Constituição dos Estados Unidos dá a um homem o direito de ser julgado por pares de seu grupo. Um par é uma pessoa com um acumulo econômico, social, religioso, geográfico, ambiental, histórico e racial similar. Para fazer isto a corte será forçada a selecionar um júri da comunidade preta de que o réu preto veio. Nós fomos, e estamos sendo julgados por júris todo-brancos que não têm nenhuma compreensão “do raciocínio do homem médio” da comunidade preta.
10. Nós queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz. E como nosso objetivo político principal, um plebiscito supervisionado pelas Nações-Unidas a ser realizado em toda a colônia preta no qual só serão permitidos aos pretos, vítimas do projeto colonial, participar, com a finalidade de determinar a vontade do povo preto a respeito de seu destino nacional.
Além do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, em São Francisco surgiu um outro grupo, no mesmo ano, chamado Black Panther, o The Black Panther Party of Northern California. Quando ficaram sabendo disso, Huey e Bobby foram averiguar e marcaram uma reunião aonde Huey perguntou a eles “O que vocês estão fazendo pela comunidade no que tange a luta revolucionária? Se estão fazendo algo pela comunidade na luta revolucionária, nos juntaremos a suas fileiras, mas não vemos vocês fazendo isso, então nos deixem em paz”.
Para o Partido dos Panteras Negras, este outro grupo era ligado ao que chamavam pejorativamente de “nacionalismo cultural”. David Milliard, e posteriormente todos os outros panteras naquele tempo, passaram a chamar este outro grupo de “Panteras de Papel” em alusão à expressão de Mao sobre os “tigres de papel”.
As contradições entre os “nacionalistas culturais” e o Partido dos Panteras Negras se tornou mais aguda quando Betty Shabazz, esposa de Malcolm X, viajou para Oakland para a Conferência em memória de Malcolm X. Partido dos Panteras Negras entrou em contato com os “Panteras de papel” para assegurar segurança para Betty Shabazz. Na reunião de discussão sobre como se daria isso, as primeiras contradições começaram quando Huey falava sobre a necessidade da linha política e de que a violência policial contra o povo negro nos Estados Unidos se dava a partir de um todo único inseparável da política norte-americana. Nesta reunião ficou evidente que os “Panteras de papel” separavam o aspecto político da autodefesa armada, ao passo que para o Partido dos Panteras Negras e para Huey, isso era impossível de se separar.
Quando viram a Conferência começar, consideraram que as contradições existentes ali eram contradições antagônicas, dada a ausência de um caráter de fato político, e o oportunismo de querer se passar por líderes da comunidade negra mas sem realmente levar a cabo concretamente a noção de autodefesa armada nas comunidades, focando apenas no identitarismo cultural. Em artigo publicado em fevereiro de 1969 em seu jornal “Black Panther”, Linda Harrison coloca a crítica sobre o que chamavam de “nacionalistas culturais”: “O nacionalismo cultural se manifesta em várias formas, mas todas estas manifestações se fundamentam essencialmente um em fato: uma negação universal e o ato de ignorar as atuais realidades econômicas, políticas e sociais e a concentração no passado como quadro referencial. Este fenômeno não é único nesta etapa da revolução da qual nos encontramos: tampouco é único para a luta por liberdade dos ‘cidadãos’ negros dos Estados Unidos. Frantz Fanon – em Condenados da Terra – disse sobre esse fenômeno: ‘Não existe nenhuma ofensiva, e nenhuma redefinição das formas de se relacionar. Existe simplesmente uma crispação em um núcleo da cultura cada vez mais estreito, que está se tornando mais e mais inerte e vazio.’(..) E porque o nacionalismo cultural não possui doutrina política como orientação geral- os limites de ser Black and Proud, são imediatos.(...) Como pode um nacionalista cultural afirmar amar um país- e um continente que sofreu com centenas de anos de colonialismo e escravidão, e ainda sofre sob as formas inteligentemente disfarçadas e abertas destas instituições. Como ele pode negar a realidade política de sua própria vida nos EUA ao se vestir com um avental ganês de maternidade (todo colorido e brilhante) para participar da cultura de um povo mergulhado em revolução e revolta? Como pode um nacionalista cultural afirmar aderir à cultura de África, quando esta cultura é uma cultura revolucionária? A solidariedade com todos os povos revolucionários do mundo trouxe uma cultura comum para povos que nada sabem uns dos outros exceto o fato que sofrem sob sistemas semelhantes de exploração, degradação e racismo. Que seu povo passou pelas mesmas mudanças e que de maneira nenhuma seu povo irá recuperar sua dignidade e encontrar sua liberdade a não ser através de um confronto de igual para igual e de cara a cara através de tática e ação revolucionárias. Uma cultura revolucionária é a única cultura válida para os oprimidos!”
