Repressão política e social na Coreia do sul ocupada


Após quarenta anos dos morticínios do Massacre de Gwangju, perpetrado pelo fascismo sul-coreano, a Península da Coreia segue sendo um dos principais focos de tensão política e militar do mundo. Aqui, a segurança regional está sempre por um fio, e os conglomerados de imprensa do mundo voltam frequentemente suas atenções para cá, com coberturas que sempre, ou quase sempre, faltam com a verdade.

Na percepção daqueles que não possuem ainda um conhecimento aprofundado sobre a questão coreana, o próprio termo por nós empregado, “fascismo sul-coreano”, parece causar estranhamento. Afinal, qual a narrativa dominante? Certamente, a narrativa da disputa entre uma Coreia do sul democrática e desenvolvida contra uma Coreia do norte totalitária, militarista ou mesmo “nazista”, que frequentemente ameaça o mundo com armas nucleares para satisfazer a opulência de ditadores desequilibrados. Contudo, tal visão dominante, construída após décadas de trabalho da indústria anticomunista, tem tido cada vez menos força nos círculos socialistas brasileiros e nos movimentos de massas, se levamos em conta o progresso político dos anos recentes. São cada vez mais ouvidas as vozes que se levantam contra o vendaval de mentiras.

Tais vozes ecoam, ganham cada vez mais influência e se esforçam para mostrar que o quadro pintado sobre a situação da Península Coreana está, na prática, de cabeça para baixo: militarismo, supressão dos direitos mais elementares (como o direito à liberdade de expressão e associação, liberdade de organização sindical, etc.), difusão de ideias decadentes e antipopulares, todo tipo de assédios e arbitrariedades em locais de trabalho, prisões e assassinatos de ativistas, em suma, repressão política e social, assumem centralidade na vida da Coreia do sul. Aqui, sindicalistas, militantes do movimento estudantil, partidos políticos e demais personalidades não podem dar mesmo um passo à frente sem se virem constrangidos e reprimidos por inúmeras leis monstruosas. Para um país que assume a face de modernidade e desenvolvimento (com vernizes até mesmo de “desenvolvimento pela educação” ou coisa parecida), despotismo é um termo que parece cair melhor para entendermos o que significa a sociedade sul-coreana.

Em nome dos mártires da resistência popular da cidade de Gwangju que, há quarenta anos, levantavam-se de armas em punho em defesa de suas vidas e contra o regime reacionário do então ditador Chun Doo Hwan, unamos nossas forças às vozes que lutam para repercutir o que realmente se passa na Península Coreana.

“República da Coreia”: um “Estado” fabricado pela política de “contenção” (“roll-back”) anticomunista dos Estados Unidos

O fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, coincidiu com a libertação da Coreia do jugo de mais de quatro décadas de pilhagem do colonialismo japonês. O povo coreano, engajado em mais de trinta anos de guerra de guerrilhas, demoliu as correntes que o prendia e abriu perspectivas brilhantes para a construção de um novo Estado democrático e progressista, de uma vida nova, próspera e feliz.

Porém, à derrota do outrora poderosíssimo imperialismo japonês (derrota esta que o reduziu à condição de potência de segunda categoria), veio substituí-lo os Estados Unidos, a nova e única superpotência imperialista, muitas vezes mais forte que o velho imperialismo japonês, e que abocanhou o riquíssimo bônus decorrente de mais de seis anos de guerra mundial, deixando o pesado ônus para as potências derrotadas e seus respectivos países dependentes.

Desde o início de sua ascensão como superpotência, logo os Estados Unidos tratariam de intervir nos assuntos da Coreia e sabotar as perspectivas libertadoras do povo coreano. Furtando-nos de explicar todo este desenvolvimento político inicial, já muito bem detalhado pelo artigo publicado pela NOVACULTURA.info que indicamos no início do texto, vamos nos limitar a constatar alguns fatos.

Os Estados Unidos somente viriam estacionar suas tropas no sul da Coreia um mês após a completa expulsão do imperialismo japonês do território coreano, tarefa esta que coube inteiramente às guerrilhas conduzidas por Kim Il Sung, aos movimentos nacional-libertadores e ao Exército Vermelho soviético que avançavam a partir do norte da Coreia, e por onde passavam, efetivavam reformas democráticas que liquidassem os resíduos do imperialismo japonês e do feudalismo. Mesmo posando como campeões da independência, os Estados Unidos sabotavam sistematicamente tais desenvolvimentos.

