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"Mulher Trabalhadora e Mãe"



Mashenka, esposa do diretor da fábrica


Mashenka é esposa do diretor da fábrica. Mashenka está esperando um bebê. Apesar de todos na casa do diretor da fábrica estarem um pouco ansiosos, o clima é de festa. Isso não é uma surpresa, pois Mashenka vai presentear seu marido com um herdeiro. Haverá alguém a quem ele pode deixar toda sua riqueza - a riqueza criada pelas mãos de homens e mulheres trabalhadores. O médico pediu para que cuidassem, atenciosamente, de Mashenka. Não deixá-la cansada; não deixá-la levantar nada pesado. Deixá-la comer o que quiser. Frutas? Dê algumas frutas a ela. Caviar? Dê caviar a ela.


O importante é que Mashenka não se sinta preocupada ou estressada de forma alguma. Dessa forma o bebê nascerá forte e saudável, o parto será fácil e Mashenka manterá sua flor. É assim que funciona na família do diretor da fábrica. Essa é a maneira aceita de lidar com uma mãe gestante, em famílias em que as bolsas são repletas de ouro e de notas de crédito. Eles cuidam bem da senhora Mashenka. Não se canse Mashenka, tente não se mexer na poltrona. É o que dizem à senhora Mashenka. Os trapaceiros e hipócritas da burguesia afirmam que a mãe gestante é sagrada para eles. Mas será de fato?


Mashenka, a lavadeira


Nos fundos da mesma casa que a do diretor da fábrica, em um canto atrás de uma cortina de chita estampada, encolhe-se outra Mashenka. Ela lava a roupa e faz o trabalho doméstico. Mashenka está grávida de oito meses. No entanto, ela arregalaria seus olhos de surpresa se a dissessem: "Mashenka, você não deve: carregar coisas pesadas, você deve se cuidar, para o seu próprio bem, para o bem da criança e de toda a humanidade. Você está esperando um bebê e isso significa que a sua condição, aos olhos da sociedade, é 'sagrada'''. Masha acharia isso uma intervenção desnecessária ou uma piada de mau gosto. Aonde já se viu uma mulher da classe trabalhadora receber tratamento especial por estar grávida? Masha e as centenas de milhares de outras mulheres das classes sem propriedade, que são forçadas a venderem suas mãos trabalhadoras, sabem que os proprietários não têm compaixão quando veem mulheres necessitadas; e elas não têm outra alternativa, por mais exaustas que estejam, a não ser trabalhar.


“Uma futura mãe deve ter, acima de tudo, um sono tranquilo, boa comida, ar fresco e não muito esforço físico". Isso é o que o médico diz. Masha, a lavadeira, e as centenas de milhares de mulheres trabalhadoras, as escravas do capital, riem na cara dele. Um mínimo de esforço físico? Ar fresco? Comida saudável e o suficiente? Sono sem perturbações? Que mulher trabalhadora conhece essas bênçãos? Estas são apenas para a senhora Mashenka e para as esposas dos proprietários da fábrica.


Logo de manhã, antes que a escuridão dê lugar ao amanhecer, e enquanto a senhora Mashenka ainda está tendo doces sonhos, Mashenka, a lavadeira, levanta-se de sua cama estreita e vai para a lavanderia úmida e escura. Ela é recebida pelo cheiro fétido de roupa suja, escorrega no chão molhado das poças de ontem que ainda não secaram. Não é por vontade própria que Masha se escraviza na lavanderia, ela é conduzida por aquela supervisora incansável - a necessidade. O marido de Masha é trabalhador e seu salário é tão pequeno que duas pessoas não conseguiriam manter-se com ele. E assim, em silêncio, rangendo seus dentes, ela fica em pé sobre o tanque até o último dia possível, até o parto. Não se engane pensando que Masha, a lavadeira, tem "saúde de ferro", como as senhoras costumam dizer quando falam das mulheres trabalhadoras. As pernas de Masha estão pesadas com as veias inchadas, por ficar muito tempo no tanque, ela só consegue andar devagar e com muita dificuldade. Há olheiras em seus olhos. Seus braços estão inchados e ela não dorme direito há muito tempo.


