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História das Três Internacionais

"França, mais uma vez a hora da 'escória'"

Foto do escritor: NOVACULTURA.info
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há 36 minutos
6 min de leitura

 

Mais uma vez, como tantas outras na França, e outras tantas que ainda virão, soou a hora da “escória”, como chamou em 2005 o então ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, os jovens que começavam a se rebelar nos subúrbios de Paris contra os constantes abusos da polícia e a degradação de suas condições de vida, a falta de trabalho e de acesso à educação. A desastrada ação policial, que estava sob a alçada do próprio Sarkozy, provocou uma resposta massiva que se estendeu por todas as margens de Paris, com o incêndio em massa de veículos como emblema. Partindo daquela periferia, o movimento não só alcançou o centro da capital francesa, como se espalhou pelo resto do país e atravessou as fronteiras, incendiando outras grandes cidades europeias. Aqueles acontecimentos puseram contra as cordas não apenas o ministro, mas o próprio governo do presidente Jacques Chirac. De todo modo, Sarkozy chegou à presidência em 2007; coisas verás, Sancho…

 

Desde então não foi preciso muito para que os setores mais marginalizados da sociedade francesa saíssem às ruas. Não apenas cidadãos oriundos de suas antigas colônias asiáticas e africanas (que a França teve, e muitas, onde praticou as formas mais extremas de exploração, saque e abuso): entre aqueles desamparados havia também franceses de pura cepa, mas pobres, marginalizados e esquecidos na burocracia da seguridade social que lhes proporcionava então o “Estado de Bem-Estar” que a Europa alcançou após a Segunda Guerra Mundial.

 

Hoje aqueles franceses de pele branca continuam sem conseguir embarcar nas barcas do bem-estar e se conformam em pertencer a alguma torcida organizada de futebol para conseguir um bico como força de choque fenômeno de extrema direita do continente. Em vez de optarem pela “luta de classes”, como fizeram seus avós, preferiram a guerra étnica, incentivados e alertados por ideólogos como Renaud Camus (com quem, obviamente, só compartilha o sobrenome com Albert) e sua “teologia” do Le Grand Remplacement, um calhamaço de 350 páginas em que afirma que a população branca, cristã e originária da Europa está em um processo de substituição sistemática e organizada por “não europeus”, essencialmente árabes, norte-africanos e subsaarianos, a partir da imigração em massa e da queda da natalidade dos brancos. Imigração em massa, sim, é verdade, ilegal e em alguns casos até perigosa; nos últimos 12 anos chegaram milhões à Europa, e outros tantos são retidos pela Turquia e pelos países do sul do Mediterrâneo a um alto custo pago pela União Europeia. Mas eles não chegam por acaso, não abandonam tudo por nada: fazem-no pelo eterno saque dos recursos naturais de suas nações por parte das antigas metrópoles coloniais e pelas bombas, o fósforo branco e o napalm com que o Ocidente impõe sua ordem naqueles países. A teoria da grande substituição serviu a todo fascista enrustido que anda solto. Não a serviu, porém, na Palestina, onde ela está sendo executada em alta velocidade. Muitos desses neofascistas estão clamando por um “holocausto muçulmano”. Outros, ainda mais diretos, como Guillaume Faye, afirmaram: “Nenhuma solução será encontrada a menos que estoure uma guerra civil”.

 

Embora Camus não tenha sido o primeiro a pensar abertamente sobre o tema da substituição, o próprio Charles de Gaulle confessou a um de seus homens de maior confiança e ministro da Informação, Alain Peyrefitte, em março de 1959: “Os muçulmanos, com seus turbantes e chilabas, não são franceses. Vocês acham que a nação francesa pode absorver 10 milhões de muçulmanos, que amanhã serão 20 milhões e depois de amanhã 40 milhões? Se isso acontecesse, meu povo já não se chamaria Colombey-les-Deux-Églises, mas Colombey-les-Deux-Mosquées”. Isso, depois de milhares de africanos e indochineses terem morrido na Europa, anos antes, lutando por ele contra Hitler, sem que jamais tenham sido reconhecidos por isso. Talvez por isso o egrégio general achasse que seria melhor exterminá-los em seus lugares de origem, como tentou na Guerra da Indochina (1946-1954) e na Guerra de Independência da Argélia, entre 1954 e 1962, em que, embora tenha assassinado milhões, teve de sair de ambas as colônias em marcha acelerada.

 

De modo que a questão vem de longe, tão de longe que a França, junto com várias potências europeias, se permitiu, na Conferência de Berlim (1884-1885), repartir o continente africano como se estivesse vazio, selando o destino de um continente que hoje tem 1,5 bilhão de habitantes.

