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"Chiquinha Gonzaga, uma feminista de outros carnavais"



26 de novembro de 1914. No Palácio do Catete, o marechal Hermes da Fonseca promove sua última recepção oficial como presidente da República. Comandando e animando a festa, da. Nair de Teffé que, para espanto da fina flor da janotagem ali presente, rompe o protocolo: em vez de sentar-se ao piano e interpretar um dos eruditos da moda, empunha o violão e ataca de “Corta Jaca”, um maxixe de Chiquinha Gonzaga. A música popular brasileira, que diria, acabava de entrar para o esnobe grand mode tupinambá; e pelas mãos da primeira-dama do País... No dia seguinte a imprensa dita mundana deitava e rolava: escândalo! Numa época em que a elite só admitia danças coletivas, discretas, um maxixe que sugerisse o entrelaçamento de casais, propondo um saudável dançar agarradinho entre os convivas, só poderia mesmo ser considerado escandaloso.


Escândalos com a elite, porém, foram ingredientes que não faltaram na saborosa – e muitas vezes apimentada – existência da compositora do Corta Jaca. Nascida Francisca Hedwiges Gonzaga a 17 de outubro de 1847, na antiga rua do Príncipe – reduto da aristocracia do velho Rio – o primeiro entrevero envolvendo a sociedade e Chiquinha deu-se quando a moçoila, aos 18 anos, resolveu-se separar de seu digníssimo marido, o comandante da Marinha Mercante Jacinto Ribeiro do Amaral. Razões não lhe faltaram, com certeza: casada desde os 13 – o noivo fora escolhido pela família, sem que ela sequer opinasse, como mandava o costume da época – acompanhava há cinco anos o marido em suas compridas viagens de transporte de escravos, ela que não conseguia ficar insensível aos gemidos que vinham dos porões. Além do mais, o marido a proibira de tocar piano (o que fez com que ela começasse a aprender violão), tanto a bordo como em casa.


Com cinco filhos nas costas, após uma tentativa frustrada de volta à casa paterna – onde não encontrou a ajuda nem a compreensão esperadas –, a filha do barão da Gávea resolveu pegar o touro à unha e foi à luta, deixando de lado seus antigos privilégios de aristocrata: alugou um porão no bairro de São Cristóvão, para onde se mudou com as crianças e passou a oferecer de porta em porta seus serviços de professora de línguas, história e música, além das partituras que compunha durante à noite.


Como as família relutassem em liberar seus pimpolhos para que aprendessem com uma mestra tão independente, Chiquinha passou também a tocar nos saraus e rodas de choro, fazendo acompanhamentos de piano por dez mil réis por noite – quantia insignificante – junto com seu filho João Gualberto, que com apenas 10 anos de idade já descolava seus dois mil réis ao cavaquinho...


A música, entretanto, não só serviu para sustentar a compositora, como também representou um canal para a participação política de Chiquinha em vários acontecimentos marcantes do 2º Reinado e nos primeiros anos da República. Assim é que, engajada na luta pela Abolição, ela percorreu as ruas do Rio de Janeiro, vendendo como de hábito suas canções, só que agora o dinheiro era destinado ao Movimento Libertador.


Após ter musicado uma peça de Arthur de Azevedo – trabalho que não foi aceito pelo empresário por ‘ter sido feito por uma mulher’ – Chiquinha acabou mesmo virando o centro das fofocas cariocas ao compor, em 1885, uma partitura para o teatro de revista “Corte na Roça”: pela primeira vez no Brasil, uma mulher empunhava a batuta como maestrina.


Outro “escândalo”, que deu o que falar, foi a convocação que fez a todos violonistas e violeiros do Rio, para um concerto no teatro São Pedro. Vale lembrar aqui, que o violão naquele tempo era considerado um instrumento “maldito” pelos empolados frequentadores dos saraus musicais onde o piano reinava absoluto. Decidida a “limpar o nome” do injustamente aviltado instrumento musical, acabou por realizar o concerto com mais de 100 violões – a maioria deles vinda do subúrbio –, num programa de músicas exclusivamente populares.

Resultado: êxito de público e os habituais narizes torcidos por parte da “elite”. Para que se tenha uma noção da ousadia do procedimento da “ovelha negra” do distinto clã dos Gonzaga, vale a pena reproduzir trecho do ofício de um chefe de polícia ao juiz-ouvidor do Rio, encaminhando um cidadão “acusado de serenata”: “E se V. Ex.º ainda tiver sombra de dúvida quanto à conduta do réu, queira examinar-lhe as pontas dos dedos, e verificará que ele toca violão”...


Personagem das mais ativas nos acontecimentos políticos de 1893, Chiquinha acabou mais uma vez por irritar os poderosos: considerando sua cançoneta “Aperte o Botão” muito irreverente e subversiva, Floriano Peixoto decretou a prisão da autora, bem como a apreensão da partitura da peça e a inutilização de toda a edição.


O feitiço, entretanto, acabou por se virar contra o feiticeiro, pois a perseguição só fez aumentar a popularidade da compositora. Popularidade que, a partir daí, não parou de crescer um só minuto: constantemente requisitada pelos autores teatrais, as peças, operetas ou burletas que trouxessem na parte musical a assinatura de Chiquinha Gonzaga estavam fatalmente destinadas ao sucesso. Foi o que aconteceu com “Zizinha Maxixe”, de autoria de Machado Careca, que tinha o “Corta Jaca” como peça de resistência, ficando muito tempo em cartaz. Outro sucesso estrondoso de Chiquinha foi a peça “Forrobodó”, escrita por Carlos Bittencourt e musicada por ela que teve nada mais nada menos que 1500 representações após sua estreia em junho de 1912.


Um detalhe: para essa burleta, a compositora bateu seu próprio recorde em matéria de criação e velocidade, compondo 18 números musicais, ininterruptamente, em menos de um dia. E foi também graças à carreira de “Forrobodó” (que rendeu um bom dinheiro para os empresários e muito pouco para os autores do libreto e da música), que a incansável Chiquinha, em parceria com o jornalista e caricaturista Raul Pederneira e o escritor Viriato Corrêa, fundou a SBAT – Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a primeira sociedade arrecadadora de direitos autorais do País.


Por essa época, já com seu prestígio consolidado, poucos se lembravam dos “escândalos” da fase mais jovem da compositora. Cercada do carinho dos amigos, foi envelhecendo calmamente no Rio de Janeiro, desfrutando um pouco de tranquilidade após ter-se firmado no meio musical como pessoa de grande talento. A ela coube, além de agitar a poeira da elite bem-comportada na segunda metade do século passado a nível de costumes, a descolonização parcial dos vários gêneros musicais que esta mesma elite importava e adotava, sem abrir brechas para as manifestações mais populares. E foi com certeza cantarolando um de seus antigos sucessos carnavalescos – composto em 1899 a pedido dos negros que integravam o famoso cordão Rosa de Ouro –, que o espírito irreverente de Chiquinha pediu passagem na azulada passarela do céu naquela tarde de 28 de fevereiro de 1935: “Ô, abre alas, que eu quero passar”. Diz a lenda que os anjos abriram...


Texto de Fernando Paiva.


Publicado no caderno “Mulher”, da Folha de São Paulo, em 6 de fevereiro de 1983. Página 12









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