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"A arte na sociedade comunista"



Como de costume, tampouco aqui Sancho[1] é feliz nos seus exemplos práticos. Afirma ele que “ninguém pode substituir-te, por exemplo, como compositor musical, como pintor, etc. Ninguém poderia substituir Rafael em seus trabalhos”. Sancho, no entanto, deveria saber que a maior parte do Réquiem de Mozart não foi composta e acabada pelo próprio Mozart e que poucos afrescos de Rafael foram executados por ele mesmo.[2]


Sancho imagina que os chamados organizadores do trabalho[3] pretendem organizar a atividade total de cada indivíduo, quando, na verdade, são precisamente eles que distinguem o trabalho imediatamente produtivo, que deve ser organizado, do trabalho que não é imediatamente produtivo. E, nestes trabalhos, não se trata, como Sancho especula, de que que qualquer um possa trabalhar substituindo Rafael – trata-se de que todo aquele que traga dentro de si um Rafael possa se desenvolver ilimitadamente. Sancho pensa que Rafael pintou independentemente da divisão do trabalho que, no seu tempo, existia em Roma. Se se compara Rafael com Leonardo da Vinci e Tiziano, poder-se-á verificar até que ponto as obras de arte do primeiro estão condicionadas pelo florescimento a que então Roma chegara sob influência de Florença, as do segundo pela situação florentina como, mais tarde, as de Tiziano pelo desenvolvimento, totalmente distinto, de Veneza. Rafael, nem mais nem menos que qualquer outro artista, estava sob a influência dos progressos técnicos da arte alcançados previamente, da organização da sociedade e da divisão do trabalho em sua localidade e, enfim, da divisão do trabalho em todos os países com os quais a sua localidade mantinha relações. A possibilidade de um indivíduo como Rafael desenvolver o seu talento depende inteiramente da demanda, a qual, por sua vez, depende da divisão do trabalho e das condições culturais – daí derivadas – dos homens.


Stirner, quando proclama o caráter “único” do trabalho científico e artístico, está muito aquém da burguesia. Já agora leva-se em conta a necessidade de organizar estas atividades “únicas”. Horace Vernet não teria tido tempo de pintar nem a décima parte de seus quadros se os considerasse trabalhos “que somente este Único poderia executar”. A grande demanda de vaudevilles e de romances em Paris determinou a organização do trabalho para a sua produção, que oferece coisas sempre melhores que seus concorrentes “únicos” da Alemanha. No campo da astronomia, figuras como Arago, Herschel, Encke e Bessel julgaram necessário organizar-se para intercambiar as suas observações e daí decorreram resultados muito proveitosos. E na historiografia seria absolutamente impossível ao “Único” oferecer qualquer coisa e já há algum tempo que os franceses ganharam a vanguarda das nações graças também à organização do trabalho. Mas, diga-se de passagem, os resultados alcançados por esta organização, baseada na moderna divisão do trabalho, ainda são muito limitados, representando um progresso apenas na medida em que se os compara com a situação de isolamento anterior.


Há que sublinhar especialmente que Sancho confunde a organização do trabalho com o comunismo e até se assombra com o fato de o “comunismo” não contestar às suas objeções a esta organização. É o mesmo que um jovem aldeão da Gasconha lamentar-se de que Arago não saiba dizer-lhe em qual estrela o bom Deus estabeleceu a sua corte.


A concentração exclusiva do talento artístico em indivíduos únicos – e a consequente asfixia de tais dotes na grande massa – deriva da divisão do trabalho. Se, mesmo sob certas condições sociais, todos pudessem chegar a ser pintores magníficos, isto não excluiria, em absoluto, que cada qual fosse um pintor original – com o que, também, neste ponto, reduzir-se-ia a um puro absurdo a distinção entre o trabalho “humano” e o trabalho “único”. De qualquer modo, numa organização comunista da sociedade, desaparece a subordinação do artista à limitação local e nacional – que deriva unicamente da divisão do trabalho – e a inserção do indivíduo em uma determinada arte, de tal maneira que existam exclusivamente pintores, escultores, etc., designações que expressam com eloquência a limitação do seu desenvolvimento profissional e sua dependência da divisão do trabalho. Numa sociedade comunista não haverá pintores, mas, no máximo, homens que, entre outras coisas, também se ocupam com a pintura.


Em A ideologia Alemã


Escrito por Karl Marx e Friedrich Engels


Notas


[1] Referência ao livro de Max Stirner “O único e sua propriedade”.

[2] Réquiem fora concluído após a morte de Mozart pelo seu discípulo Susmeyer e Rafael realizou seus afrescos com a colaboração também de discípulos.

[3] “Organizadores do Trabalho”: nome dado aos socialistas utópicos das décadas de 1830-1840, em especial Roberto Owen e C. Fourier, assim como seus seguidores.

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