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"L.N. Tolstoi"



Morreu Lev Tolstoi. Sua importância mundial como artista, o seu renome mundial como pensador e doutrinador refletem à sua maneira, a importância mundial da Revolução Russa [1]


L. N. Tolstoi surgiu como grande artista ainda no tempo da servidão. Numa série de obras geniais por ele escritas ao longo da sua atividade literária de mais de meio século, pintou principalmente a velha Rússia de antes da revolução, que mesmo depois de 1861[2] se manteve na semisservidão, a Rússia Rural, a Rússia do latifundiário e do camponês. Descrevendo este período da vida histórica da Rússia, L. Tolstoi soube colocar nos seus trabalhos tantos grandes problemas, soube atingir uma tão grande força artística que as suas obras ocuparam um dos primeiros lugares na literatura mundial. A época de preparação da revolução num dos países oprimidos pelos feudais surgiu, graças à interpretação genial de Tolstoi, como um passo em frente no desenvolvimento artístico de toda a humanidade.


Tolstoi artista é conhecido duma ínfima minoria, mesmo na Rússia. Para que as suas obras grandiosas se tornem efetivamente patrimônio de todos, é necessária a luta, uma luta contra o regime social que condenou milhões e dezenas de milhões de pessoas à ignorância, ao embrutecimento, a um trabalho de forçados e à miséria, é necessária a revolução socialista.


E Tolstoi não criou só obras de arte que sempre serão apreciadas e lidas pelas massas, quando estas tiverem criado condições humanas de vida, derrubando o jugo dos latifundiários e capitalistas, soube transmitir com uma força notável o estado de espírito das amplas massas, oprimidas pelo regime atual, descrever a sua situação, exprimir o seu sentimento espontâneo de protesto e de indignação. Pertencendo principalmente à época de 1861 a 1904, Tolstoi encarnou com impressionante relevo nas suas obras – como artista, como pensador de doutrinador – os traços da peculiaridade histórica de toda a primeira revolução russa, a sua força e a sua fraqueza.


Um dos principais traços característicos da nossa revolução consiste em que ela foi uma revolução burguesa camponesa numa época de desenvolvimento extremamente elevado do capitalismo em todo o mundo e relativamente elevado na Rússia. Foi uma revolução burguesa porque a sua tarefa imediata era o derrube da autocracia czarista, da monarquia czarista, e a destruição da propriedade latifundiária, e não o derrube do domínio da burguesia. O campesinato, em particular, não tinha consciência desta última tarefa, não tinha consciência de em que é que ela diferia das tarefas mais próximas e mais imediatas da luta. E foi uma revolução burguesa camponesa porque as condições objetivas colocavam em primeiro plano a questão da transformação das condições fundamentais da vida do campesinato, da destruição do antigo regime medieval de propriedade da terra, da “limpeza do terreno” para o capitalismo, porque as condições objetivas empurraram as massas camponesas para a cena duma ação histórica mais ou menos independente.


Nas obras de Tolstoi expressaram-se a força e a fraqueza, o poder e a estreiteza precisamente do movimento camponês de massas. O seu protesto caloroso, apaixonado, com frequência impiedosamente acerbo, contra o Estado e contra a igreja oficial-policial, transmite os sentimentos da democracia camponesa primitiva, na qual os séculos de servidão, de arbitrariedade e de pilhagem administrativas, de jesuitismo clerical, de mentiras e fraudes acumularam montanhas de cólera e de ódio. A sua negação intransigente da propriedade privada da terra transmite a psicologia das massas camponesas num momento histórico em que o velho regime medieval de propriedade tanto dos latifundiários como em lotes, se tornara definitivamente um obstáculo intolerável ao desenvolvimento do país e em que devia ser inevitavelmente destruído da maneira mais impiedosa. A sua incansável denuncia do capitalismo, impregnada do mais profundo sentimento e da mais veemente indignação, transmite todo o horror do camponês patriarcal, contra o qual começara a avançar um novo inimigo, invisível, incompreensível, vindo algures da cidade ou do estrangeiro, que destruía todos os “pilares” da vida rural, trazendo consigo uma ruína sem precedentes, a miséria, a morte pela fome, o asselvajamento, a prostituição, a sífilis – todos os flagelos da “época da acumulação primitiva”, cem vezes agudizado pela transferência para o solo russo dos mais modernos processos de pilhagem, elaborados pelo Senhor Cupão[3].