Os cestos de linho molhado costumam ser tão pesados que Masha se apoia na parede para evitar que ela caia. Sua cabeça gira e tudo fica escuro diante de seus olhos. Muitas vezes parece que há um enorme e podre dente alojado em sua coluna e que suas pernas são feitas de chumbo. Se ela pudesse se deitar por uma hora... descansar um pouco... mas mulheres trabalhadoras não têm permissão para fazer tais coisas. Esses luxos não são para elas. Afinal, elas não são mulheres. Masha suporta, em silêncio, seu árduo trabalho. As únicas mulheres "sagradas" são as gestantes que não são conduzidas por esse patrão implacável, a necessidade.


Masha, a empregada


A senhora Mashenka precisa de outra empregada. O mestre e a senhora acolhem a camponesa. A senhora Mashenka gosta da gargalhada da menina e de sua trança que vai até abaixo do joelho, e do jeito que a menina voa pela casa como um pássaro voando, tentando agradar a todos. Uma joia de menina. Eles a pagam três rublos por mês e ela trabalha o suficiente para três pessoas. A senhora está cheia de elogios.


Então o diretor da fábrica começa a se insinuar para a garota. Suas cortesias crescem. A menina não vê o perigo; ela é inexperiente, ingênua. O mestre fica ainda mais gentil e amoroso. O médico o aconselhou a não exigir nada de sua esposa. Silêncio, diz ele, é o melhor remédio. O diretor da fábrica está disposto a deixá-la parir em paz, desde que ele não tenha que sofrer. A empregada também se chama Masha. As coisas podem ser organizadas mais facilmente, a garota é ignorante. Burra. Não é difícil assustá-la, ela tem medo de qualquer coisa. E então Masha engravidou. Ela para de rir e começa a parecer abatida. A ansiedade corrói seu coração dia e noite.


Masha, a senhora, descobre. Ela faz um escarcéu. A menina tem vinte e quatro horas para fazer as malas. Masha vagueia pelas ruas. Ela não tem amigos, nenhum lugar para ir. Quem vai empregar “aquele tipo de garota” em qualquer casa “honesta”? Masha vagueia sem trabalho, sem pão, sem ajuda. Ela passa por um rio. Ela olha para as ondas escuras e se afasta, tremendo. O rio gelado e sombrio a apavora, mas ao mesmo tempo parece acenar.


Masha, a tintureira


Há uma confusão no departamento de tingimento da fábrica; uma trabalhadora foi carregada como se estivesse morta. O que aconteceu com ela? Ela foi envenenada pelo vapor? Ela não podia mais suportar a fumaça? Ela não é novata. Já está na hora dela se acostumar com o veneno de fábrica.


“Não é absolutamente nada”, diz o médico. “Você entende? Ela está grávida. As mulheres grávidas tendem a se comportar de todas as maneiras estranhas. Não é necessário ceder a elas".


Então, eles mandam a mulher de volta ao trabalho. Ela tropeça como um bêbado pela oficina de volta ao seu lugar. Suas pernas estão dormentes e se recusam a obedecê-la. Não é brincadeira trabalhar dez horas por dia, dia após dia, em meio ao fedor tóxico, ao vapor e aos gases prejudiciais. E não há descanso para a mãe trabalhadora. Mesmo quando as dez horas se acabam. Em casa, está a mãe idosa e cega esperando pelo jantar dela, e o seu marido volta da fábrica cansado e faminto. Ela tem que alimentar a todos eles e cuidar de todos eles. Ela é a primeira a se levantar de manhã, está de pé ao nascer do sol. E ela é a última a dormir. E então, para coroar, eles implantaram horas extras. As coisas estão indo bem na fábrica, o proprietário está acumulando os lucros com as duas mãos. Ele dá apenas uns copeques extras para as horas extras, mas se você questionar, você sabe o caminho dos portões. Existem, graças a Deus, desempregados suficientes no mundo. Masha tenta uma licença, recorrendo ao próprio diretor.


“Vou ter meu bebê em breve. Preciso deixar tudo pronto. Meus filhos são pequenos e tem o trabalho doméstico; e ainda tenho a minha mãe idosa para cuidar". Mas ele não vai ouvir. Ele é rude com ela e a humilha na frente dos outros trabalhadores. "Se eu começasse a dar folgas a todas as grávidas, seria mais fácil fechar a fábrica. Se você não dormisse com homens, não estaria grávida".