Acordos internacionais feitos antes mesmo do fim da Segunda Guerra Mundial previam, com a expulsão do imperialismo japonês, a construção de um Estado democrático e antifascista na Coreia, com a realização de eleições em todo o país, e a não-interferência de quaisquer potências em seus assuntos internos, algo que somente seria possível com a retirada de todas as tropas estrangeiras de solo coreano. Fiel a tais perspectivas, o Exército Vermelho soviético, que auxiliara o povo coreano em sua libertação e se encontrava estacionado no norte da península, concluiu a retirada de todas as suas tropas já em 1948, num ato de boa vontade, mesmo sem a contrapartida dos Estados Unidos, que mantêm até os tempos atuais suas tropas no sul da Coreia.

Ao penetrar no sul da Coreia, o imperialismo ianque funda o chamado “Governo Militar dos Estados Unidos”, que substituiu o velho “Governo-Geral da Coreia” administrado pelos colonialistas japoneses. Não estimulou a democracia, mas o despotismo, reabilitando funcionários japoneses (que traziam consigo a pesada carga do pensamento feudal e do imaginário dos coreanos enquanto “raça” inferior) e traidores coreanos, que se encontravam à frente da velha máquina administrativa, para auxiliar na supressão dos sindicatos e movimentos de massas, bem como na dissolução dos comitês populares legitimamente fundados pelo povo coreano durante sua luta de décadas contra os velhos ocupantes japoneses. Segue fabricando uma série de órgãos administrativos ilegais como forma de dividir o país politicamente, dar uma aparência de “independência” ao novo regime fantoche em construção (ao substituir o “Governo Militar dos Estados Unidos” por tais órgãos administrativos) e impedir a realização de eleições gerais.

Tais tendências repressivas e divisionistas se intensificarão a partir da “Doutrina Truman” (em referência ao então presidente estadunidense, Harry Truman, fanático anticomunista) de 1947, que sacramenta a política da “contenção anticomunista” (“roll-back”), consistindo na manutenção do anticomunismo como política de Estado de todos os países satélites dos Estados Unidos ou politicamente influenciados por estes. Sustentar o anticomunismo como política de Estado não poderia resultar em algo tão diferente de ditaduras fascistas – reprimindo não somente os comunistas, mas todas as forças minimamente progressistas –, e o sul da Coreia não foi exceção à regra.

Com o “roll-back” estadunidense, as manobras do imperialismo ianque culminarão na realização de “eleições separadas” no sul da Coreia em 10 de maio de 1948, que “elegeriam” Syngman Rhee (ou Ri Sin Man), fantoche pró-americano. A “legitimidade” de tais eleições pode ser ilustrada pelos casos das províncias de Kyungsang do Norte e Sul, nas quais somente 10% a 20% dos eleitores compareceram às urnas. Já tendo praticamente rasgado tudo aquilo que havia sido acordado, mantendo suas tropas estacionadas no Sul e promovendo “eleições” separadas, é fundada a partir do “pleito”, com apoio dos Estados Unidos, a “República da Coreia”, ou “Coreia do Sul”, formalizando a divisão nacional.

Manobras tão espúrias pelos Estados Unidos para fabricar uma “República da Coreia” não seriam possíveis sem o emprego de uma burocracia fantoche local para afogar em sangue e massacrar dezenas de milhares pessoas em grandes levantes do povo do sul da Coreia, como ocorrera em Hwa Soon (1946), Jeju (1948), Yeo Sun (1947-1957) e outras revoltas deste período. Aqui, o objetivo do imperialismo ianque não se limitava a suprimir as liberdades democráticas: a política de “roll-back” anticomunista manifestava os apuros em que se encontrava o capitalismo estadunidense, que para sair da crise na qual mergulhara após o fim da Segunda Guerra Mundial, necessitava da militarização de extensas partes do globo como forma de impulsionar sua indústria. Em conjunto com os títeres sul-coreanos, preparava a Guerra da Coreia (que eclodiria em meados do ano de 1950) com tais propósitos. Os militaristas norte-americanos sabiam que estavam fadados inevitavelmente à derrota caso buscassem invadir a Coreia do norte socialista nas condições da existência de um poderoso movimento guerrilheiro na retaguarda, daí terem estimulado tão fortemente a repressão aos levantes e aos movimentos de massas como forma de “limpar o terreno” para a invasão. Foi a tais propósitos que servira a fundação da chamada “República da Coreia”: impulsionar o capitalismo estadunidense e servir como base para a anexação do Norte.

