Mariátegui: "O Expressionismo e o Dadaísmo"

29/07/2020

 

As pessoas comuns não consideram que a arte dadaísta seja uma arte defeituosa ou uma arte equivocada. Creem, radicalmente, que ela não é arte. Ela nega todo o direito de ser qualificada e classificada como arte. O gosto público está adaptado a uma concepção mais ou menos clássica de arte: e a arte de vanguarda brota de uma concepção absolutamente diversa. Como citado, anteriormente, em minhas notas relativas ao pós-impressionismo e o cubismo, um juízo certeiro de Ortega y Gasset sobre este tema. Ortega y Gasset observa que, enquanto o artista antigo, exercia a arte, sem expressividade, religiosa e solene, o artista, novo exerce suas pinturas alegremente. O artista antigo se sentia como se fosse um sacerdote. O artista novo se sente, bem mais, como um jogador, um menestrel. A arte do nosso tempo tende a assimilar-se ao espirito do esporte. Os dadaístas pensam que a obra de uma civilização “a arte da grande cidade é uma arte personalizada, um luxo, um esporte, uma coisa excitante.”

A arte de vanguarda quer ser uma arte substancial e absolutamente nova. Um teórico do dadaísmo assegura que “a arte, talvez, começa hoje”. Ele argumenta que a arte até agora tinha uma base prática, consoante com a cultura e educação utilitarista que a engendrou. Reinvindica uma arte com uma base puramente espiritual. Propõe um método abstrato, um método não-prático. Sente a arte como uma elaboração desinteressada, saída de uma consciência superior de um individuo, estranha as cristalizações passionais e a experiencia vulgar.

Isso aparecerá de modo muito grave, muito sério e muito filosófico. Mas isto pertence a teorização do dadaísmo; não ao seu exercício. A arte dadaísta é fundamentalmente humorística. E é, ao mesmo tempo, agudamente cética. Seu ceticismo e seu humor são dois de seus componentes substantivos. Tirando este aspecto, a arte de vanguarda não é se não uma fase do fenômeno relativista. O dadaísmo é festivo e integralmente niilista: não crê em nada; não tem nenhuma fé e nem sente a falta disso. Ribemont Dessaignes disse: “Dadá não é nada, nada, nada. Dadá é como nossas esperanças: nada. Como nosso paraíso: nada. Como nossos ídolos: nada. Como nossos homens políticos: nada. Como nossos heróis: nada. Como nossos artistas: nada. Como nossas religiões: nada.” E o poeta Tristán Tzara, líder e fundador do dadaísmo, acrescenta: “Dadá se transforma, afirma, diz ao mesmo tempo o contrário, grita. Dada é o camaleão da mudança rápida e interessada. Dada está contra o futuro. Dada já morreu. Dada é idiota. Viva o Dada! Dada não é uma escola literária!”.

Esta linguagem, leitor, em primeiro lugar, te parecerá incoerente, em segundo lugar, não te parecerá prudente. E bem, o dadaísmo, é incoerente e não é prudente. Você ainda adicionará que o dadaísmo é, de grande forma, infantil, insensato e estupido. E os dadaístas não terão o menor problema em entrar em acordo com a sua opinião. A oposição ao dadaísmo tem essa vantagem. Na época do advento do romantismo, do realismo, etc. Os fatores dessas revoluções polemizavam arduamente com seus adversários. Os defensores do dadaísmo, em troca, se compadecem em dar razão aos seus opositores. “Não compreendem, na verdade, o que estamos fazendo? Bem, nós mesmo também não compreendemos.” A incoerência, a verborragia, não é para o dadaísmo um defeito, nem um excesso, mas sim um ingrediente, um elemento, um fator quase básico e essencial. Não se pode ser dadaísta sem ser incoerente. A coerência é própria do método prático. A coerência se inspira nas razões da comodidade e da utilidade. E os dadaístas se propõe a subordinar a comodidade e a utilidade a sua atividade estética.

O dadaísmo se compadece, então, na sua incoerência e na sua desordem. Uma gregueria [1] – chamaremos assim – de Picablo dizia: “Os sentidos cortam as cebolas nas tardes”. E outra falava: “O mais belo descobrimento do homem é o bicarbonato de sódio”.

E vejamos um exemplo de poesia dadaísta:

“Je suis dada, a-dada-anada, apana.
Amanda n’avait q’um defaut…”[2]

Tudo isto é de grande modo insólito, de grande modo novo, de grande modo louco. Mesmo assim, tudo isto, assim mesmo, é muito próprio de nosso tempo. Este gênero de arte é como a musica negra, como o boxe, como outras coisas atuais, um sintoma e um produto legitimo, peculiares e espontâneos de uma civilização que se dissolve e que decai. A arte se transforma em esporte, em jogo. Uma poesia não tem hoje mais importância que um tango. A poesia e a banda de jazz podem acompanhar um ao outro muito bem neste tempo. Eu ouvi em Roma um poeta recitar seus versos, acompanhado ao piano com música de fox-trot. E o efeito desta melodia foi bastante agradável.