Então, Masha, a tintureira, tem de trabalhar até o último minuto. É dessa forma que a sociedade burguesa valoriza a maternidade.


Parto


Para a família da senhora Masha o parto é um grande evento. É quase um feriado. A casa está cheia de médicos, de parteiras e de enfermeiras. A mãe está deitada em uma limpa e macia cama. Há flores nas mesas. Seu marido está ao seu lado, cartas e telegramas são entregues. Um padre faz orações de agradecimento. O bebê nasce saudável e forte. E isto não é uma surpresa. Eles tomaram tanto cuidado e fizeram tanto alvoroço com Masha.


Masha, a lavadeira, também está em trabalho de parto. Atrás da cortina de chita, no canto de uma sala cheia de outras pessoas. Masha está com dor. Ela tenta reprimir seus gemidos, enterrando a cabeça no travesseiro. Os vizinhos são todos trabalhadores e ela não os privaria do sono deles. Pela manhã chega a parteira. Ela lava e ajeita o bebê e logo corre para outro parto. Mashenka agora está sozinha na sala. Ela olha para o bebê, que é muito mirradinho. Magro e enrugado. Seus olhos parecem reprovar a mãe por ter o parido. Mashenka olha para ele e chora silenciosamente para não incomodar os outros.


Masha, a empregada, pare seu filho debaixo de uma cerca na rua de trás do subúrbio. Ela tentou em uma maternidade, mas esta estava lotada. Ela bateu em outra, mas eles não a aceitaram, disseram que ela precisava de vários papéis assinados. Ela pare; ela segue em frente. Ela caminha e cambaleia. Ela envolve o bebê em um lenço. Para onde ela pode ir? Não há para onde ir. Ela se lembra do rio escuro, assustador e até fascinante. Pela manhã, o policial arrasta um corpo para fora do rio. É assim que a sociedade burguesa valoriza a maternidade.


O bebê de Masha, a tintureira, nasceu morto. Não conseguiu sobreviver aos nove meses. O vapor que a mãe inala na fábrica envenenou a criança enquanto ela ainda estava no útero. O parto foi muito difícil. A própria Masha teve sorte em sobreviver. Porém, à noite da manhã seguinte, ela já está a postos, arrumando as coisas, lavando e cozinhando. Poderia ser de outra forma? Quem mais vai cuidar da casa de Masha e organizar a família? Quem cuidaria para que as crianças sejam alimentadas? A senhora Masha pode ficar nove dias deitada na cama por ordem do médico, pois ela tem toda uma disposição de empregados para dançar à sua volta. É muito ruim se Masha, a tintureira, desenvolve uma doença grave por ter ido trabalhar logo após o parto e fica coxa, por conta disto.


Não há ninguém para cuidar da mãe trabalhadora. Ninguém para tirar os pesados fardos dos ombros dessas mulheres cansadas. A maternidade, dizem eles, é sagrada. Mas isso só é verdade no caso da senhora Masha.


A Cruz da Maternidade


Para Masha, a senhora, a maternidade é uma época alegre. Em um brilhante e arrumado berçário, o herdeiro do dono da fábrica cresce sob os cuidados de várias babás e a supervisão de um médico. Se a senhora Masha tiver muito pouco leite ou não quiser prejudicar sua aparência, encontra-se uma ama de leite. A senhora Masha se diverte com o bebê e logo sai para passear, vai às compras, ou ao teatro, ou ao baile. Alguém está à disposição para cuidar do bebê. A maternidade é divertida. É entretenimento para Masha, a senhora.


Para as outras Mashas, as trabalhadoras - as tintureiras, tecelãs, lavadeiras e outras centenas de milhares de mulheres da classe trabalhadora - a maternidade é uma cruz. A sirene da fábrica chama a mulher para trabalhar, mas seu filho está incomodando e chorando. Como ela pode deixá-lo? Quem vai cuidar dele? Ela coloca o leite em uma mamadeira e dá a criança a uma senhora idosa à porta ou deixa sua filha pequena cuidando. Ela sai para trabalhar, mas nunca para de se preocupar com a criança. A menininha, bem intencionada, mas ignorante, pode tentar alimentar seu irmão com mingau ou pedaços de pão.


