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Do curso de marxismo da Academia de Moscou sobre Marx e Engels



Finalizamos na última conferência a história da Internacional. Quase não citamos o papel de Engels, e sabemos que isso interessa grandemente, a julgar pelas notas que recebi dos meus ouvintes.


Foi me perguntado se Engels era na verdade um fabricante. Como nos últimos tempos, sob o regime da NEP, a palavra “fabricante” ganhou um sentido pejorativo e se emprega ainda contra os administradores comunistas, nos deteremos um pouco nesse assunto. Engels, já dizemos no começo, provinha de uma família de industriais e também era um. A fundação da Internacional foi levada a cabo sem sua intervenção, e até o início de 1870 não teve nela senão uma participação insignificante e indireta. Durante esses anos, escreveu alguns artigos para as revistas operárias inglesas. Não falamos da ajuda sistemática prestada a Marx, que nos primeiros anos da Internacional se encontrava em uma situação de grande pobreza. Sem a ajuda de Engels e a pequena herança que lhe havia deixado seu amigo Wilhelm Wolf, a quem dedicou O Capital, Marx não poderia ter superado a miséria e estar condições de escrever sua obra fundamental. Entre sua correspondência há uma carta comovente destinada a Engels para informar-lhe que tinha recebido finalmente a última prova de impressão: “Por fim – escreve – este tomo está finalizado. A ti somente devo por ter podido concluí-lo. Sem tua ilimitada ajuda jamais poderia terminar o prodigioso trabalho de três tomos. Te agradeço com todo coração e te abraço”.


Engels foi industrial, mas há que se notar que não o foi por muito tempo. Após a morte do seu pai, em 1860, permaneceu ainda vários anos como um simples empregado. Somente em 1864 foi associado aos negócios, passando a ser um dos diretores da fábrica. Durante todo esse tempo se esforçou para se livrar do seu “ofício desprezível”. Sonhava com seu futuro e, sobretudo, com o de Marx. Temos, a este respeito, várias cartas muito curiosas escritas à Marx em 1868, nas quais comunicava que estava se esforçando para abandonar a fábrica, mas que queria fazê-lo em condições que assegurassem a existência do seu amigo.


Chegou finalmente a um entendimento com seu sócio e em 1869 deixou a fábrica, não antes sem assegurar, como dizemos, o futuro de Marx, quem, desde então ficou livre da miséria. Mas até setembro de 1870, Engels não pode se radicar em Londres.

Para Marx a chegada de Engels foi não somente uma alegria pessoal, mas também um alívio considerável no trabalho que realizava no Conselho Geral. Assim, deveria tratar com inúmeros representantes de distintas nações, com quem se comunicava verbalmente ou por escrito. Engels, que em sua juventude já estava muito bem capacitado para os idiomas, falava ou, como dizia seus amigos de forma irônica, arranhava uma dúzia de línguas. Era, pois, um auxiliar precioso para a correspondência internacional, além do que, em sua larga prática comercial, havia aprendido a ordenar os assuntos, o que não constituía exatamente o forte de Marx.


Desde sua incorporação ao Conselho Geral, Engels se dedicou a tal trabalho. Mas assumiu ainda outra parte do trabalho para aliviar Marx, cuja saúde estava demasiadamente debilitada pelas privações e trabalho excessivo. Empolgado, depois de ter aspirado por muito tempo este tipo de atividade, Engels, como provam os debates do Conselho Geral, se tornou um dos seus membros mais diligentes.


Mas a participação de Engels no Conselho Geral teve igualmente sua fase negativa. Quando se estabeleceu em Londres, os comunistas lutavam contra os bakuninistas e essa luta repercutia no Conselho. Por outra parte, nessa época, segundo vimos, existiam entre os ingleses profundas divergências na apreciação dos problemas de princípios e de tática.


Como sabemos pelo exemplo da organização moscovita e por ele, os diversos distritos da capital, as divergências políticas se complicam e se agravam frequentemente em consequência do caráter pessoal dos adversários. Ocorre também que membros de uma organização aderem a tal ou qual grupo ou plataforma muito menos por razões de princípios do que por motivos de vinculação pessoal com chefes ou militantes influentes de um ou outro grupo. Assim, camaradas em quem a voz do sentimento afoga a da razão, transferem suas simpatias por uma pessoa à doutrina e princípios sustentados por ela. Seja como for, as divergências pessoais complicam a luta de princípios.

Quando tais divergências são suscitadas em um distrito, em geral se pode remediar o problema afastando de forma temporária os militantes. Mas esse procedimento, eficaz em um bairro, em uma região ou até um país, era inaplicável na Internacional. Em geral, a solução das dificuldades por meio da transferência de militantes somente tem um valor restrito. É muito melhor anular rapidamente as oposições, seja por um acordo, seja pela divisão.


Falamos das razões objetivas que haviam provocado as divergências no partido inglês. O que não compreendem ou não querem compreender certos historiadores da Internacional e, em particular, os historiadores do movimento operário inglês, é que o Conselho Geral que dirigiu de 1864 a 1873 o movimento operário internacional era, ao mesmo tempo, o órgão diretor do movimento operário inglês. De maneira que se os assuntos internacionais influenciavam os assuntos ingleses, toda mudança no movimento operário inglês repercutia fatalmente nas funções internacionais do Conselho Geral.


Indicamos a última vez em que as concessões obtidas pelos operários ingleses de 1876 a 1871 (leia-se: direito eleitoral para os operários urbanos e legalização das trade unions), provocaram entre os tradeunionistas que integravam o Conselho Geral um robustecimento da corrente conciliadora. O próprio Eccarius se inclinava a isso; nessa época precisamente estavam em situação tranquila e, como acontecia com frequência, se tornava muito mais tolerante perante a burguesia. Com ele haviam vários outros membros do Conselho Geral que, com o tempo, se separaram de Marx.

Devemos destacar também que as relações pessoais que agravaram as principais divergências se explicam pela participação de Engels no Conselho Geral, no qual ele substituía frequentemente a Marx.