Mas o ardoroso protestatário, o acusador apaixonado, o grande crítico, revelou ao mesmo tempo nas suas obras uma incompreensão das causas da crise e dos meios para sair da crise que avançava sobre a Rússia, própria apenas de um ingênuo camponês patriarcal, mas não de um escritor de formação europeia. A luta contra o Estado feudal e policial, contra a monarquia, transformava-se nele em negação da política, conduziu à doutrina da “não resistência ao mal”, levou-o a afastar-se completamente da luta revolucionária das massas em 1905-1907. A luta contra a igreja oficial era acompanhada da prédica de uma religião nova, depurada, isto é, de um novo veneno depurado, refinado, para as massas oprimidas. A negação da propriedade fundiária privada não conduzia à concentração de toda a luta no verdadeiro inimigo, a propriedade latifundiária e o seu instrumento político de poder, a monarquia, mas a suspiros sonhadores, vagos e impotentes. A denúncia do capitalismo e das calamidades que ele causa às massas era acompanhada duma atitude inteiramente apática para com a luta libertadora mundial travada pelo proletariado socialista internacional.


As contradições nas opiniões de Tolstoi não são contradições apenas do seu pensamento pessoal, mas o reflexo das condições, das influências sociais e das tradições históricas extremamente complexas e contraditórias que determinavam a psicologia das diferentes classes e das diferentes camadas da sociedade russa na época posterior à reforma, mas anterior à revolução.


E por isso a correta apreciação de Tolstoi só é possível do ponto de vista da classe que, pelo seu papel político e pela sua luta durante o primeiro desfecho dessas contradições, durante a revolução, provou a sua vocação de chefe na luta pela liberdade do povo e pela libertação das massas da exploração, provou a sua devoção sem limites à causa da democracia e a sua capacidade de lutar contra a estreiteza e a inconsequência da democracia burguesa (incluindo a democracia camponesa) – só é possível do ponto de vista do proletariado social-democrata.

Vejamos a apreciação que fazem de Tolstoi os jornais do governo. Eles choram lágrimas de crocodilo, afirmando o seu respeito pelo “grande escritor” e defendendo ao mesmo tempo o “santo” sínodo[4]. Mas os santos padres acabam de perpetrar uma vileza particularmente abjecta, enviando os padres junto do moribundo para enganar o povo e dizer que Tolstoi “se arrependeu”. O santo sínodo excomungou Tolstoi. Tanto melhor. Essa proeza ser-lhe-á contada quando o povo ajustar as contas com os funcionários de sotaina, gendarmes em Cristo, com os sinistros inquisidores que encorajaram os pogroms contra os judeus e outros feitos da quadrilha czarista das centúrias negras[5].


Vejamos a apreciação que fazem de Tolstoi os jornais liberais. Eles limitam-se às frases ocas, liberais estereotipadas, triviais e professorais sobre a “voz da humanidade civilizada”, sobre “a repercussão mundial unânime”, sobre as “ideias da verdade, do bem”, etc., pelas quais Tolstoi havia estigmatizado tão fortemente – e estigmatizado justamente – a ciência burguesa. Eles não podem exprimir clara e abertamente a sua apreciação sobre as opiniões de Tolstoi acerca do Estado, da Igreja, da propriedade fundiária privada, do capitalismo, não porque a censura os impede – pelo contrário, a censura ajuda-os a sair do embaraço! – mas porque cada afirmação na crítica feita por Tolstoi é uma bofetada no liberalismo burguês; porque o simples enunciado intrépido, aberto, implacavelmente áspero por Tolstoi das questões mais delicadas, mais malditas do nosso tempo, atinge diretamente as frases estereotipadas, as piruetas triviais, a mentira “civilizada” e evasiva da nossa imprensa liberal (e liberal-populista[6]). Os liberais são todos por Tolstoi, todos contra o sínodo – e ao mesmo tempo são a favor dos vekhistas[7], com os quais “se pode discutir”, mas “é preciso” trabalhar em conjunto na literatura e na política. Ora, Antoni Volinski anda aos beijos aos vekhistas.


Os liberais põem em primeiro plano que Tolstoi foi uma “grande consciência”. Não será isto uma frase oca repetida em mil tons pelo Novoe Vremia[8] e todos os seus pares? Não será isto iludir as questões concretas da democracia e do socialismo colocadas por Tolstoi? Não coloca isto em primeiro plano aquilo que exprime os preconceitos de Tolstói e não a sua razão, aquilo que nele pertence ao passado e não ao futuro, a sua negação da política e a sua prédica do autoaperfeiçoamento moral e não o seu protesto veemente contra toda a dominação de classe?