O bebê da senhora Masha fica melhor a cada dia. Como açúcar branco ou uma firme e rosada maçã; tão forte e saudável. Os filhos da operária, da lavadeira e da artesã emagrecem a cada dia. À noite, o bebê se encolhe e chora. O médico vem e repreende a mãe por não amamentar a criança ou não alimentá-la de forma apropriada. “E você se chama de mãe. Agora só te resta a se culpar se o bebê morrer". As centenas e milhares de mães trabalhadoras não tentam se explicar. Elas abaixam a cabeça, enxugando discretamente as lágrimas. Elas poderiam dizer ao médico as dificuldades que enfrentam? Ele acreditaria nelas? Ele as entenderia?


Eles Morrem Como Moscas


As crianças estão morrendo. Os filhos dos homens e mulheres trabalhadores morrem como moscas. Um milhão de túmulos. Um milhão de mães desoladas. Mas do que as crianças morrem? Quando a morte colhe as flores da primavera, os filhos de quem caem na foice? Como é de se imaginar a morte junta a colheita mais pobre dentre as famílias ricas, onde as crianças vivem no calor e no conforto e são amamentadas com o leite de suas mães ou amas de leite. Nas famílias da realeza, apenas seis ou sete de cada cem crianças recém-nascidas morrem. Nas famílias dos trabalhadores, de trinta a quarenta e cinco morrem. Em todos os países em que os capitalistas controlam a economia e os trabalhadores vendem sua força de trabalho e vivem na pobreza, a porcentagem de bebês que morrem na primeira infância é muito alta. Na Rússia, os números são mais altos do que em qualquer outro lugar. Aqui estão os números comparativos para o número de crianças que sobrevivem à primeira infância: Noruega 93%. Suíça 89%. Inglaterra 88%. Finlândia 88%. França 86%. Áustria 80%. Alemanha 80%. Rússia 72%. No entanto, há várias províncias na Rússia, especialmente aquelas com muitas fábricas, em que 54% das crianças morrem ao nascer. Nas áreas das grandes cidades onde os ricos vivem, a mortalidade infantil é de apenas 8% a 9%; nas áreas das classes trabalhadoras o número é de 30% a 31%. Por que os filhos do proletariado morrem nessa quantidade? Para crescer saudável e forte uma criança pequena precisa de ar fresco, calor, sol, limpeza e atenção cuidadosa. Precisa ser amamentada. O leite de sua mãe é seu alimento natural e irá ajudá-la a crescer e crescer forte. Quantos filhos de famílias da classe trabalhadora têm todas essas coisas que listamos?


A morte faz um lugar firme para si em lares das famílias da classe trabalhadora porque essas famílias são pobres, seus lares são superlotados e úmidos, e a luz do sol não chega ao porão; porque onde há muitas pessoas geralmente é sujo: e porque a mãe da classe trabalhadora não tem a oportunidade de cuidar de seus filhos de forma apropriada. A ciência estabeleceu que a alimentação artificial é o pior inimigo da criança: crianças alimentadas com o leite da vaca e as crianças alimentadas com outros alimentos morrem cinco e quinze vezes mais, respectivamente, do que aquelas que são amamentadas. Mas como fica a mulher que trabalha fora de casa, na fábrica ou na oficina para amamentar o filho? Ela tem sorte se o dinheiro durar para comprar leite de vaca; isso não acontece sempre. E que tipo de leite os comerciantes vendem às mães trabalhadoras, aliás? A cal misturada com água. Em consequência disso, 60% dos bebês morrem devido a doenças do estômago. Muitos outros morrem do que os médicos gostam de chamar de "a incapacidade de viver": a mãe, esgotada pelo seu árduo trabalho físico, pare prematuramente. Ou a criança é envenenada pelos vapores da fábrica quando ainda está no útero. Como pode a mulher da classe trabalhadora cumprir inteiramente suas obrigações maternais?


Trabalho e Maternidade


Houve um tempo, não muito distante, um tempo que nossas avós se recordam de quando as mulheres estavam só envolvidas no trabalho em casa: nos afazeres domésticos e nos artesanatos domésticos. As mulheres das classes não patronais não eram ociosas, é claro. O trabalho em torno da casa era árduo. Elas tiveram de cozinhar, de costurar, de lavar, de tecer, e de manter os lençóis brancos e de trabalhar no jardim da cozinha e nos campos. Mas esse trabalho não as separou do berço; não havia paredes de fábrica separando-as de seus filhos. Por mais pobre que a mulher fosse, seu filho estava em seus braços. Os tempos mudaram. Fábricas foram criadas; oficinas foram abertas. A pobreza expulsou as mulheres de seus lares; a fábrica as puxou com a sua garra de ferro. Quando os portões da fábrica batem atrás dela, uma mulher tem que dizer adeus à maternidade porque a fábrica não tem compaixão da mulher grávida ou da mãe jovem.