Cerca de 20 anos haviam se passado desde que Engels partira para Manchester e, dessa forma, tinha se distanciado do movimento operário durante todo esse tempo. Marx ficara em Londres. Ali mantinha relações com os cartistas, colaborava em seus órgãos, frequentava os clubes operários alemães e compartilhava a vida dos emigrados. Proferia conferências, via regularmente os camaradas e discutia frequentemente com eles, mas as relações com o “pai” Marx eram sempre cordiais e fraternais, seladas por uma grande ternura, como pode ser comprovado até mesmo pelas lembranças daqueles que mais tarde se separaram politicamente. Vínculos particularmente amistosos foram estabelecidos entre os operários e Marx na época da Internacional. Os membros do Conselho Geral que o conheciam, que conheciam sua penúria, sua miserável casa, que eram testemunhas de sua atividade no conselho e que sabiam que ele estava pronto a abandonar todas suas ocupações, sua obra científica, para dar todo seu tempo e todas suas forças à classe operária, o respeitavam profundamente. Sem retribuição alguma, recusando qualquer privilégio e toda honra, Marx trabalhava com infatigável perseverança.


Outra situação ocorria com Engels, a quem a maior parte dos membros do Conselho Geral não conhecia sequer remotamente. Somente os alemães o recordavam, mas Engels ainda tinha que conquistar sua confiança. Para os demais, era um homem rico, um industrial de Manchester que, 25 anos antes havia escrito um bom livro em alemão sobre os operários ingleses. Frequentando, durante quase duas décadas, exclusivamente a sociedade burguesa, os grandes banqueiros e industriais, Engels, naturalmente distinto, adquiriu modos ainda mais refinados. Sempre com boa postura, indiferente, reservado, fino, passo um pouco militar, nunca manifestando intemperanças na linguagem, passava a impressão de um homem seco e frio.


Assim o descrevem os que o conheceram pessoalmente pouco depois de 1840. Na redação da Nova Gazeta Renana, durante a ausência de Marx, Engels tinha frequentemente fortes discussões com seus camaradas, aos quais às vezes fazia transparecer de forma demasiada sua superioridade intelectual. Menos violento que Marx, era muito mais intolerante nas relações pessoais e se alienava assim da amizade de inúmeros operários, ao contrário de Wolf e Marx, que eram professores e camaradas exemplares.


De forma progressiva, Engels se adaptou a nova situação e se livrou dos velhos costumes. Mas nesses anos particularmente difíceis, quando teve que substituir a Marx de forma frequente, seu caráter, sua personalidade, contribuíram consideravelmente para aprofundar os desacordos transitórios, sobretudo no Conselho Geral. Assim, não somente Eccarius, mas também velhos colaboradores de Marx, como Jung, que havia sido por muito tempo secretário geral da Internacional e estava estreitamente ligado a Marx, quem com gosto e muita delicadeza o ajudava no cumprimento da sua árdua tarefa, se retiraram paulatinamente do Conselho Geral.


Naturalmente as fofocas e falatórios habituais foram postos em prática. Muitos que não conheciam Engels não compreendiam porque Marx o amava tanto e fazia-lhe tantos elogios. Há que se ler as lembranças de Hyndmann, fundador da social-democracia inglesa, para apreciar a ruindade das suas explicações. Segundo eles, se Marx estava tão intimamente ligado a Engels, era pela riqueza deste e por sua ajuda. Particularmente vil foi a conduta de alguns ingleses e, entre eles, um tal Smith, que mais tarde participou como tradutor nos congressos da Segunda Internacional, se destacando durante a guerra, como Hyndmann, por seu chauvinismo desenfreado. Nem a ele nem aos demais, Engels nunca os perdoou pela campanha caluniadora contra Marx e, como registrou Vandervelde, pouco antes de morrer expulsou Smith de sua casa, quando este havia ido visitá-lo.


Mas então, pelo ano de 1872, essas fofocas eram difundidas com zelo entre os operários alemães de tendência lassalliana chegados a Londres, e sobretudo entre os jovens revolucionários que haviam escapado depois do esmagamento da Comuna e nada conheciam da história do movimento. O Conselho Geral provinha uma ajuda material aos emigrados, mas por mais que Marx e Engels empreendessem grandes esforços para organizar a ajuda aos communards, estes nunca estavam satisfeitos e os incriminavam.

Mas não foi somente em Londres onde a participação de Engels no Conselho Geral acentuou a divisão. Bakunin e seus seguidores atuavam principalmente na Rússia e nos países latinos: na Itália, na Espanha, no sul da França, em Portugal e na Suíça romana e italiana. Bakunin apreciava de forma destacada a Itália, porque o elemento dominante ali era o lumpemproletariado, no qual via a principal força revolucionária, pois existiam numerosos jovens “sem classe” absolutamente incapazes de ter uma carreira na sociedade burguesa, e porque a pilhagem era naquela região a forma com a qual se manifestava o protesto dos camponeses pobres. Em uma palavra, a Itália tinha elevada quantidade de conterrâneos famintos, mendigos, bandidos, elementos aos quais Bakunin concedia tão grande importância na Rússia.


Era Engels quem mantinha correspondência com esses países e, como pode ser visto em alguns rascunhos que ainda se pode ter acesso, combatia de forma implacável aos bakuninistas.


O célebre folheto sobre a Aliança de Bakunin, que era o informe da comissão do congresso de Haia, no qual se denunciava e combatia a política dos bakuninistas, foi escrito por Engels e Lafargue. Este último, depois da derrota da Comuna, se refugiou na Espanha, onde travou uma encarniçada polêmica com os espanhóis partidários de Bakunin. Marx não colaborou senão no último capítulo, mas politicamente se solidarizava com o conjunto dessa requisitória dirigida contra o bakuninismo.