O Partido se viu expandindo para outros Estados e ganhando dimensões nacionais após a ida para o Capitólio do Estado, ao protestarem contra a lei de proibição do porte de armas, que afetaria imediatamente a política de autodefesa armada nas comunidades. A partir de sua expansão, o Partido passa a oferecer programas de café de manhã de graça para as crianças nas comunidades em que atuava (café da manhã para crianças), além de serviço médico gratuito, programas de educação e alfabetização, ambulâncias, atendendo assim às necessidades básicas e demandas concretas da população em seus locais de atuação, tentando colocar isso dentro da perspectiva de seu programa máximo. Eram os programas Serve the People. Huey P. Newton comenta sobre o caráter deles: “Reconhecemos que a fim de trazer as pessoas para o nível de consciência necessário para elas seria necessário servir aos seus interesses de sobrevivência desenvolvendo programas que as ajudariam a atender suas necessidades diárias. Por muito tempo, tivemos tais programas não apenas por sobrevivência, mas também por motivos organizacionais. (...) Todos estes programas satisfazem as profundas necessidades da comunidade mas eles não são as soluções para nossos problemas. É por isso que chamamos eles de programas de sobrevivência, ou seja, a sobrevivência pendente de revolução. Dizemos que o programa de sobrevivência do Black Panther Party é como o kit de sobrevivência de um marinheiro de pé em uma jangada. Ajuda ele a se sustentar até que ele consiga sair completamente daquela situação. Então os programas de sobrevivência não são respostas ou soluções, mas eles nos ajudarão a organizar a comunidade em torno de uma verdadeira análise e entendimento de sua situação. Quando a consciência e a compreensão se elevarem para um nível superior então a comunidade irá aproveitar o tempo e se livrará da bota de seus opressores.”
Assimilação do Marxismo-Leninismo
O Partido desde sua fundação, se expandiu muito rapidamente, até ganhar dimensões nacionais, como se vê no livro Black Against Empire: “Até o Final de Fevereiro de 1968, o Partido dos Panteras Negras ainda era uma pequena organização regional. Mas, até dezembro o Partido havia aberto escritórios em vinte cidades… e até 1970, o Partido havia aberto escritórios em 68 cidades”. Conforme este processo de expansão nacional ia se desenvolvendo, também iam moldando a sua linha política e teórica, seu norte ideológico.
A partir de 1968 o Partido passa a adotar o Marxismo-Leninismo como ideologia oficial do Partido, conforme Kathlen Cleaver, Secretária da Comunicação do Partido, coloca: “Como Marxista-Leninistas, o Partido dos Panteras Negras defende a luta revolucionária para estabelecer uma sociedade socialista. Os Panteras se voltaram para o Marxismo-Leninismo como guia na oposição do Partido ao racismo, sexismo e ao capitalismo. Por exemplo, os princípios do socialismo ditavam a igualdade de gênero entre os membros do Partido assim como a solidariedade Interracial e internacional. Bobby Seale explicava, ‘A luta contra o chauvinismo masculino é uma luta de classes - isso é difícil para as pessoas entenderem’. Estes princípios também orientaram o Partido dos Panteras Negras para a noção de Partido de Vanguarda de [Vladimir] Lenin. Os membros do Partido dos Panteras Negras obviamente se viam como disciplinados, revolucionários profissionais comprometidos na mobilização de apoio para uma revolução socialista.”
A assimilação do pensamento Mao Tsé-tung pelo Partido, a transformação do partido em um Partido Revolucionário de Vanguarda, começa em 1968, quando começam a colocar o livro vermelho de Mao não apenas para vender para arrecadar fundos, mas como leitura obrigatória, junto de Frantz Fanon e a autobiografia de Malcolm X, além de obras de Che Guevara e outros revolucionários. A partir disso, passam a ler outros clássicos do socialismo científico. Huey P. Newton já havia estudado as obras escolhidas de Mao na faculdade e para ele foi o ponto de sua partida para ter se tornado um comunista, mesmo tendo estudado a teoria marxista na faculdade, e foi por iniciativa dele que tais leituras passaram a ser leituras do Partido e que a partir dali se sistematizaria no âmbito teórico sua prática revolucionária. Bobby Seale relata em conversa com Huey que “Huey fez um ponto que os princípios revolucionários tão concisamente citados no Livro Vermelho deveriam ser aplicados onde pudesse. Ou seja, onde quer que pudessem ser aplicados dentro da margem deste sistema. Huey dizia ‘Bem, este princípio não é aplicável à nossa situação neste momento’. Onde o livro dizia ‘O povo chinês do Partido Comunista’, Huey diria ‘Mude isto para Partido dos Panteras Negra. Mude de povo chinês para povo negro’. Quando ele via um princípio particular sendo esclarecido em termos chineses, ele iria mudá-lo para aplicá-lo para nós”. Continuando, ele cita uma conversa que Huey teve com ele: “Bobby, você e eu sabemos que os princípios neste livro são válidos, mas nossos irmãos e companheiros negros não, e eles não vão pagar nem um dólar nem trinta centavos pelo livro. Então, o que temos que fazer é chegar nos revolucionários brancos que são intelectualmente interessados no livro, vendê-lo, arrecadar o dinheiro, comprar as armas e ir para as ruas com as armas. Iremos proteger uma mãe, um irmão, e proteger a comunidade dos policiais racista. E em troca, os irmãos irão querer entrar na organização e irão se relacionar com o livro vermelho. Irão se relacionar com a igualdade social, política e econômica em defesa da comunidade”.
Nesse processo, a forma que viam a questão da opressão racial nos Estados Unidos também passa por algumas mudanças, indo além do nacionalismo revolucionário. Sua análise então passou a se aproximar muito da visão dos comunistas negros dos Estados Unidos dos anos 30 ao analisarem a supremacia branca e a Jim Crow, que também era a visão do Komintern, inclusive com documento sobre escrito pelo principal líder negro do CPUSA, Harry Haywood, com apoio de Lenin. Para Haywood, a questão negra nos Estados Unidos se tratava de uma questão colonial, de um “colonialismo interno”, que se baseava na região do Cinturão Negro, no Sul dos EUA, onde majoritariamente residiam os negros, que basicamente eram os ex-escravos que foram trabalhar nas plantações de algodão. Os negros, com a diáspora, foram excluídos tanto de sua identidade de cada região que residiam no continente africano ao serem levados para serem escravos nas colônias, como, no processo da formação nacional estadunidense, foram excluídos da identidade nacional dos “americanos” a partir das leis de segregação da Jim Crow, sendo relegados à condição de cidadãos de segunda classe, subalternizados. Por isto, as palavras de ordem de “autodeterminação” na região do Cinturão Negro, na época, levada a cabo pelo CPUSA.