Os Estados Unidos e a reação sul-coreana fracassaram em seu objetivo. Os setores mais reacionários da burguesia estadunidense, que buscavam utilizar a Guerra da Coreia como gatilho para iniciar uma Terceira Guerra Mundial e mobilizar uma aliança militar capitalista geral contra todos os países socialistas, foram duramente derrotados com a assinatura do Tratado de Armistício de 1953.

Mesmo que as massas coreanas e os povos do mundo tenham imposto ao imperialismo ianque uma dura derrota, nem por isso a “República da Coreia” teria se tornado obsoleta no que diz respeito à razão pela qual foi fundada. Seguiu sendo esfera de influência política, econômica e militar dos Estados Unidos, militarização esta que somente se aprofundou, mesmo depois de 1953. Exercícios militares conjuntos de tropas sul-coreanas, estadunidenses e, em alguns casos, até mesmo japonesas – “Foul Eagle”, “Team Spirit”, etc. – são conduzidos anualmente como forma de provocar a República Popular Democrática da Coreia.

Com os Estados Unidos introduzindo na Península Coreana, desde tal período, um extenso leque de armamentos que vão desde munições a armas químicas e bacteriológicas (algo que viola frontalmente os acordos do Tratado de Armistício), mantendo sem cessar suas tropas e bases militares em solo coreano, a política de militarização da Coreia do Sul gera bilhões de dólares que anualmente terminam nos bolsos dos magnatas do complexo militar-industrial estadunidense.

É possível que todos estes fatos coloquem em xeque a narrativa dominante sobre qual é realmente o Estado militarista e repressor na Península Coreana. Sigamos adiante.

Leis monstruosas que suprimem as liberdades democráticas na Coreia do sul

A militarização da sociedade sul-coreana pelo imperialismo ianque traz consigo um aparato jurídico repressor que, desde 1945, tem sido utilizado para legitimar a repressão e os massacres contra o povo sul-coreano. Tendo atravessado modificações desde os diversos regimes militares, passando pela pretensa “democratização” à moda neoliberal do final da década de 1980, jamais foi alterado o caráter substancial das leis monstruosas enquanto instrumentos de repressão às liberdades mais elementares.

Lei de Segurança Nacional: Após o Golpe de Estado que, em 1980, dera origem à ditadura militar de Chun Doo Hwan, a velha “Lei Anticomunista” foi dissolvida na atual Lei de Segurança Nacional como forma de ludibriar a opinião pública internacional com o factoide de que a Coreia do Sul se encontrava em vias de democratização. Na prática, porém, a Lei de Segurança Nacional trata-se de uma das principais – senão a principal – leis reacionárias que suprimem o direito à liberdade de expressão e associação na Coreia do Sul. Seu conteúdo substancial consiste em reprimir “organizações anti-governo”. O parágrafo 1 do artigo 1 da Lei de Segurança Nacional, por sua vez, define “organizações anti-governo” como “um grupo ou organização doméstico ou estrangeiro que utilize fraudulentamente o título do governo, ou vise uma rebelião contra o Estado, e possua um comando ou sistema de liderança”. As punições contra as “organizações anti-governo”, que podem variar de reclusão de dois a três anos a prisão perpétua ou pena de morte, abrangem, por sua vez, desde lideranças a meros simpatizantes das “organizações anti-governo” que contribuam materialmente com estas, distribuam panfletos, e demais. Embora não se defina claramente o que seria uma “rebelião contra o Estado”, o sentido de “rebelião contra o Estado”, na Coreia do Sul, é utilizado na prática para a supressão de grupos que se reivindiquem comunistas ou socialistas, apoiem a Coreia do Norte e a reunificação nacional pacífica, conduzam atividades políticas de oposição aos governos de turno, participem de protestos, etc.