Depois de 1873, Marx abandonou a atividade pública. Nesse ano finalizou a segunda edição do primeiro tomo de O Capital e corrigiu a tradução francesa, cujo último fascículo foi publicado em 1875. Foi isso, com o novo comentário ao velho opúsculo sobre a Liga dos Comunistas, e um curto artigo para os camaradas italianos, tudo o que Marx publicou de então até 1880. Enquanto o permitia sua debilitada saúde, continuava trabalhando em sua obra capital, da qual havia terminado o primeiro esboço em 1864. Mas ainda assim não teve tempo de preparar definitivamente a impressão do segundo volume, no qual trabalhava nesta época. Agora sabemos que o último manuscrito publicado nesse tomo foi escrito em 1878. Cansado ao extremo, apenas empreendia um trabalho intelectual intenso. Marx estava ameaçado por um ataque de apoplexia. Durante esses anos, sua família e Engels temiam constantemente um fim repentino. O poderoso organismo de Marx, que antes pode resistir a um trabalho sobre-humano, estava então muito debilitado e suportava menos os transtornos físicos e morais do que nos anos de miséria material. A comovente solicitude de Engels, que fazia o quanto era possível para reconfortar fisicamente a seu velho amigo, era pouco eficaz. Marx tinha em rascunho sua imensa obra, a que se dedicava quando suas forças o permitiam, desaparecido o perigo imediato de morte e autorizado pelos médicos a trabalhar algumas horas por dia. O sentimento de que já não estava em condições de cumprir sua tarefa como queria, o torturava. “Estar incapacitado para o trabalho – dizia – é uma sentença de morte para o homem que não quer ser um ignorante”. Após 1878 se viu obrigado a interromper completamente o trabalho acerca de O Capital, mas conservava a esperança de voltar a sua obra quando pudesse se reestabelecer. Esta esperança nunca se realizou.


Contudo, ainda era capaz de escrever. Continuou tomando notas; seguia atentamente ao movimento operário internacional e intelectualmente tomou nele parte ativa, respondendo a inumeráveis consultas e problemas que lhe submetiam de diferentes países. A lista de endereços que anotou em um livro especial é enorme após 1880. Com Engels, que então assumiu definitivamente o grosso do trabalho, estava a par do movimento operário, que se desenvolvia rapidamente e no qual começavam a triunfar as ideias do Manifesto do Partido Comunista, e isso, graças sobretudo a Engels, que de 1870 a 1880 empregou uma intensa energia na propaganda revolucionária.

Falar de luta entre marxistas e bakuninistas na Primeira Internacional é exagerado. Os segundos eram na realidade bastante numerosos, mas suas fileiras estavam compostas dos elementos mais heterogêneos, somente unidos pela campanha contra o Conselho Geral.


A situação era ainda pior entre os marxistas. Marx e Engels não tinham com eles senão um punhado de homens, que conheciam bem o Manifesto do Partido Comunista e compreendiam perfeitamente a doutrina marxista. A publicação de O Capital não fez aumentar em número, nos primeiros tempos. Para a imensa maioria dos comunistas, essa obra era como um bloco de granito, a qual tentavam entender arduamente, mas sem resultado. É suficiente ler os escritos dos social-democratas entre 1872 e 1875, e ainda os de Wilhelm Liebknecht, discípulo direto de Marx, para ver o quão pouco se desenvolvia o estudo teórico do marxismo. Frequentemente, o órgão central do partido alemão apresentava uma estranha mescla dos mais diferentes sistemas socialistas. O método de Marx e Engels, a concepção materialista da história, a doutrina da luta de classes, tudo isso estava em hebreu para a maior parte dos comunistas, e o próprio Liebknecht se orientava tão mal na filosofia do marxismo, que confundia o materialismo histórico de Marx e Engels com o materialismo biológico de Moleschov e Büchner.


Engels se encarregou de defender e difundir as ideias do marxismo, enquanto Marx, como vimos, se esforçara em vão para terminar O Capital. Engels utilizava de um artigo qualquer que havia chamado atenção ou de um fato da atualidade, para demonstrar a profunda diferença entre o socialismo científico e os demais sistemas socialistas, ou para esclarecer um problema prático a partir do ponto de vista do materialismo histórico e ensinar a maneira correta de aplicar o método.


Assim, quando o proudhoniano alemão Mühlberger publicou no órgão central da social-democracia artigos sobre o problema de moradia, Engels aproveitou a ocasião para mostrar o abismo que separava o marxismo do proudhonismo, oferecendo assim um complemento ao livro de Marx, Miséria da Filosofia, e evidenciando um dos fatores mais importantes que determinam a situação da classe operária. Reeditou com um novo prefácio seu velho livro sobre As Guerras Camponesas na Alemanha, para dar aos jovens camaradas um exemplo da aplicação da concepção materialista da história a um dos principais episódios da história da Alemanha e dos seus camponeses.

Quando surgiu no Reichstag a questão das recompensas pelas quais os grandes proprietários de terras prussianos queriam garantir o meio de continuar dando saída a sua bebida alcoólica para o povo, Engels, em um folheto intitulado A vodca prussiana e o Reichstag alemão, desvelou os apetites dos junkers e aproveitou a oportunidade para mostrar o papel histórico da grande propriedade rural e dos “junkers” prussianos. Todos esses trabalhos, como também outros artigos sobre a história alemã, proporcionam a Kautsky e a Mehring a possibilidade para popularizar as ideias fundamentais de Engels em seus trabalhos sobre a história alemã.


Mas o auge de Engels são seus trabalhos de 1876-1877. Em 1875, lassallianos e eisenachianos se uniram em torno do Programa de Gotha, que foi um mal compromisso entre o marxismo e essa deformação do marxismo que ficou conhecido como lassallismo.


Marx e Engels protestaram energicamente contra tal programa, não porque estivessem contra a união ou quisessem a todo custo a modificação do programa segundo suas indicações, mas porque consideravam, com razão, que se a união era necessária, não era preciso dar-lhe como base teórica um programa ruim. Opinavam que mais convinha esperar e limitar-se então a uma plataforma geral para o trabalho prático diário. Bebel e Bracke compartilhavam do ponto de vista, mas não Liebknecht. Alguns meses mais tarde, Marx e Engels puderam se convencer que quanto a preparação teórica, a dos fracionistas do bloco estava no mesmo nível.