Na época que o Partido dos Panteras Negras surge, a situação em torno do Cinturão Negro mudou, com a migração em massa dos negros do Sul para os Estados do Norte após a II Guerra Mundial, mudando também da vida rural para vida urbana. Ainda assim, os panteras ainda consideravam que a questão dos negros nos Estados Unidos era uma questão colonial e nacional, sendo uma luta fundamentalmente de libertação nacional (que se ligava com o socialismo), onde os guetos negros seriam parte de uma minoria nacional colonizada internamente por uma potência imperialista e racista. Assim, eles se referem aos guetos negros onde se organizavam, como “colônias negras”, onde podemos ver essas referências à “colônia do Harlem”, por exemplo. Podemos ver um dos panfletos distribuídos nas comunidades que atuavam: “Em nossa luta por Libertação Nacional, estamos agora na etapa de libertação das comunidades. Para libertar nossas comunidades negras do controle imperialista exercido sobre elas pelos grupos racistas e exploradores no interior das comunidades brancas, para libertar nosso povo, trancado nas Masmorras Urbanas, do imperialismo dos bairros brancos. A nossa luta é contra o Imperialismo nas Comunidades. Nossas comunidades negras são colonizadas e controladas por fora, e é este controle que necessita ser esmagado, quebrado, despedaçado, por quaisquer meios necessários. A política nas nossas comunidades é controlada por fora, a economia nas nossas comunidades é controlada por fora, e nós mesmos somos controlados pela polícia racista que vem de fora às nossas comunidades e as ocupa, patrulha, aterroriza, e brutaliza nosso povo como um exército estrangeiro numa terra conquistada.”
Em outro documento, divulgado em seu jornal: “O povo negro na América possui o direito moral de afirmar sua nacionalidade, porque somos um povo colonizado. Mas a história não permitirá nos afirmar enquanto nação, porque concedeu a nós uma obrigação; levar o desenvolvimento socialista até sua etapa final, livrar o mundo da ameaça imperialista, a ameaça dos capitalistas e dos warmongers. Uma vez que ele é destruído, então não haverá necessidade de nações, porque as nações não precisarão se defender do Imperialismo”
Em um documento onde escrevem sobre a coalizão entre o Partido Peace and Freedom (Paz e Liberdade) e o Partido dos Panteras Negras, Elridge Cleaver, Ministro da Informação do Partido usa o termo “Revolução na Metrópole branca, libertação nacional na colônia negra” para atender à esta posição tendo em vista a derrubada do capitalismo-Imperialismo nos EUA. Apesar de tudo, deve se lembrar que esta posição de que o povo negro, dentro dos limites territoriais dos Estados Unidos era uma nação oprimida que sofria de “colonialismo interno”, antes dos Panteras, também fora retomada por Malcolm X, que exerceu grande influência sobre o Partido.
Assim então o Partido dos Panteras Negras se enxergava não apenas como uma parte da revolução proletária mundial, mas também que estava na mesma condição dos povos oprimidos do Terceiro Mundo, da Ásia, África e América Latina, e que então também faziam parte do mesmo processo que fazia estes povos pegarem em armas contra o domínio colonial, se vendo então como uma parte da revolução anticolonial tricontinental. Nisto, passam a divulgar as lutas de libertação nacional, principalmente da África, em seus veículos e documentos. Também passam a procurar contatos internacionais e organizar viagens. Nestes contatos, focavam nos países recém libertados, com governos progressistas (Argélia, por exemplo), e os países socialistas, particularmente a China, Coreia, e Vietnã. No que tange a URSS, consideravam que ela estava se degenerando em social-imperialismo a partir do processo de consolidação do revisionismo na direção do Partido. Huey em particular, concebia a URSS não como uma potência imperialista que competia com os EUA, mas como um satélite do imperialismo norte-americano no Leste Europeu.
Neste processo, cada vez mais se viam textos de revolucionários como Ho Chi Minh, Fidel Castro, Kim Il Sung e principalmente Mao Tsé-tung, em seus jornais. Stalin chegava a ser citado também em alguns textos de lideranças (David Hilliard, Chefe de Gabinete do Partido mantinha um quadro de Stalin em seu escritório e chegou a defendê-lo publicamente em entrevista). Nisso, os Panteras chegaram até mesmo a oferecer tropas negras suas para a Frente Nacional para a Libertação do Vietnã e seu Governo Provisório Revolucionário da República do Vietnã do Sul. Nguyen Thi Din, Vice-Comandante da Frente chegou a enviar uma carta em resposta à iniciativa dos Panteras: “Estamos profundamente movidos por sua oferta… Esta notícia foi comunicada à todos os quadros e combatentes da FNLV no Vietnã do Sul; tão valentes como vocês, no próprio território dos Estados Unidos. Consideramos-na como uma grande contribuição...um importante evento... No espírito da solidariedade internacional, vocês levaram adiante a responsabilidade com a história, com a necessidade de ações unidas, compartilhando alegrias e tristezas, participando na luta contra o Imperialismo norte-americano... Nos últimos anos, a sua justa luta nos EUA nos estimulou a fortalecer a unidade, e a avançar rumo a maiores sucessos”.