Lei de Supervisão pela Paz Pública: Esta lei monstruosa aparecera primeiramente como o fascista “Ato de Segurança Pública” de 1975, ainda na chamada “Ditadura de Yushin”, e foi renomeada alguns anos depois como “Lei de Supervisão pela Paz Pública” no ano de 1989, sob o regime de Roh Tae Woo. Tal lei reacionária, na prática, solapa o direito elementar à privacidade ao permitir ao braço armado do Estado sul-coreano seguir e “supervisionar” todos aqueles suspeitos de conduzirem lutas de resistência ou participarem de qualquer tipo de ativismo social. No ano de 1989, após a visita do reverendo sul-coreano Mun Ik Hwan à Coreia do norte, ao retornar para a Coreia do sul, terminou sentenciado a uma pena de cinco anos de reclusão, o que estimulou grandes protestos no país, ocasião na qual Lei de Supervisão pela Paz Pública foi amplamente aplicada. No ano de 1993, estimava-se que cerca de 50 mil pessoas na Coreia do Sul se encontravam sob “supervisão pela paz pública”.

Lei de Associação e Demonstração: Mesmo que semelhante lei, decretada no ano de 1989, trate sobre o direito à associação e demonstração, trata-se na verdade de uma supressão jurídica a tal direito. Conforme coloca o artigo 5 desta lei, “qualquer reunião ou demonstração feita para se atingir os objetivos de um partido político dissolvido pelo Tribunal Constitucional [...]” são consideradas ilegais. Ademais, o artigo 6 adiciona mais um constrangimento ao direito à associação ou demonstração, sujeitando qualquer destas ao envio de detalhes para a estação policial que se encontra frente à jurisdição do local onde será realizada a atividade pelo menos quarenta e oito horas antes e à autorização da estação policial em questão. Caso contrário, tais demonstrações também são consideradas ilegais.

Repressão contra o movimento operário, popular e personalidades democráticas

Seria possível escrever muitíssimas páginas, quiçá livros, sobre o vasto histórico de repressão política contra os movimentos populares sul-coreanos desde o ano de 1948, com a fundação da “República da Coreia”. Assim, vamos nos ocupar em citar os casos mais recentes e/ou de maior repercussão.

Ri In Mo: O caso de Ri In Mo é um dos mais ilustrativos sobre o que significa a repressão na Coreia do Sul. Nascido no ano de 1917, aderiu ao movimento anti-japonês já durante a década de 1930, tendo cumprido grandes serviços na expulsão do colonialismo estrangeiro da Coreia. Durante a Guerra da Coreia de 1950-1953, serviu como correspondente de guerra norte-coreano do Exército Popular. Capturado pelas forças armadas sul-coreanas, Ri In Mo foi permaneceu preso nos cárceres sul-coreanos, submetido a torturas e terríveis condições de prisão por quase trinta e quatro anos (muito bem relatadas em sua autobiografia “My Life and Faith”), mas somente seria repatriado para a Coreia do norte mais de quarenta anos após sua prisão, no início da década de 1990. Mesmo que reacionários sul-coreanos tenham oferecido sua liberdade em troca de que escrevesse um documento oficial renunciando todas as suas posições políticas, recusou a capitulação e assumiu sua posição de combatente revolucionário em defesa de sua causa. Por mais que seu caso tenha tido pouca repercussão mundial em razão da censura midiática, Ri In Mo é frequentemente chamado de “Nelson Mandela coreano”.

Rim Su Gyong: A estudante sul-coreana ficou conhecida na República Popular Democrática da Coreia como a “flor da reunificação”. Participou do XIII Festival das Juventudes Democráticas que ocorrera em 1989 em Pyongyang, capital norte-coreana, ocasião na qual teve oportunidade de conhecer pessoalmente o presidente Kim Il Sung e tomar parte em diversas marchas, eventos e atividades por ocasião da reunificação da Coreia, jamais deixando de manifestar corajosa e publicamente sua opinião anti-imperialista em defesa da unidade e reconciliação nacionais e pela retirada das tropas norte-americanas da Coreia do Sul. Ao retornar para a Coreia do Sul, foi presa sob acusações de comunismo e sentenciada a cinco anos de prisão.