 

Em janeiro de 1968, um espectro representativo da direita francesa fundou, na cidade de Nice, o Grupo de Pesquisa e Estudo para a Civilização Europeia (pela sigla em francês, GRECE), pondo em vigor o conceito da Nouvelle Droite (Nova Direita), que adotou os mesmos fundamentos que os alemães abandonaram após serem derrotados pela União Soviética de Stalin. Um dos mais ativos desse grupo foi Alain de Benoist, que, em 1977, declarou que o GRECE “considerava um mal a homogeneização gradual do mundo”.

 

Outro dos grandes “pensadores” dos arrabaldes da condição humana é Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump, que sem pudor agradeceu, nada menos que em um evento no Vaticano, a seus “antepassados europeus por terem mantido o islã fora do mundo”.

 

Bannon foi o promotor fundamental para que voltássemos a cruzar o que por décadas acreditamos ser a impensável fronteira rumo ao fascismo, ou o nome que queiram dar: nazismo, wahabismo, hindutva, sionismo, libertarianismo, sionismo cristão, tradicionalistas cristãos ou os budistas do Movimento Ma Ba Tha, que invariavelmente terminam sempre na mesma coisa: a supressão, por qualquer meio, do diferente, seja negro, judeu, muçulmano, oriental e, de preferência, pobre.

 

65 anos iguais

 

Emmanuel Macron chegou ao governo da França em 2017, impulsionado pelo empresário de origem austríaca Peter Brabeck-Letmathe, que, entre outros pensamentos, expôs certa vez que a água “não é um direito humano”; embora, como sempre acontece, sem pedir desculpas, tenha argumentado que a frase fora tirada de contexto.

 

O atual presidente francês, que aspira a chegar inteiro às eleições presidenciais de abril próximo, apesar de se definir como um homem de centro, nunca esteve longe das políticas fundamentalistas de seu mentor Brabeck-Letmathe, transformando seu país no melhor exemplo do que pode acontecer em uma sociedade quando seus governantes acreditam que tudo lhes é permitido para aplicar políticas de ajustes constantes, apertando os mais pobres com o aumento contínuo de aluguéis, serviços, transporte e alimentos e uma redução significativa dos aportes do Estado à educação, que é a razão fundamental pela qual milhões de franceses estão se manifestando nas ruas há mais de um mês.

 

Protestos utilizados pelos desconhecidos de sempre, que podem ir desde a Agrupação Nacional, da ultradireitista Marine Le Pen, cujo pai, Jean-Marie, fundador do movimento e cinco vezes candidato à presidência, foi um conspícuo torturador nos anos da revolução argelina. Embora também se acredite que entre os promotores dos saques possam ter participado militantes da França Insubmissa, o partido de Jean-Luc Mélenchon, que com a Nova Frente Popular tentará pela quarta vez uma eleição. Tampouco ninguém pode negar que nos distúrbios não tenham participado agentes estrangeiros da inteligência norte-americana, russa e até do Mossad. Lembremos que Macron teve fortes atritos com o presidente russo Vladimir Putin a partir da Ucrânia, com quem pretendia ir à guerra, quando agora fica claro que não conseguiu sequer controlar estudantes secundaristas. Com Trump, o enfrentaram as políticas tarifárias unilaterais de Washington, embora agora seu desacordo gire em torno da responsabilidade pela atual crise energética, decorrente da guerra contra o Irã, que repercutiu diretamente no custo de vida dos franceses. E com Netanyahu, por reconhecer formalmente o Estado Palestino após o genocídio em Gaza, medida tragicamente tardia e fundamentalmente eleitoreira, em favor de algum de seus possíveis candidatos: Gabriel Attal, seu ex-primeiro-ministro e atual secretário-geral do partido governista Renaissance, e Édouard Philippe, também ex-primeiro-ministro de Macron e chefe do partido de centro-direita Horizons, um dos partidos mais próximos da frente do atual presidente, La République en Marche (LREM).

 

Das revoltas, que já duram um mês, o dia mais ativo, em que foram feitas mais de 2 mil detenções, registrou centenas de saques a lojas, o que se reproduziu não só em cidades como Lyon, Limoges, onde grande parte de sua histórica prefeitura foi incendiada, e Lille, entre outras, mas teve efeito réplica na Bélgica, na Itália, em Portugal, na Espanha e na Albânia. Algo semelhante já vem acontecendo também na Índia, onde os estudantes do movimento Cockroach Janta Party (Partido Popular das Baratas) começam a corroer o poder onímodo do primeiro-ministro Narendra Modi.

 

Talvez, durante a longa jornada do dia 17 de outubro em Paris, ao fragor das sirenes, das balas de borracha e dos gases lacrimogêneos, alguém tenha se lembrado dos mais de mil argelinos que marcharam contra De Gaulle: exatamente 65 anos antes, em 17 de outubro de 1961, eles foram assassinados naquelas mesmas ruas, afogados no Sena, por essa mesma polícia e pelas mesmas razões.

 

Por Guadi Calvo, no Línea Internacional

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