Apesar da principal influência dos Panteras evidentemente ser o pensamento de Mao Tsé-tung, é interessante analisar a forma como viam a Coreia Popular e Kim Il Sung. Eldridge Cleaver, em particular era um entusiasta da República Popular Democrática da Coreia, Kim Il Sung, e da ideia Juche e chegou a viajar algumas vezes para lá. Para Cleaver, a Coreia era um “farol na vanguarda das massas em luta no mundo”, e a ideia Juche uma “posição criativa, desenvolvendo e aplicando o Marxismo-Leninismo nas suas próprias condições revolucionárias”, e chegou a afirmar que “Após investigação criteriosa do cenário internacional, é nossa opinião que é ninguém menos que o Camarada Kim Il Sung que fornece brilhantemente a análise Marxista-Leninista, estratégia e método tático mais profundos para a total destruição do Imperialismo e a libertação dos povos oprimidos de nosso tempo”. Cleaver chegou a editar um livro com textos selecionados de Kim Il Sung, escrevendo o prefácio e alegando que para ele, o livro deveria ser lido por todos os revolucionários dos Estados Unidos.
Os discursos e textos de Kim Il Sung e a história da revolução coreana passaram a ser leitura obrigatória nas aulas de Educação Política do Partido. Nisto, a Coreia passou a divulgar a luta dos Panteras para o povo coreano também; em 6 de julho de 1970, um veículo coreano publicou uma manchete falando que a prisão de centenas dos membros do Partido dos Panteras Negras “representa uma barbaridade fascista sem pudor contra os trinta milhões de negros americanos e um obstáculo intolerável e nefasto para as forças progressistas dos Estados Unidos e os povos revolucionários de todo o mundo”. O próprio Kim Il Sung, chegou a enviar uma carta para o Partido desejando “sucessos em sua justa luta para abolir o maldito sistema de discriminação racial dos Imperialistas norte-americanos e ganhar liberdade e emancipação”.
A viagem de Huey P. Newton para a China Popular de Mao, em 1972 também marcou bastante a sua visão sobre a questão negra nos EUA, como ele afirma: “Eu vi, com meus próprios olhos, como podemos começar a reduzir o tipo de conflitos que estamos tendo aqui. Eu vi um exemplo disso na China… o que eu vi foi o seguinte: quando eu fui para lá, eu estava muito não esclarecido e eu achava que sabia algo sobre a China. Eu pensava, como tanto já foi dito, que a China seria um tipo homogêneo de território étnico/racial. Então eu descobri que 50% do território chinês é ocupado por uma população de 54% de minorias nacionais, grandes minorias étnicas. Eles falam idiomas diferentes, eles parecem muito diferentes, e comem comidas diferentes. Ainda assim, não há nenhum conflito. Eu observei um dia que cada região — podemos chamá-las de cidades — é realmente controladas por essas minorias étnicas, mas elas ainda são chinesas… Estou falando de uma condição geral na China, onde as minorias étnicas que eu observei, controlam todas suas regiões. Elas possuem o direito de ter representação no Partido Comunista da China. Ao mesmo tempo, eles têm seus próprios princípios ... As cidades deste país poderiam ser organizadas desse modo, com o controle da comunidade. Ao mesmo tempo, não o controle negro de modo que brancos não pudessem entrar, nenhum chinês pode entrar. Eu estou dizendo que haveria democracia no interior da cidade. A administração deve refletir os povos que ali vivem”.
Apesar de terem os chamado para alianças na época da “Frente Única contra o Fascismo”, também combatiam o revisionismo do CPUSA, que os atacava a partir do oportunismo de direita. Cleaver disse que o CPUSA “desafiava o direito do Partido dos Panteras Negras de adotar o Marxismo-Leninismo - poderíamos fazê-lo apenas se estivéssemos em seus bons escritórios. Então, este princípio do Juche, reforçou a nossa própria autoconfiança. Quando um revolucionário começa a utilizar o Marxismo-Leninismo, se ele não é cuidadoso ele pode ser levado a sentir que ele está roubando alguma coisa ou que ele não realmente tem o direito daquilo, e este tipo de coisa leva a abordagem dinâmica que você precisa.”
Além disso, William Patterson, dirigente negro do CPUSA, chegou a escrever um artigo defendendo que os Panteras se focassem mais em seus programas de Serve the People do que na autodefesa armada (que para ele, era algo “infantil”), eles estariam mais maduros. Huey respondeu a ele: “Ele é um revisionista e se opõe à luta armada… Ele afirma que porque a nossa linha é provocativa, então se dá à ordem estabelecida uma desculpa para nos matar. Bem, qual desculpa o povo vietnamita lhe deu?... Patterson diz que ‘os Panteras aprenderam que nem os negros e nem as massas brancas dos EUA estão prontas para a arma como um instrumento de liberdade, ou para a guerra de guerrilhas, e nem estava a liderança dos Panteras’. Concordo com ele; aparentemente todos não estão prontos para as armas. Mas eu também perguntaria se ele quer dizer que deveríamos parar de falar sobre as armas? Deveríamos parar de nos defender? Ele está dizendo que a arma não é uma ferramenta que eventualmente teremos que usar? Não deve ser introduzida para o povo? Se a sua resposta à estas questões forem afirmativas, então se segue que o PCUSA deveria largar a sua linha Marxista-Leninista e começar uma nova linha. E suponho que a sua nova linha seria a linha política eleitoral democrática burguesa que o Partido Comunista Americano abraçou. Os Panteras levam sua teoria para a prática(...) [O resultado foi que] as massas negras deram aos Panteras a maior base de massas que qualquer organização revolucionária dos Estados Unidos já teve. Na festa de aniversário para Huey, o auditório de Oakland abrigou muitas milhares de pessoas negras em aplausos, incluindo não apenas a juventude lumpen, mas famílias, velhos, crianças pequenas, operários, trabalhadores. Em maio de 1969, dezenas de milhares de negros, junto com muitos brancos, latinos e asiáticos, protestaram para exigir que Huey fosse solto. Seguraram o livro vermelho e gritaram ‘Liberdade para Huey, fora os porcos!”, e proclamaram que as duas principais ferramentas de libertação eram a arma e o livro vermelho. Ao levarem adiante a arma, os Panteras despertaram a consciência das massas para o Marxismo-Leninismo, e abriram o caminho para derrotar o social-pacifismo não apenas na nação negra, mas também na nação Chicana, Porto Rico e até mesmo entre os brancos.”