Tolstoi morreu, e ficou no passado a Rússia de antes da revolução cuja fraqueza e impotência se exprimiram na sua filosofia e foram descritas nas obras do genial artista. Mas na sua herança há algo que não ficou no passado, que pertence ao futuro. O proletariado da Rússia recolhe esta herança e trabalha sobre ela. Ele explicará às massas dos trabalhadores e dos explorados o significado da crítica tolstoiana do Estado, da Igreja, da propriedade fundiária privada – não para que as massas se limitem ao seu autoaperfeiçoamento e aos suspiros sobre uma vida de acordo com deus, mas para que elas se ergam para desferir um novo golpe na monarquia czarista e na propriedade latifundiária, que em 1905 foram apenas ligeiramente abaladas e que é preciso destruir. Ele explicará às massas a crítica tolstoiana ao capitalismo não para que as massas se limitem a maldizer o capital e o poder do dinheiro, mas para que elas aprendam a apoiar-se em cada passo da sua vida e da sua luta nas conquistas técnicas e sociais do capitalismo, aprendam a unir-se num exército único de milhões de combatentes socialistas, que derrubarão o capitalismo e criarão uma nova sociedade sem miséria do povo, sem exploração do homem pelo homem.


Publicado no Jornal “Sotsial-Demokrat”, nº 18, 16 (29) de novembro de 1910. Texto transcrito do Vol. 2 das Obras Escolhidas de V. I. Lenin, das edições Avante! em seis volumes.


Escrito por V. I. Lenin


NOTAS

[1] Refere-se à Revolução Russa de 1905-1907.

[2] Trata-se da “reforma camponesa” que aboliu a servidão na Rússia. Em 19 de fevereiro de 1861, o imperador Alexandre II assinou um manifesto e uma “Disposição” sobre os camponeses, que saíam da dependência servil. A reforma foi realizada no interesse dos latifundiários. A propriedade latifundiária da terra foi mantida. Os camponeses foram obrigados a resgatar os lotes recebidos dos latifundiários. Tal resgate dos lotes pelos camponeses era um roubo descarado por parte dos latifundiários e do governo czarista. O montante dos pagamentos de resgate ultrapassava em muito o valor real dos lotes dos camponeses, o que conduziu à ruína das explorações camponesas. Quando da mediação das terras, os latifundiários cortaram para si uma parte significativa das terras camponesas (terras cortadas) e entregavam aos camponeses as terras piores. Nas mãos dos latifundiários ficavam as melhores terras, os prados, florestas, bebedouros, pastagens, sem os quais os camponeses não podiam ter as suas explorações independentes.

[3] Expressão metafórica usada na literatura dos anos 80 e 90 do século XIX para designar o capital e os capitalistas.

[4] Trata-se do Supremo Órgão estatal na Rússia de 1721 a 1917. Dirigia os assuntos da igreja ortodoxa. O Sínodo era chefiado por um procurador-geral, nomeado pelo Czar. Depois de 1917, órgão consultivo junto do patriarca de Moscou e de toda a Rússia.

[5] Centúrias Negras são bandos de caráter monarquista criados pela polícia czarista para combater o movimento revolucionário. Os membros das centúrias negras atacavam intelectuais progressistas, matavam revolucionários, organizavam pogroms contra judeus.

[6] “Populismo” foi uma corrente pequeno-burguesa no movimento revolucionário russo, surgida nos anos 60-70 do século XIX. Os populistas procuravam a liquidação da autocracia e a entrega das terras dos latifundiários aos camponeses. Negavam a inevitabilidade do desenvolvimento das relações capitalistas na Rússia, e de acordo com isso consideravam que a principal força revolucionária não era o proletariado, mas o campesinato; consideram a comunidade rural como o embrião do socialismo. Frequentemente iam ao campo para mobilizar as massas, porém não encontravam apoio. Era uma variante de socialismo utópico na Rússia. Nos anos 80-90 do século XIX, os populistas seguiram a via de reconciliação com o czarismo e os kulaks e passaram a combater a crescente influência do marxismo na sociedade russa.

[7] Vekhistas: publicistas democratas-constituicionalistas, representantes da burguesia liberal contrarrevolucionária que publicaram na Primavera de 1909 em Moscou uma coletânea de artigos seus sob o título Vekhi (Marcos). Em tais artigos, procuravam atacar as tradições democráticas revolucionárias do movimento de libertação russo e as opiniões e atividades de V. Belinski, Tchernicheviski e Dobroliubov.

[8] Novoe Vremia (Tempos Novos): jornal diário; publicou-se em Petersburgo de 1868 a 1917; pertenceu a diferentes editoras e alterou diversas vezes sua orientação política. A partir de 1905 foi órgão das centúrias negras.