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"Os Sindicatos e a Ditadura do Proletariado"



Os sindicatos operários viram a luz do dia e desenvolveram-se durante os anos do desenvolvimento do capitalismo, como organizações para a defesa dos interesses operários, na própria produção e no quadro do sistema capitalista.


De início, englobando apenas os operários qualificados, os sindicatos exerceram, no decurso do seu desenvolvimento, uma tão forte influência sobre as massas operárias, nos países capitalistas avançados, que se tornaram nos seus respectivos países um fator poderoso da produção capitalista.


Renegados e perseguidos com animosidade desde o seu aparecimento, foram reconhecidos em seguida pela própria burguesia e pelos seus ideólogos como organizações indispensáveis para o bom desenvolvimento da produção, para a manutenção da paz e da estabilidade indispensáveis a esta produção e para as relações trabalho-capital, num sistema capitalista mantido e consolidado.


Por intermédio da influente burocracia sindical, limitada e muitas vezes venal, assim como por concessões e vantagens insignificantes, feitas aos operários, os capitalistas conseguiram colocar, sob a direção imediata da sua política de exploração, os grandes e poderosos sindicatos operários, assinando com eles contratos coletivos a longo prazo; também lhes ofereceram garantias para longos anos de trabalho normal nas empresas, se se desviassem das frequentes e espontâneas greves, tão prejudiciais para eles, capitalistas.


Os factos tomaram tal dimensão que muito tempo depois da guerra imperialista a maior parte dos sindicatos operários, sobretudo em Inglaterra e na Alemanha, tinham perdido completamente o aspecto e o conteúdo de organizações proletárias de classe e tinham-se transformado num instrumento para a manutenção da quietude dos capitalistas na produção, assim como para garantir as fontes dos seus recursos fabulosos.


Durante a guerra, como resultado lógico deste estado de coisas, os países capitalistas mais desenvolvidos – tanto os que se encontram sob a influência dos social-reformadores burgueses (Alemanha e Áustria) como as organizações profissionais anarco-sindicalistas (França) – puseram-se completamente ao lado dos seus mestres imperialistas, trouxeram o seu mais ativo auxílio à sua política imperialista de conquista, ofereceram ao mundo o espetáculo infame da exterminação recíproca, durante quatro anos, destas mesmas massas proletárias, cujos representantes proclamam insistentemente, nos congressos e conferências internacionais, “a solidariedade internacional do proletariado do globo terrestre”.


É em vão que Marx, desde 1848, redigindo o Manifesto Comunista e, em seguida, no momento da fundação da I Internacional, em 1864, mostrava o caminho revolucionário aos sindicatos operários, sublinhava o seu trabalho como escolas de socialismo e comparava o seu papel para o proletariado ao papel das comunas urbanas do passado para a burguesia revolucionária.


É igualmente em vão que, antes e durante a guerra, os socialistas, permanecendo fiéis ao socialismo revolucionário de Marx, deram sem cessar o alerta contra a degenerescência e o aburguesamento dos sindicatos operários, etc. A maior parte destes sindicatos estava tão profundamente enredada no mar do oportunismo, tão afastada da concepção da sua missão histórica de classe, que permaneceu surda a tudo isso, não vendo mais do que os magros proveitos que teria podido obter pela vitória da política de conquista das classes burguesas nos seus próprios países, ainda que isso não tenha sido apenas obtido pelo preço da exterminação em massa das classes operárias e pela exploração e opressão do proletariado de outros países e sobretudo das colónias.


Mas a guerra imperialista provocou profundas mudanças na situação. Levou à catástrofe completa da produção capitalista. A circulação fiduciária desorganizou-se. O custo de vida atingiu uma subida fantástica. O valor real dos salários operários voltou a proporções irrisórias. As conquistas sociais e as reformas, conseguidas ao preço de esforços e lutas de muitos anos, foram absorvidas para sempre. As tentativas de voltar, pelo menos, à situação anterior à guerra, mostraram-se ilusórias. A fraqueza e a impotência dos antigos sindicatos – esses grandes fatores da produção no passado – fez-se sentir num grau ainda mais elevado.