Quando uma mulher trabalha dia após dia em cima de uma máquina de costura, ela desenvolve uma doença dos ovários. Quando ela trabalha em uma fábrica de tecelagem ou de fiação, uma fábrica de borracha ou de porcelana ou uma fábrica de chumbo ou de química, ela e seu bebê correm o risco de serem envenenados pelo vapor nocivo e pelo contato com substâncias nocivas. Quando uma mulher trabalha com chumbo ou com mercúrio, ela se torna infértil ou seus filhos nascem natimortos. Quando ela trabalha em uma fábrica de cigarros ou tabaco, a nicotina em seu leite pode envenenar o filho dela. Mulheres grávidas também podem mutilar ou matar seus filhos carregando fardos pesados, ficando de pé por muitas horas em um banco ou em um balcão, ou correndo para cima e para baixo por capricho da senhora da casa. Não há trabalho perigoso ou prejudicial o qual as mulheres são barradas. Não há nenhum tipo de indústria que não empregue gestantes ou lactantes. Nas condições em que vivem as trabalhadoras na produção é o túmulo da maternidade.


Há uma solução para o problema?


Se as crianças forem natimortos, nascem aleijadas ou morrem como moscas, faz sentido a trabalhadora engravidar? Todas as provações do parto compensam se a trabalhadora tem de deixar seus filhos à mercê quando ainda são tão pequenos? Ainda que ela queira criá-lo adequadamente, não tem tempo de cuidar e zelá-lo. Sendo assim, não é melhor apenas evitar a maternidade?


Muitas trabalhadoras estão pensando duas vezes antes de ter filhos. Elas não suportam carregar a cruz. Há uma solução para o problema? As proletárias têm de se privar da última alegria que as restam na vida? A vida as machucou, a pobreza dá a elas um nada e a fábrica suga sua força; isso significa que a proletária deva abrir mão do direito às alegrias de ter filhos? Desistir sem lutar? Sem tentar vencer o que a natureza determinou a todos os seres? Há uma alternativa? Claro que há, mas nem toda proletária está ciente disso.


Qual é a alternativa?


Imagine uma sociedade, um povo, uma comunidade aonde não há mais senhoras Mashenka e lavadeiras Mashenka. Aonde não há parasitas e nem proletários contratados. Aonde todas as pessoas trabalham na mesma quantidade e a sociedade, em troca, cuida e as ajudam na vida. Da mesma forma que senhoras Mashenka são cuidadas por seus parentes, aquelas que precisam de mais atenção - as mulheres e os filhos - serão cuidadas pela sociedade, que é como uma grande e amigável família. Quando Mashenka, que agora não é nem uma senhora nem uma empregada, mas simplesmente uma cidadã, engravida, ela não tem que se preocupar com o que acontecerá com ela e com o filho. A sociedade, aquela grande e amigável família, cuidará de tudo.


Um lar extraordinário com jardim e flores estará pronto para recebê-la. Será tão planejado que toda gestante que acaba de dar à luz poderá viver lá alegremente com saúde e conforto. Os médicos nessa sociedade-família são preocupados não somente em preservar a saúde da mãe e da criança, mas em preservar a mulher da dor do parto. A ciência está progredindo nesse campo e pode ajudar o médico nessa questão. Quando a criança está forte o suficiente, a mãe retorna à sua vida normal e retoma o trabalho que faz em prol da grande sociedade-família. Ela não precisa se preocupar com o filho, a sociedade está lá para ajudá-la. As crianças crescerão no jardim de infância, na colônia infantil, na creche e na escola sob os cuidados de enfermeiras experientes. Quando a mãe quer estar com seus filhos, basta dizer uma palavra; e quando ela não tiver tempo, saberá que eles estão em boas mãos. Maternidade não é mais uma cruz. Apenas seus momentos alegres permanecem: apenas a grande felicidade de ser mãe, esta que no momento só senhoras Mashenka desfrutam.