A doutrina do filósofo e economista alemão Eugen Dühring havia alcançado grande popularidade no partido, entre os membros jovens, os intelectuais e ainda entre os operários. Dühring, como professor adjunto na Universidade de Berlim, havia conquistado ali a simpatia geral, tanto por sua personalidade como pela audácia de suas opiniões. Cego, dava conferências sobre história da mecânica, economia política e filosofia. A diversidade dos seus conhecimentos era motivo de surpresa, porque se sabia que estava obrigado a fazer outros lerem para ele os livros necessários e que ditava suas obras. Era, de qualquer modo, um homem eminente. Quando iniciou uma violenta crítica das velhas doutrinas socialistas e, em particular, contra Marx, suas conferências causaram grande impressão. Os estudantes e os operários alemães, assim como os admiradores russos de Dühring, acreditavam ouvir pela primeira vez “a voz da vida no domínio do pensamento”. Dühring destacava a importância da atividade, da luta, do protesto; opunha ao fator econômico o político; insistia na importância da força e da violência na história. Não se continha em sua polêmica; atacava mais rudemente a Marx do que a Lassalle e em sua argumentação não vacilava em recordar de forma xenofóbica que Marx era judeu.


Engels esteve por um largo tempo indeciso antes de responder a Dühring. Finalmente cedeu as solicitações dos seus amigos na Alemanha e, em 1877, publicou no órgão central do partido, o Vorwäerts, vários artigos que demoliram as teorias daquele. Mas esses artigos provocaram a indignação de muitos dos seus camaradas do partido. Os partidários de Dühring estavam dirigidos então por Bernstein, futuro teórico do revisionismo, e Most, líder dos anarquistas alemães, posteriormente. No congresso da social-democracia, vários delegados, entre eles o velho lassalliano Walhteich, atacaram Engels violentamente. Pouco faltou para que o congresso resolvesse impedir a publicação do texto dos artigos de Engels no órgão central do partido que considerava Marx e Engels como seus mestres.


O assunto teria tomado escandalosos contornos se, finalmente, não se tivesse encontrado um conciliador para propor que se continuasse a publicar os artigos de Engels no próprio órgão central, mas em um suplemento especial. A proposição foi adotada. Esses artigos, logo reunidos em um volume, foram publicados em 1878. A obra A Revolução da Ciência por Eugen Dühring ou O Anti-Dühring, como chamamos, ficou marcada na história do marxismo. A jovem geração que começou a militar até 1876-1880 soube, por tal obra, o que é o socialismo científico, quais são seus princípios filosóficos e seu método. O Anti-Dühring é a melhor introdução ao estudo de O Capital. Lendo os artigos escritos pelos pretensos marxistas de então pode-se constatar as estranhas conclusões deduzidas de O Capital, interpretado de forma tortuosa.

Reconhecemos que, para a difusão do marxismo, como método e sistema especial, nenhum livro depois de O Capital fez mais do que O Anti-Dühring. Todos os jovens marxistas, Bernstein, Kautsky, Plekhanov, que construíram as suas primeiras armas entre 1880 e 1885, apreenderam a partir do livro de Engels.


E não somente os dirigentes do partido foram influenciados pelo O Anti-Dühring. Em 1880, Engels, a pedido dos marxistas franceses, selecionou alguns capítulos que foram traduzidos ao francês e cuja difusão não foi inferior à do Manifesto do Partido Comunista. Os capítulos citados apareceram com o título Do Socialismo Utópico e Socialismo Científico. Esta obra foi imediatamente traduzida ao polonês e, um ano e meio depois da publicação de uma edição em alemão, apareceu também em russo. Todos esses trabalhos foram realizados por Engels durante a vida de Marx, quem às vezes participava neles, não somente como conselheiro, mas diretamente, como, por exemplo, em O Anti-Dühring, para o qual escreveu um capítulo inteiro.


Na Alemanha, onde o partido social-democrata caiu em 1876 sob o golpe da lei contra os socialistas, a corrente marxista, após uma curta interrupção, ganhou terreno. Como disse Bebel em suas memórias, os velhos militantes de Londres tiveram grande papel naquela mudança: ameaçaram protestar publicamente caso não se pusesse fim ao que chamavam de “escândalo”, caso não se travasse uma implacável luta contra toda tentativa de se fazer acordos com a burguesia.


Em 1879, nasceu na França o Congresso de Marselha, um novo partido operário, com um programa socialista. Tratava-se de um jovem grupo marxista, liderado por um ex-bakuninista, Julles Guesde. Em 1880 resolveram elaborar um novo programa. Com este objetivo, Guesde e seus camaradas foram a Londres encontrar Marx, que participou ativamente da preparação. Sem aprovar, na parte prática, certos pontos sobre os quais davam ênfase os franceses, em razão de sua importância para a agitação local, Marx se encarregou de formular inteiramente os princípios. Novamente demonstrou como, a despeito das asserções de Mehring, compreendia as particularidades da França, e soube encontrar uma forma pela qual fluíam logicamente os princípios fundamentais do comunismo e, não obstante, era acessível a qualquer francês. Este programa serviu de modelo a todos os programas que se seguiram: o russo, o austríaco e o de Erfurt. Guesde e Lafargue redigiram imediatamente um comentário ao programa, que foi traduzido por Bernstein ao alemão, e depois por Plekhanov ao russo com o título O que querem os Social-democratas. Com esta obra se formaram os primeiros marxistas russos. O folheto de Engels foi para eles uma introdução ao estudo do programa e um excelente manual para o ensino nos círculos operários.


Para os franceses, Marx compôs um questionário detalhado, que devia ser aplicado em uma pesquisa sobre a situação da classe operária. Apareceu com a assinatura de Marx. Enquanto o questionário por ele esboçado em sua nota-informe ao congresso de Genebra em 1866 não continha mais de quinze perguntas, o novo questionário apresentava mais de uma centena. Os menores detalhes da vida operária estavam ali contemplados. Era este, para aquela época, um grupo de questões excelente, que não poderia ter sido redigido senão por um conhecedor do problema operário, como Marx. Novamente ficou comprovado, assim, que sabia compreender as condições concretas e que, apesar de todas as acusações sobre seu pretenso amor ao abstrato, se distinguia pelo profundo sentido de realidade. Saber analisar esta, saber extrair dela conclusões gerais, não significa necessariamente se desligar da realidade e remontar às alturas da abstração. Infelizmente, esse questionário, publicado em francês, somente foi traduzido ao polonês. Em russo foi publicado em 1922, por minha iniciativa, em um dos órgãos sindicais.