Esta mudança também alterou as leituras obrigatórias do Partido nas aulas de Educação Política. Junto da autobiografia de Malcolm X, Condenados da Terra, de Frantz Fanon, mas também textos de Mao, Che Guevara, Lenin, Marx e Engels, Nkrumah, etc. Entre a direção as leituras obrigatórias eram de 6 livros de Mao ou sobre a Revolução Chinesa, três de ou sobre Malcolm X, e um de cada de Huey P. Newton, Fanon e Marx. Em seguida, cada membro deveria auxiliar o outro membro a compreender estes textos.
Criticaram também o que chamavam de “esquerda branca”, que eram os setores majoritariamente ligados ao movimento hippie da época que denunciavam o Marxismo-Leninismo e os países socialistas: ”Muitos destes mesmos provocadores culturais também denunciam Democracias Populares como China, Cuba, Albânia, Coreia Democrática, e o Vietnã Democrático porque estes países defendem uma cultura proletária revolucionária e não uma cultura contrarrevolucionária, liberal burguesa do ‘faça o que você quiser’ que certos ‘esquerdistas’ nos EUA advogam.”
Assim o partido deixou de ser um partido baseado apenas na autodefesa das comunidades oprimidas e no nacionalismo negro revolucionário, e se tornou um Partido Revolucionário de Vanguarda, orientado pelo Marxismo-Leninismo aplicado de maneira viva às suas condições concretas, tal como coloca Eldridge Cleaver: “Nós afirmamos: a ideologia do Black Panther Party é a experiência histórica do povo negro e a sabedoria ganha por ele em sua luta de 400 anos contra o sistema de opressão racista e exploração econômica, interpretado através do prisma da análise Marxista-Leninista feita pelo nosso Ministro de Defesa, Huey p. Newton (...) Quando dizemos que somos Marxista-Leninistas significa que estudamos e compreendemos os princípios clássicos do Socialismo Científico e que adaptamos estes princípios à nossa própria situação”
Fred Hampton e a Coalizão Arco-Íris
O estabelecimento de alianças, tanto com grupos “brancos” como com outros partidos e organizações, foi um dos aspectos que marcou a história do Partido dos Panteras Negras. Uma de suas primeiras coalizões foi com o Partido Paz e Liberdade, inclusive com o Partido dos Panteras Negras lançando candidatos eleitorais pelo Partido. Em uma Conferência de três dias chamada de Comitê Nacional contra o Fascismo chamada em julho de 1969, fizeram esforços em juntar os principais partidos e organizações de esquerda da época, chamando inclusive o Partido Comunista, como mencionamos anteriormente.
Entre os grupos majoritariamente brancos(principalmente ligados ao movimento estudantil, com exceção do Young Patriots e do Rising Up Angry) que trabalharam conjuntamente com os panteras estavam o Peace and Freedom Party, o Young Patriots, o Rising Up Angry, Students for a Democratic Society, Patriot Party, White Panther Party, etc. O Partido dos Panteras Negras orientava o grosso desses grupos a organizarem os brancos em suas comunidades e educar o povo de maneira antirracista. A âmbito organizacional, brancos não eram permitidos nas fileiras do Partido, mas asiáticos e latinos sim; estes de forma geral possuíam suas próprias organizações nacionalistas (Young Lords, Red Guards, La Raza Unida, etc.) que cooperavam com o Partido dos Panteras Negras, mas existe o caso bastante conhecido de Richard Aoki, o único não-negro que fazia parte da direção do Partido. Apesar de tudo, ainda assim a aliança com grupos brancos gerou contradições dentro do Partido, como por parte de Stokely Carmichael que se desligou do Partido por conta dessas divergências, afirmando que ele temia que o “Partido poderia se tornar as tropas de choque negras da nova esquerda e da contracultura”. Huey respondeu aos membros que eram contra estas alianças: “Enquanto o ponto de vista (de trabalhar estritamente com negros) era compreensível, falhou em levar em consideração as limitações de nosso poder. Precisávamos de aliados, e acreditávamos que a aliança com operários e estudantes brancos valia o risco… Em alguns anos, quase metade da população americana seria composta de jovens, e se nós desenvolvêssemos alianças fortes e significativas com a juventude branca, eles iriam apoiar nossos objetivos e trabalhar contra o Establishment”. Huey prossegue: “Os jovens brancos revolucionários se juntaram ao coro pela retirada das tropas do Vietnã, de tirar as mãos da América Latina, contra a ingerência na República Dominicana e também pela retirada da comunidade negra ou colônia negra. Então você tem uma situação onde os jovens revolucionários brancos estão tentando se identificar com os povos oprimidos das colônias e contra o explorador”. Exprimindo a linha de Huey, Fred Hampton fez um discurso onde coloca que “o nosso programa de dez pontos está em processo de ser mudado agora mesmo, porque usamos a palavra ‘branco’ quando deveríamos ter usado a palavra ‘capitalista’.”