Mas a tal sociedade é encontrada somente em contos de fadas? Poderia tal sociedade existir? A ciência da economia e a história da sociedade e do Estado mostra que tal sociedade deve e vai surgir. Por maior que sejam os ricos capitalistas, os donos de fábricas, os donos de terra e as pessoas de propriedade, o conto de fadas se realizará. A classe trabalhadora de todo o mundo está lutando para realizar esse sonho. E ainda que a sociedade esteja longe de ser uma família feliz, ainda que haja muitas lutas e desafios pela frente, ao mesmo tempo é verdade que a classe trabalhadora de outros países teve grandes avanços. Homens e mulheres trabalhadores estão tentando aliviar a cruz da maternidade fazendo com que leis sejam aprovadas, tomando outras medidas.


Como a lei pode ajudar?


A primeira coisa a ser feita e a primeira coisa que homens e mulheres trabalhadores estão fazendo em todos os países é ver que a lei defende a mãe proletária. Considerando que a pobreza e a insegurança forçam as mulheres a trabalharem, e o número de mulheres que trabalham fora aumenta a cada ano, o mínimo a ser feito é assegurar que o trabalho formal não se torne o "túmulo da maternidade". A lei deve intervir para ajudar mulheres a conciliarem trabalho e maternidade.


Homens e mulheres trabalhadores de todos os lugares exigem a proibição por completo do trabalho noturno às mulheres e aos jovens, uma jornada de oito horas a todos os trabalhadores e a proibição de trabalho a crianças com menos de dezesseis anos de idade. Eles exigem que meninas e meninos com menos de dezesseis trabalhem apenas metade do dia. Isso é fundamental, especialmente no ponto de vista da futura mãe, já que entre os dezessete e dezoito anos a menina já está crescendo e se tornando uma mulher. Se a força dela é minada durante esses anos suas chances de uma maternidade saudável são perdidas para sempre.


A lei deve estabelecer categoricamente que as condições de trabalho e toda a situação de trabalho não deve ameaçar a saúde da mulher; os métodos de produção prejudiciais devem ser substituídos por métodos seguros ou devem ser eliminados por completo; trabalhos pesados com pesos ou máquinas movidas a pé devem ser mecanizados; as salas de trabalho devem ser mantidas limpas e lá não deve haver temperaturas extremas; banheiros, lavabos e refeitórios devem ser providenciados. Essas exigências podem ser atendidas - elas já foram encontradas em fábricas-modelo - mas os donos das fábricas não gostam de desembolsar o dinheiro. Todos os ajustes e todas as melhorias são caros e a vida humana é muito barata.


É de grande importância uma lei que estabeleça que as mulheres devam trabalhar sentadas. Também é importante que multas efetivas, e não somente nominais, sejam aplicadas aos proprietários de fábricas que infringirem a lei. A tarefa de fiscalizar o cumprimento da lei deve ser confiada não somente aos fiscais da fábrica, mas também aos representantes eleitos pelos trabalhadores.


Proteção da Maternidade


A lei deve proteger a mãe. Até agora, a lei russa (Artigo 126: "condições na indústria") concede às trabalhadoras em grandes fábricas o direito a quatro semanas de licença-maternidade. Claro, é pouco. Na Alemanha, na França e na Suíça, por exemplo, a mãe tem direito a oito semanas de licença-maternidade sem perder o trabalho. Isto, no entanto, não é suficiente. O partido trabalhista exige um intervalo de dezesseis semanas: oito antes e oito após o parto. A lei também deve estipular que a mãe tem o direito a uma folga durante a jornada de trabalho para alimentar seu filho. Essa exigência já se tornou lei na Itália e na Espanha. A lei deve exigir que creches seja construídas e que outras salas devidamente aquecidas, onde os bebês possam ser amamentados, seja providenciadas pelas fábricas e pelas oficinas.


Seguro Maternidade


No entanto, não basta a lei proteger a mãe tão somente por ver que ela não precisa trabalhar durante o período de gestação. É fundamental que a sociedade garanta o bem-estar material da mulher durante a gravidez. Não seria de fato um "descanso" à mulher se ela simplesmente fosse impedida de ganhar seu pão de cada dia por dezesseis semanas. Isso seria condená-la à morte certa. A lei deve, portanto, não somente proteger a mãe no trabalho, mas também deve iniciar, custeada pelo Estado, um esquema de benefícios de maternidade.