Engels e, sobretudo, Marx, seguiam atentamente ao movimento revolucionário russo. Ambos estudaram a língua russa. Marx o fez muito tarde, mas com tal entusiasmo que logo pode ler não só a Dobrolyubov e a Chernichevsky, mas também a escritores como Saltykov-Chechédrin, de difícil leitura para os estrangeiros. Chegou a ler a tradução russa de O Capital. Contrariamente as afirmações de Mehring, a popularidade de Marx após o congresso de Haia não deixou de aumentar na Rússia. Como crítico da economia burguesa, Marx gozava na Rússia de uma autoridade maior do que em qualquer outro país, incluso a própria Alemanha, e exerceu profunda influência sobre vários intelectuais russos, a orientação de que cujos trabalhos determinou. Direta ou indireta, a influência de Marx se encontra nas obras de economistas russos como Sieber, Yanjul, Kablukov, Kaufrnann, e historiadores como Kovalevsky e Lutchitsky. Além de O Capital, outras obras de Marx eram pouco conhecidas. Quanto à filosofia de Marx, a concepção materialista da história, a maior parte dos russos a ignorava completamente ou não tinha mais do que uma vaga ideia desta.


Há muito, certamente, conhecia-se a importância preponderante que Marx atribuía às relações econômicas. Segundo o que demonstrei em 1901, Katchev, crítico conhecido, que figurava como réu no processo Nechayev, havia traduzido para o russo, em 1865, o célebre prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política, em que Marx expõe sucintamente a concepção materialista da história. Mas, ainda reconhecendo a importância da economia, Katchev, tal qual posteriormente Sieber e Nicolaion – pseudônimo de Nikolai Danielson, economista russo – não teve ideia alguma da vinculação existente entre a concepção econômica da história e a doutrina da luta de classes.


Após 1870, Marx e Engels exerceram influência direta sobre Lavrov, que editava em Londres a revista Avante. Tal qual os social-democratas alemães dessa época, os adeptos de Lavrov na Rússia respeitavam Marx profundamente, mas ligavam o marxismo a toda sorte de doutrinas idealistas. Marx gozava de prestígio entre os bakuninistas russos que renunciaram aos métodos de Nechayev e adaptaram a doutrina de Bakunin às condições russas, convertendo-a em uma espécie de populismo revolucionário.


Pelo ano de 1878, Marx e Engels apreciavam, sobretudo, o movimento Narodnaia Volia. Considerando a Rússia como o foco principal da contrarrevolução internacional, aclamavam a luta heroica travada pelos “narodovolstsy”, um poderoso movimento revolucionário dirigido contra o czarismo. A Narodnaia Volia tinha em Marx um dos grandes mestres do socialismo e o reconheceu publicamente em mensagem que fizeram chegar a ele, que tem imenso interesse.


Temos de Marx uma quantidade de manuscritos e cartas relevadoras da atenção com que estudava a literatura e as relações econômicas e sociais russas. Até seus familiares e chegados protestavam pelo excesso de zelo dos seus conhecidos russos, como Nicolaion, no envio de diferentes materiais estatísticos. Diante do estado deplorável de sua saúde, temiam que a leitura intensiva a qual se entregara na preparação de O Capital arruinara de forma definitiva seu organismo, fortemente debilitado. Do ardor e da atenção com que Marx estudava a situação da Rússia, falam não somente os apontamentos que fez em seus cadernos, mas também suas cartas a Nicolaion, nas quais se encontram reflexões extremamente interessantes sobre este país. Um estudo sério dos elementos concernentes ao estado da agricultura lhe permitiu estabelecer não somente as causas principais das más colheitas, mas também da lei de sua periodicidade, lei verificada na Rússia deste então até hoje.


Marx queria fazer de certo modo o balanço dos seus trabalhos no terceiro tomo de O Capital, no qual examinaria as formas da propriedade territorial, mas, infelizmente, não teve tempo. Quando em 1881, Vera Zasulitch lhe enviou uma carta solicitando seu parecer sobre o futuro da comunidade rural russa, Marx se dispôs ao trabalho imediatamente. Não sabemos se Zasulitch e Plekhanov receberam a resposta. Suponhamos que não. Encontramos apenas o rascunho, que revela que sua capacidade de trabalho estava muito comprometida. Está coberta de pontuações e emendas, e provavelmente foi abandonado sem conclusão.


Em colaboração com Engels, Marx pode ainda escrever um prefácio para a nova tradução do Manifesto do Partido Comunista, da qual acreditava-se ser de Zasulitch, mas que na realidade era obra de Plekhanov.


A história de certo modo jogou com Marx e Bakunin. Do grupo de revolucionários que formava a seção russa da Internacional e que havia eleito Marx como representante no Conselho Geral, nenhum chegou a ser um marxista consequente. Com exceção de Lopantin, todos abandonaram com o tempo a trajetória de revolucionário profissional ou se converteram em inimigos. Pelo contrário, dos então bakuninistas russos, Plekhanov, Zasulitch, Axelrod e Deutch, saíram os primeiros marxistas russos, para quem o marxismo, tanto como uma doutrina econômica, foi a álgebra da revolução.

No último ano e meio, a vida de Marx foi de uma lenta agonia. Ainda tinha em rascunho uma enorme quantidade de trabalho, ao que se dedicava apenas quando sua saúde o permitia. Em pleno domínio de suas energias, havia traçado o modelo, os contornos, fixado as leis fundamentais da produção e da troca capitalistas. Mas não tinha mais força para fazer desse esboço uma obra viva, acabada, como o primeiro tomo de O Capital, que demonstrara tão brilhantemente todo o mecanismo da produção capitalista e a luta que sobre sua base se desenvolve entre o capitalista e o operário.