Acreditamos que o ponto mais alto destas alianças, bem como o momento mais avançado do movimento revolucionário estadunidense, tomou forma na Coalizão Arco-íris(Rainbow Coallition), levada a cabo por Fred Hampton, dirigente do Partido de apenas 20 anos em Illinois, Chicago. Partindo da análise dos Estados Unidos como uma prisão de nações, onde se encontravam várias minorias nacionais oprimidas em torno de uma nação, se tentou juntar os vários grupos nacionalistas radicais que organizavam estas minorias nacionais em torno de uma frente única. Também se juntaram organizações “brancas”, como o White Panther Party e os Young Patriots, organização dos brancos pobres da região de Appalachia, que inclusive usava a bandeira confederada(é sobre eles que Huey P. Newton fala quando diz positivamente sobre “poder branco para o povo branco” em um discurso bem conhecido).
Entre os grupos que se juntaram na frente fundada por Hampton, estavam os Young Lords, grupo portorriquenho, Brown Berets, de chicanos, Red Guard, de chineses, American Indian Movement, dos povos originários, e etc. Para além de uma frente multirracial, era uma frente que unia os diversos grupos de nacionalidades oprimidas em torno de uma unidade programática que visava a derrubada do capitalismo-imperialismo nos Estados Unidos e pela construção do socialismo.
Como parte da perseguição do FBI ao Black Panther Party, Fred Hampton é fuzilado enquanto dorme pela polícia de Chicago em colaboração com o FBI, quando entraram pela janela em seu quarto. De seu lado também dormia a sua esposa, grávida, que saiu ferida, e seu filho sobreviveu. Na mesma casa, também estavam outros membros do Partido. Mark Clark, de 17 anos também é assassinado enquanto dormia em uma cadeira na sala da casa. Os outros membros sobrevivem mas também ficam feridos. Segundo documentos do Júri federal, foram disparados 90 tiros no apartamento aquela noite, sendo apenas um de algum pantera. Com a morte de Hampton, os esforços dentro da Coalizão Arco-íris continuam, mas sem o mesmo ritmo.
Lumpensinato enquanto sujeito histórico
As tentativas de desenvolvimento da aplicação do Marxismo-Leninismo às condições e experiência concreta do povo negro nos EUA, também implicaram na elaboração de quais sujeitos levariam a cabo a revolução socialista, tanto as forças principais como as forças dirigentes. Isso levou ao Partido dos Panteras Negras a fazer uma reavaliação do papel do Lumpensinato na revolução.
O grosso das massas que o Partido dos Panteras Negras mobilizou e organizou era a massa de pobres urbanos, da qual um contingente importante era composta de “lumpens”. Muitos inclusive eram antigos criminosos e bandidos, da qual o Partido dos Panteras Negras reeducava (Fred Hampton mesmo reeducava muitos ex-criminosos para organizá-los pelo Partido em Illinois) para trazê-los para suas fileiras.
Sobre as análises marxista-leninistas com relação ao lumpensinato, existiam dois trechos de textos de Mao que colocam a questão de maneira distinta da que Marx trata no 18 de Brumário; em Análise das Classes na Sociedade chinesa, Mao diz: “A atitude com relação a esse grupo constitui um dos problemas difíceis que se apresentam à China. Tais indivíduos são capazes de lutar com a maior coragem, mas são propensos a ações destrutivas. Conduzidos de maneira correta, podem converter-se numa força revolucionária.” Em outro texto, A Revolução Chinesa e o Partido Comunista da China: “A situação de colônia e semicolônia deu lugar na China ao aparecimento duma multidão de desempregados, no campo e nas cidades. Sendo-lhes recusados os meios de levar uma vida honesta, muitos deles veem-se forçados a recorrer a meios ilícitos, entregando-se a pilhagem, banditismo, mendicidade e prostituição, assim como a exploração profissional da superstição. Essa camada social é instável. Enquanto uns se mostram capazes de ser assoldados pelas forças reacionárias, outros são suscetíveis de aderir a revolução. Tais indivíduos não têm espírito construtivo, são mais aptos a destruir do que a construir. Quando intervêm na revolução, convertem-se em fonte da mentalidade de bando rebelde errante e anarquismo no interior das fileiras revolucionárias, razão por que precisamos de saber remodelá-los, guardando-nos contra o seu espírito destrutivo.”
Fanon, que era uma influência considerável para o Partido dos Panteras Negras, pegou estes pontos de Mao e desenvolveu sobre o papel do lumpen nas revoluções anticoloniais. Para Fanon, o lumpen tanto abre margem para ser massa de manobra dos colonialistas, sendo uma força contrarrevolucionária, como também por conta do que Mao chama de “capacidade de lutar com maior coragem”, pode ser ponto importante de apoio para as forças revolucionárias, principalmente na cidade como como forma de apoio ao movimento revolucionário no campo.
Por conta do processo de colonização interna, as massas negras dos Estados Unidos sofriam do mesmo processo que o grosso dos povos do terceiro mundo sofriam, de empobrecimento e pauperização em massa, gerando uma massa de lumpens numerosa, com condições de vida muito inferiores ao grosso da classe operária estadunidense, da qual existia um setor bem considerável dela como parte da aristocracia operária.
Assim, Huey P. Newton presta bem atenção e revisita o papel do lumpensinato na revolução. Para Huey, o lumpensinato negro nos Estados Unidos não era apenas os criminosos e ex-criminosos, e desempregados, mas também aqueles que estavam em subempregos e alguns que trabalhavam na construção civil e até mesmo alguns setores da indústria. Ou seja, os setores mais pobres do povo que ficam de fora da economia formal ou setores mais baixos desta economia formal.