Essa segurança ou seguro-maternidade já tem sido implantado em quatorze países: Alemanha, Áustria, Hungria e Luxemburgo. Inglaterra, Austrália, Itália, França, Noruega, Sérvia, Romênia, Bósnia e Herzegovina e Rússia. Em onze países, incluindo a Rússia, a trabalhadora solicita um seguro em uma corretora de seguros, pagando contribuições semanais. Em troca, a corretora paga o dinheiro dos benefícios (o valor varia de país para país, mas em nenhum deles excede o salário integral) e também concede assistência médica e parteira. Na Itália, a trabalhadora paga suas quotas e recebe ajuda de maternidades especializadas. Outras contribuições são pagas pelo proprietário da fábrica onde ela trabalha e pelo Estado. Mesmo nesse caso, no entanto a trabalhadora deve arcar com o maior encargo financeiro. Na França e na Austrália, a trabalhadora não tem que fazer nenhum tipo de seguro. Qualquer mulher, casada ou solteira, tem o direito de receber ajuda do Estado caso precise. Na França, ela recebe os benefícios durante um período de oito semanas (vinte e cinco copeques por dia, às vezes mais), além da assistência médica e uma parteira. Na Austrália, ela recebe uma quantia total de cinquenta rublos. Na França, também foi organizado um sistema de "governanta substituta". Ao fim da gravidez de uma mulher, uma amiga ou uma vizinha que frequentou os cursos gratuitos de cuidado às mulheres grávidas e às crianças pequenas vem para ajudar. Ela continua a fazer as visitas diárias até que a mãe esteja bem o suficiente para se levantar: ela arruma a casa, faz o jantar, cuida do bebê e é paga por esse serviço pela corretora. Na França, na Suíça, na Alemanha e na Romênia, a mãe também recebe benefícios de uma corretora de seguros durante o período que está amamentando os filhos. Dessa forma, foram dados os primeiros passos em relação ao amparo às mães.


O que os trabalhadores estão exigindo?


Tudo que está sendo feito no momento é pouco, é claro. A classe trabalhadora está tentando fazer com que a sociedade assuma as dificuldades do parto. A classe trabalhadora quer assegurar que a lei e que o Estado arquem com as preocupações mais urgentes da trabalhadora - as preocupações materiais e financeiras. Ainda que a classe trabalhadora perceba que apenas uma nova sociedade, a grande e amigável família mencionada anteriormente, assumirá o cuidado integral da mãe e da criança, é possível desde já facilitar a vida da mulher da classe trabalhadora. Muito já foi conquistado. Mas temos de continuar lutando. Se trabalharmos juntos, ganharemos ainda mais.


O Partido Trabalhista em todos os países exige que haja planos de seguro-maternidade que cubra todas as mulheres, independente da natureza de seu trabalho, não importa se a mulher é uma empregada, uma operária, uma artesã ou uma camponesa pobre. Os benefícios devem ser fornecidos antes e depois do parto, por um período de seis semanas. Uma mulher deve continuar a receber os benefícios se o médico considerar que ela não se recuperou o suficiente ou que a criança não está forte o suficiente. A mulher deve receber os benefícios integrais até se criança morrer ou o parto for prematuro. Os benefícios devem ser uma vez e meia maior do que o salário regular da mulher; quando uma mulher é desempregada, ela deve receber uma vez e meia o salário médio de uma mulher que trabalha. Também deve constar na lei - e é muito importante - que os benefícios não sejam inferiores a um rublo por dia para as grandes cidades e setenta e cinco copeques por dia para as pequenas cidades e para as aldeias. Caso contrário, se o salário de uma mulher fosse de trinta copeques, ela receberia apenas quarenta e cinco copeques. Como pode uma mãe e uma criança viver dignamente com quarenta e cinco copeques por dia? Uma mãe pode ter tudo que ela precisa para a vida e para a saúde com quarenta e cinco copeques? A mãe também deve receber benefícios da corretora durante todo o período que ela estiver amamentando o filho, e não menos do que nove meses. O tamanho do benefício deve ser cerca de metade do salário normal.