Minado pela enfermidade, seu organismo estava completamente extenuado; não pode suportar por isso duas desgraças extremamente dolorosas – a morte de sua esposa e a de suas filhas – que o comoveram sucessivamente. Naturalmente bastante tímido, Marx, ainda que isto possa parecer surpreendente, amava muito sua família e era bastante carinhoso em sua vida privada. Nisso se parecia muito com Chernichevsky. Lendo suas cartas a sua filha mais velha, cuja perda o afetou tão dolorosamente que seus familiares temiam sua morte repentina, pode-se ficar assombrado diante da sensibilidade e da ternura extraordinárias daquele homem exteriormente tão rude.

Me permitirei agora uma breve digressão. Em ocasião de um ato organizado em honra de Lenin durante o novo congresso do Partido Comunista, os congressistas me obrigaram a falar. O fizeram acreditando provavelmente que somente faria elogios. Assinalei então algumas das características que tornavam Lenin tão estranho aos nossos camaradas do ocidente. Me referi, entre outras coisas, a surpresa de Friedrich Adler quando ao falar dos meios para livrar rapidamente Lenin e Zinoviev da embaraçosa situação na qual se encontravam na Áustria no início da guerra, lhe disse que Lenin adorava sua família e conservava grande solicitude com seus sogros. Pouco antes, Martov havia publicado, com o propósito de desacreditar Lenin e os bolcheviques de forma definitiva, um odioso opúsculo, no qual apresentava Lenin como chefe de bandidos e expropriadores, para quem nada era sagrado.


E tal qual Adler quando me ouvia falar de Lenin, os filisteus e os próprios revolucionários neófitos, leem hoje, assombrados, a história dos últimos anos de Marx. Na verdade – como dizem – é lamentável que um revolucionário consagre uma parte de suas preocupações a outra coisa que não a revolução. Um verdadeiro revolucionário deve estar durante toda sua vida, as 24 horas de cada dia, em seu posto. Da manhã até a noite e da noite até a manhã escreve ou executa resoluções. Homem talhado em uma só peça de aço revolucionário, é inacessível a todo sentimento humano; vive sem comer nem beber, ou quando mais, como João o Precursor, se contenta com gafanhotos e mel silvestre (nutrição que, por outro lado, não é inferior à de muito dos nossos militantes em 1918-1919). Enquanto isso, sabemos Jesus era um epicurista. O Evangelho diz que este comia e bebia e que chegou a amaldiçoar a figueira porque era estéril. Mas ainda assim, Jesus tinha mais firmeza em sua revolta do que o rígido apóstolo Pedro, quem por razões políticas, o negou três vezes.


Há que julgar todas as coisas a partir do ponto de vista humano. Quando lemos a biografia de homens que honramos e respeitamos, sem dúvida nos alegra saber que foram ou são como os outros, ainda que mais inteligentes, instruídos e úteis à causa revolucionária. Apenas nos velhos dramas e nas tragédias pseudoclássicas se representa os homens como heróis: caminham e as montanhas vem abaixo; chutam e a terra se abre; comem e bebem como deuses. Assim apresentaram Marx algumas vezes; como por exemplo, nossa querida Clara Zetkin, um pouco levada pelo exagero. Nesses casos se esquece sua resposta quando lhe perguntaram qual era sua frase preferida: Homo Sum: humani nihil a me alienum puto. Como qualquer um, ele cometia erros; com frequência, deplorava sua excessiva confiança nas pessoas e algumas vezes exercia sua injustiça com determinadas pessoas. Podemos perdoar-lhe sua inclinação ao vinho, lógica para um natural do Mosela, mas, não obstante nosso afeto por ele, não podemos fazer o mesmo a respeito da sua paixão pelo tabaco. Como anedota, ele mesmo dizia que O Capital não havia rendido nem o valor para pagar os cigarros que fumou enquanto o escrevia. Como era pobre, consumia um tabaco de má qualidade, que contribuiu para abreviar sua vida e contrair a bronquite crônica que tanto o fez padecer durante seus últimos anos de vida.


Em 14 de março de 1883, faleceu Marx. Engels tinha razão ao escrever sobre esse dia a seu velho camarada Sorge: “Todos os fenômenos, mesmo os mais horríveis, que ocorrem segundo as leis da natureza, comportar um consolo. Não há no caso presente. Talvez os recursos da medicina poderiam dar-lhe ainda dois ou três anos de vida vegetativa, de vida impotente para o ser que lentamente morre; mas Marx não suportaria semelhante vida. Viver tendo diante de si uma série de trabalhos inconclusos e padecer do suplício de Tântalo de pensar na impossibilidade de terminá-los, haveria sido para ele mil vezes mais penoso do que uma morte tranquila. “A morte não é terrível para o que morre, mas para o que fica”, costumava dizer Epicuro. Ver este homem genial e potente feito um despojado, arrastando sua existência para a glória da medicina e alegria dos filisteus que, fustigados tão implacavelmente durante a plenitude de suas energias, tinham uma ocasião para agora zombá-lo, teria sido um espetáculo demasiado grotesco, e mais vale que assim seja, que tenha desaparecido e que passado amanhã o depositemos na tumba em que descansa sua mulher. Em minha opinião depois de tudo o que passou, não havia outro final; o que sei melhor do que todos os médicos. A humanidade toda, tem uma cabeça menos. Perdeu a um dos seus representantes mais geniais. O movimento do proletariado seguirá seu caminho, mas não terá mais o chefe a quem recorriam nas horas críticas os franceses, os russos, os americanos e os alemães e de quem recebiam sempre conselhos claros e seguros, conselhos que somente podia oferecer um gênio e um homem consciente”.