Ro Su Hui: Vice-presidente da Associação Pan-Coreana pela Reunificação Nacional, sucursal Sul, Ro Su Hui permaneceu por alguns meses em Pyongyang, Coreia do norte, no ano de 2012, num ato de boa vontade e defesa da reconciliação e reunificação nacionais, sendo muito bem recebido pelo povo coreano da parte norte da península. Num ato simbólico e corajoso de defesa da reunificação de seu país, Ro Su Hui retornou para a Coreia do Sul não por transporte aéreo, mas atravessando a pé a Zona Desmilitarizada de Panmunjon, exatamente no Paralelo 38. Ao cruzar a fronteira, foi imediatamente preso pelo exército sul-coreano que, num ato de humilhação, amarrou-o com uma corda para levá-lo aos tribunais e sentenciá-lo a cinco anos de prisão. Ao contrário do clima amistoso com o qual foi recebido no Norte, grupos reacionários sul-coreanos (incitados pelo então gerente reacionário sul-coreano, Ri Myung Bak) receberam-no com um protesto na qual incendiaram um boneco seu e de Kim Jong Un.

Han Sang Gyung e Ri Yung Jo: No ano de 2015, quando o proletariado sul-coreano desenvolvia suas lutas militantes contra uma reforma trabalhista que resultaria em graves perdas salariais e de outros direitos, assim como contra os escândalos de corrupção pelos quais passava o governo reacionário de Pak Geun Hye, o militante operário Han Sang Gyung, ex-presidente da KCTU (Confederação Coreana de Sindicatos, CCS), foi preso por organizar grande parte destes protestos, sendo mantido por dois anos e meio nos cárceres sul-coreanos. Ri Yung Jo, por sua vez, que era então presidente da KCTU, foi presa no ano de 2018 por também organizar setores combativos do operariado sul-coreano em lutas contra desrespeitos às leis trabalhistas por parte do grande patronato. Logo quando foi encarcerada, porém, a companheira Ri iniciou uma greve de fome, e devido à sua postura e à grande solidariedade prestada pelo proletariado internacional, foi posta em liberdade cerca de seis meses depois.

Supressão contra a greve dos ferroviários de 2013: Na data de 9 de dezembro deste ano, quase oito mil operários ferroviários da empresa estatal de transportes KORAIL deflagaram uma greve contra a tentativa da estatal de organizar uma empresa separada para operar uma nova linha de trem que entraria em operação, o que gerou temores e suspeitas do governo em conduzir privatizações e layoffs massivos contra os trabalhadores. Tal greve foi organizada pelo Sindicato dos Operários Ferroviários Coreanos, filiado à KCTU (Confederação Coreana de Sindicatos, CSS). Poucos dias depois, o Estado reacionário sul-coreano iniciou uma investida repressiva contra a KCTU, invadindo e conduzindo buscas em sedes e escritórios da grande confederação sindical, prendendo mais de cento e trinta sindicalistas, apreendendo pen-drives, computadores, etc. Os quase oito mil trabalhadores que entraram em greve foram demitidos como forma de sanção disciplinar, e a KCTU, por sua vez, foi multada em mais de sete milhões de dólares após a greve ser declarada ilegal no dia 18 de dezembro.

Repressão contra a greve dos metalúrgicos da Ssangyong Motors de 2009: Uma das greves mais combativas da história recente do proletariado sul-coreano ocorreu na cidade de Pyeongthaek. Cerca de três anos antes do estouro da greve, a planta havia tido 51% de seu capital adquirido pela chinesa Shanghai Automotive Industry Corp., que, em razão de supostas possibilidades de falência, demitira quase dois mil operários e ameaçava novos layoffs como forma de restaurar a lucratividade da empresa. Contra tais ataques, os operários iniciaram uma greve que continha como principal reivindicação o fim dos layoffs, dos contratos temporários e terceirizações. Quase mil trabalhadores ocuparam a fábrica e, por mais de dois meses, combateram a polícia, o exército e os pelegos pagos pela empresa. A greve da Ssangyong, organizada pelo Sindicato dos Operários Metalúrgicos Coreanos, foi também uma grande demonstração de solidariedade operária, com os trabalhadores da KIA Motors se mobilizando em defesa da greve e a Confederação Coreana de Sindicatos iniciando uma greve geral (ainda que pouco efetiva) em solidariedade aos trabalhadores de Pyeongthaek. Porém, com a derrota da greve após dias de resistência, centenas de trabalhadores foram presos e demitidos, com o Sindicato dos Operários Metalúrgicos sendo constrangido a pagar mais de 45 milhões de dólares em multas, e a empresa Ssangyong se aproveitando da situação de ocupação na fábrica para culpar os grevistas pelas graves perdas que tivera durante o período.