Algumas análises marxistas consideram que isto levou a uma “ideologia lumpen” como hegemônica dentro do Partido, e que este foi o principal fator da derrota do PARTIDO DOS PANTERAS NEGRAS. Consideramos tais visões errôneas. De fato, é evidente que a ideologia lumpen, dada a base social do Partido, possa ter exercido alguma influência dentro da linha política do Partido, no processo natural da luta de linhas. Mas a compreensão hegemônica sempre foi a de que esta base lumpen (que dado o contexto, era mais semelhante ao lumpensinato que Mao e Fanon se referem) estava submetida à orientação ideológica do Partido, assim ao invés de fazer os lumpens, como Mao considerou acertadamente, serem autodestrutivos, mas eles estavam sendo conduzidos por uma linha correta, o que faz esta base ser inclusive remodelada. Além disso, o Partido dos Panteras Negras mobilizava tanto vastos setores de trabalhadores negros, como camadas médias, e pequena burguesia além do lumpen, sendo os pequenos criminosos uma minoria do Partido, e que era reeducada e remodelada.
Se observarmos os principais discursos de Fred Hampton, por exemplo, veremos que a sua posição é nitidamente uma posição proletária, como em seu famoso discurso de “Eu sou um revolucionário, eu sou o proletariado, e vocês tem que entender a diferença, eu não sou o porco.” Em um discurso feito na Igreja de Olivet em 69, ele fala abertamente: “Temos que encarar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem ao que se chama de classe mais baixa, e quando eu falo das massas, estou falando das massas brancas, estou falando das massas negras, e das massas latinas e massas amarelas também. Temos que encarar o fato que algumas pessoas dizem que se luta fogo melhor contra fogo, mas dizemos que se combate o fogo com água. Dizemos que não se combate o racismo com racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade. Vamos dizer que não se combate o capitalismo com o capitalismo negro; se combate o capitalismo com o socialismo. (...) Não vamos lutar contra porcos reacionários que andam pra lá e pra cá pelas ruas sendo reacionários; vamos organizar e nos dedicar para o poder político revolucionário e ensinar a nós mesmos as necessidades específicas de resistir à estrutura de poder, nas armas, e combater os porcos reacionários com Revolução Proletária Mundial. É assim que tem que ser. O povo tem que ter o poder; ele pertence ao povo.”
E em outro discurso: “Sabe, muitas pessoas se desligam do Partido porque o Partido fala de uma luta de classes. Dizemos primariamente que a prioridade desta luta é a classe. Que Marx e Lenin e Che Guevara e Mao Tsé-tung e qualquer outro que já disse ou sabia ou praticou qualquer coisa sobre revolução sempre disse que uma revolução é uma luta de classes. Era uma classe - os oprimidos, e aquela outra classe - o opressor. E isso deve ser um fato universal. Aqueles que não admitem isso são aqueles que não querem se envolver em uma revolução, porque sabem que enquanto estiverem lidando com uma questão apenas de raça, nunca se envolverão em uma revolução.”
Hampton coloca evidentemente o ponto de vista da classe operária, de maneira desta dirigindo as outras demais classes que podem vir a ter um papel na revolução socialista. Apesar disso, podemos colocar que o Partido errou ao colocar que o lumpen estava substituindo o papel do proletariado. O lumpen é uma classe que não pode se portar enquanto classe independente. Como é uma classe impossível de se manter independente, ela deve assumir ligações com uma classe superior, e esta pode ser tanto a linha política do proletariado revolucionário como da burguesia, a auxiliando na contrarrevolução. O determinante no processo de organização do lumpen por parte do Partido dos Panteras Negras era justamente a sua submissão à uma linha que exprimia a missão histórica do proletariado, que é o Marxismo-Leninismo. O Partido dos Panteras Negras, assimilando o Marxismo-Leninismo, e apreendendo os escritos de Fanon e Mao, conseguiu dar o direcionamento correto para organizar o lumpen, superando seus aspectos destrutivos e contrarrevolucionários.
Intercomunalismo revolucionário
A aplicação do Marxismo-Leninismo para a sua realidade concreta também levou Huey P. Newton, a partir do método dialético a desenvolver aspectos novos para a verdade geral do socialismo científico tendo em vista seu caráter vivo. Huey assim coloca: “O Partido dos Panteras Negras é um Partido marxista-Leninista porque seguimos o método dialético e também integramos a teoria com a prática. Não somos marxistas mecânicos. Algumas pessoas pensam que são marxistas, quando na verdade estão seguindo o pensamento de Hegel. Algumas pessoas pensam que são marxista-leninistas mas se recusam a serem criativos, e portanto estão amarrados ao passado. Se amarram à uma retórica que não mais se aplica às atuais condições. Se amarram a uma gama de pensamentos que se aproximam de dogma - o que chamamos de ‘servilismo’.”
Huey então desenvolve, a partir do marxismo-leninismo, o que chama de “Intercomunalismo revolucionário”. Para Huey, este termo exprimia a contradição se desenvolvendo entre o “pequeno círculo que controla e se enriquece do Império dos EUA e os povos que querem determinar seu próprio destino”. Para Huey, o “Imperialismo não pode existir sem explorar colônias e forçadamente mantê-las dentro do panorama do ‘todo integral’; porque o Imperialismo pode trazer nações juntas apenas pelos meios da anexação e conquistas coloniais, sem a qual o Imperialismo é, de maneira geral, inconcebível”.