Tarefas importantíssimas ficaram a partir de então sob a incumbência de Engels. Escritor brilhante, considerado com um dos melhores estilos alemães, de vasta erudição e especialista em muitos assuntos, durante a vida de Marx, passava, naturalmente e por sua própria vontade, em segundo plano. “Não posso negar que contribuí para o estabelecimento e, principalmente, elaboração da teoria, durante os 40 anos das minhas relações com Marx. Mas a maior parte das ideias diretrizes, sobretudo em história e economia, assim como sua formulação definitiva, pertencem a Marx. O que contribui, o mesmo poderia ter sido suprido facilmente, salvo talvez duas ou três partes especiais. Mas o que fez Marx, eu nunca poderia ter feito. Marx estava à frente, via mais longe; sua visão era mais ampla e mais rápida do que as nossas. Era um gênio; nós, na melhor das hipóteses, éramos somente homens de talento. Sem ele, nossa teoria estaria muito longe de ser o que é. Por isso leva, com toda justiça, seu nome”.


Engels, como escrevia o velho Becker, devia assumir então o papel principal, depois de ter desempenhado com gosto, toda a vida, o secundário. E o primeiro trabalho importante que coube agora a Engels consistia em organizar o legado literário de Marx. A despeito das suposições de um professor italiano que anteriormente em suas cartas a Marx era prodígio em elogios a seu respeito e que, após sua morte, ousou publicar que ao se referir no primeiro tomo de O Capital, acerca do segundo e do terceiro, Marx havia enganado o público, pois fora encontrado entre seus papéis os manuscritos de um segundo, um terceiro e um quarto tomo. Infelizmente, todos esses materiais foram deixados de tal forma que Engels – sem poder dedicar-lhes todo seu tempo – necessitou onze anos para ordená-los e classificá-los. A escrita de Marx era muito pouco legível; com frequência usava abreviações somente inteligíveis a ele. Pouco antes de morrer, quando compreendeu que não estava em condições de acabar seu trabalho, disse a sua filha mais nova que Engels talvez aproveitaria alguma coisa desses papéis.


Felizmente, Engels pode cumprir a parte principal daquele trabalho. Editou o segundo e o terceiro tomo de O Capital. O plano dessa conferência não nos permitirá nos deter nessa obra, pois a exposição acerca do primeiro tomo de O Capital foi transferida para outro curso. Mas para demonstrar a importância do trabalho de Engels, diremos que sem ele, provavelmente ninguém teria sido capaz de levar a cabo tal tarefa. A obra apresenta alguns defeitos, mas não são imputáveis unicamente a Marx. Pouca esperança temos de ver alguma vez em nossas mãos todos os manuscritos tais como os teve Engels, e não podemos, tal qual as gerações futuras, estudar os dois últimos tomos de O Capital senão no seu atual estado, na forma que lhe deu Engels.


Outro dever lhe cabia, que antes havia cumprido como colaborador e auxiliar de Marx, mas que agora recaía sobre ele, com todo seu peso.


Depois da dissolução da Primeira Internacional, Marx e Engels continuaram ocupando as funções do antigo Conselho Geral. Agora, Engels somente havia de ser intermediário entre os diferentes partidos socialistas, devia aconselhá-los e, por consequência, estar minuciosamente informado sobre suas situações. E justo após a morte de Marx, o movimento operário internacional se desenvolveu com força, de forma que em 1886 se colocava a questão da organização de uma nova Internacional. Mas após 1889, ano no qual se reuniu em Paris o primeiro congresso que fundou a Segunda Internacional (a qual ficou sem comitê central permanente até 1900), Engels, na qualidade de escritor e conselheiro, tomou a mais ativa participação no movimento operário de quase todos os países da Europa. O velho Conselho Geral, composto por muitos membros e com secretários para cada país, estava agora personificado em Engels. Quando um novo grupo marxista aparecia em qualquer país, pedia conselhos a Engels, quem, graças ao seu excelente conhecimento dos idiomas, chegou a responder quase sem erros, nas respectivas línguas dos seus correspondentes. Engels seguia com atenção o movimento operário de cada país, em sua literatura própria. Isso lhe absorvia muito tempo, mas consolidava assim a influência do marxismo, aplicando habilmente seus princípios às distintas particularidades nacionais. Não havia país, cujo movimento operário não tivesse participação dele, colaborando com seu órgão central. Escrevia artigos nos diários alemães, austríacos, franceses; ainda assim encontrou tempo para redigir um prefácio à tradução polonesa do Manifesto do Partido Comunista e para ajudar com seus conselhos e indicações a marxistas espanhóis e portugueses, suecos e dinamarqueses, búlgaros e sérvios.


Convém destacar o apoio particular que deu ao jovem marxismo russo. Seu conhecimento da língua o permitia ler no original a literatura marxista russa e somente graças a sua influência, não obstante o imenso prestigio do Narodnaia Volia, o grupo da Emancipação do Trabalho pode ligar-se tão rapidamente com o marxismo alemão e vencer a desconfiança que tinha a Europa ocidental, particularmente Alemanha e França, a respeito do movimento operário e do marxismo em um país asiático como a Rússia. Em 1889, Plekhanov foi a Londres especialmente para conhecer Engels e informá-lo sobre a nova tendência que se manifestava no movimento revolucionário russo. Para a primeira revista marxista russa que começou a ser editada pelo grupo Emancipação do Trabalho, Engels escreveu um artigo especial sobre a política externa do czarismo.


Engels logo viu os frutos da sua intensa ação. Desde que foi fundada a Segunda Internacional, não participou diretamente dos trabalhos dos seus congressos. Evitava as intervenções públicas e se limitava a ser o conselheiro daqueles seus discípulos que em todos os países dirigiam o movimento, lhe informavam dos sucessos importantes e se esforçavam em utilizar sua autoridade. Graças ao prestígio de Engels, alguns partidos alcançaram e conservaram uma ascensão considerável na Internacional. Em consequência de sua vida, esse procedimento de se comunicar exclusivamente com os chefes do principal partido de cada país, trouxe consigo alguns inconvenientes. Enquanto se levantou imediatamente contra os extravios dos marxistas franceses na questão agrária e destacou o caráter proletário do programa, Engels cedeu à pressão dos alemães, temeroso de que fosse retomada a lei contra os socialistas, e suavizou sua introdução aos artigos de Marx sobre a Luta de Classes na França, que são uma brilhante aplicação do princípio da implacável luta de classes e da ditadura do proletariado.