Crimes cometidos contra a população sul-coreana pelas tropas estadunidenses de ocupação

Em todos os países nos quais os Estados Unidos impuseram seu regime militar de ocupação, é de conhecimento geral os abusos que as tropas estadunidenses cometem contra os respectivos povos, desrespeitando-os e tratando-os como pessoas de segunda categoria. Não sendo também a Coreia do Sul uma exceção à regra, proliferam nos arredores das bases militares ianques toda sorte de atividades antissociais como jogos de azar, prostituição e tráfico de drogas.

Tendo como pretexto a “libertação” da Coreia do Sul do “comunismo”, os ocupantes ianques cometeram toda sorte de crimes contra as massas sul-coreanas, que permanecem impunes em sua esmagadora maioria – devido aos sucessivos governos títeres e por uma jurisdição que impede que os criminosos estadunidenses sejam julgados por tribunais da própria Coreia do sul –, ainda que tais crimes gerem grande repercussão e despertem no povo sul-coreano os mais ardentes sentimentos patrióticos anti-americanos.

De acordo com dados oficiais, de meados de 1945 a final de 1992, foram notificados cerca de cem mil crimes cometidos por tropas ianques, denuncia o meio de comunicação sul-coreano South Korean Christian Broadcast System. O panfleto sul-coreano Do Not Distress Us Any Longer dá algumas descrições mais detalhadas de como ocorre parte destes crimes: “Os sul-coreanos são mortos por soldados americanos: 1) por razão nenhuma; 2) por resistirem a estupros; 3) por se recusarem a obedecer a ordem de parar; 4) por se recusarem a entregar suas mulheres; 5) por cobrarem dívidas contraídas pelos soldados; 6) por pedirem de volta algum bem roubado por eles; 7) por terem apenas foices, enquanto os americanos têm armas de fogo; [...]”

Outras fontes fornecem alguns casos de arbitrariedades de toda sorte cometidas por marines ianques.

“Em 20 de fevereiro de 1989, Wilson (26 anos), piloto da Força Aérea dos Estados Unidos, fuzilou Yun Chun Ho (33 anos), que passava em sua frente, sem qualquer razão, e fugiu” (Jornal Hangyore Sinmun);

“Em 17 de abril de 1986, três marinheiros norte-americanos, pertencentes à Primeira Divisão da Marinha dos Estados Unidos, invadiram a casa de Kim Jae Bong (23 anos), na aldeia Pangchuk, sub-distrito de Kwangthan, distrito de Phaju, e pediram para que ele os indicasse onde havia um prostíbulo. Não sabendo informar, empulharam-no a baionetas” (Haebang Sonon, publicação da Universidade Nacional de Seul);

“Em 28 de outubro de 1992, Michael, soldado de primeira classe do Exército dos Estados Unidos na Coreia, espancou até a morte Yun Kum I, funcionária de uma boate para soldados norte-americanos, em Tongduchon (South Korean Christian Boarding System)”;

“Em março de 1988, soldados norte-americanos estupraram sete mulheres coreanas, em Miari Texas, e trancaram-nas numa sala com receio de terem seus crimes expostos antes de incendiá-las vivas; Steven Alandawyman (20 anos), piloto da Força Aérea dos Estados Unidos, estrangulou Ri Pok Hui (25 anos) numa aldeia localizada nos limites de uma base militar americana no distrito de Okgu. Depois de matá-la, jogou gasolina no seu cadáver e em todo o seu corpo para tentar esconder que a havia assassinado; quando Pak Man Myong (22 anos) e Ri Hae Chan (25 anos), soldados pertencentes à unidade 1201 do exército sul-coreano, viajaram no trem expresso nº 7 de Seul para Busan, soldados norte-americanos os executaram, jogando-os para fora do trem.” (Revista sul-coreana Mal);

“Em dezembro de 1987, um soldado estadunidense que desertou de sua unidade em Tongduchon roubou um taxi e estrangulou o motorista. Depois que este protestou, cortou seu pescoço com uma navalha e fugiu, roubando também o dinheiro do motorista. [...]” (Idem).

Podemos ver claramente que, se há algo que os Estados Unidos praticam na Coreia do Sul, certamente não é a democracia, e sim o despotismo colonial que não deixa nada a desejar ao velho imperialismo japonês.

Enquanto isso, persistem os alardes sobre a tal “Coreia do Norte” que pretende destruir o mundo com bombas atômicas...

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