Por outro lado, a revolução vitoriosa dos operários e dos camponeses russos inaugurou a época da revolução proletária mundial. Um dilema fatal se põe ao proletariado de todos os países – ou perecer conjuntamente com o capitalismo agonizante, ou, pela revolução e pela ditadura do proletariado, organizar a vida sobre princípios comunistas, criar a nova produção sem capitalistas, sem lucro capitalista e sem exploração do trabalho de outrem.


A antiga doutrina e prática sindical, segundo a qual era necessário garantir a boa existência dos operários no quadro do regime capitalista, trazendo-lhe reformas, falhou completamente. O seu tempo já passou. A vida impôs novos caminhos, ou seja, caminhos já traçados por Marx e tão obstinadamente sustentados, há muito tempo, sobretudo pelos bolcheviques russos e pelos socialistas de esquerda búlgaros.


E vãos são hoje os esforços dos defensores do capitalismo e dos seus agentes social-patriotas para manter os sindicatos operários no seu estado de mendicidade, no seu antigo papel, e de os desviar do caminho da revolução proletária, por intermédio da Federação Sindical Internacional de Amsterdã e do chamado Bureau Internacional do Trabalho, junto da Sociedade das Nações.


A Federação de Amsterdã, à semelhança da própria Sociedade das Nações imperialista, desagrega-se pelas contradições internas insuperáveis, dividindo os imperialistas dos diferentes países, e constitui em si uma repetição moderna da lenda da Torre de Babel e da confusão das línguas.


As massas operárias organizadas nos sindicatos ligam-se cada vez mais ao caminho mostrado pelo proletariado russo vitorioso na luta pela liquidação do capitalismo, pela instauração da ditadura do proletariado. Juntam-se rapidamente na Internacional Comunista e no Conselho Internacional dos Sindicatos Operários de Moscou e mobilizam as suas forças para o assalto decisivo contra o capitalismo.


Sem renunciar à possível defesa dos operários contra a exploração capitalista desenfreada, os sindicatos operários ligados a Moscou, ou em vias de ligação, trazem o peso dos seus esforços e da sua atividade no domínio da luta de classe revolucionária e nos preparativos desenvolvidos para a conclusão do seu importante papel histórico, a desempenhar nas revoluções proletárias dos seus próprios países.


Facilmente se compreende que, sob este aspecto, em consequência da natureza do trabalho que as suas massas efetuam, é às organizações dos transportes que incumbe um trabalho tão pesado como importante.


Não é em vão que ultimamente um comunista americano disse:


“No momento em que os sindicatos dos Transportes e dos Mineiros estiverem definitivamente colocados do lado da revolução, a ditadura do proletariado triunfará entre nós, nos Estados Unidos.”


Isto, embora em menor grau, é válido também para os países ainda não completamente desenvolvidos sob o ponto de vista industrial, como é o caso do nosso país.


Não temos razões para recear que o proletariado búlgaro dos transportes possa falhar no seu papel crucial para a revolução proletária no nosso país. Pelo contrário. A experiência amarga dos acontecimentos de janeiro e de fevereiro de 1920 e os preciosos ensinamentos que daí tirou, são mais uma garantia de que estará nas primeiras filas da luta de classe revolucionária, pela ditadura do proletariado entre nós.


A união do proletariado dos transportes, que se opera nas fileiras da União dos Operários dos Transportes e sob a bandeira do comunismo, mostra mais claramente que, entre outras coisas, está perfeitamente consciente das grandes obrigações e responsabilidades que lhe impõe o momento histórico atual.


Assinado: G. Dimitrov.


“Transport” N.° 1 de 20 de dezembro de 1920.