Não é sensato, por estas várias razões, ficar incomodado dramaticamente com aos dadaístas. O fato de não entendê-los não autoriza a declará-los malucos. O dadaísmo é um fruto do seu tempo. Não é uma invenção de Tristán Tzara e Francis Picabia. Muitas coisas, muitos elementos do dadaísmo são anteriores ao aparecimento oficial do dadaísmo, que data apenas de 1918. Muitas gregueiras de Gómez de la Serna, por exemplo, têm um acentuado sabor dadaísta. O dadaísmo não é uma consequência dos dadaístas. Os líderes do Dada, além disso, são pessoas de talento, cuja arte, em suas doses mínimas, já começou a ser administrada ao público por livrarias e revistas. (A Revista de Occidente frequentemente hospeda a assinatura de Jean Cocteau).

Indaguemos mais profundamente sobre o sentido da arte de hoje. Vemos, antes de tudo, que o que separa a arte do século XIX e a arte do século XX. A característica da arte do século XIX é a sua orientação naturalista. O artista dessa orientação se sentia destinado a copiar a natureza, tal como a via, sem dramatizá-la ou idealizá-la. A arte se encheu nessa época de uma retorica e teatralidade antigas.

A escola central do século XIX é a escola impressionista, o impressionismo é essencialmente naturalista e objetivista. Para o impressionismo, a obra de arte é uma impressão da natureza. O expressionismo, tem um ponto de vista radicalmente antagônico e antiético. Não é objetivo, mas sim, subjetivo.

O mundo de um artista expressionista é um mundo abstrato. Jorge Simmel, em seu interessante ensaio sobre o “Conflito da Cultura Moderna”, define profundamente a antítese entre o impressionismo e o expressionismo. O tema da obra de arte impressionista é o modelo. O tema da arte expressionista é o que o modelo sugere, o que o modelo suscita no espirito do artista. O modelo, na arte expressionista, deixa de ser especificamente um modelo. Passa de sua categoria primeira e única a uma categoria secundaria. No Expressionismo, o eixo da arte se move do objeto para o sujeito. O impressionismo é apenas uma impressão. Expressionismo é apenas expressão. Aqui reside toda a diferença, toda a oposição entre uma arte e outra. Dentro do conceito atual de arte, forma é a expressão do conteúdo. Dentro do mais novo conceito, a forma é tudo: é forma é ela e conteúdo ao mesmo tempo. A forma é o único propósito da arte.

Muitos quadros destas escolas não tem a intenção de constituir uma harmonia de cores e linhas. Não representam absolutamente nada. Não reproduzem nenhuma figura, nenhum objeto. São tão simplesmente, repito, uma composição caprichosa de linhas e cores. Anunciam e iniciam a tendência de criar uma pintura exclusivamente pictórica? A pintura, mais ou menos, sempre se misturou a arquitetura, a poesia, a literatura. É provável que agora a pintura tente ser apenas pintura. Você não percebe, talvez, o mesmo curso na ciência: na história, biologia, física? As novas correntes artísticas são, como a teoria da relatividade, um fruto dessa época histórica atual.

Várias fases da arte de vanguarda concordam com outras fases do espírito e da mentalidade contemporâneos. O dadaísmo, por exemplo, defende a seguinte tese artística: “Vamos matar a inteligência se quisermos entender a beleza”. Desse ponto de vista, o dadaísmo é um fenômeno congruente com outros fenômenos atuais. Constitui uma reação contra o intelectualismo da arte nos últimos tempos. A arte, por causa da influência do período racionalista, chegou a este século também intelectualizada. E arte não deve ser pensada, mas sim sentimento; Não deve ser criação consciente, mas criação subconsciente. O dadaísmo, na linguagem extremista e extremista, ataca toda a servidão da arte à inteligência. E esse movimento coincide com o tratoramento do pensamento racionalista.

A raiz dessa estranha flora artística é, evidentemente, a mesma que produz a nova flora científica e metafísica. Um homem de pensamento não pode, portanto, receber apenas com gargalhadas idiotas as extravagâncias e tolices da arte de vanguarda. Embora tenham todo o ar de coisas grotescas, são, de fato, coisas sérias.

Publicado em Variedades, Lima, a 2 de Fevereiro de 1924

Escrito por José Carlos Mariatégui


Notas
[1] Breve pensamento de um sentido humorístico. A paternidade das greguerías é atribuída a Ramón Gómez de la Serna.
[2] Tradução literal: Eu sou Dada, a-dada-anada, anão. Amanda tinha apenas um defeito.

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