Para Huey então, com o processo de hegemonização dos EUA como potência imperialista de primeira ordem, os limites nacionais estavam cada vez menos evidentes, sendo as nações se tornando “comunidades” da qual os EUA estariam submetendo os povos oprimidos do mundo a um domínio neocolonial, com um Imperialismo mais centralizado. Huey concebe que as posições da burguesia nacional seriam impossíveis de serem concretizadas no marco deste Imperialismo, dado que a posição dos EUA no cenário mundial faria o mundo todo estar interligado, e a saída era ou o “intercomunalismo reacionário” que era a posição do domínio global dos EUA, ou o “intercomunalismo revolucionário”, que seria a unidade entre as “comunidades” oprimidas contra este Imperialismo, e em defesa de uma ditadura do proletariado global que derrubasse esse poder político e construísse o socialismo e o comunismo.
Conclusão
O Partido dos Panteras Negras, desde sua fundação, foi alvo da repressão das classes dominantes do Imperialismo norte-americano. Edgar Hoover, diretor do FBI, classificou o Partido dos Panteras Negras como a “maior ameaça à segurança interna do país”. O FBI na época, em 67 criou o COINTELPRO, programa destinado a “neutralizar” grupo “nacionalistas negros”. Seus objetivos eram colocados abertamente: “Prevenir uma coalizão de grupos nacionalistas negros; Prevenir a ascensão de um messias que poderia unificar e eletrificar o movimento nacionalista militante… Martin Luther King, Stokely Carmichael e Elijah Muhammad, todos aspiram a esta posição; Prevenir violência por parte de grupos nacionalistas negros; Prevenir grupos nacionalistas negros militantes e líderes de ganharem respeito ao desonrá-los; Prevenir o crescimento a longo alcance de organizações nacionalistas negras militantes, principalmente entre a juventude.”
Após 1969, os Panteras Negras foram o principal alvo, com inúmeros de seus membros assassinados ou presos a partir deste programa. Além disso, forjaram cartas e infiltraram membros a fim de semear confusão nas fileiras do partido. Quando Huey estava preso, forjaram cartas suas alegando a necessidade do fim da luta armada, e que o foco deveria ser exclusivamente nos programas de café da manhã e outros programas de “Serve the People”. Eldridge Cleaver, que estava exilado na Argélia, também recebeu várias cartas falsas de supostos panteras, criticando a direção de Huey e clamando para que voltasse para tomar a direção do Partido. Após Huey ter saído da prisão, em um programa de TV em entrevista com Cleaver, da Argélia, acusa o programa do café da manhã para crianças de reformista e ataca os atuais rumos do Partido. Como resposta, é expulso do Comitê Central, e sai do Partido.
Outra forma de destruição do Partido dos Panteras Negras que o FBI usou, foi a difusão de drogas pesadas (principalmente heroína) nas comunidades que o Partido controlava. Dado o problema com dependência em drogas ser uma constante nos bairros que atuavam, o Partido enfatizava a crítica às drogas como uma “praga contra o povo”, que semeava a autodestruição para o povo negro.
Huey se exila em Cuba em 1973 para fugir de mais uma condenação. A partir dali, Elaine Brown estaria na direção do Partido, fazendo o Partido focar de maneira mais profunda nos programas de sobrevivência, em contraste com as aspirações de Huey, que queria um modelo de Partido militarizado. Quando volta em 77, não consegue mais a hegemonia dentro do Partido. Larga a vida dentro do Partido dos Panteras Negras e vira viciado em cocaína e heroína. Morreu em 1989 assassinado por um traficante. Eldridge Cleaver voltou do exílio em 75 com visões mais próximas de Martin Luther King e se declara culpado pelo tiroteio com a polícia em 1968, do qual estava sendo acusado. Também se tornou dependente de cocaína.
Este processo, que termina de maneira trágica foi uma experiência breve, mas cheia de ensinamentos e com muitas posições avançadas do ponto de vista da questão negra enxergada sob o prisma do marxismo-leninismo, e que deve ser efetuado um balanço com base na luta em defesa da emancipação do povo negro e sob a ótica do marxismo-leninismo.
Do ponto de vista da luta contra o racismo, tendo em vista a superação não apenas da opressão racial, mas também do capitalismo e pelo socialismo, a apreensão correta do marxismo-Leninismo, em seu processo de sistematização, de luta contra as tendências chauvinistas e sociais-imperialistas da II Internacional, da elaboração de um verdadeiro internacionalismo, em defesa dos povos coloniais e enquanto marxismo da época do Imperialismo, além das experiências históricas das revoluções coreana e chinesa, implica necessariamente na luta contra o racismo colonial, em defesa da unidade dos povos, como fator fundamental para todos os revolucionários marxista-leninistas.
Nesse sentido que podemos compreender a assimilação do marxismo-leninismo por parte do Partido dos Panteras Negras, de maneira que deu ao povo negro um norte ideológico que pudesse levar a cabo até as últimas consequências as aspirações de seu povo por emancipação, e como parte da revolução proletária mundial. Nesse sentido podemos conceber a experiência estabelecida pelo Partido dos Panteras Negras, ainda que curta, como uma tentativa extremamente avançada de desenvolver o marxismo-Leninismo se moldando enquanto vanguarda do povo negro nos EUA.
Artigo publicado na Revista Nova Cultura #09, quando dos 50 anos da fundação do Partido dos Panteras Negras











































































































