Os benefícios devem, portanto, ser pagos tanto antes quanto após o parto, e deve ser pago diretamente nas mãos da mãe ou de alguma pessoa autorizada por ela. O direito ao recebimento dos benefícios deve ser estabelecido sem nenhuma das condições que estão em vigor no momento. De acordo com a nossa lei russa, por exemplo, uma mulher deve ter sido um membro do departamento por três meses para ser elegível. À mulher devem ser garantidos os serviços médicos gratuitos e uma parteira e a ajuda de uma "dona de casa substituta", conforme organizado na França e, em certa medida, na Alemanha e na Inglaterra.


A responsabilidade de assegurar que a lei seja cumprida e que a parturiente receba tudo que ela tem direito é das delegadas eleitas entre as trabalhadoras. As mães grávidas e as lactantes devem ter o direito legal de receber leite gratuito e, se necessário, enxoval para o novo bebê, custeado pela cidade ou pela aldeia. O Partido Trabalhista também exige que a cidade, o Zemstvo ou a corretora de seguros construam creches para crianças pequenas em cada fábrica. O custeio disso deve ser fornecido pelo proprietário da fábrica, pela cidade ou pelo Zemstvo. Essas creches devem ser organizadas de forma que cada lactante possa facilmente visitar e amamentar o bebê nos intervalos do trabalho permitido por lei. A creche deve ser administrada não pelas senhoras filantrópicas, mas pelas próprias mães trabalhadoras.


A cidade, o Zemstvo ou a corretora de seguros devem, às próprias custas, construir também em números suficientes: (i) Casas de maternidade. (ii) Lares para as mães grávidas e lactantes que estão sozinhas e não trabalham (estas já existem na França, na Alemanha e na Hungria). (iii) Consultas médicas gratuitas às mães e às crianças pequenas, para que o médico possa observar o curso da gravidez, dar conselhos e instruir a mãe nos cuidados infantis. (iv) Clínicas para crianças doentes, como as construídas pela Women’s Labor League na Inglaterra. (v) Jardins de Infância onde a mãe pode deixar seus filhos pequenos - de dois a cinco anos - enquanto ela trabalha. Por ora, a mãe retorna do trabalho, cansada e exausta, precisando de paz e silêncio; e imediatamente ela tem que começar a trabalhar de novo para cuidar dos filhos famintos, sujos e desarrumados. Faz toda a diferença para a mãe chamar e buscar os filhos bem alimentados, limpos e cheios de novidade, alegremente, e ter os mais velhos, que aprenderam a ajudar no jardim de infância e são orgulhos de seu conhecimento, dando uma mãozinha em casa. (iv) Cursos gratuitos de cuidado infantil para meninas novas e mães. (vii) Cafés da manhã e jantares gratuitos para grávidas e mulheres lactantes, um serviço que já foi iniciado na França.


Essas medidas não devem ser taxadas com o amargo rótulo de "filantropia". Cada membro da sociedade - isso significa toda trabalhadora e todo cidadão, homem e mulher - tem o direito de exigir que o Estado e a comunidade se preocupem com o bem-estar de todos. Por que as pessoas formam um estado, se não para esse propósito? No momento, não há governo em nenhum lugar do mundo que cuide de seus filhos. Homens e mulheres trabalhadores em todos os países estão lutando por uma sociedade e por um governo que realmente se tornará uma grande família feliz, em que todas as crianças serão iguais e a família cuidará igualmente de todos. Assim a maternidade será uma experiência diferente e a morte deixará de fazer uma colheita tão abundante entre os recém-nascidos.


O que toda trabalhadora deve fazer?


Como todas essas exigências podem ser conquistadas? Qual ação deve ser tomada? Cada mulher da classe trabalhadora, cada mulher que lê este panfleto, deve abandonar sua indiferença e começar a apoiar o movimento da classe trabalhadora, que está lutando por essas exigências e está moldando o velho mundo em um futuro melhor em que mães não chorarão mais as lágrimas amargas e em que a cruz da maternidade se tornará uma grande alegria e um grande orgulho. Devemos dizer a nós mesmos: "Há força na unidade"; quanto mais trabalhadoras juntarem-se ao movimento da classe trabalhadora, maior será nossa força e mais rápido teremos o que queremos. Nossa felicidade e a vida e o futuro de nossos filhos estão em jogo.


Panfleto escrito por Alexandra Kollontai em 1916

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