No prefácio da quarta edição alemã do Manifesto do Partido Comunista, que escreveu no dia da celebração internacional do 1º de maio (1890), Engels destacou o crescimento do movimento operário e lamentou que Marx não esteja lá para ver com seus olhos tal espetáculo reconfortante. Enquanto Marx não foi conhecido senão nos meios mais avançados do movimento operário e, em vida, não gozou de grande popularidade, Engels, que valorizava perfeitamente a importância da fama, ainda que detestasse, como seu melhor amigo, os efeitos pessoais, chegou a ser no fim dos seus dias um dos homens mais populares do movimento operário internacional. Disso pode se convencer quando em 1893, cedendo pela primeira vez a sugestão dos amigos, visitou o continente. Os desfiles, as ovações em massa, as cerimônias organizadas em sua honra se revestiram de grandiosas características como consequência do formidável desenvolvimento do movimento operário a partir do ano de 1883. Assim, no congresso internacional de Zurique, no qual quis ser somente um convidado e pronunciou um pequeno discurso no final da sessão, Engels foi objeto de uma ovação sem precedentes.

Temos que mencionar aqui um episódio desse congresso, assistido por Engels. O partido socialista polonês gozava então de influência desproporcional na Internacional, onde fazia ostentação de um “marxismo” próprio e lançava a palavra de ordem da independência da Polônia, desviando-se cada vez mais para um vulgar social-chauvinismo. Paralelamente havia surgiu outro grupo marxista, que já então denunciava o distanciamento do partido socialista polonês do caminho proletário. Esse pequeno grupo, dirigido por Rosa Luxemburgo, pediu admissão em Zurique. Foi rechaçado, e Plekhanov tampouco apoiou, porque, como me manifestou na presença de Engels, considerava que seus esforços a nada conduziriam. Havia também, na verdade, outras razões, a principal das quais era que o núcleo de Luxemburgo destacava seus vínculos com a organização polonesa Proletariado, que fora aliada da Narodnaia Volia, e que, assim, combateu o grupo Emancipação do Trabalho.


Seja como for, o grupo de Luxemburgo ficou completamente isolado. A ela mesmo foi pedido que se retirasse do congresso. Sofreu uma afronta perante toda a Internacional, em presença do próprio Engels. Pode ser que tenha chorado, mas não abandonou nem a Marx, nem a Engels, nem ao socialismo científico; se reafirmou mais em sua convicção e disse: convenceremos a Internacional, provaremos a justeza da nossa posição. Essa característica distinguia precisamente Rosa Luxemburgo da maior parte dos mesquinhos intelectuais que, afiliados por casualidade em um partido proletário, ao ser vítima de uma injustiça aparente ou real, se apressavam a sair dele para vilipendiá-lo e passar, em seguida, às fileiras da burguesia. Um partido não é uma pensão de “meninas do bem”. Está composto por homens apaixonados que, na disputa, trocam às vezes golpes sensíveis. Isto é desagradável, mas inevitável, tanto na ordem nacional quanto na ordem internacional. E após esse congresso de Zurique, no qual foram descartadas igualmente outras pessoas, que imediatamente se puseram ao lado dos anarquistas ou simplesmente ao da burguesia, Rosa Luxemburgo provou ser uma verdadeira discípula de Marx e Engels, representante dos intelectuais revolucionários cuja principal missão é a de ajudar à classe operária a ter consciência de si mesma e fazer os operários revolucionários não intelectuais, mas sim operários ilustrados.

Ao contrário de Marx, Engels conservou sua capacidade de trabalho quase até os 75 anos de idade. Em março de 1895 escreveu a Adler uma carta interessante, na qual lhe indica em que ordem convém ler o segundo e terceiro tomo de O Capital. Na mesma época escreveu um interessante complemento do terceiro tomo. Se dispunha a escrever a história da Primeira Internacional, e no meio dessa atividade intelectual foi surpreendido pela doença que o arrebatou em 5 de agosto de 1895.


Os restos mortais de Marx repousam no cemitério de Highgate, em Londres, na mesma sepultura de sua mulher e seu neto. Uma simples pedra constitui sua tumba. Quando Bebel escreveu a Engels manifestando sua intenção de erguer um monumento sobre a sepultura de Marx, Engels respondeu que as filhas deste se opunham categoricamente. Na época em que Engels morreu, a prática da cremação começava a estender-se. Pediu por isso que seu corpo fosse cremado e suas cinzas lançadas ao mar. Após sua morte, se vacilou em executar sua última vontade, porque alguns camaradas alemães tinham a mesma opinião dos que agora querem transformar a Praça Vermelha de Moscou em um cemitério, com monumentos funerários. Felizmente, outros camaradas fizeram com que o desejo de Engels fosse respeitado. Seu cadáver foi queimado e suas cinzas jogadas ao mar do Norte.


Ambos amigos nos deixaram um monumento mais perdurável que o granito, mas eloquente que qualquer epitáfio: o movimento comunista internacional do proletariado, que, com o estandarte do marxismo, o comunismo revolucionário, marchará até a revolução social vitoriosa. Nos deixaram o método da investigação científica, as regras da estratégia e da tática revolucionárias. Nos deixaram um tesouro inestimável, ao que acudimos para o estudo e a compreensão da realidade.


Lhes faltaram somente uma felicidade: experimentaram a alegria de sentir a tempestade da revolução, de tomar nela parte ativa, mas somente era a revolução burguesa. Não puderam viver até a revolução social do proletariado. Mas seus espíritos estão presentes em nossa revolução e no meio do fragor cada vez mais próximo da revolução universal, ressona o poderoso chamado que fizeram há 65 anos: Proletários de todos os países, uni-vos!


Nona conferência de David Riazanov acerca da história revolucionária de Karl Marx e Friedrich Engels, realizada em 1927, publicada no livro editado pelo selo Edições Nova Cultura